A Coluna de César. Uma História do Século XX.
Por Ignatius L. Donnelly
[29]Capítulo III A Casa do Pedinte
A casa na qual nós entramos estava mobiliada com um grau de esplendor do qual a aparência externa não concedia nenhuma sinal. Nós subimos as escadas e entramos em uma sala linda, toda pendurada ao redor com pinturas e adornada com estantes de livros. O pedinte deixou-me.
Eu sentei por algum tempo olhando meus arredores e ponderando sobre o estranho curso de eventos que tinha me trazido aqui e, ainda mais, diante das ações do meu companheiro misterioso. Agora eu me sentia seguro de que os trapos dele eram simplesmente um disfarce, pois ele entrou na casa com todo ar de um mestre; a linguagem dele era bem escolhida e corretamente falada, e possuía aquelas tons e entonações sutis que marcam uma mente educada. Eu estava pensando nessas questões quando a porta abriu-se e um belo jovem cavalheiro, arrumado no auge da moda, entrou na sala. Eu fiquei de pé e comecei a desculpar-me pela minha intrusão e explicar que eu tinha sido trazido aqui por um pedinte a quem eu tinha prestado algum serviço insignificante na rua. O jovem cavalheiro ouviu, com um rosto sorridente, e, em seguida, estendendo a mão dele, disse:
“Eu sou o pedinte: e agora eu faço o que apenas a pressa e a excitação impediram-me de fazer antes – eu agradeço a você pela vida que você salvou. Se você não tivesse vindo ao meu resgate, eu provavelmente deveria ter sido pisoteado até a morte sob os pés daqueles [30]cavalos viciosos, ou no mínimo tristemente espancado por aquele condutor brutal.”
A expressão do meu rosto sem dúvida mostrou o meu assombro extremo, pois ele procedeu:
“Eu vejo que você está surpreso; mas há muitas coisas estranhas nesta grande cidade. Eu estive disfarçado para um propósito particular, o qual eu não posso explicar para você. Mas, não posso eu requisitar o nome do cavalheiro a quem eu estou sob tantas obrigações? É claro, se você tem quaisquer razões para o ocultar, considere a questão como não perguntada.”
“Não,” eu respondi, sorrindo, ‘eu não tenho segredos. Meu nome é Gabriel Weltstein; eu vivo no novo estado de Uganda, na Confederação Africana, nas montanhas da África, perto da cidade de Stanley; e eu estou engajado na criação de ovelhas, nas montanhas. Eu pertenço a uma colônia de suíços, do cantão de Uri, quem, liderados pelo meu avó, estabeleceram-se ali há setenta anos. Eu cheguei a esta cidade ontem, para ver se eu não conseguia vender a minha lã diretamente aos manufaturadores, e, dessa maneira, evitar as extorsões do grande Círculo da Lã, o qual não tem apenas o nosso país mas o mundo inteiro no seu aperto; mas eu acho que os manufaturadores estão com mão e pé atados, e temerosos daquela poderosa combinação; eles não se atrevem a lidar comigo; e, dessa maneira, eu devo dispôr do meu produto ao preço antigo. Isso é um estado vergonhoso de coisas em um país que chama a si mesmo de livre.’
“Perdoe-me por um momento,” disse o jovem cavalheiro, e deixou a sala. No seu retorno, eu retomei:
“Mas agora que eu disse a você quem eu sou, você será suficientemente bom para me dizer alguma coisa sobre você?”
“Certamente,” ele respondeu, “e com prazer. Eu sou [31]um nativo desta cidade; meu nome é Maximiliano Petion; por profissão eu sou um advogado; eu vivo nesta casa com minha mãe, a quem eu logo deverei ter o prazer de apresentar a você.”
“Obrigado,” eu respondi, ainda estudando o rosto do novo conhecido. O semblante dele era escuro, os olhos e o cabelo quase negros; os primeiros, muito brilhantes e penetrantes; a testa dele era alta, ampla e quadrada; o nariz dele era proeminente, e havia ao redor da boca uma expressão de firmeza, não sem mistura de gentileza. No todo, era uma rosto para inspirar respeito e confiança. Mas eu decidi-me a não confiar demais nas aparências. Eu não conseguia esquecer da transformação que eu tinha testemunhado, dos trapos do mendigo idoso para esse jovem cavalheiro bem-vestido. Eu sabia que a classe criminosa era muito dada a tais disfarces. Portanto, eu considerei melhor perguntar algumas questões que poderiam lançar luz sobre o assunto.
“Eu posso inquiri,” eu disse, “quais são as razões para correr comigo tão veloz e misteriosamente do portão do Parque?”
“Porque,” ele respondeu, “você estava em grande perigo, e você tinha me prestado um serviço muito importante. Eu não poderia deixar você lá para ser preso e punido com longo período de aprisionamento, porque, seguindo seu coração, você tinha salvo a minha vida e açoitado o miserável que teria conduzido os cavalos dele sobre mim.”
“Mas por que eu deveria ser punido com um aprisionamento de longo prazo? No meu próprio pais o ato que eu realizei teria recebido o aplauso de todos. Por que você me disse para jogar fora aquele chicote no instante, assim como para evitar a aparência de [32]o roubar, e então permanecer para permanecer para testemunhar em meu nome se eu tivesse sido preso?”
“Então você não sabe,” ele respondeu, “de quem era o condutor que você chicoteou?”
“Não,” eu disse; “Por que eu deveria? Eu cheguei aqui apenas ontem.”
“Aquela era a carruagem do Príncipe Cabano, o homem mais rico e vingativo na cidade. Se você tivesse sido levado, você teria sido consignado a aprisionamento por provavelmente muitos anos.”
“Muitos anos,” eu respondei; “aprisionamento por bater em um condutor insolente! Impossível. Nenhum júri me condenaria por uma tal ofensa.”
“Júri!” ele disse, com um sorriso amargo; ‘é evidente que você é um estrangeiro e vem de uma parte recém-colonizada do mundo, e não conhece nada da nossa civilização moderna. O júri faria seja o que for que o príncipe Cabano desejasse que eles fizessem. Nossas cortes, juízes e júris são as ferramentas mais mesquinhas para os ricos. A imagem da justiça baixou a bandagem de um olho e agora usa suas bandejas para pesar os subornos que ela recebe. Um cidadão ordinário não tem mais perspectiva nas nossas cortes, disputando com um milionário, do que um infante recém-nascido teria da vida na toca de um lobo.’
“Mas,” eu respondi, bastante intensamente, “eu deveria apelar por justiça ao público através de jornais.”
“Os jornais!” ele disse, e o rosto dele escureceu enquanto ele falava; “os jornais são simplesmente as porta-vozes contratadas do poder; os advogados do diabo da civilização moderna; a influência deles está sempre a serviço do licitante mais alto; é o dever deles suprimir ou perverter a verdade, e eles fazem isso completamente. Eles são pagos para enganar o povo sob o disfarce de os defender. Há um século essa coisa começou, e [33]tem prosseguido, piorando e piorando, até que agora as pessoas riem das opiniões da imprensa, e duvidam da verdade até dos seus relatos de ocorrências.”
“Isso pode ser possível?” eu disse.
“Deixe-me demonstrar isso para você,” ele respondeu e, caminhando para a parede, falou quietamente em um tubo de telefone, do qual havia um número suspenso sobre a parede, e disse:
“Dê-me os particulares do chibateamento do cocheiro do príncipe Cabano, essa tarde, no portão sul do Parque Central.”
Quase imediatamente, um sino ressoou e, na parede oposta, no que eu tinha suposta ser um espelho, aparecerem estas palavras:
Do Guardião da Tarde:
Um Ultraje Horrível!
Assalto em Estrada! – Recompensa de Mil Dólares!
Nesta tarde, por volta das três da tarde, um evento ocorreu no portão sul do Parque Central, o qual revela o espírito turbulento e vicioso das classes inferiores, e reforça a demanda que nós tão frequentemente temos feito de medidas repressivas e governo mais forte.
Enquanto a carruagem do nosso honrado concidadão, o príncipe Cabano, contendo duas damas, membros da família dele, estavam quietamente entrando no Parque, um rufião alto, poderoso, aparentemente um estrangeiro, com longo cabelo amarelo, alcançou os ombros, subitamente agarrando um chicote reforçado em ouro valioso das mãos do condutor, e, porque ele resistiu ao assalto, golpeou-o através do rosto, infligindo machucados muito severos. Os cavalos assustaram-se muito, e apenas pelo fato de que dois homens dignos, John Henderson, da rua Delavan 5222, e William Brooks, da rua Bismarck 7322, agarraram-nos pela cabeça, um acidente terrível indubitavelmente teria ocorrido. O policial B 17822 levou o vilão prisioneiro, mas ele nocauteou o guardião da lei e escapou, acompanhado por um velho companheiro esfarrapado que parecia ter sido o seu cúmplice. Acreditava-se que o propósito dos ladrões era roubar as ocupantes [34]da carruagem, visto que o mais alto aproximou-se das damas, mas, exatamente então, o companheiro dele viu o policial chegando e avisou-lhe, e eles fugiram juntos. Naturalmente, o príncipe Cabano está muito enfurecido diante desse ultraje, e ofereceu uma recompensa de mil dólares pela apreensão de qualquer um dos rufiões. Eles foram rastreados por uma distância considerável pelos detetives; mas, depois de deixarem os carros elevados, todo traço deles foi subita e misteriosamente perdido. Subsequentemente, o chicote foi encontrado e reconhecido. Nenhum dos criminosos é conhecido da polícia. O mais alto era bastante jovem e bastante bem vestido, e não de aparência ruim, enquanto o companheiro dele tinha a aparência de um pedinte, e parecia ser de aproximadamente setenta anos de idade. O Chefe da Polícia pagará liberalmente por qualquer informação que possa levar à prisão dos ladrões.
“Aí,” disse o companheiro, “o que você pensa disso?”
Eu não tenho de dizer que fiquei paralisado com essa mistura hábil de fato e falsidade. Pela primeira vez eu compreendi os perigos da minha situação. Eu era um estrangeiro na grande cidade, sem um amigo ou conhecido, e caçado como um criminoso! Enquanto todos esses pensamentos passavam através do meu cérebro, ali também surgiu um brilho agradável da lembrança daquele rosto justo, e daquele sorriso doce e gentil, e daquele olhar radiante de gratidão e aprovação da minha ação no chibateamento do condutor brutal. Mas se meu novo conhecido estivesse certo; se nem as cortes, nem os júris, nem os jornais, nem a opinião pública pudessem ser apelados por justiça ou proteção, então, de fato, eu poderia ser enviado para a prisão como um malfeitor, por um termo de anos, por realizar o ato mais justo. Se isso fosse verdadeiro, e eu tinha ouvido alguma coisa do mesmo tipo em meu distante lar africano, que o dinheiro governava tudo neste grande pais; e se sua senhoria ofendida desejasse esmagar-me, ele certamente poderia fazer isso. Enquanto eu estava enterrado nessas reflexões, eu não tinha deixado de notar que um [35]sino elétrico ressoou sobre o lado da câmara e uma pequena caixa abriu-se, e o jovem cavalheiro avançou e tirou de uma caixa uma folha de papel de seda, rigorosamente escrito. Eu reconheci isso como um telegrama. Ele leu-o cuidadosamente, e eu notei ele dando olhadelas para mim, como se comparando os detalhes de minha aparência com alguma coisa escrita no papel. Quando terminou, ele avançou na minha direção, com um olhar mais brilhante no seu rosto, e, segurando minha mão, disse:
“Eu já o saudei você como meu benfeitor, meu preservador; permita-me agora chamar você meu amigo.”
“Por que você fala assim?” Eu perguntei.
“Porque,” ele respondeu, “ agora eu sei que cada afirmação que você me fez sobre si mesmo é literalmente verdadeira; e que, em seu caráter pessoal, você merece o respeito e a amizade de todos os homens. Você parece perplexo. Deixe-me explicar. Há pouco tempo você me contou o seu nome e seu lugar de residência. Eu pertenço a uma sociedade que tem as suas ramificações através de todo o mundo. Quando saí desta sala, eu enviei uma investigação para a cidade próxima de onde você reside, e perguntei se uma pessoa tal como você clamava ser vivia ali; qual era a sua aparência, postura e caráter, e residência presente. Eu não deverei chocar a sua modéstia ao ler a resposta que eu acabei de receber. Você perdoar-me-á essa desconfiança. Mas aqui, na cidade grande, nós somos suspeitos, e apropriadamente assim, de estrangeiros, e ainda mais uns dos outros. Eu não sabia senão que você estava no emprego dos inimigos da nossa sociedade, e buscou obter minha confiança ao prestar-me um serviço – pois os truques aos quais os detetives recorrem são infintos. Eu agora confio em você implicitamente, e você pode comandar-me em tudo.’
[36]Eu segurei a mão dele calorosamente e agradeci-lhe cordialmente. Era impossível duvidar mais daquele rosto franco e cintilante.
“Mas,” eu disse, “nós não estamos em grande perigo? Aquele condutor, pelo bem da recompensa, informará a polícia do nosso paradeiro?”
“Não!” ele disse; ‘não tenha temores sobre essa questão. Você não notou que eu permiti que uma dúzia de carruagens passarem antes que eu chamasse aquela que nos trouxe aqui? Aquele homem usava nas suas vestes uma marca que me disse que ele pertencia à nossa Irmandade. Ele sabe que se ele nos traísse ele morrerá dentro de vinte e quatro horas, e que não há poder sobre a terra que poderia salvá-lo; e se ele fugisse para as extremidades últimas da terra, a penalidade dele sobrepujá-lo-ia com a certeza do destino. Dessa maneira, não tenha preocupações. Nós estamos seguros aqui como se um exército permanente de mil homens de nossos defensores circundasse esta casa.”
“É essa a explicação,” eu perguntei, “do policial liberar o seu agarrar do meu casaco?”
“Sim,” ele respondeu, quietamente.
“Agora,” eu disse, “quem é esse príncipe Cabano, e como acontece dele ser chamado de príncipe? Eu pensei que a sua república renegasse todos os títulos de nobreza?”
“Assim é,” ele respondeu, “por lei. Mas nós temos muitos grandes títulos que são usados socialmente, por cortesia. Por exemplo, o príncipe, quando ele vem a assinar seu nome em um documento legal, escreve-o Jacob Isaacs. Mas o pai dele, quando ele se tornou excessivamente rico e ambicioso, comprou um principado na Itália por uma grande soma, e o governo, precisando de dinheiro, conferiu o título de príncipe com a propriedade. É claro, o filho dele, o Isaacs presente, sucedeu suas propriedades e o seu título.”
[37]“‘Isaacs,’” eu respondi, “é um nome judaico?”
“Sim,” ele respondeu, “a aristocracia do mundo é quase completamente de origem hebraica.”
“De fato,” eu perguntei, “como isso acontece?”
“Bem,” ele respondeu, “foi a antiga questão da sobrevivência do mais apto. A cristandade caiu sobre os judeus, originalmente uma raça de agriculturas e pastores, e forçou-os, por muitos séculos, através do ordálio mais terrível de perseguição do qual a história da humanidade porta qualquer registro. Apenas os homens fortes de corpo, os astutos de cérebro, os sagazes, os persistentes, com capacidade para viver onde um cão passaria fome, sobreviveram ao teste terrível. Semelhante gera semelhante; e agora o mundo cristão está pagando, em lágrimas e sangue, pelos sofrimentos infligidos pelos seus ancestrais preconceituosos e ignorantes sobre uma raça nobre. Quando o tempo chegou para liberdade e jogo justo, o judeu foi o mestre na disputa com o gentil, quem o odiava e temia.”
“Eles são os grandes endinheirados do mundo. Eles ascenderam de mercadores em roupas velhas e mascates de chapéus a mercadores, a banqueiros, a príncipes. Eles foram tão inclementes com os cristãos quanto os cristãos tinham sido com eles. Eles disseram, com Shylock: ‘A vilania que você me ensinou, eu executarei; e isso deverá ser difícil, mas eu melhorarei a instrução.’ A ‘roda da fortuna chegou a um círculo completo;’ e os descendentes dos antigos mascates agora possuem e habitam os palácios onde os ancestrais deles uma vez mendigaram em portas traseiras por roupas de segunda mão; enquanto os descendentes dos antigos lordes tem sido, em muitos casos, forçados para baixo, para a miséria abundante das classes inferiores. Este é um mundo triste, e contemplá-lo é suficiente para tornar um homem um filósofo; mas ele escassamente saberá [38]se pertence à escola ridente ou lacrimejante – se seguir o exemplo de Demócrito ou Heráclito.”
“E eu posso perguntar,” eu disse, “qual é a natureza da sua sociedade?”
“Eu não posso dizer mais a você desta vez,” ele respondeu, ‘que ela é uma sociedade secreta política tendo uma quantidade de membros em milhões e estendendo-se através de todo o mundo. O propósito dela é o bem do gênero humano. Eu espero que, algum dia, você possa aprender mais sobre ela. Venha,” ele acrescentou, “deixe-me mostrar a você a minha casa e apresentar a minha mãe a você.”
Tocando uma mola secreta na parede, uma porta oculta abriu-se, e nós entramos em uma pequena sala. Eu pensei que tinha entrado no camarim de um teatro. Nas paredes ao redor estavam suspensas uma multidão de fantasias, masculinas e femininas, de tamanhos diferentes, e adequadas para todas as condições de vida. Sobre a mesa estava uma coleção de garrafas, contendo o que eu aprendi eram tinturas de cabelos de cores diferentes; e também havia um sortimento de perucas, barbas e bigodes de todos os tons. Eu pensei que reconheci entre as primeiras o desalinhado cabelo brando do outrora pedinte. Eu apontei-o para ele.
“Sim,” ele disse, com uma gargalhada, “eu não serei capaz de usar isso for algum tempo por vir.”
Sobre outra mesa havia um conjunto formidável de adagas, pistolas e revólveres; e coisas de cobre e ferro de aparência singular, as quais ele me disse que eram cartuxos de dinamite e outros explosivos mortais.
Eu compreendi que meu companheiro era um conspirador. Mas de que tipo? Eu não poderia acreditar em mal nele. Havia uma dignidade e gentileza no rosto dele que proibiam um semelhante pensamento; embora o queixo quadrado e as mandíbulas projetadas e a boca firmemente estabelecida indicassem [39]uma natureza que poderia ser mais perigosa; e algumas vezes eu notei um olhar inquieto, selvagem nos olhos dele.
Eu segui-o para dentro de outra sala, onde ele me apresentou a uma senhora idosa de rosto doce, com a mesma fronte ampla e determinada, mas gentil, boca que tanto a distinguia do filho dela. Era evidente que havia grande amor entre eles, embora a face dela usasse uma aparência perturbada e ansiosa, às vezes, enquanto ela considerava-o. Pareceu-me que ela sabia que ele estava engajado em empreendimentos perigosos.
Ela avançou para mim com um sorriso e agarrou minhas duas mãos com as suas, conforme ela dizia:
“Meu filho já me disse que neste dia você prestou-lhe e a mim um serviço inestimável. Eu não necessito dizer que agradeço a você com todo o meu coração.”
Eu fiz pouco-caso da questão e assegurei-a de que eu estava sob maiores obrigações com o filho dela do que ele estava comigo. Logo depois, nós sentamos para jantar, uma refeição suntuosa, para a qual pareceram que todas as partes do mundo tinham contribuído. Nós tivemos uma conversação agradável, pois tanto o anfitrião quanto a anfitriã eram pessoas de informação madura. Nós dias antigos, os nossos ancestrais desperdiçavam anos de tempo valioso no estudo de linguagens que não mais eram faladas sobre a terra; e, dessa maneira, a civilização era constrangida pela sombra do antigo império romano, cujos soberanos mortos mas cetrados ainda governavam os espíritos do gênero humano a partir das suas urnas. Agora cada hora é considerada preciosa pela acumulação de conhecimento atual de fatos e coisas, e para o cultivo das graças da mente; de modo que o gênero humano tornou-se sábio na largura do conhecimento e doce e gentil nas maneiras. Eu expressei alguma coisa desse pensamento para Maximiliano, e ele respondeu:
[40]“Sim: é a maior das lástimas que uma civilização tão nobre e bela deva ter tornado-se tão oca e podre até o centro.”
“Podre até o centro!” Eu exclamei, em assombro; “o que você quer dizer?”
“O que eu quero dizer é que a nossa civilização cresceu para ser uma casca deslumbrante; uma mera zombaria, uma desgraça; externamente, bela e amável, mas internamente, cheia de ossos de homens mortos e de toda impureza. Pensar que o gênero humano é tão capaz de bem e agora, tão culto e polido, e, contudo, tudo acima é crueldade, artifício e destruição, e tudo abaixo é sofrimento, perversidade, pecado e vergonha.”
“O que você quer dizer?” eu perguntei.
“Que a civilização é uma falha grosseira e terrível para sete décimos da família humana; que sete décimos dos lombos do mundo estão insuficientemente vestidos; sete décimos dos estômagos do mundo estão insuficientemente alimentados; sete décimos das mentes do mundo estão toldadas e desesperadas, e cheias de amargura conta o Autor do universo. É terrível pensar o quê a sociedade é, e então pensar o quê ela poderia ter sido se nossos ancestrais não tivessem jogado fora suas oportunidades magníficas – não tivessem jogado-as nas latas dos suínos da cobiça e gula.”
“Mas,” eu respondi, “o mundo não parece para mim dessa forma. Eu estive expressando para minha família meu deleite diante da visão dos vastos triunfos do homem sobre a natureza, através dos quais os poderes mais secretos do universo têm sido capturados e aproveitados para o bem da nossa raça. Porque, meu amigo, esta cidade proclama a cada poro, em cada rua e beco, em cada loja e fábrica, a grandeza da humanidade, o esplendor da civilização.”
[41]“Verdadeiro, meu amigo,” respondeu Maximiliano; “mas você enxerga apenas a superfície, a casca, a crosta de vida nesta grande metrópole. Amanhã nós sairemos juntos, e eu deverei mostrar a você os frutos da nossa civilização moderna. Eu deverei levar você, não sobre o convés superior da sociedade, onde as bandeiras estão voando, a briza soprando e a música tocando, mas para baixo, para dentro das profundezas escuras e abafadas do domínio da grande embarcação, onde os gnomos suados, no brilho do calor da fornalha, fornecem a energia que conduz o navio poderoso resplandecente através dos mares do tempo. Nós visitaremos o Sub-Mundo.”
Mas agora eu tenho de encerrar pela noite, e assinar-me afetuosamente seu irmão,
GABRIEL.
Próximo capítulo
ORIGINAL:
DONNELLY, I. L. Caesar's Column. A Story of the Twentieth Century. Chicago: F. J. Schulte & Company, Publishers, 1890. p.29-41. Disponível em: <https://archive.org/details/csarscolumnsto00donn/page/29/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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