Os Ses da História
Por Joseph Edgar Chamberlin
[160]Capítulo XVIII Se o Capitão Jennings não tivesse resgatado certos Japoneses Naufragados
Próximo do fim do ano de 1850, o capitão Jennings, do barco americano Auckland, comerciando em águas asiáticas, recolheu a tripulação naufragada de uma embarcação japonesa de pesca, em algum ponto fora da costa do Japão. O capitão dirigia-se então para o novo porto de São Francisco, a qual os garimpeiros da Califórnia já tinham feito uma importante cidade. Ele continuou no seu curso e, no tempo devido – quer dizer, muito cedo no ano de 1851 – desembarcou em São Francisco com o seu grupo de refugiados.
Aqui os brilhantes pequenos orientais foram [161]mais do que um fogo de palha. Poucos americanos alguma vez tinham visto antes um japonês. À época aquele país era mais uma “nação eremita” do que a Coreia mesma. Baleeiros e outros marinheiros quem tinham naufragado na costa japonesa tinham sido cruelmente mortos. A nenhum homem branco, exceto aos holandeses, tinha sido permitido comerciar com nenhuma cidade japonesa, e o comércio holandês tinha caído em decadência. O Japão parecia tão distante das nossas vidas quanto o planeta Marte.
Mas os japoneses a quem o capitão Jennings tinha humanamente resgatado foram tratados gentilmente por ele, e, na viagem de volta para casa, eles tornaram-se caros para ele e para a sua tripulação. Ele desembarcou-os em São Francisco com relatos muito favoráveis do caráter, da conduta e da inteligência deles. Os mineiros generosos daquela cidade não queriam nada mais do que alguém ou alguma coisa para adorar. Assim, por um tempo considerável, os japoneses naufragados tinham tido o melhor de tudo em [162]São Francisco, até que surgiu uma oportunidade para os enviar de volta, gordos e felizes, para o próprio país deles.
Um relato completo do incidente e dos refugiados foi publicado em um dos jornais de São Francisco. Ele caiu nas mãos de apenas um homem quem foi capaz de perceber as possibilidades momentosas que havia na ocorrência. Esse homem era um comandante na marinha dos Estados Unidos; e o nome dele não era Perry, como o leitor pode inicialmente supõe, mas John H. Aulick. Ele era um virginiano, então no seu sexagésimo segundo ano; ele tinha tido um serviço longo e muito honroso, e era perspicaz e estadista em suas ideias.
O que o comodoro Aulick viu no incidente foi isto: Poderia ser tirado vantagem da recepção gentil e amigável dos refugiados japoneses na América, contrastada com o tratamento ordinário de refugiados brancos no Japão, para abrir relações amigáveis com o Japão. Para efetuar esse resultado, uma operação naval [163]deveria ser enviada ao Japão. Se propriamente conduzida, a expedição não apenas poderia assegurar tratamento amigável de baleeiros americanos nas costas japonesas, mas poderia abrir relações de comércio, que seriam altamente lucrativas, com o país.
Cheio com essa ideia, a qual era realmente algo grande, o comodoro Aulick obteve permissão para a expor diante do secretário de estado, o qual não era outro senão Daniel Webster. Ele teve uma entrevista com o sr. Webster em Washington em 9 de maio de 1851.
Imediatamente Webster percebeu a ideia. Diante do seu pedido urgente, o presidente Fillmore ordenou ao departamento da marinha para preparar uma pequena expedição para a viagem ao Japão; e, quando as embarcações estavam prontas – eles foram lideradas pelo chalupa de guerra Mississippi – o comodoro Aulick foi colocado no comando. Ele efetivamente navegou na viagem; mas foi confiada a ele a tarefa de levar o ministro brasileiro até o Rio de [164]Janeiro no caminho, e algum problema tendo surgido com esse funcionário, pelo qual o comandante Aulick foi culpado, ele foi substituído no comando da expedição pelo comandante Matthew Calbraith Perry, no comando do Hartford.
Portanto, foi Perry quem “abriu o Japão.” O nome dele está associado, enquanto a história das duas nações foi contada, com o evento. Mas foi a ideia de Aulick, não de Perry; e tudo dependeu da sorte que aqueles pescadores japoneses, refugiados sobre um oceano infinito, tiveram em serem recolhidos por um generoso capítão ianque, e encontrarem seu caminho para uma cidade tão sincera e tão hospitaleira em relação aos andarilhos “mongóis” como São Francisco era – então!
E então, se esse incidente não tivesse sugerido e sido seguido pela expedição Aulick-Perry? As autoridades russas tinham alegado que Rússia estava preparando uma expedição similar à época quando o secretário Webster – “zeloso demais,” [165]de acordo com a visão delas – enviou embarcações dos Estados Unidos no seu próprio caminho. Há boa razão para acreditar que o governo russo teria sido lento na produção de um movimento infinitamente mais inteligente do que a expedição de Perry constituiu. Contudo, se os Estados Unidos não tivessem dado esse passo, a Rússia estava em seguida na linha de herança lógica para a ideia. E se o Japão tivesse se aberto sob os auspícios russos, as portas dele, em vez de ficarem abertas na direção do leste e, consequentemente, na direção do nosso Ocidente, teriam sido abertas para o oeste continental asiático, o que teria significado na direção de São Petersburgo.
Se os japoneses tivessem, sob iniciativa russa, adotado os acessórios materiais da civilização ocidental, como eles finalmente fizeram sob a nossa, aquela civilização teria assumido uma cor distintamente moscovita. De fato, sob tais auspícios, os japoneses nunca teriam sido capazes de organizarem uma resistência efetiva contra os exércitos russos, pois muito [166]antes eles tinham adquirido o treinamento necessário que eles deveriam ter sido mantidos firmemente sob o controle do sistema militar russo.
Quer dizer, o Japão teria sido, passo a passo, anexado ao império russo. A guerra russo-japonesa nunca teria acontecido, uma vez que não teria havido nem esperança nem ocasião para ela. A maioria dos frutos ricos da arte e indústria japonesas teriam flutuado em direção à Rússia. O império russo teria sido enormemente enriquecido pelo comércio japonês, e a importância desse império imensamente magnificada na história da nossa época. Uma influência orientalizante reflexa teria rolado sobre a Rússia mesma, e o curso do desenvolvimento interno russo alterado a um grau agora quase incalculável.
Se a Rússia não tivesse sido razoavelmente estimulada a dar o passo, os olhos dos estadistas britânicos, mais cedo ou mais tarde, deveriam ter se abertos para a oportunidade. O método através do qual a intervenção britânica [167]procede em países asiáticos é bem conhecido. Ele sempre tem tido apenas leve consideração pela soberania nativa, não importa quão elevado o estado do desenvolvimento social ou artístico ou intelectual da parte das raças nativas afetadas. Os administradores britânicos, ou, se o Japão tivesse retido a sua soberania nominal, “residentes” ou agentes britânicos, realmente teriam governado o país através do dáimio ou do micado, ou de ambos – preferivelmente o dáimio, pois ele era um governante militar, e questões poderiam ter sido manejadas mais prontamente através dele.
Os eventos no Japão deveriam ter antecipado a história subsequente do Egito, em uma escala muito mais magnífica. Novamente, embora teria sido uma entrada mais pronta para o comércio europeu e americano do que no caso de intervenção russa, o melhor de tudo japonês certamente teria ido para a Inglaterra. E novamente, o livre, independente, [168]poderoso, dominante império japonês de hoje, vibradno com uma nova vida na qual toda a civilização do ocidente é tornada a aia de um povo asiático antigo e destemido, não teria existido.
No caso improvável de os japoneses, na falta da expedição de Perry, tivessem sido deixados bastante sozinhos por outra geração ou duas, o caso deles não teria sido melhor a longo prazo. Eles simplesmente teriam perdido a chance que ele tiveram. Deixados uma “nação eremita,” mais cedo ou mais tarde eles teriam caído sob a influência de um ou outro país ocidental, e sido tão seriamente retardados na corrida da civilização que eles nunca poderiam ter acompanhado.
A América era o único país que poderia ter aberto para eles a carreira maravilhosa que eles têm tido. O meio-dia do século XIX foi o momento dourado para o início do desenvolvimento deles ao longo da linha da civilização ocidental. [169]Se a hora não tivesse batido para eles então, ela não teria batido de maneira nenhuma. O tempo, a mão amiga, a influência protetora de um amigo altruísta em meio às nações, e o presente dourado do destino, todos foram representados para o Japão nas velas resgatadoras do barco do capitão Jennings, naquele dia de sorte no amplo Pacífico.
ORIGINAL:
CHAMBERLEIN, J. E. The Ifs of History. Philadelphia: Henry Altemus Company, 1907. p. 160-169. Disponível em: <https://archive.org/details/ifsofhistory00chamuoft/page/160/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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