Os Ses da História XIX Se a Bomba de Orsini não tivesse falhado em destruir Napoleão III

Os Ses da História


Por Joseph Edgar Chamberlin


Prefácio e Conteúdos


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[170]Capítulo XIX Se a Bomba de Orsini não tivesse falhado em destruir Napoleão III


Edward A. Freeman escreveu, após a queda do império do segundo Bonaparte: “O trabalho de Richelieu está completamente desfeito, o trabalho de Henrique II e Luís XIV está parcialmente desfeito; o Reno agora nem cruza nem irriga um único acre de terreno francês. Como foi nos começos da história do norte-europeu, assim é agora; a Alemanha estende-se em ambos os lados do rio alemão.” De modo nenhum esse foi todo o trabalho operado por aquele aventureiro em um trono imperial, Napoleão III, através da sua guerra desastrosa [171]contra uma Alemanha unida. Ele também alcançou o massacre de quinhentos mil homens e o empobrecimento de milhões. Ele soou o sino de morte das aventuras monárquicas na França, o qual, de fato, foi um bom resultado do débâcle napoleônico, mas ele também fixou o militarismo, na forma do ritmo excessivo e progressivamente crescente de armamentos, sobre a Europa, e débitos públicos e taxação magnificado ao limite da resistência.

Cada evento mencionado aqui foi um desenvolvimento direto, não da captura original do trono francês por Napoleão II, mas dos anos finais, e da eventual derrubada do poder dele – a derrubada mesmo devida à guerra franco-prussiana. Um único evento, criminoso em seu caráter, poderia ter evitado esses resultados. Que grandes benefícios algumas vezes podem acontecer a partir de crime não é nenhuma novidade, e não mais uma maravilha, para o filósofo, quem, quando chega ao mal, está apto [172]a repetir as palavras, “Deus move de uma maneira misteriosa as suas maravilhas a realizar.”

O ato maligno ao qual eu me refiro aqui, o qual teria salvo as vidas de quinhentos mil pessoas e deixado o rio Reno ainda lavando os confins da França, foi o lançamento da bomba de Orsini na tarde de 14 de janeiro de 1858. Essa bomba foi projetada para tirar a vida do imperador da França. Se a tentativa tivesse tido êxito, e Napoleão tivesse morrido como posteriormente Alexandre II da Rússia e o rei Humberto da Itália morreram, não teria havido guerra franco-prussiana. Muito provavelmente, o trono do bebê Napoleão IV, quem então estava com menos de dois anos de idade, não teria durado muito; mas se a terceira república tivesse surgido imediatamente, ou se os Bourbons de Orleans tivessem sido restaurados ao trono, teria sido fácil preservar a paz com a Prússia e a Alemanha.

[173]Pois Napoleão III, deliberadamente e com engenhosidade maligna, provocou a guerra com a Alemanha em 1870. Não há dúvida de que Bismarck desejasse uma tal guerra. Depois ele confessou que enganou o idoso rei William de uma tal maneira que toda chance de paz em Ems estava perdida. Mas, mesmo assim, a provocação de Napoleão III foi direta e deliberada.

A queixa dele era que o príncipe Hohenzollern, Leopoldo, tinha consentido em se tornar um candidato para o trono vago da Espanha. O rei William retirou a candidatura do príncipe Leopold. Isso realmente destruiu o pretexto de Napoleão para causar uma guerra. Mas ele desejava uma guerra estrangeira para prevenir oposição revolucionária em casa, a qual ameaçava se tornar irresistível. Portanto, Napoleão levou seu embaixador, Benedetti, insolentemente, e de uma maneira bastante irracional, a exigir pessoalmente do rei William uma declaração de nenhum Hohenzollern deveria alguma vez ser permitido [174]a tornar-se rei da Espanha. O rei William tratou essa insolência como ela mereceu, e, portanto, a França declarou guerra à Prússia.

O que se seguiu, o mundo sabe. A França foi mutilada da Alsácia e Lorena. Quinhentos mil da flor da masculinidade de ambas as nações pereceram. A França sobrecarregou a si mesma com cinco milhões de francos de indenização e, embora tenha pago o débito com a Alemanha, ela ainda o deve aos seus próprios cidadãos. As dificuldades do governo e das finanças francesas foram intensificadas prodigiosamente e indefinidamente pela guerra e as delinquências do império.

E tudo como um contingente resultado da falha de um ato criminoso! Felice Orsini pretendeu matar Napoleão III, e ele e seus dois companheiros mataram dez pessoas inocentes e feriram cento e cinquenta outras. Contudo, o homem para quem as bombas dele foram intencionadas – o aventureiro quem uma vez tinha [175]sido seu camarada como um membro da sociedade secreta italiana, os Carbonari, mas quem depois tinha traído a causa da independência italiana para liderar um exército para dentro da península e restaurar o poder papal – escapou ileso, para enredar a trilha das suas conspirações infames através da política europeia por mais doze anos. Se a bomba tivesse realizado o seu trabalho terrível, um homem, completamente sem caráter ou consciência, teria morrido, e quinhentos mil homens, a maioria honestos, bons e verdadeiros, teria vivido. Como aconteceu, esse único homem foi poupado, para fazer um vasto holocausto de vida humano doze anos depois.

De fato, é estranho que a aversão a um único crime algumas vezes pode precipitar uma miríade de outros crimes.


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ORIGINAL:

CHAMBERLEIN, J. E. The Ifs of History. Philadelphia: Henry Altemus Company, 1907. p. 170-175. Disponível em: <https://archive.org/details/ifsofhistory00chamuoft/page/170/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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