O Livro Azul das Fadas
Editado por Andrew Lang
Dedicatória, Prefácio e Conteúdos
[xi]Introdução
O gosto do mundo, o qual tem se desviado tão frequentemente, é suficientemente constante para contos de fadas (fairy tales). As crianças a quem e por quem eles são contados representam a idades jovem do homem. Elas são verdadeiras para seus amores primeiros, elas têm sua entusiasmo de crença sem embotamento e seu apetite fresco por maravilhas. O instinto de economia trabalha de tal modo que nós ainda estamos repetindo para meninos e meninas de cada geração as histórias que eram velhas antes que Homero cantasse, e as aventuras que têm perambulado, como a Psiquê perambulante, através de todo o mundo. Nós podemos alterar de vez em quando o arranjo dos incidentes, mas esses sempre permanecem essencialmente os mesmos e, de todas as combinações nas quais eles podem ser ajustados, as combinações mais antigas anda são as favoritas.
Esses truísmos têm sido reconhecidos por algum tempo até pela ciência, e o estudo de contos de berçário (nursery tales), seus devaneios, sua antiguidade, sua orgiem, há muito tem sido uma diversão do instruído. Contudo, este não é o lugar para repetir as familiares teorias antiquárias, nem para tentar nenhuma nova variedade de conjectura. Até uma criança (este prefácio não é intencionado para crianças) tem de reconhecer, conforme ela vira as páginas do Livro Azul das Fadas (Blue Fairy Book) que as mesmas aventuras e alguma coisa como os mesmos enredos encontraram-na em histórias traduzidas a partir de linguagens diferentes. Por exemplo, o escocês ‘Touro Negro da Noruega (Black Bull of Norroway)’ tem de lembrar ao leitor muito jovem do ‘Ao Leste do Sol e ao Oeste da Lua (East of the Sun and West of the Moon),’ um conto dos nórdicos. Novamente, ambos manifestam semelhanças com ‘A Bela e a Fera (Beauty and the Beast),’ e [xii]todo estudante clássico tem a fábula de ‘Eros e Psiquê’ trazida de volta à memória, enquanto todo antropólogo se lembra de alguns Märchen entre os cafres (Kaffirs) e sotos (Bassutos). Essas semelhanças e analogias recorrem em cada página. O nosso ‘Anel de Bronze,’ do Levante, com o rato que faz o judeu espirrar ao coçar o nariz dele, tem um variante entre as tribos mongóis. Os finlandeses, os santais (Santhals), os cafres têm suas próprias Cinderelas, como os escoceses e os celtas. Partes de ‘O Pequeno Polegar (Hop o’ my Thumb)’ (‘The Little Thumb’) são correntes na Tartária; o incidente das coroas trocadas e o do assassinato pelo ogro (ogre) dos seus próprios filhos é parte daquela antiga lenda minia de Atamante, Frixo e Hele. O conto de Jasão era antigo quando a ‘Odisseia’ foi composta – antigo e ‘familiar’ (como o navio Argo) ‘para todos os homens.’ Aqui nós temos uma sombra dos seus eventos principais em ‘A Criada Mestra (The Master Maid),’ e há outros ecos em Samoa, e em meio aos homens vermelhos do continente norte americano. Os papiros do segundo Ramsés contêm contos de fadas reconhecíveis como os nossos; não há língua nem terra onde a voz deles não seja ouvida.
Explicar essas correspondências curiosas, esses ecos de algum tempo longínquo, é o objeto da ciência da mitologia inferior – chame-a de folclore (Folk-Lore), ou pelo nome que nós desejarmos. Mas essa ciência absolutamente não exaure o interesse dos contos de fada. Ela tem dificuldades com a história deles, pergunta – Eles vieram de uma fonte comum? Eles foram inventados independentemente em vários séculos? A humanidade herdou-os de nossos distantes primeiros ancestrais? Ou eles foram espalhados como as sementes de flores no curso de comércio, escravidão, casamento com esposas estranhas e guerra? Responder, ou, pelo menos, colocar, essas questões é a tarefa da ciência, daquela ciência que está interessada nas origens, antiguidades populares, nos desenvolvimentos iniciais do pensamento humano, da vida e da arte. Nós não deveremos dizer novamente aqui o que já foi repetido, talvez frequentemente demais, relativo a esses problemas.1
[xiii]Esses são problemas de ciência, ou de um estudo com objetivos científicos, em vez de crítica literária. Talvez seja quase tão cruel aplicar os métodos da crítica literária quanto da ciência aos contos de fada. Aquele que entra no Reino das Fadas deveria ter o coração de uma pequena criança, se ele deseja ser feliz e estar em casa naquele reino encantado. Mas eu confio que alguém possa ter estudado contos de fada, tanto cientificamente quanto de uma maneira literária, sem perder o coração de uma criança, até onde se diz respeito às melhores coisas infantis. Alguém pode ser perdoado pelo egoísmo de confessar que, na leitura e no arranjo dessas fábulas de velhas (old wives’ tales), talvez ele tenha sentido tanto prazer quanto a criança quem os lê, ou ouve-os, pela primeira vez? Como nós sabemos, crianças gostam de ouvir o conto frequentemente, e sempre insistem em que ele deva ser contado da mesma maneira.
Decies repetita placebit!
‘Barba Azul (Blue Beard),’ aquela pequena obra-prima trágica e dramática, ainda mexe comigo; eu ainda tremo pelo Gato de Botas (Puss in Boots) quando o ogro se transforma em um leão; e o coração de alguém ainda segue a garota que procura o seu amor perdido e encantado, e conquista-o novamente na terceira noite de vigília e de lágrimas. Esse pode não ser um gosto do qual se orgulhar, mas é um gosto pelo qual ser grato, como o amor de qualquer coisa que é antiga e simples, e flerta com a simplicidade do amor.
‘Eles todos foram para a cama novamente, e a donzela começou a cantar como antes --’
‘Sete longos anos eu servi por ti,
A colina vítrea eu escalei por ti,
A camisa sangrenta eu torci por ti,
E tua não desejas despertar e virar-te para mim?’
Eles não despertarão e voltar-se-ão para nós, nossos amados perdidos, nossas [xiv]chances perdidas, não por todo o nosso serviço, todo o nosso canto, não para nossa espera de sete ou duas vezes sete anos. Mas, no conto de fada, ele ouviu e ele voltou-se para ela. ‘E ela contou a ele tudo (a’) que tinha acontecido com ela, e ele contou a ela tudo (a’) que tinha acontecido com ele.’ Onde nós ouvimos essas palavras simples antes, e conhecemos os corações há muitos perdidos, há muito divididos, reunidos, trazidos ‘aos ritos do seu leito antigo,’ e contado um ao outro toda a história do seu sofrimento? É no encerramento da ‘Odisseia,’ e Homero e o contador de histórias (story-teller).
Então, por experiência privada, alguém é levado a esperar e acreditar que muita leitura de histórias de berçário, mesmo através do microscópio da ciência e dos óculos da literatura, não tem de tornar alguém de incapaz de apreciar as narrativas antigas e amigáveis. Nós não nos esquecemos da nossa velha cuidadora, as Märchen. Se alguém difere, é fácil para ele desconsiderar essas poucas páginas, apenas colocadas à frente de uma edição limitada do Livro Azul das Fadas, apenas intencionadas para pessoas crescidas, e nunca para crianças. Mas há alguns leitores que se importarão em ouvir um pouco sobre as fontes literárias de onde vêm os nossos contos, e saber até onde eles são verdadeiramente tradicionais, até onde a arte de épocas posteriores alterou ou embelezou os dados originais.
Para começar, eu duvido de que qualquer um dos nossos contos seja absolutamente puro de manejo literário, absolutamente estabelecidos como eles caíram dos lábios da tradição. Por exemplo, os Grimm não trataram a sua matéria sentimentalmente, como Hans Christian Andersen fez, nem de uma maneira cortesmente leve, visando a uma audiência de grandes damas, como Madame d’Aulnoy e Madame Le Prince de Beaumont fizeram. Mas alguém dificilmente pode evitar de suspeitar de um toque literário em ‘O Garoto que partiu para aprender a tremer (The Boy who set out to learn shivering).’ Algum Hoffmann desconhecido colocou sua mão nesse conto surpreendente e divertido, tão muito melhor do que a sra. Radcliffe, onde a sra. Radcliffe está no seu melhor. Aquele corpo morto de um parente, tão estranhamente entrando em cena, a malignidade semelhante a de um vampiro do corpo, os gatos pretos com seu medonho jogo de cartas, são incidentes ‘fios,’ como o ‘Etin Vermelho (Red Etin)’ diz, [xv]e fora do caminho da tradição popular verdadeira. Novamente, a casa de doces em ‘João e Maria (Hansel and Grettel)’ é claramente moderna, talvez a fantasia de alguma cuidadora educada; enquanto que a ogras (ogress) que engorda crianças é antiga na lenda – zulus e tártaros conheciam-na – e também é uma parte da história, se nós podemos acreditar em um conto de viajante em Pinkerton, sobre o povo canibal perto de Suaquém. Mesmo no ‘Etin Vermelho’ os versos,
‘O Etin Vermelho da Irlanda
Ele vive em Ballygan,’
São apenas parcialmente coisas de tradição. O verso do meio é uma porção do cântico em um antigo jogo de crianças escocesas, a aplicação ao Etin Vermelho tem alguma origem literária modesta. Devia ser supérfluo acrescentar que as histórias das Arabian Nights (‘Aladim,’ ‘Os Quarenta Ladrões (The Forty Thieves),’ ‘O Paribanou das Fadas (The Fairy Paribanou)’) reduziram-se à sua condição presente a partir de uma forma literária. Os originais podem ser encontrados por leitores ingleses na tradução literal de sir Richard Burton. Como apresentados aqui, os Märchen foram modificados e amplificados para se ajustarem ao gosto literário oriental, o qual tem momentos de crueldade e luxuria, assim como horas de tédio flórido. Para leitores no geral, as melhores Arabian Nights sempre serão não as do sr. Lane, não as do sr. John Payne, não as do sr. Richard Burton, mas a antiga tradução inglesa da antiga adaptação de Galland. ‘O Paribanou das Fadas,’ neste livro, é meramente um resumo para a apresentação inglesa de Galland; mas, resumida como ele está, ele pode parecer longo, e as maneiras do tradutor podem parecer estranhas para crianças; nas versões da senhorita Violeta Hunt para ‘Aladim’ e ‘Os Quarenta Ladrões,’ os gostos das crianças são mais cuidadosamente estudados, e, dessa maneira, as formas verdadeiras e literárias dos contos reduziram-se a alguma coisa provavelmente mais parecida com os Märchen que devem ter sido a fonte deles. Esses processos têm estado prosseguindo constantemente no curso do tempo. Como uma regra, a tradição antiga é a forma original, que é trabalhada em literatura, como em Homero, onde a ‘Odisseia’ é baseada em uma corrente de [xvi]Märchen diferentes, ou na lenda de Jasão. Mas a literatura, novamente, ocasionalmente descende entre as pessoas, como as histórias orientais encontraram seu caminho em sermões medievais, e assim, fragmentos de épico, ou romance, ou mesmo de história, tornam-se Märchen uma vez mais. Para tomar outro exemplo, a lenda épica de Perseu é um tecido de contos de fadas, embora Píndaro tornasse-a em uma ode, e Simónides provesse Dânae com uma canção. Neste volume (‘A Cabeça Terrível (The Terrible Head)’) eu tentei reconstruir o conto de fadas original, principalmente abandonando os nomes locais e pessoais, os quais, sem dúvida, foram acrescentados a uma história impessoal e não localizada por gregos em Argos e Sérifos. Também a ação dos deuses provavelmente foi um acréscimo. No original o herói provavelmente agiu como João o Matador de Gigantes (Jack the Giant Killer): ‘ele muniu a si mesmo com uma espada afiada, sapatos de velocidade e um manto invisível.’ Como ele ‘muniu a si mesmo’ com essas raras propriedades? O autor inglês de livro de cordel nunca pensa em perguntar, mas a lenda épica grega fez deles os presentes de Hermes e Atena. As melhores versões inglesas dos antigos contos de fadas gregos são, sem dúvida, The Heroes, de Kingsley, e Tanglewood Tales, de Hawthorne. Mas tantas reviravoltas, na fábula grega, sobre armaduras divinas, introduzidas para conceder às casas aqueias uma descendência divina, que nunca é fácil torná-los inteligíveis para crianças.
Os autores antigos, quem primeiro abordaram essas tradições em um espírito de investigação, autores como Charles Perrault, estavam mais ou menos certos ao dizerem que a maioria das histórias de berçário tinham uma intenção moral. ‘Ao Leste do Sol e ao Oeste da Lua’ tem uma intenção moral tão arcaica que ela não é mais inteligível, exceto para estudantes. Por que a moça está separada do amante dela? Porque ela infringiu um tabu antigo e universal sobre a conduta de pessoas casadas. Ela viu o marido dela! Em outras formas do conto, ela chama-o pelo nome dele, uma coisa ainda proibida para mulheres zulu. Conforme essas regras absurdas de conduta tornam-se absurdas, a moral é meramente a punição da desobediência, mesmo quando o comando é [xvii]ininteligível. Aí surge (como em ‘Cupido e Psiquê’ e ‘A Bela e a Fera’) a mais bela moral de lealdade recompensada e verdadeiro amor invencível. Punição da curiosidade desobediente é o motivo de ‘Barba Azul,’ e de todas as histórias sobre portas, poços, árvores, frutos proibidos e assim por diante, as quais, entre muitas raças, estão entretecidas com o mito de ‘A Origem da Morte (The Origin of Death).’ Em ‘Cinderela (Cinderella),’ como nós o temos aqui, quer dizer, como Perrault concedeu-o ao mundo, bondade, paciência, gentileza são recompensadas. ‘As Fadas (The Fairies)’ de Perrault ou ‘Sapos e Diamantes (Toads and Pearls),’ é um conto moral muito difundido, e é encontrado entro sotos e cafres. A lição é algo sobre gentileza, polidez e gratidão, como nos contos sem número de bestas gratas, e como em ‘O Anel de Bronze.’ Mas mera habilidade bem recompensada é a moral de ‘O Pequeno Polegar’ e ‘Gato de Botas,’ como nós a temos aqui, embora uma moral diferente, aquela de gratidão, esteja inculcada nas formas mais arcaicas na África Oriental e no Sudão. Entrementes, ‘Aladim’ e ‘O Paribanou das Fadas’ são quase não morais. Por que Aladim deveria ser tão sortudo, ou o príncipe Ahmed ser favorecido acima dos seus irmãos? Esses são caprichos de sorte, ou de amor.
Esta coleção, feita para o prazer de crianças, e sem propósito científico, inclui contos de berçário que têm uma origem puramente literária. Muitos desses são o trabalho de damas na época quando contos de fada estava em voga na corte da França. De modo nenhum se seguiu que os cortesãos tivessem os corações de crianças. Uma dama francesa disse, ‘J’aime les jeux innocents avec ceux qui ne le sont pas.’
Foi para inocentes desse tipo que Madame d’Aulnoy, Madame de Villeneuve, Madame Le Prince de Beaumont e muitos outros escreveram. As histórias delas frequentemente eram longos romances polidos; ‘A Bela e a Fera,’ no original, é tão longo quanto Northanger Abbey. Mas essas damas inteligentes, quem proveram tanto do Cabinet des Fées sem fim, usaram propriedades de fadas e incidentes tradicionais de metamorfose, e de bestas falantes. Elas ‘bordaram neles,’ como [xviii]uma delas disse, prodigiosamente; nada, exceto o tecido no qual elas coseram suas flores de linha de ouro e prata foi tradicional. As longas descrições de fêtes reais, os diamantes, as mascaradas, as carruagens, os comprimentos, eram puro Luís XV. Portanto, nós não traduzimos esses contos em extensão completa.
A senhorita Minnie Wright reduziu as novelas do Cabinet des Fées do original à proporção de contos de fadas. Delas todas, eu considero que ‘O Anão Amarelo (The Yellow Dwarf)’ seja a melhor. Ela tornou-se parte do tesouro popular; as fadas roubaram-na como elas roubaram Tamlane e outras crianças mortais. Ela habitou na terra das fadas, e provou do pão das fadas. ‘O Anão Amarelo,’ como ‘A Ovelha Maravilhosa (The Wonderful Sheep),’ termina mal; uma coisa desconhecida na tradição verdadeiramente popular das fadas. Mas ela tem toques do sobrenatural correto. Quando a princesa acorda, depois do noivado dela com o Anão Amarelo, e espera que isso fosse um sonho, e descobre no dedo dela o anel fatal de um cabelo vermelho, nós temos um breve toque de horror e verdade. Todos nós despertamos e lutamos com uma sombria memória maligna, e confiamos que ela fosse apenas um sonho, e descobrimos, de uma maneira ou de outra, uma prova, uma forma daquele anel de cabelo vermelho. O cavalo do Anão, o seu gato preto, e todos os seus perversos tons amarelos, seus sapatos de madeira, seu pequeno casado amarelo, sua árvore laranja e a sua sátira cruel, são excelentemente inventados. De fato, eu espero que ele não assombre os sonhos de nenhuma criança como assombrou os meus. Ele parece-me como uma profecia da Revolução, e de tudo que os homens feios em sapatos de madeira fizeram com as belas princesas. Você não admira também os ingredientes do bolo de leão – semente de milhete, doce de açúcar e ovos de crocodilo? Quão distintamente alguém lembra-se, em meio aos sombrios pensamentos da infância, a impressão produzida por aquele bolo misterioso, ominoso, no começo do conto. Que leões também eles eram – ‘cada um tinha duas cabelas, oito pés, e quatro fileiras de dentes, e as peles deles eram tão duras quanto cascos de tartaruga e vermelhos brilhantes.’ Era uma selvageria feia, horrivelmente assombrada, que estava em volta daquele [xix]palácio de Bellissima, onde todos os príncipes cortejavam-na, e os fogos eram feitos de uma miríade de sonetos e madrigais, ‘os quais crepitavam e brilhavam melhor do que qualquer ipo de madeira.’ ‘Gato Branco (White Cat)’ de Madame d’Aulnoy é um agradável contraste para esse anão desastroso dela; o cato é uma linda fada amável, e nós quase ficamos tristes quando ela se torna uma princesa, por mais que bela e graciosa. ‘Ela parecia muito jovem e muito triste,’ e a voz dela era o mais musical dos miaus!
A senhorita Thackeray, quem nos concedeu versões tão felizes daqueles ‘velhos amigos,’ poderia ter interpretado ‘Gato Branco’ uma vez mais para pessoas velhas. ‘Linda Cachinhos Dourados (Pretty Coldilocks),’ também, é uma dama encantadora, e não é estranho que as outras princesas quase se apaixonassem pela ovelha cortês e melancólica que tinha sido um príncipe. Nunca, verdadeiramente, uma ovelha foi mais principesca do que ele, embora um seu fim mau seja contrário às melhores tradições das fadas.
Mesmo quando resumidos e despidos de sua frivolidade, os contos de Madame d’Aulnoy dificilmente competem com as obras-primas de Perrault. De todos os antigos amigos dos Märchen ele agarra-se mais estritamente à tradição, frequentemente entregando as palavras mesmas da cuidadora do seu menino, embora ele adicionasse um quip ou uma peça gentil de sátira ou um gauloiserie velado, aqui e ali. Eu entreguei os contos dele da Mãe Gansa (Mother Goose) nas palavras da mais antiga tradição inglesa que eu consigo adquirir. Embora publicados em 1697, os Contes de ma Mère l’Oye de Perrault não parecem ter sido tornados ingleses até 1729. Uma versão é anunciada em um jornal daquele ano, mas nenhuma cópia existe no Museu Britânico. O texto que nós imprimimos é de uma edição muito pequena de 1763, a qual eu comprei em Páris. O francês e o inglês encaram um ao outro, e o livro provavelmente foi intencionado para ensinar inglês a crianças francesas e francês a crianças inglesas. Claramente a versão inglesa não foi feita a partir da primeira edição de Perrault, mas seguiu um texto posterior e levemente alterado. Os textos de Perrault tinham sido muito desviados em inglês. Os ordinários livros ilustrados (picture-books) têm muitas frases torcidas, e tolas peças de moralização, ou descrições [xx]completamente estranhas aos modos de Perrault, são introduzidas. O encerramento curioso de ‘A Bela Adormecida (The Sleeping Beauty)’ foi melhorado em versões inglesas, mas eu não posso ser tão falso com Perrault. Chapeuzinho Vermelho (Red Riding Hood) é resgatada e o lobo é morto por um lenhador (woodsman), uma perverão da história. Provavelmente as crianças preferem a verdadeira. Quando M. P. J. Stahl contou o conto à pequena neta de Charles Nodier, uma garota de quatro anos, ela bradou, ‘Le gentil petit loup’ – Bom lobinho! (Nice little wolf!). M. Stahl ficou horrorizado, até que ele aprendeu que a sua jovem amiga estava saindo sem o jantar dela pelo próprio bem dela, e tinha sido prometida um bolo. No bolo de Chapeuzinho Vermelho, ou ‘creme (custard),’ a mente dele esteve firmemente fixada, à exclusão daquela heroína mesma. E a criança estava elogiando a conduta esportiva do lobo, quem não é registrado ter comido o bolo, mesmo se ele devorasse a heroína!
Nós não sabemos o que se passa nas mentes de crianças quando elas ouvem os contos de fadas. Talvez elas fiquem do lado do lobo, ou tenham um tendresse pelo Anão Amarelo. Mas se os olhos e bocas abertas delas contam a verdade (elas não aprenderam a contar nada mais) elas estão felizes e contentes com essas graves histórias prodigiosas. Bastante provavelmente elas não aceitam a moral, e não serão mais sábias, se tanto mais divertidas, pelo conto do Príncipe Hyacinth Longnose. Há poucos cortesões em nossos berçários, mas Madame le Prince de Beaumont pode ter intencionado o conto dela para a leitura de um pequeno Delfim.
As histórias dos nórdicos, que o sr. Hunt traduziu, já são familiares a muitos no delicioso livro de sir George Dasent. Nós tivemos espaço apenas para umas poucas: elas diferem do resto por uma certa largueza de tratamento; o limpo ar do norte, a fragrância saudável das florestas de pinheiro sopram através delas, trazidas pela forte vento norte. Elas são um pouco diretas, mas ninguém quem conheça crianças, ninguém que não seja um pedante lascivo de pudor, será capaz de pensar que isso possa prejudicar seus pequenos leitores. Na infância, Dickens teve ‘um filho de Tom Jones, uma [xxi]criatura inocente.’ Ainda mais inocentes são o O Urso Branco (White Bear), e a amável, e brava, e leal A Criada Mestra, e a Princesa na Colina de Vidro (Princess on the Hill of Glass).
As histórias dos Grimm estão entre as melhores do mundo, e são provavelmente familiares para a maioria das crianças às quais podem ser apresentadas no Livro Azul das Fadas. Elas não ficarão tristes em rirem novamente com o ‘Pequeno Alfaiate Valante (Brave Little Tailor),’ ou dar de ombros com o menino instruído para fazer isso, e perambularem para a cabana de pirulito da bruxa com João e Maria. Os Contos dos Grimm agora estão todos traduzidos para o inglês pela senhora Hunt,2 mas nós consideramos melhor fornecer uma apresentação original, pela senhorita May Sellar.
Os contos ingleses são tão escassos, e têm sido tão abrandados e estupidificados, e abarrotados com piadas grosseiras do campo, nos livros de cordel, que nós apenas podemos dar uma versão decente, se monótona, de ‘João, o Matador de Gigantes’ e ‘Dick Whittington.’ Por outro lado, ‘Gulliver em Lilliput’ foi condensado pela senhorita May Kendall; as maravilhas são deixadas e a sátira está atenuada. As histórias escocesas são colocadas no final, para crianças escocesas. Se o povo inglês ‘odeia dialeto’ tanto que eles não podem ler os romances de Waverley e Burns, as crianças inglesas (se não ordinariamente e não meramente afetadamente estúpidas) podem ficar confusas pelo ‘O Touro Nero da Noruega’ e ‘O Etin Vermelho da Irlanda (The Red Etin of Ireland).’ De qualquer maneira, não muito espaço é sacrificado ao conhecimento (lore) do quê o senhor Gladstone uma vez engenhosamente supôs ser o ‘Paraíso (Land o’ the Leal).’ O Etin e o Touro são amigos tão antigos do editor que ele não poderia omiti-los quando as fadas foram convidadas para o festival.
Como em todas as coleções, muitos críticos sentirão falta de muitos dos seus favoritos. O espaço tem seus limites, e alguém é relutantemente obrigado a deixar de fora um conto ou dois do Mabinogion, vários das histórias de Islay das Terras Altas Ocidentais, e muitos das fontes gregas modernas, japonesas, hindus, bassutos, índios vermelhos, berberes, egípcias e, acima de tudo, finlandesas e eslavas. Enquanto este ensaio estava sendo escrito, chegaram notícias tristes de que o nosso folclore [xxii]tinha perdido o seu grande estudante eslavo, o sr. Ralston. Não mais as crianças o seguirão – elas seguiram-no uma vez em Oxford, do Museu para o Teatro, eu acho – como a multidão que seguiu a música do Flautista de Hamelin (Pied Piper of Hamelin). Ele foi um narrador não menos admirável do que um estudante cauteloso, amável e instruído de tradições de berçário. Ele tinha não apenas a ciência, mas o espírito do mundo das fadas. Esta palavra em um livro intencionado para meninos e meninas pequenos é devida à memória de um amante de crianças. Finalmente, o editor tem de agradecer aos autores que o ajudaram, e aos artistas que emprestaram sua fantasia ao livro. Seu amigo, o sr. Jacomb Hood, perdoa-lo-á por mencionar (nos interesses sagrados da ciência) que Monsieur de la Barde Bleue não era um turco! Um dos irmãos das damas era um Dragão, o outro, um mosqueteiro, da companhia de M. d’Artagnan, talvez. Eles eram todos gente francesa e cristão; tivesse ele sido um turco, Barba Azul não tinha se casada com apenas uma esposa de uma vez.
ORIGINAL:
LANG, A. The Blue Fairy Book. Edited by Andrew Lang, with Numerous Illustrations by H. J. Ford and G. P. Jacomb Hood. London: Longmans, Green and Co., and New York: 15 East 16th Street, 1889. p.xi-xxii. Disponível em: <https://archive.org/details/bluefairybook00langiala/page/n10/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1[xii]As próprias ideias do escritor podem ser encontradas no prefácio para as traduções da senhora Hunt para [xxi]‘Kinder- und Hausmärchen,’ dos Grimm, em The Marriage of Cupid and Psyche, para a edição da Clarendon Press de Contes de ma Mère l’Oye, de Perrault, para o último capítulo de Myth, Ritual, and Religion, e o prefácio para a edição do senhor Tuer da rima de ‘Beauty and the Beast,’ atribuída a Charles Lamb.
2[xxi]G. Bell and Sons.