Os Ses da História XXI Se os Confederados tivessem marchado sobre Washington depois da Bull Run

Os Ses da História


Por Joseph Edgar Chamberlin


Prefácio e Conteúdos


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[185]Capítulo XXI Se os Confederados tivessem marchado sobre Washington depois da Bull Run


Tem havido muitas tentativas de desculpar ou minimizar a falha do general Joseph E. Johnston para dar prosseguimento à tremenda vitória confederada conquistada pelo seu segundo em comando, general G. T. Beauregard, na Bull Run, 21 de julho de 1861. Que o exército federal foi literalmente severamente derrotado não pode haver nenhuma dúvida. O general Irwin McDowell, quem comandava as forças da União, oficialmente relatou, depois da batalha, que todas as tropas dele estavam em fuga “em um estado de desorganização completa.” Ele [186]acrescentou em 22 de julho, “Eles não conseguiam ser preparados para ação pela manhã do dia seguinte mesmo se eles desejassem. A maior parte dos homens era uma multidão confusa, inteiramente desmoralizados.” Eles estavam realmente fugindo em um estado de pânico tão grande do qual não podiam se livrar, pois vagões de comissário e munição, cavalos e carruagens de congressistas e outros espectadores, vagões de artilharia e vivandeiros estavam bloqueando a estrada e soldados em pânicos estavam caindo uns sobre os outros. Quando o general McClellan chegou para assumir o comando, após McDowell ter sido substituído, ele relatou este estado de coisas: “Eu não encontrei nenhum exército para comandar – uma mera coleção de regimentos agachando-se nos bancos de areia do Potomac, alguns perfeitamente escoriados, outros, desalentados pela derrota.”

Para alcançarem o ponto onde os derrotados recrutas inexperientes estavam agachando-se dessa maneira, o general Johnston e o general Beauregard tiveram de avançar apenas vinte milhas através de uma estrada onde cada pé da [187]qual era bem conhecido por eles. De que o exército federal estava em fuga ignominiosa eles estavam bem cientes, pois eles relataram isso alegremente para o governo em Richmond. Por que eles se estabeleceram em completa inação e permitiram a McClellan fortificar, treinar e inspirar com esperança e confiança um grande exército?

Há muitos bons “ses” em conexão com a luta real da batalha de Bull Run, mas este “se” que vem depois dela – se o eufórico e triunfante exército confederado tivesse avançado imediatamente para o Potomac, investido contra os entrincheiramentos em Arlington Heights e, muito provavelmente, efetuado a travessia acima ou próximo das Grandes Quedas do rio, e flanqueado a capital da União – é o maior e o mais interessante de todos eles.

O general Beauregard efetivamente comandou na batalha do dia 21, porque o general Johnston, quem era de nível superior, tinha chegado há pouco na cena e não estava familiarizado com o [188]terreno e a disposição das tropas. Mas ele, Johnston, tornou-se responsável pela continuação ulterior da campanha, uma vez que a batalha foi vencida. Foi em grande medida falta dele que os frutos da vitória não foram colhidos.

A explicação comumente aceita da questão é que os confederados estavam “quase tão desorganizados pela vitória quanto os federais ficaram pela derrota;” que eles não tinham tropas descansadas e nenhuma cavalaria com a qual perseguirem, e que Arlington Heights era fortificado demais para ser atacada.

Mas o general Beauregard, magoado diante da tentativa de o roubar dos louros da vitória, tinha sido capaz de mostrar que todas as brigadas confederadas de Ewell, Holmes, D. R. Jones e Longstreet, e dois regimentos da brigada de Bonham, estavam perfeitamente descansados e ilesos após a batalha; que a brigada de Early dificilmente tinha estado sob fogo; que novos regimentos tinham [189]chegado durante o dia; que as tropas descansadas numeravam-se em um total de, pelo menos, quinze mil; que, de fato, mais da metade do exército confederado não tinha estado engajado – uma proporção muito incomum após uma batalha importante. “As forças remanescentes, após um descanso de uma noite,” diz Beauregard mesmo, “teriam sido instantaneamente reorganizadas e consideradas completamente seguras para se juntar ao avanço.”

Aparentemente nada, senão vergonha, do lado nortistas, e uma falta de vontade, do lado sulista, para desacreditarem seus grandes generais, impediram um reconhecimento completo da tática fatal que impediu um avança sobre o Potomac após Bull Run.

Agora vejamos o que teria resultado a partir de uma investida confederada de Washington no verão de 1861. As tropas federais já tinham sido atacadas nas ruas de Baltimore. Essa cidade era preponderantemente desleal, e teve de ser guarnecida com tropas da União. Missouri ainda não tinha [190]sido conquistado para a União. Maryland, Delaware e Kentucky, todos os quais eram necessários para a manutenção da posição nortista, eram estados escravistas, e a lealdade deles era duvidosa. Se a capital da União tivesse sido tomada, todos esses estados, a despeito da sua falta de vontade prévia para se juntarem ao movimento de secessão, provavelmente teriam sido impelidos por forte autointeresse a enfileirarem a si mesmos ao lado dos outros estados escravistas; e a Confederação teria sido fortalecida pela adição de quatro estados, pelo menos.

Havia um grupo importante entre os confederados dos estados sulistas – ele era liderado pelo general-de-correio John H. Reagan e incluía o general Albert Sidney Johnston – quem acreditavam em avançar desde o começo mesmo para dentro de Kentucky e fazer do rio Ohio a primeira linha da defesa sulista. O plano foi rejeitado por Davis e seus conselheiros. Foi uma rejeição infeliz. [191]A Confederação foi finalmente derrotada porque foi flanqueada no oeste e cortada em duas em Vicksburg. Mas se Washington tivesse sido capturada ou atacada depois de Bull Run, é certo que a linha confederada teria sido empurrada até Ohio e, provavelmente, teria sido mantida lá. A vantagem obtida por McClellan na Virgínia Ocidental teria sido perdida, pois ele praticamente teria encontrado a si mesmo dentro das linhas confederadas e teria sido compelido a retirar-se para dentro da Pensilvânia.

Mesmo como as questões estavam, a posição da União era altamente precária por todo o verão e o outono de 1861. Havia sinais de uma demanda por paz no Norte. O próprio partido de Lincoln estava voltando-se contra ele. A simpatia da Europa estava rapidamente passando para a Confederação. Mas, enquanto Lincoln estivesse firme na Casa Branca e o Congresso reunido na capital, “o governo [192]em Washington ainda vivia,” e o povo sentia isso. A trégua tão gentilmente, tão inexplicavelmente, permitida por Davis e Lee e Johnston possibilitou a McClellan reorganizar e treinar um grande exército, reorganizar a capital, espalhar confiança renovada no Norte, e, em resumo, estabelecer um sustentáculo para vitória futura.

Essa não foi a última vez que a oportunidade bateu à porta da Confederação. Ela bateu novamente, e alto, como será mostrado no próximo capítulo, no mesmo ano. Cada evento, tomado sozinho, parece decisivo. Pois, conforme nós contemplamos os eventos de 21 de julho de 1861, parece bastante como se a bandeira de duas repúblicas – três, talvez, e concebivelmente quatro – poderiam estar flutuando sobre este grande domínio americano hoje se Johnston tivesse pressionado o seu avanço até o obstáculo de Warrenton no começo da manhã de 22 de julho. Guerras, divisões, intrusão europeia, retrocesso e escuridão teria sido o destino da América, [193]em vez daquele avanço imperial, com liberdade e união, que tem deslumbrado e encorajado o mundo todo.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

CHAMBERLEIN, J. E. The Ifs of History. Philadelphia: Henry Altemus Company, 1907. p. 185-193. Disponível em: <https://archive.org/details/ifsofhistory00chamuoft/page/185/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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