Os Ses da História XVII Se o Pai de Abraham Lincoln tivesse se movido em direção ao Sul e não em direção ao Norte

Os Ses da História


Por Joseph Edgar Chamberlin


Prefácio e Conteúdos


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[150]Capítulo XVII Se o Pai de Abraham Lincoln tivesse se movido em direção ao Sul e não em direção ao Norte


As duas divisões na Guerra Civil na América foram lideradas por dois homens, Abraham Lincoln e Jefferson Davis, o primeiro, o presidente dos Estados Unidos, e o segundo, o presidente dos Estados Confederados, quem nasceram dentro de aproximadamente cem milhas um do outro no estado do Kentucky, e dentro de nove meses do momento um do outro no tempo. Pois foi em junho de 1808 que Jefferson Davis primeiro viu a luz em Christian County, Kentucky, e em fevereiro de 1809 que Abraham Lincoln nasceu em Hardin County, no mesmo estado.

[151]Samuel Davis, o pai de Jefferson Davis, e Thomas Lincoln, o pai de Abraham Lincoln, eram homens da mesma origem anglo-americana, e as famílias eram originalmente virtualmente da mesma classe, embora Thomas Lincoln, sem dúvida como o resultado da morte do pai dele nas mãos dos índios, quando Thomas era uma criança, tinha caído um pouco na escala social. Os dois homens tornaram-se insatisfeitos com as condições materiais em Kentucky aproximadamente ao mesmo tempo, e ambos emigraram com suas famílias. Mas Samuel Davis foi em direção ao sul, para o Mississípi, enquanto Thomas Lincoln foi em direção ao norte, para Indiana.

Que os filhos desses kentuckianos tivessem neles o fogo do gênio, a história do país deles tem provado abundantemente. Cada um destinado, pela força constrangedora dos seus caráter e dons a desempenhar um grande papel. Como todos os outros homens, cada um foi moldado pelo seu ambiente. O iletrado Thomas Lincoln foi creditado [152]pelo seu filho imortal com a intenção de, ao emigrar, escapar de um estado de escravos. Mas não é provável que o filho, profundamente preocupado como ele estava, em anos posteriores, com a questão da emancipação dos escravos, tivesse projetado em retrospectiva, através de um hábito psicológico comum a toda a humanidade, essa ideia da sua própria mente naquela do seu pai? Com toda a probabilidade, nenhum outro motivo que aquele do acidente ou da conveniência – pois Thomas Lincoln era um homem pobre e bastante “indolente” – impeliu o pai de Abraham Lincoln a ir para Indiana em vez de seguir a trilha que tantos dos mais empreendedores kentuckianos estavam tomando para Mississípi ou Louisiana. Era para aquela seção que a iniciativa acenava, pois a agricultura era realizada em uma larga escala no sudoeste, e plantações mais amplas estavam abertas para o colono aventureiro. Por outro lado, Indiana era um “país de homem pobre.”

E se Thomas Lincoln tivesse possuído [153]um pouco mais de energia, e um pouco mais de xelins, e tivesse ido para Mississípi em vez de para Indiana e depois para Illinois? E se ele tivesse se tornado um proprietário de plantação e escravos e, dessa maneira, tivesse sujeitado o seu menino Abraham à influência irresistível de um ambiente sulista? Até onde eu posso lembrar, Mississípi nunca produziu um homem antiescravidão.

Nesse caso, não teria havido nenhum Abraham Lincoln pela causa nacional, pela salvação da União, pela emancipação dos escravos. Por outro lado, em toda probabilidade, o poder e a paciência tremendos da natureza de Lincoln, a majestade e grandeza do seu caráter, os recursos do seu intelecto, teriam sido acrescentados à soma da estadística que foi alistada do lado sulista.

É até concebível que Lincoln, em vez de Davis, teria sido o presidente da Confederação Sulista. Apenas uma combinação das [154]circunstâncias mais extraordinárias fez dele o indicado do partido republicano à presidência em 1860. Se ele tivesse sido o estadista e político principal do Mississípi, o caminho dele para presidência da confederação teria sido comparativamente fácil.

Sem Lincoln, a agitação antiescravidão teria prosseguido exatamente da mesma forma. O partido republicano teria se constituído exatamente da mesma maneira. Tudo até o dia 18 de maio de 1860, quanto Lincoln foi indicado para presidente em Wigwam em Chicago, teria ocorrido exatamente da mesma maneira. Mas carecendo-se de Lincoln, que mundo de coisas teria acontecido diferentemente depois!

Em primeiro lugar, é provável que Seward teria sido nomeado para presidente. Muito provavelmente ele não teria sido eleito; e como foi com Lincoln, quem “expulsou com fumaça” Douglas, é provável que Douglas [155]teria prevalecido sobre todos os outros candidatos democráticos e tivesse sido indicado em Charleston e eleito presidente.

Caso no qual não teria havido nenhuma secessão e, muito provavelmente, nenhuma guerra, ou à época ou posteriormente. A escravidão teria se tornado entrincheirada, para se render, talvez, no fim, apenas a influências econômicas, a operação das quais já a teriam condenado.

Mas se Seward tivesse sido nomeado e eleito, a secessão teria ocorrido, e a guerra teria resultado. O tipo de líder que a União teria tido em Seward pode ser inferido, com certeza perfeita, a partir da famosa, ou antes, infame, proposição intitulada, “Some Thoughts for the President’s Consideration,” a qual Seward solenemente apresentou diante de Lincoln menos de um mês depois da inauguração dele. Esse documento extraordinário, um dos programas mais sem sentido e perversos [156]alguma vez preparados por um homem de estado, defendia uma mudança da questão nacional da escravidão para uma guerra estrangeira; ele aconselhava que guerra fosse imediatamente declarada contra França e Espanha, e “explicações demandadas” da Grã-Bretanha e Rússia! Para que esse programa brilhante pudesse ser realizado exitosamente, Seward sugeria que ele mesmo fosse tornado ditador!

Eu repito que esse esquema ilustrou o tipo de material alternativo que nós deveríamos ter tido, carecendo-se de Lincoln. De fato, Chase, quem também era o um candidato principal para a presidência teria sido mais sábio. Mas em nenhuma posição que ele alguma vez manteve, depois de 1860, Chase apresentou quaisquer dos frutos de gênio. Cameron, da Pensilvânia, era um homem maior, mas não comandava suporte geral. Tampouco o fazia Edward Bates, do Missouri, também um candidato ocidental para a presidência.

Os grandes soldados que finalmente [157]triunfaram no campo de batalha como instrumentos da política de Lincoln e abriram caminho à luta para a vitória pela União – Grant, Sherman, Thomas, Meade, Sheridan – teriam se alinhado para o lado nortista exatamente da mesma maneira se Lincoln ou outro candidato tivesse estado na liderança das questões. Mas é duvidoso se outro presidente os teria encontrado. Lincoln cometeu seus próprios erros graves na consideração de homens. Mas ele não apresentou nenhum general porque esse general era homem dele. Ele observava e esperava. Ele mesmo um homem do povo, grandemente simples, ele de alguma maneira farejava os homens do mesmo tipo. Todos os generais que se provaram grandes foram suas descobertas.

Contudo, a estrutura das realizações de Lincoln não foi o resultado de circunstâncias negativas. Ela não surgiu porque as coisas não foram exatamente assim e assim. Ela foi uma coisa positiva – o resultado das operações positivas de um gênio poderoso, o qual as pessoas [158]reconheceram antes que os políticos e escritores o fizessem. Na mente das pessoas, a guerra era a guerra do “Velho Abe.” Era o Velho Abe que estava no comando. O Congresso não sabia disso, mas ele estava realmente operando a vontade de Lincoln. O gabinete nem sempre sabia disso, mas era Lincoln quem realmente fazia o que queria. Ele mantinha o seu próprio comando. Ele realizava seus planos.

O povo estava certo. Era o Velho Abe quem estava fazendo as coisas. E sem ele, as coisas mais importantes não teriam sido feitas. Ele foi uma criação original – como Lowell disse, um “novo nascimento do nosso novo solo, o primeiro americano.” Por ele, a natureza jogou de lado seu moldes do velho mundo,


E, escolhendo doce argila do peito

Do Ocidente não exaurido,

Com material não maculado deu forma a um novo herói,

Sábio, firme na força de Deus, e verdadeiro.


Contudo, o que poderia ser mais claro do que Abraham Lincoln, quem, por nascimento e herança era do sul, não do oeste, [159]poderia ter voltado a sua força para o suporte de uma causa bastante diferente se o acidente do destino tivesse enviado-o em direção ao sul, não em direção ao norte, na sua infância?


Próximo capítulo


ORIGINAL:

CHAMBERLEIN, J. E. The Ifs of History. Philadelphia: Henry Altemus Company, 1907. p. 150-159. Disponível em: <https://archive.org/details/ifsofhistory00chamuoft/page/150/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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