Os Ses da História
Por Joseph Edgar Chamberlin
[129]Capítulo XV Se o Pirata Jean Lafitte tivesse se juntado aos Britânicos em Nova Orleans
Após a batalha de Nova Orleans, em 8 de janeiro de 1814, o general Andrew Jackson, o comandante vitorioso, chamou diante de si um certo oficial, de aparência arrojada e afrancesada, e agradeceu-lhe publicamente pela parte importante que ele tinha trazido para a batalha. A julgar pelo sinal de honra feito a ele, o crédito da vitória foi, em uma parte considerável, devido a ele. E, de fato, esse foi o caso.
O homem a quem os agradecimentos da vitória foram dessa maneira tão conspicuamente concedidos foi Jean Lafitte, o [130]pirata baratariano. Que o sucesso de Jackson em derrotar e virtualmente destruir o exército de Pakenham, consistindo da flor mesma da soldadesca do duque de Wellington, pendeu, em um sentido importante, sobre esse corsário e bucaneiro extraordinário, nunca foi adequadamente reconhecido na história americana.
Jean Lafitte, o principal dos três irmãos piratas de Barataria, foi um homem de influência e popularidade extraordinárias entre os franceses e outros habitantes latinos da Luisiana e Nova Orleans. Ele era um nativo da França, e um corsário bravo e cavalheiresco, como corsários costumam ser. Um preço já tinha sido posto sobre a cabeça dele pelo governador americano Claiborne. Mas tão seguro estava Lafitte nos afetos do povo crioulo, a quem ele serviu de muitas maneiras, que ele regularmente frequentava festas e recepções em Nova Orleans. Em tais ocasiões chegando no pleno esplendor da sua condição de fora da lei, e trazendo alegria [131]ao coração de cada dama no salão por suas maneiras atraentes assim como por sua fama, o chefe pirata praticamente desafia as autoridades a colocarem uma mão nele. Se agentes da lei eram enviados para o prender, ele sabia disso, através de uma centena de espiões, muito antes que eles alcançassem o lugar, e retirava-se imediatamente para algum esconderijo próximo que era bem conhecido para ele. Ele tinha uma centena de lugares seguros de refúgio em Nova Orleans.
Sob o comando dele estava uma força de piratas, quem eram muitos ou poucos, de acordo com as exigências do momento; pois eles conseguiam disfarçar-se como pescadores pacíficos, se necessário, ou eles poderiam, ocasionalmente, reunir uma força de várias centenas ao chamado – sempre perfeitamente armados, perfeitamente treinados, completamente formidáveis.
Lafitte predava imparcialmente todo o comércio do golfo do México, e, quando perseguido, corria para uma das numerosas bocas do Mississippi [132]ou alguma enseada do Golfo – para dentro do lago Barataria, do brejo Lafourche, ou do brejo Teche. Ali era em vão segui-lo, pois as complexidades dessas passagens eram conhecidas apenas pelos homens dele ou pelos habitantes ao longo das coisas, quem eram simpáticos a ele.
Quando os britânicos desceram sobre Nova Orleans no outono de 1813, eles ofereceram a Jean Lafitter uma comissão de capitão no serviço naval britânico, trinta mil dólares em dinheiro, um perdão completo pelas ofensas passadas e recompensas em dinheiro e terras para os seguidores dele se ele desejasse juntar-se a eles para fazer guerra aos americanos. Ele facilmente poderia ter feito isso. O povo francês da Luisiana não tinha lealdade intensa pela Bandeira Estrelada à época. Como Lafitte procedesse, eles poderiam ter procedido. Os britânicos sabiam disso e fizeram da sua isca algo rico.
Mas Lafitte, embora o prêmio de Claiborne estivesse sobre a cabeça dele, e o irmão dele, Pierre, na prisão em Nova Orleans, [133]recusaram a oferta. Em vez disso, ele enviou as cartas do capitão Lockyer, da marinha britânica, fazendo essa proposta para a legislatura louisiana. Posteriormente, depois que Pierre tinha escapado, ele efetivamente se juntou ao exército indeterminado do general Jackson com uma força de rifleiros. Ele parece ter agido a partir de um amor muito honesto pela jovem república americana.
Jackson, inicialmente, sob uma compreensão equivocada das circunstâncias, tinha se recusado a aceitar o auxílio desses “bandidos infernais,” como ele tinha chamado os homens de Lafitte em uma proclamação durante a chegada deles. Mas quando ele descobriu que os britânicos estavam sobre ele, e que uma proporção considerável dessas milícias pobremente equipadas estava sem pederneiras para os seus mosquetes, ele não apenas aceitou as pederneiras que Lafitte enviou a ele, mas deu ao pirata um comando importante na sua ala direita. Ali Jean e seus homens realizaram serviço notável.
Se Lafitte tivesse se juntado aos britânicos [134]com os homens e as embarcações dele, há pouca probabilidade de que os americanos teriam tido nessa luta o auxílio poderoso das embarcações de guerra Carolina e Lousiana, no rio. Nem é provável que eles teriam tido o suporte passivo da população francesa. Nem que eles teriam encontrado qualquer substituto para as pederneiras com os quais Lafitte os supriu. E é muito provável que o assalto britânico aos entrincheiramentos de Jackson teria sido tentado com um resultado diferente.
De fato, Jackson poderia ter sido esmagado exatamente como Windsor tinha sido esmagado em Washington, há não muito tempo.
Um tal resultado em Nova Orleans não teria afetado o resultado da guerra, pois uma paz favorável aos exércitos americanos já tinha sido declarada em Ghent. Mas quão profundamente uma derrota teria influenciado as fortunas pessoal e política de Andrew Jackson e de todos os [135]eventos na história americana que dependeram da sua carreira subsequente!
O general Jackson conquistou a presidência em 1828 porque ele era o herói militar do dia. A popularidade dele era devida à vitória brilhante que ele conquistou em Nova Orleans. Depois da derrota em 1824, uma visita espetacular que ele realizou ao campo da batalha de 1814 renovou as lembranças da grande luta e intensificou a popularidade dele; e, em 1828, ele foi triunfantemente eleito. Se ele tivesse sido derrotado em batalha por Pakenham, e Nova Orleans tivesse sido tomada, a fama dele teria sido extinta então e ali.
E sem Jackson – nós alguma vez deveríamos ter tido o mecanismo político? Foi ele quem introduziu isso no nosso governo. Ele foi o inventor e o descobridor do sistema de espólio. “Aos vitoriosos pertencem os espólios” era a máxima do tenente dele, Marcy, e o seu próprio princípio de ação. Nós nunca fomos bastante capazes de [136]nos livrar do sistema que ele amarrou sobre o país. O patrocínio tem sido a maldição da nossa política, desde aquele dia até hoje.
Então houve o seu assalto determinado e desastroso do Banco dos Estados Unidos. Dessa instituição, a qual foi formada por Alexander Hamilton, e cuja a posição assemelhava-se mais ou menos à posição presente do Banco da Inglaterra, o sistema financeiro do país dependia. Jackson atacou-o como um “monopólio perverso,” como uma expressão concreta do “poder do dinheiro.” Ele sucedeu em destruir o branco, em causar o pânico de 1837, o qual produziu ruína e desastre inéditos para o povo, e, em seu lugar, inaugurando o sistema de bancos estatais arriscados e do caos da moeda que perdurou até a Guerra Civil.
Mas Jackson atacou mais do que o Banco dos Estados Unidos e o princípio de que o cargo público é uma confiança pública. Ele atacou a nulificação. [137]A nulificação significava que os estados poderiam recusar-se a reconhecer ou obedecer às leis dos Estados Unidos. Ele atacou intensamente esse preceito, quando ele fez o seu aparecimento na Carolina do Sul e paralisou-o a uma extensão tal que a porção da nação que não acreditava em secessão foi capaz de obter crescimento preponderante, e organizar a sua força, e evitar a desunião, quando o teste finalmente veio.
Jackson salvou a União ao atordoar a nulificação até que a república fosse grande o suficiente para a emagar sob o pé. E, sem dúvida, esse foi o maior evento que pendeu sobre a contingência da escolha de lados por Lafitte em Nova Orleans.
ORIGINAL:
CHAMBERLEIN, J. E. The Ifs of History. Philadelphia: Henry Altemus Company, 1907. p. 129-137. Disponível em: <https://archive.org/details/ifsofhistory00chamuoft/page/129/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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