O Livro Vermelho das Fadas - Rapunzel

O Livro Vermelho das Fadas


Editado por Andrew Lang


Prefácio e Conteúdos


[282]Rapunzel


Uma vez viviam ali um homem e a sua esposa, quem estavam muito infelizes porque eles não tinham filhos. Essas pessoas tinham uma pequena janela nos fundos da casa deles, a qual se abria para o jardim mais amável, cheio de toda forma de flores e vegetais amáveis; mas o jardim era cercado por uma alta muralha, e ninguém se atrevia a entrar nele, pois ele pertencia a uma bruxa de grande poder, quem era temida por todo o mundo. Um dia a mulher estava de pé à janela observando o jardim, e viu ali um canteiro cheio do mais fino rapúncio: as folhas pareciam tão frescas e verdes que ela ansiou por comê-las. O desejo crescia dia após dias, e exatamente porque ela possivelmente não poderia obter nenhum, ela consumiu-se e tornou-se bastante pálida e miserável. Então o esposo alarmou-se e disse:

O que incomoda você, querida esposa?’

Oh,’ ela respondeu, ‘se eu não conseguir um pouco de rapúncio do jardim atrás da casa para comer, eu seu que deverei morrer.’

O homem, quem a amava intensamente, pensou para si mesmo, ‘Vamos! Antes de deixar sua esposa morrer, você deve buscar para ela um pouco de rapúncio, não importa o custo.’ Então, ao escurecer, ele escalou a muralha para dentro do jardim da bruxa e, apressadamente recolhendo um bocado de folhas de rapúncio, ele retornou com elas para a esposa dele. Ela preparou-as em uma salada, a qual tinha o gosto tão bom que o desejo dela pela comida perigosa ficou maior do que nunca. Se ela devesse conhecer alguma paz de mente, nada havia senão que o esposo dela devesse escalar a muralha do jardim novamente e trazer mais um pouco para ela. Assim, ao escurecer, sobre a muralha ele foi, mas quando ele tinha chegado do outro lado, ele recuou em terror, pois ali, de pé diante dele, estava a velha bruxa.

Como você se atreve,’ ela disse, com um olhar odioso, ‘escalar para dentro do meu jardim e roubar meu rapúncio como um ladrão comum? Você deve sofrer por sua imprudência.’

Oh,’ ele implorou, ‘perdoe minha presunção; apenas a necessidade [283]conduziu-me ao feito. Minha esposa viu o seu rapúncio da janela dela, e concebeu um desejo tão grande por ele que ela certamente teria morrido se o desejo dela não tivesse sido gratificado.’ Então a ira da Bruxa foi um pouco acalmada, e ela disse:

Se é como você diz, você pode levar tanto rapúncio com quanto desejar, mas com uma condição apenas – que você me dê a criança que a sua esposa em breve trará ao mundo. Tudo deveria ocorrer bem com ela, e eu cuidarei dela como uma mãe.’

Em seu terror, o homem concordou com tudo que ela pediu, e, tão logo a criança nasceu, a bruxa apareceu e, tendo dado o nome de Rapunzel a ela, o qual é o mesmo do rapúncio, ela levou-a com ela.

Rapunzel era a criança mais bela sob o Sol. Quando ela tinha doze anos de idade, a Bruxa encerrou-a em uma torre, no meio de um grande bosque, e a torre não tinha nem escadas nem portas, apenas alto, no topo mesmo, uma pequena janela. Quando a velha Bruxa desejava entrar, ela ficava abaixo e bradava:


Rapunzel, Rapunzel,

Deixe o seu cabelo dourado cair.’


pois Rapunzel tinha um maravilhoso cabelo longo, e era tão belo quanto ouro em fios. Sempre que ela ouvia a voz da Bruxa, ela soltava as tranças dela e deixava o cabelo dela cair para fora da janela, aproximadamente a vinte jardas abaixo, e a velha Bruxa escalava através dele.

Depois delas terem vivido assim por alguns anos, um dia aconteceu que um príncipe estava cavalgando através da floresta e passou perto da torre. Enquanto se aproximava, ele ouviu alguém cantando tão docemente que ele parou sob encanto e ouviu. Era Rapunzel em sua solidão, tentando passar o tempo ao deixar sua voz doce ressoar no bosque. O Príncipe ansiou por ver a dona da voz, mas ele buscou em vão por uma porta na torre. Ele cavalgou para casa, mas estava tão assombrado pela canção que tinha ouvido que retornava diariamente ao bosque e ouvia. Um dia, quando ele estava de pé dessa maneira atrás de uma árvore, ele viu a velha Bruxa aproximar-se e ouvia bradar:


Rapunzel, Rapunzel,

Deixe o seu cabelo dourado cair.’


Então Rapunzel deixou cair suas tranças, e a bruxa escalou através deles.

Então essa é a escadaria, é?’ disse o Príncipe. ‘Então eu também a escalarei e tentarei minha sorte.’

[284]Assim, no dia seguinte, ao anoitecer, ele foi ao pé da torre e bradou:


Rapunzel, Rapunzel,

Deixe o seu cabelo dourado cair.’


e tão logo ela tinha deixado-o cair, o Príncipe escalou.

Inicialmente Rapunzel ficou terrivelmente assustada quando um homem entrou, pois ela nunca tinha visto um antes; mas o Príncipe falou com ela tão gentilmente e imediatamente disse a ela que o coração dele tinha sido tocado pelo canto dela, que ele sentiu que não deveria conhecer paz de mente até que ele a tivesse visto. Logo Rapunzel esqueceu o medo, e, quando ele a pediu para casar com ele, ela imediatamente consentiu. ‘Pois,’ ela pensou, ‘ele é jovem e lindo, e certamente eu serei mais feliz com ele do que com a velha Bruxa.’ Assim, ela colocou a mão na dele e disse:

Sim, alegremente eu irei com você, apenas, como eu desço da torre? Toda vez que vir me ver, você deve trazer uma meada de seda com você, e eu criarei uma escada delas, e, quando ela estiver terminada, eu escalarei para baixo e você me levará embora no seu cavalo.’

Eles combinaram isto: até que a escada estivesse pronta, ele devia vir a ela toda noite, porque a velha mulher estava com ela durante o dia. É claro, a velha Bruxa não conhecia nada do que [285]estava acontecendo, até que, um dia, Rapunzel, não pensando no que ela estava ocupada, voltou-se para a Bruxa e disse:

Boa mãe, como é que você é tão mais pesada de puxar para cima do que o jovem príncipe? Ele sempre está comigo em um instante.

Oh! Sua criança perversa,gritou a bruxa. ‘O que é isso que eu ouço? Eu pensei que tinha escondido você do mundo todo em segurança, e, a despeito disso, você conseguiu enganar-me.’

Em sua ira, ela agarrou o lindo cabelo de Rapunzel, enrolou-o ao redor e ao redor da sua mão esquerda e, em seguida, pegando um par de tesouras em sua mão direita, snip snap, ele caiu, as lindas tranças dela estavam no chão. E, pior do que isso, ela ficou de coração tão endurecido que levou Rapunzel para um solitário lugar deserto, e lá ela a deixou para viver em solidão e miséria.

Mas, na tardinha do dia no qual ela tinha expulso a pobre Rapunzel, a Bruxa amarrou as tranças em um gancho na janela e quando o Príncipe chegou e bradou:


Rapunzel, Rapunzel,

Deixe o seu cabelo dourado cair.’


ela deixou-as cair, e o Príncipe escalou como usual, mas, em vez da sua amada Rapunzel, ele encontrou a velha Bruxa, quem fixou seus olhos malignos, cintilantes nele e bradou zombeteiramente:

Ha, ha! Você pensava encontrar a sua dama amada, mas o belo pássaro fugiu, e a sua canção está muda; o gato pegou-a e arranhará os seus olhos também. Rapunzel está perdida para sempre para você – você nunca mais a verá.’

O Príncipe ficou além de triste e, em seu desespero, ele pulou diretamente para baixo da torre, e, embora ele escapasse com sua vida, os espinhos entre os quais ele caiu perfuraram seu olhos. Então ele perambulou, cego e miserável, através do bosque, nada comendo exceto raízes e amoras, e chorando e lamentando-se da perda da sua amável noiva. Assim ele perambulou para lá e para cá por alguns anos, tão miserável e infeliz quanto bem ele poderia estava, e, finalmente, ele chegou ao lugar deserto onde Rapunzel estava vivendo. Subitamente, ele ouviu uma voz que parecia estranhamente familiar para ele. Ele caminhou ansiosamente na direção do som e, quando estava bastante perto, Rapunzel reconheceu-o e caiu no pescoço dele e chorou. Mas duas das lágrimas dela tocaram os olhos dele, e, em um momento, ele tornaram-se bastante claros novamente, e ele enxergou como sempre ele tinha feito. Então ele conduziu-a para o reino dele, e eles viveram felizes para sempre depois.1


ORIGINAL:

LANG, A. The Red Fairy Book. Edited by Andrew Lang, with Numerous Illustrations by H. J. Ford and Lancelot Speed. London: Longmans, Green and Co., and New York: 15 East 16th Street, 1890. p.282-285. Disponível em: <https://archive.org/details/redfairybook00langiala/redfairybook00langiala/page/282/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[285]Grimm.

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