A Grande Busca dos Imortais II Aqui começa a História de Hésperos

A Grande Busca dos Imortais, traduzida de Um Manuscrito Não publicado na Biblioteca de uma Universidade Continental


Por James William Barlow


Prefácio e Conteúdos


Capítulo anterior


[19]Capítulo II Aqui começa a História de Hésperos


Da brilhante cidade de Lucetta – Como o dr. Van Varken encontrou um aparente Yahoo – Da grande surpresa dos cidadãos diante da visão do doutor, e como eles o entregaram aos cuidados de um comité de três – Como o comité aprendeu a língua holandesa e mostrou ao doutor diversos mapas estranhos e maravilhosos.


Ao recuperar a consciência, eu descobri a mim mesmo deitado sobre o que eu senti como grama macia no lado íngreme de uma montanha. O céu estava intensamente escuro, nenhuma estrela estava visível, e, é claro, não havia nenhuma lua. Diante de mim, em um elevação consideravelmente mais baixa, e, tão bem quanto eu poderia julgar, a uma distância de quatro ou cinco milhas, eu vi o que tinha a aparência de uma cidade muito brilhantemente iluminada; a iluminação era tal como nenhuma [20]luz artificial conhecida sobre a terra poderia aproximar-se em esplendor. Tão forte ela era que, mesmo à distância do lugar onde eu estava sentado, os seus efeitos eram bastante visíveis na iluminação da colina. Diante de cidade ficava uma grande camada de água, e nela havia muitos corpos moventes, provavelmente embarcações, todas elas iluminadas com a mesma estranha radiação que invadia a cidade. Eu olhei meu relógio e, como poderia ter sido esperado, descobri que ele ainda marcava trinta e sete minutos depois das dez. Eu tinha estupidamente esquecido de que, durante a desintegração, o maquinário não poderia ter funcionado, assim eu fui incapaz de verificar o meu cômputo do tempo requerido para o deslocamento. O mercúrio no termômetro rapidamente se moveu para oitenta e seis graus.

Eu julguei melhor permanecer onde estava até a luz do dia, especialmente enquanto via alguns traços da aurora aparecendo em um quartel do céu, o qual, consequentemente, conclui ser o leste. Eu esperei o dia vindouro com grande expectativa e, admito, com alguma ansiedade, pois [21]seria difícil dizer qual recepção eu poderia encontrar. Isto era muito evidente – o planeta não era destituído de algumas formas de vida, e eu tinha escapado dos detestáveis yahoos.

Mas, como o leitor aprenderá em breve, a minha conclusão foi excessivamente apressada. Conforme a luz aumentava gradualmente, eu comecei a discernir inicialmente as principais características e logo os detalhes minúsculos da paisagem. O terreno inclinado sobre o qual eu tinha desembarcado formava a base de uma montanha elevada. Florestas densas ocultavam o cume; a parte inferior, na qual eu estava sentado, era coberta com grama curta e macia, e árvores, a maior parte delas portando algum tipo de fruto, estavam espalhadas ao redor aqui e ali. Umas poucas jardas abaixo de mim, a inclinação do declive atenuava-se em descida gentil e a montanha finalmente terminava sobre a costa de uma profunda baía de água clara e parada. Ao final desta baía estendia-se a cidade que brilhava tão intensamente à noite; ela ficava a aproximadamente cinco milhas do meu lugar de desembarque, e, como eu aprendi depois, [22]era chamada de Lucetta. A costa oposta à baía, a qual era quase de dez milhas de largura, era ocupada por uma cordilheira altiva de montanhas pontiagudas A temperatura era alta, mas de maneira nenhuma intolerável, e o ar estava perfeitamente parado.

Eu não vi traços de nenhuma habitação fora da cidade, e nenhum sinal de vida animal, exceto pássaros, estava visível em qualquer lugar, mas dos pássaros, havia muitos e amáveis tipos. Eu fiquei grandemente impressionado pela aparência do céu; ele estava completamente coberto por um toldo de nuvens branca, aparentemente, a uma elevação enorme. Eu estava muito desejoso de obter uma visão do sol, e, se possível, medir sua magnitude aparente, a qual eu sabia que tinha de exceder grandemente a sua aparência a partir da terra; mas a espessura da nuvens era tal que nenhuma parte do disco era visível. Por esse meio, eu tinha esperado satisfazer a mim mesmo que eu realmente tinha alcançado Hésperos, a saber, comparando a magnitude observada com aquela que eu tinha computado, [23]e anotado em uma página do meu livro de bolso antes que eu deixasse o Tibete. Assim, eu esperei por outra hora, mas, não vendo nenhum sinal de movimento entre as nuvens, e desanimando de obter uma observação, eu levantei e desci caminhando a colina na direção da cidade.

Logo a grande inclinação do declive abateu-se e, em pouco tempo, eu cheguei a uma trilha ampla e suave que corria ao longo da margem da baía. A região era bastante aberta; não há muralhas, cercas, ou qualquer tipo de barreiras – nem mesmo nenhuma daqueles quadros de avisos, tão familiares ao errante em regiões terrestres civilizadas, as quais se dirigem a ele pelo nome de Invasor e transmitem ameaças. Eu deparei-me com a estrada, na direção da cidade, e, após prosseguir adiante por aproximadamente meia milha, avistei, a alguma distância, um objeto aproximante, o qual, para meu horror indizível, tinha toda a aparência de um yahoo.

Conforme eu chegava mais perto, a suspeita tornou-se uma certeza. A criatura estava caminhando muito [24]lentamente, e parecia estar bastante absorvida na contemplação de um pequeno artigo que ele mantinha em sua mão. Ele era um homem de meia-idade, com um aspecto excessivamente inteligente de semblante, e sua vestimenta não diferia materialmente do costume oriental, o qual tinha me acompanhado do Tibete.

Assim, eu não pude explicar a intensidade extrema da surpresa dele quando, finalmente erguendo seus olhos, ele obteve a primeira vista de mim enquanto eu caminhava na direção dele. Ele pareceu completamente paralisado, ofegante, e, por vários momentos, esteve bastante incapaz de falar. Estupefação tão completa poderia ter sido manifestada pelos habitantes de Lilliput e Brobdingnag, quando eles primeiramente contemplaram o capitão Gulliver, mas, no caso presente, não havia causa para surpresa. Finalmente, ele recuperou-se suficientemente para dirigir umas poucas palavras para mim, nenhuma das quais eu pude entender. Eu respondi, mas com o semelhante carência de sucesso. Eu apontei para o céu, para indicar que eu tinha vindo de [25]outro mundo e, em seguida, para a cidade, como uma dica de que eu desejava ira para lá. Ambos esses sinais ele evidentemente entendeu, e ele virou-se e acompanhou-me em silêncio. Eu preciso fazer ao meu acompanhante, e de fato a todo os venusianos (ou hesperianos) que eu tinha encontrado, a justiça de admitir que, embora yahoos em forma, eles não possuíam nenhuma das peculiaridades ofensivas da raça.

Nós não tínhamos chegado muito longe antes que ultrapassássemos uma jovem garota, de aspecto cativante, caminhando na direção da cidade. Ela também, ao ver-me, pareceu ser impressionada pela mesma assombro esmagador e estupefaciente, o qual tinha produzido um efeito tão grande em meu primeiro conhecido. Eu absolutamente não pude entender isso. Não havia nada na aparência pessoal ou do homem ou da garota que me impressionaram como extremamente incomum. Então, por que eu deveria ser tão extraordinariamente maravilhoso aos olhos deles?

Quando nós alcançamos a garota, o homem [26]parou e eles conversaram de uma maneira excitada por alguns minutos. Enquanto eles estavam tão ocupados, ocorreu-me que alguma coisa muito notável poderia ter acontecido na reintegração do meu corpo na minha chegada à superfície do planeta. Por tudo o que eu sabia, eu poderia estar sofrendo de alguma grotesca distorção de características ou outros infortúnios corporais. Mas não, essa não era a causa da maravilha deles, pois, visto que a estrada corria perto ao longo da costa, eu aproveitei a oportunidade para analisar a mim mesmo na água clara, e a reflexão mostrava, além de toda possibilidade de dúvida, que não havia nada estranho que fosse com a minha aparência pessoal.

Logo, ouvindo um barulho leve atrás de mim, eu olhei para trás e vi um veículo no seu caminho para a cidade aproximando-se de nós. Ele estava correndo velozmente, embora não houvesse nenhum cavalo amarrado, nem qualquer poder motor visível; as rodas corriam sobre dois bastões de aço que antes seu tinha notado estendidos paralelos um ao outro na estrada. Assim que o [27]veículo alcançou o ponto onde nós estávamos de pé, ele parou imediatamente, e o homem e a garota fizeram sinais para eu entrar nele, eu assim o fiz. No veículo estavam aproximadamente doze pessoas, de várias idades adultas, o mais jovem aparentemente de aproximadamente vinte anos de idade, o mais velho, aproximadamente de sessenta. Eles eram de ambos os sexo, e, com um consentimento, todos eles, velhos e jovens, homens e mulheres, igualmente, receberam-me com a mesma supressa intensa e, como me parecia, desnecessária que o primeiro homem e a garota tinham mostrado.

O veículo retomou seu curso e correu velozmente e com suavidade excessiva para dentro da cidade. Era fácil ver que eu era o tema exclusivo do discurso ansioso e excitado dos passageiros. As maneiras deles eram amigáveis, mas o assombro deles não mostrava sinais de diminuir. Uns poucos minutos foram suficientes para nos trazer ao fim da nossa jornada. O carro correu através de uma rua longa e larga, margeada de cada lado com fileiras de árvores esplêndidas. Através da [28]folhagem delas, as casas eram visíveis. Cada casa era separada da sua vizinha por um intervalo de várias jardas; era de apenas um andar da altura; e, até onde eu fui capaz de julgar, a partir de um olhadela apressada em rápida passagem, era ornamentada elaboradamente e com gosto. Era evidente que a terra era abundante, e os alugueis de terreno, se algum, eram insignificantes.

Logo nós alcançamos o nosso destino – um grande espaço aberto no meio da cidade. Essa grande praça era cercada por prédios públicos majestosos, alguns deles sendo de elevação considerável. Um deles era especialmente impressionante por conta da sua magnificência linda. Ele tinha toda a aparência de uma vasta catedral, eu o som reverberante de música de tom profundo, assemelhando-se muito aos tons de um órgão poderoso e curiosamente doce, surgindo a partir dos portais abertos, servido para intensificar a ilusão. Embora ainda manhã cedo, muitas pessoas estavam ao redor da praça, e, tão logo nós descemos do carro, eu vi as faces de todos os transeuntes assumirem a mesma aparência de [29]assombro perplexo, o qual todos que até agora tinham me visto tão desnecessariamente colocavam.

De todos os lados as pessoas vinham correndo juntas; mas não houve aglomeração ou pressão; a multidão estava muito ordenada, e pareceu muito amigável em seus semblantes; mas era evidente que, por alguma razão misteriosa, a minha chegada indicava uma crise na história da cidade. Finalmente um rapaz, quem parecia estar em uma posição de autoridade, subiu uma curta série de degraus que conduziam ao prédio diante do qual o veículo tinha parado e endereçou um breve discurso ao povo reunido. A multidão imediatamente se dispersou, e três pessoas vieram à frente e encarregaram-se de mim.

Dois desses eram homens, um deles idoso, o outro de meia idade; o terceiro desses custódios, como eu tive de os considerar, era uma garota muito bela, aparentemente de vinte anos de idade. Os semblantes dos três eram caracterizados por marcas de extrema inteligência; e cada um deles tinha uma aparência [30]peculiar que é comum a todos os hesperianos que eu tinha visto, e a qual eu não posso descrever de nenhuma outra maneira do que uma aparência indicativa de conhecimento imenso e profundo. Essas três pessoas, como depois eu aprendi, foram indicadas pelo homem de autoridade como um tipo de comissão para se encarregarem de mim, e tentarem determinar o que eu era, de onde eu vim, e para onde eu estava indo. A causa real da intensidade do assombro que eu excitava em toda parte será explicada mais adiante.

O velho fez sinais para eu subir os degraus e entrar no grande prédio ao meu lado, o que eu fiz, os outros seguindo. Os degraus conduziam a um salão espaçoso, a partir do qual longos corredores ramificavam-se em várias direções. Um dos homens perguntou através de linguagem de gestos se eu desejava comida. Como por essa altura eu estava excessivamente faminto, eu respondi, da mesma maneira, que estava bastante pronto para o meu café da manhã. Imediatamente eles me trouxeram para uma sala que se abria para dentro de um dos corredores, onde, ao virar um [31]trinco na parede, um painel deslizante abriu-se, e uma mesa sobre rolos passou através. Vários tipos de comidas e bebidas estavam sobre a mesa, e dessas eles convidaram-me para compartilhar. Eu fiz uma refeição cordial. Eu notei, em particular, com respeito aos pratos, que eles se assemelhavam grandemente em sabor a vários tipos de carne de peixe, muito delicadamente cozidos, mas eles eram totalmente diferentes em aparência de qualquer coisa do tipo alguma vez servida sobre a terra.

Eu também observei que meus três guardiões induziam-me a dar os nomes de cada objeto à vista em minha linguagem. A garota tinha um tipo de pequeno livro de memorando, no qual, com um lápis fino, ela escrevia constantemente, no que parecia um sistema de abreviaturas, as palavras e sentenças que eu proferia; e ela e os dois homens repetiam-nas articuladamente várias vezes. Eles deram-me a ideia de que eles estavam muito mais ansiosos para aprender minha linguagem do que para me ensinar a deles. De fato, depois eu [32]aprendi que essa era parte das instruções que eles tinham recebido com respeito a mim.

Tão logo eu tinha terminado meu café da manhã, eles levaram-se para dentro de uma grande sala, a qual se abria para outro corredor, e estava suspensa ao redor com todos os tipos de mapas. Entre esses eu vi, para meu intenso assombro, um grande mapa circular, de aproximadamente dezesseis pés de diâmetro, sobre o qual, representados com precisão singular, estavam os contornos bem conhecidos dos continentes e maiores ilhas do hemisfério oriental da terra. As imensas massas brancas do polos, a cor azul dos oceanos sul e indiano, a coloração amarela dos grandes desertos do Saara e asiático eram objetos especialmente proeminentes. O processo pelo qual esse mapa maravilhoso foi feito foi posteriormente explicado para mim. Era o que eles chamavam de uma imagem solar, tomada com o auxílio de um telescópio enorme em um dos observatórios de montanha nacionais, dos quais eu aprendi muito mais depois.

Eles mostraram outros mapas igualmente [33]excelentes da terra, exibindo porções diferentes da superfície dela. Todos esses foram tomados quando ela estava em oposição e, portanto, estavam todos na mesma escala. O comité mostrou grande deleite quando eu declarei minha familiaridade com os detalhes das cartas; na medida que essa era uma prova suficientemente clara do lugar do qual eu vim. Eu pronunciei, tão distintamente quanto eu pude, os nomes dos continentes, mares e principais ilhas, indicando, ao mesmo tempo, ao apontar para elas, as localidades nomeadas. Todas essas palavras eles repetiram, como antes; e a garota anotou-as, em sua abreviação rápida.

A rapidez extraordinária com a qual aqueles três hesperianos adquiriram a linguagem da Holanda não pode ser facilmente acreditava por um habitante da terra. Ainda assim é um fato que, através do simples processo de constantemente conversarem comigo, e registrarem cada palavra que eu falava para eles, em pouco mais de uma semana, todos os três conseguiram falar [34]a nossa linguagem com grande fluência; enquanto que eu, quem tinha uma grande facilidade para aprender línguas estrangeiras, tinha adquirido apenas umas poucas palavras e sentenças elementares na fala hesperiana. Esse treinamento na nossa linguagem de maneira nenhuma se confinou aos três membros do comité. A cada manhã, os resultados da conversação do dia eram fielmente reportados nos jornais hesperianos a partir dos memorandos da garota; e a população inteira da cidade engajou-se, com coração e alma, no estudo do holandês - evidentemente com a intenção de colocarem a si mesmos, tão rapidamente quanto possível, no caminho de obterem uma explicação do meu aparecimento assombroso entre eles.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BARLOW, J. W. The Immortals' Great Quest, translated form An Unpublished Manuscript in the Library of a Continental University. London: Smith, Elder & Co.,15, Waterloo Place, 1909. p. 19-34. Disponível em: <https://archive.org/details/immortalsgreatqu00barl/page/19/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O Último Homem - Volume I - Capítulo IV-II

O Último Homem Por Mary Shelley Volume I Capítulo anterior [121] Capítulo IV-II Há um sentimento tal como amor à primei...