Os Ses da História XXII Se os Estados Confederados tivessem comprado a Frota da Companhia das Índias Orientais em 1861 – Final

Os Ses da História


Por Joseph Edgar Chamberlin


Prefácio e Conteúdos


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[194]Capítulo XXII Se os Estados Confederados tivessem comprado a Frota da Companhia das Índias Orientais em 1861 – Final


No capítulo precedente, eu notei as consequências desastrosas da rejeição do plano de John H. Reagan, insistido em Montgomery, na fundação mesma da Confederação, em favor da pronta ocupação do banco de areia sul do rio Ohio como a linha avançada de defesa, e o resultado igualmente desfavorável da falha de Johnston em pressionar para o Potomac após o grande sucesso em Manassas. Gettisburg também foi um combate crucial; pois se Lee tivesse sido suportado pela cavalaria de Stuart nessa [195]ocasião, há a possibilidade de que, pelo menos, a maré da guerra pudesse ter sido virada então e ali.

Mas houve uma contingência mais estreita do que qualquer uma dessas duas. A uma extensão positivamente decisiva, o sucesso das forças nacionais na subjugação dos estados sulistas dependeu do poder marítimo. De fato, a conquista da Confederação foi uma questão de dificuldade suprema como foi; e, se o Sul tivesse possuído uma marinha respeitável e tivesse sido capaz de manter os seus portos abertos e troca constante do seu algodão na Europa por materiais e munições de guerra, a conquista absolutamente não teria sido possível.

A chance para o estabelecimento de uma tal marinha esteve dentro do alcance dos estadistas da Confederação e foi deixada escapar por eles. Nem eles, nem mais ninguém à época compreendeu quão fácil a coisa poderia ter sido.

Primeiro é necessário explicar em que situação estava o governo nacional, no início da guerra, [196]na questão de um força naval. Nominalmente, a marinha dos Estados Unidos consistia em noventa embarcações, mas cinquenta dessas eram completamente obsoletas e inutilizáveis, exceto como embarcações de suprimento. Das outras quarenta, vinte estava em um estado de despreparo sem esperança. Várias das melhores embarcações estavam nos cantos mais remotos do mundo. O esquadrão doméstico era composto de doze embarcações, das quais apenas sete eram navios a vapor! Quase cinquenta anos após a invenção da navegação a vapor, os Estados Unidos dependiam principalmente de embarcações à vela para a sua defesa. Apenas três embarcações de confiança eram deixadas nas águas nortistas para a defesa de portos tais como Nova Iorque, Boston e Filadélfia.

Como entre o Norte e o Sul, a chance de empunhar o poder marítimo estava com um dos governos rivais que primeiro colocasse na água mesmo uma frota muito pequena de embarcações encouraçadas, movidas a vapor. Posteriormente, a Confederação provou [197]que o poder poderia ser exercido nessa direção com apenas um único encouraçado, quando o Merrimac destruiu ou espalhou todas as embarcações em Hampton Roads, por um momento ameaçou Washington e as cidades nortistas com devastação, e, por fim, apenas foi contido pelo aparecimento quase providencial de outro encouraçado, o pequeno Monitor de Ericsson, na cena. E a armadura de correntes do Alabama fez dele quase um equivalente para a marinha dos Estados Unidos.

Por quais meios a Confederação poderia ter frustrado o Norte no providenciamento de uma marinha realmente efetiva? Como eu disse, a chance foi oferecida, e recusada, com fatal falta de providência. Ela estava nos dez navios a vapor da Companhia Inglesa da Índias Orientais, a qual, em 1861, estava encerrando seus negócios. Essas embarcações foram oferecidas à Confederação por uma avaliação justa. Elas eram embarcações muito boas e capazes de pronta blindagem em, pelo menos, um estilo tão efetivo quanto aquele [198]no qual, posteriormente, o Alabama foi blindado. A Companhia das Índias Ocidentais estava preparada para chegar a um acordo tal que o governo confederado poderia satisfeito.

Os fornecedores britânicos estavam perfeitamente dispostos a confiar nos estadistas sulistas. As embarcações poderiam ter sido armadas em umas poucas semanas; não havia nada para impedir a entrada delas nos portos sulistas, pois o bloqueio não foi tornado efetivo até um ano depois que a guerra irrompeu. O Otero, renomeado pelos confederados, o Florida, não teve nenhuma dificuldade em receber seus homens e arma nas Bahamas.

Possuindo dez boas embarcações a vapor, comandadas por homens tais como Maury, Maffitt do Florida, e Semmes, do Alabama, a Confederação rapidamente poderia superar sua falta de mecânicos e oficinais através de importação a partir da Europa. Foi o comando dos rios Mississípi, Cumberland e Tennessee que “quebrou as costas da Confederação”; [199]e alguém imagina que as embarcações de madeira do Farragut poderiam ter entrado no Mississippi, forçado o abandono de Nova Orleans, e assegurado a posse não apenas da costa marinha, mas dos rios interioranos que comandavam a Confederação a partir da retaguarda, se houvesse algumas boas embarcações para as resistir?

O início que essas dez embarcações teriam dado a uma marinha confederada teria mais que igualado o Sul com o Norte no mar. Tem de ser lembrado que até 1862, mesmo como estava, o Sul poderia sair-se melhor nas praças e bolsas da Europa do que a União podia. Por quê? Porque o Sul tinha o algodão, do qual os moinhos da Europa dependiam. A chance continua de comerciar algodão teria salvo a situação para o Sul. Alabamas em qualquer número necessário teriam saído dos estaleiros britânicos.

Como foi, vários aríetes poderosos [200]estavam em construção para a Confederação em 1861 e 1862 nos pátios dos Lairds. Mas a insistência contínua do ministro Adams na ilegalidade desse procedimento, combinada com o fato de que a Confederação não tinha marinha reconhecível para justificar as compras deles, finalmente compeliu o governo britânico a tomar esses aríetes e adicioná-los ao seu próprio poder marítimo.

O presidente Jefferson Davis recusou a oferta das embarcações das Índias Orientais pela razão aparente de que as necessidades militares da Confederação pressionavam duramente os recursos financeiros do novo governo. Cada membro do governo dele estava bastante convencido de que o poder nacional não poderia invadir exitosamente o Sul, com a condição de um exército forte fosse rapidamente colocado no campo de batalha. O material pronto para bons soldados era muito mais abundante no Sul do que no Norte; quase todos os homens sulistas eram cavaleiros, caçadores, [201]atiradores, homens de ar livre. Por outro lado, os primeiros conscritos no Norte foram homens de cidade, desacostumados com armas de fogo, estranhos à exposição ao clima, fracos de físico. Manassas ilustrou amplamente a grande superioridade dos primeiros a chegar do Sul sobre os primeiros a chegar do Norte.

Os líderes confederados contavam com tornar permanente a vantagem que eles estavam confiantes de ganharem no campo de batalha desde o começo. Comprar dez embarcações a vapor sem consideração, com recursos que ainda deviam ser criados, e com os homens dos sete estados demandando serem armados, de fato, parecia com loucura. E contudo, essa foi a carta mesma que, se jogada, teria salvo o jogo da Confederação.

Conceba por um momento a marinha da União barrada de entrar no James, ou em quaisquer águas navegáveis da Virgínia, para suportar operações militares na direção de Richmond. [202]Conceba Wilmington, C. N., o qual era um porto facilmente defensável e que realmente permaneceu aberto para os navios violadores de bloqueio por quase dois anos após o começo da guerra, transformado em um ponto bastante seguro de partida para o comércio europeu por toda a guerra. Conceba o Mississípi, a partir de Cairo na direção sul até a sua boca, continuamente sob o poder da Confederação, com uma frota de canhoneiras de rio amparada por um esquadrão do golfo. Alguém imagina que, nesse caso, o Norte poderia ter feito qualquer uso de guerra ou comercial do Ohio, do Cumberland, do Tennessee, ou até do Mississípi de Cairo acima até St. Louis?

Liberta da ameaça de custo incessante e do perigo de ser cortada em duas ao longo dos rios, a efetividade das forças terrestres teria sido mais do que duplicada. Deixando de fora da conta a possibilidade de operações ofensivas contra Washington e as cidades do Norte, a [203]defesa dos estados separados poderia ser tornada tão segura que o povo do Norte poderia ter clamado alto por paz; os estados escravistas da fronteira teriam apostado a sua sorte com a Confederação, e a Inglaterra e a França teria ficado abertamente do lado do Sul; a secessão teria triunfado definitivamente antes do fim do ano de 1863.

Com a Companhia das Índias Orientais era um caso de “aceite as nossas embarcações ou deixe-as.” O Sul deixou-as, e com elas deixou a sua chance de independência e de colocar duas repúblicas americanas medíocres no lugar onde uma grande, após aquele momento decisivo, estava destinada a erguer-se para sempre.


O FIM


Próximo capítulo


ORIGINAL:

CHAMBERLEIN, J. E. The Ifs of History. Philadelphia: Henry Altemus Company, 1907. p. 194-203. Disponível em: <https://archive.org/details/ifsofhistory00chamuoft/page/194/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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