Os Ses da História XX Se o Presidente Buchanan tivesse feito cumprir uma Lei em Novembro de 1860

Os Ses da História


Por Joseph Edgar Chamberlin


Prefácio e Conteúdos


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[176]Capítulo XX Se o Presidente Buchanan tivesse feito cumprir uma Lei em Novembro de 1860


Falando do acendimento dos fogos da guerra civil neste país nos anos de 1860 e 1861, Charles Francis Adams disse, em 1873, “Uma única hora da vontade exibida pelo general Jackson teria abafado o incêndio no seu berço.” A metáfora na última frase é peculiar, e estranhamente celta para um ianque, mas a história é verdadeira.

Montgomery Blair expressou a ideia com simplicidade e vividez maiores nesse mesmo ano, 1873, nestas palavras, “Se nós pudéssemos ter conservado Fort Sumter, nunca teria havido [177]uma gota de sangue derramado.” Essas duas observações foram feitas por homens que, em algum sentido, tinham sido atores nos eventos aos quais eles se referiram, e feitas depois de anos de reflexão sob as circunstâncias.

Não parece para os americanos da presente geração que alguma vez houve um momento, após a eleição de Abraham Lincoln, quando a Guerra Civil pudesse ter sido evitada. Em retrospectiva, ela parece ter sido absolutamente inevitável. Contudo, certamente houve um momento quando, se o presidente Buchanan tivesse tido a coragem para aplicar as visões gerais que ele mesmo propôs na sua mensagem anual ao Congresso de 3 de dezembro de 1860, e na sua mensagem especial de 8 de janeiro de 1861, as quais explicitamente negavam o direito de secessão, uma pausa poderia ter sido convocada para a rebelião crescente.

Inicialmente a secessão esteve concentrada no estado da Carolina do Sul. Esse estado, durante todo o inverno de 1860-1861, esteve [178]apresentando ao resto do Sul uma lição objetiva de nulificação exitosa.

Em 1833 a Carolina do Sul tinha ordenado a nulificação, mas a sua ordem foi tão instantânea e pesadamente reprimida pelo presidente Andrew Jackson que o estado foi absolutamente incapaz de a levar a cabo, ou mover mão e pé. Mas agora, em 1860, ele não meramente ordenou a nulificação – ele decretou-a. Cada juiz federal, cada servidor judicial, e quase qualquer oficial federal, na Carolina do Sul, renunciaram, e a nação foi deixada sem um agente para fazer cumprir as suas leis, pois nenhum novo foi enviada. A autoridade dos Estados Unidos no estado estava no fim, salvo pela alfândega em Charleston e Fort Moultrie no porto de Charleston.

Enquanto a Carolina do Sul foi deixada sozinha, o caso dela evidentemente dizia a todos os outros estados escravistas, “Vocês veem, nós podemos nos retirar da União; nós nos retiramos da União; e [179]União não deu um passo para nos manter dentro; você podem fazer a mesma coisa.”

Nesse momento, Carolina do Norte e Virgínia eram opostas à secessão. O governador Sam Houston, do Texas, erguia-se como uma rocha contra ela. Kentucky, Maryland, Missouri, nunca se separaram. Outros estados estavam vacilantes. Uma grande parte dependia do grau de sucesso que a Carolina do Sul, o líder da revolta, poderia ter. E foi Buchanan quem permitiu ao sucesso da Carolina do Sul tornar-se aparentemente completo, embora na mensagem à qual eu me referi, o presidente declarou que a secessão era “inteiramente inconsistente com a Constituição,” que “nenhum poder humano poderia absolvê-lo (o presidente) do seu dever de fazer cumprir as leis,” e que o perigo da disrupção nacional estava sobre o país. Em sua mensagem de dezembro, Buchanan efetivamente citou a denúncia solene por Jackson da doutrina de que um estado tinha um direito a separar-se da União.

[180]Mas, enquanto ele estava fazendo essas terríveis admissões do seu dever, o que Buchanan estava fazendo? Em vez de segurar as mãos dos deputados da nação na Carolina do Sul, ele estava enfraquecendo-os. Em vez de fortalecer a guarnição federal no porto de Charleston, ele permitiu-a diminuir até estivesse sem poder para dar um único passo. De fato, ele não realizou nenhum ato, mas contentou-se em convocar o Congresso por legislação para responder à emergência. E, é claro, a partir do Congresso ele não pôde obter nada, pois os deputados sulistas não votariam por nenhuma legislação semelhante, e os membros republicanos estavam decididos a esperar que Lincoln, quem tinha sido eleito presidente, chegasse em Março, e os democratas nortistas estavam paralisados com pusilanimidade.

Dessa maneira, a Carolina do Sul prosseguiu provando para os outros estados que ela poderia “ir sozinha.” Um depois do outro, esses estados se separaram da [181]União. Arsenais nortistas foram esvaziados de armas. Oficiais sulistas saíram do exército um por um e aprontaram-se para organizar o exército da nova Confederação que estava se formando sob o nariz do presidente.

Era um momento para o braço forte, para ação rápida, decisiva, jacksoniana e absolutamente não melindrosa. Mas nenhuma ação semelhante foi tomada. O momento dourado foi perdido, e quando, três meses depois, Lincoln chegou, finalmente a guerra, com todos os seus horrores, estava sobre o país.

Se a jovem rebelião tivesse sido cortada pela raiz, como ela poderia ter sido, por uma aplicação rígida, em novembro e dezembro de 1860, dos processos judiciais federais na Carolina do Sul; se as leis dos Estados Unidos tivessem sido feitas cumprir naquele estado à ponta de baioneta, se necessário fosse: se um funcionário federal, sustentado por uma ampla força das tropas dos Estados Unidos, tivesse despedaçado a ordem de secessão da Carolina do Sul [182]nos degraus do capitólio em Colúmbia, sem nenhuma consideração tenra pela interpretação da Constituição pela Carolina do Sul, é provável que os estados irmãos da Carolina do Sul teriam estado tão prontos a separarem-se?

Muito provavelmente poderia não ter sido necessário fazer nenhuma dessas coisas. Se Buchanan meramente se levantado e dito, como Jackson fez em 1833, “Eu deverei fazer cumprir as leis dos Estados Unidos a despeito de qualquer e toda resistência que possa ser feita,” aí bem poderia não mais ter havido secessão em 1860 ou 1861 do que não tinha havido nulificação real em 1833.

E então, se esse passo tivesse sido dado, e não tivesse havido guerra? E quanto à escravidão? Pode ser perguntado. É concebível que o sentimento nortista teria permitido à escravidão pessoal continuar? A guerra não era inevitável apenas sobre essa questão principal? Vejamos. O sentimento pela emancipação absoluta e súbita foi o produto da guerra. [183]Lincoln não era um abolicionista. O partido republicano não era abolicionista.

Sem guerra, mas com os estados sulistas mantidos dentro da União, o sentimento no Norte teria sido favorável a um compromisso que teria impedido a extensão da escravidão; e certamente eventos teriam causado uma liberação gradual dos negros no Sul, como eventos logo acabaram com a escravidão no Brasil e em Cuba. A instituição estava condenada, moral e economicamente.

Mas não teria havido nenhum sufrágio negro. Isso foi forçado pelas condições que surgiram a partir da guerra. O Sul não teria sido empobrecido, e poderia ter propiciado uma educação gradual do negro de maneira tal a ajustá-lo para indústria livre e, de uma maneira limita, para o exercício do sufrágio. Não teria havido nenhuma inversão perturbadora da posição das duas raças, a ser seguida por uma restauração violenta [184]da supremacia branca e um acompanhante desenvolvimento de hostilidades inveterada entre brancos de negros. Os distritos não teriam sido separadas em condições industriais e constituição social, como elas foram sob as circunstâncias da guerra; talvez nós não deveríamos ter tido um Norte enlouquecido por dinheiro para contrabalançar um Sul arruinado, desolado, abatido.

E onde, em Antietam, em Gettysburg, em Fredericksburg, em Chattanooga, e em muitos campos mais humildes, as bandeias ondulam sobre os fileiras iguais de miríades de túmulos de soldados, os mimos cantariam em arbustos que o silvo de balas e o guincho do projétil nunca tinham profanada, enquanto as suas populações abundantes de homens mortos ou estariam vivos hoje em dia ou enterrados entre os seus entes queridos, após vidas de utilidade pacifica.


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ORIGINAL:

CHAMBERLEIN, J. E. The Ifs of History. Philadelphia: Henry Altemus Company, 1907. p. 176-184. Disponível em: <https://archive.org/details/ifsofhistory00chamuoft/page/176/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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