O Livro Vermelho das Fadas
Editado por Andrew Lang
[182]A Voz da Morte
Uma vez viveu um homem cujo o único desejo e súplica era enriquecer. Dia e noite ele não pensava em nada mais, e, finalmente, suas preces foram concedidas, e ele tornou-se muito rico. Agora, sendo tão rico, e tendo tanto a perder, ele sentiu que seria uma coisa terrível morrer e deixar todas as posses para trás; assim ele se decidiu a buscar uma terra onde não houvesse morte. Ele aprontou-se para sua jornada, separou-se da sua esposa e partiu. Sempre que ele chegava a um novo país, a primeira questão que ele perguntava era se as pessoas morriam naquela terra, e, quando ouvia que elas os faziam, ele partia novamente em sua missão. Finalmente, ele alcançou um país onde era dito que as pessoas nem mesmo conheciam o significado da palavra morte. O nosso viajante fico deleitado quando ele ouviu isso e disse:
‘Mas certamente há grandes números de pessoas na sua terra, se ninguém nunca morre?’
‘Não,’ eles responderam, ‘não há grandes números, pois, veja você, de tempos em tempos uma voz é ouvida chamando primeiro um e depois outro, e quem quer que ouça essa voz se levanta e vai embora, e nunca retorna.’
‘E eles veem a pessoa quem os chama,’ ele perguntou, ‘ou eles apenas ouvem a voz?’
‘Eles tanto veem quanto ouvem-na,’ foi a resposta.
Bem, o homem ficou atônito quando ouviu que o povo era suficientemente estúpido para seguir a voz, embora eles soubessem que se fossem quando ela os chamasse, eles nunca retornariam. E ele retornou para sua própria casa, reuniu todas as suas posses e, tomando sua esposa e família, partiu resolvido a ir e viver naquele país onde as pessoas não morrem, mas onde, em vez disso, elas ouvem uma voz chamando-as, a qual eles seguiram para uma terra a partir da qual eles nunca retornaram. Pois ele tinha se decidido que, quando [183]ele ou qualquer um da sua família ouvisse essa voz, eles não prestariam atenção a ela, pois mais alto que ela chamasse.
Depois que tinha se estabelecido em sua nova casa, e tinha organizado tudo ao redor de si, ele avisou a sua esposa e família que, a menos que desejassem morrer, eles de maneira nenhuma deveriam dar ouvidos a uma voz que algum dia eles poderiam ouvir chamando-os.
Por alguns anos tudo ocorreu bem com eles, e eles viveram alegremente em sua nova casa. Mas um dia, enquanto eles todos estavam sentados juntos ao redor da mesa, a esposa del subitamente ficou de pé, exclamando em uma voz alta:
‘Eu estou chegando! Eu estou chegando!’
E ela começou a procurar ao redor do aposento pelo seu casaco de pele, mas o esposo dela pulou e agarrando-a firmemente pela mão, segurou-a e repreendeu-a dizendo:
‘Não se lembra do que eu disse a você? Permaneça onde está a menos que deseje morrer.’
‘Mas você não ouve essa voz me chamando?’ Ela respondeu. ‘Eu [184]meramente estou indo ver porque eu sou requerida. Eu deverei retornar imediatamente.’
Assim ela lutou e esforçou-se para se livrar do esposo dela, e ir para onde a voz convocava. Mas ele não a deixaria ir, e teve todas as portas da casa fechadas e trancada. Quando viu que ele tinha feito isso, ela disse:
‘Muito bem, querido esposo, eu deverei fazer o que você desejar e permanecer onde eu estou.’
Assim o esposo dela acreditou que tudo estava bem, e que ela tinha pensado melhor nisso e tinha superado o seu impulso louco para obedecer à voz. Mas, uns poucos minutos depois, ela fez uma arrancada súbita para uma das portas, abriu-a e disparou para fora, seguida pelo esposo dela. Ele agarrou-a pelo casaco de pele, e suplicou e implorou que ela não fosse, pois, se ela fosse, certamente nunca retornaria. Ela não disse nada, apenas deixou seus braços caírem para trás, e subitamente, inclinando a si mesma para frente, ela escorregou para fora do casaco, deixando-o nas mãos do seu esposo. Ele, pobre homem, parecia transformado em pedra enquanto encarava-a correndo para longe dele e chamando no máximo de sua voz, enquanto ela corria:
‘Eu estou chegando! Eu estou chegando!’
Quando ela estava bastante fora de vista, o esposo dela recuperou seus sentidos e retornou para a sua casa murmurando:
‘Se ela é tão tola quanto a desejar morrer, eu não posso ajudar. Eu avisei e implorei-a para não prestar atenção à voz, por mais alto que ela pudesse chamar.’
Bem, dias e semanas e meses passaram, e nada aconteceu para perturbar a paz do domicílio. Mas um dia o homem estava no barbeiro como usual, sendo barbeado. A barbearia estava cheia de pessoas, e o queixo dele há pouco tinha sido coberto com uma espuma de sabão, quando, subitamente, saltando da cadeira, ele bradou em uma voz alta:
‘Eu não irei, você entende? Eu não irei!’
O barbeiro e as outras pessoas na barbearia ouviram-no com assombro. Mas novamente, olhando em direção à porta, ele exclamou:
‘Eu digo a você, de uma vez por todas, eu não quero ir, assim, vá embora.’
E uns poucos minutos depois, ele bradou novamente:
‘Vá embora, eu digo a você, ou será o pior para você. Você pode chamar tanto quanto desejar, mas nunca conseguirá que eu vá.’
E ele ficou tão irado que você poderia ter pensado que alguém [185]estava realmente de pé à porta, atormentando-o. Finalmente, ele pulou e pegou a navalha da mão do barbeiro, exclamando:
‘Dê-me essa navalha, e eu o ensinarei a deixar as pessoas sozinhas no futuro.’
E ele correu para fora da casa como se estivesse correndo atrás de alguém, de quem, ninguém mais via. O barbeiro, determinado a não perder a sua navalha, perseguiu o homem, e eles dois continuaram correndo a plena velocidade até que tinham saído bastante da cidade, quando, subitamente, o homem caiu de cabeça para baixo em um precipício, e nunca mais foi visto novamente. Assim ele também, como os outros, tinha sido forçados contra sua vontade a seguir a voz que o chamava.
Mas o barbeiro, quem voltou para casa assobiando e congratulando-se pela escapada que ele tinha realizado, descreveu o que aconteceu, e foi espalhado amplamente no país que as pessoas que tinham partido e nunca retornado, tinham caído naquele poço; pois até então eles nunca tinham conhecido o que tinha acontecido com aquelas quem tinham ouvido a voz e obedecido ao seu chamado.
Mas quando as multidões saíram da cidade para examinar o poço malfadado que tinha engolido números tão grandes, e contudo nunca parecia ficar cheio, eles não puderam descobrir nada. Tudo que eles puderam ver era uma vasta planície, que parecia como se tivesse estado ali desde o começo do mundo. E desde aquele momento, as pessoas do país começaram a morrer como mortais ordinários ao redor do mundo.1
ORIGINAL:
LANG, A. The Red Fairy Book. Edited by Andrew Lang, with Numerous Illustrations by H. J. Ford and Lancelot Speed. London: Longmans, Green and Co., and New York: 15 East 16th Street, 1890. p.182-185. Disponível em: <https://archive.org/details/redfairybook00langiala/redfairybook00langiala/page/182/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1[185]Roumanian Tales from the German, de Mite Thremnitz.

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