A Grande Busca dos Imortais XIII Como o Doutor apresentou um Curso de Preleções sobre a História da Terra e os seus Habitantes

A Grande Busca dos Imortais, traduzida de Um Manuscrito Não publicado na Biblioteca de uma Universidade Continental


Por James William Barlow


Prefácio e Conteúdos


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[159]Capítulo XIII Como o Doutor apresentou um Curso de Preleções sobre a História da Terra e os seus Habitantes


Como o Doutor apresentou um curso de preleções sobre a História da Terra e os seus Habitantes – Dos efeitos dessa descrição medonha – Da tentativa de dois hesperianos de alcançarem a Terra; e do seu resultado insatisfatório.


[Neste ponto as notas do doutor tornaram-se bastante escassas: ainda assim, os fatos seguintes podem ser prontamente extraído a partir dos memorandos dele. Hésperos era a morada de cem milhões de seres racionais e altamente cultos, igualmente incapazes de aumentarem ou diminuírem em número, restritos a existirem sobre a superfície do planeta, e firmemente acreditando na existência de um Criador inteligente, quem, embora em todas as obras dele que fossem acessíveis a eles, ele manifestasse marcas inequívocas de benevolência, recusava-se a falar ou a manter qualquer comunicação com a sua criação inteligente. [160]E todavia, por tal comunicação eles ansiavam com toda a sua alma e toda a sua força. Os vastos templos erigidos nas cidades deles para o Deus Desconhecido, e os serviços solenes realizados neles, assim como a intensa devoção deles a todos os ramos de ciência natural, igualmente indicavam o seu anseio para penetrarem no mistério do mundo material, e alcançarem o espírito que eles acreditavam existir atrás.

As esperanças que tinham sido excitadas há tantos anos pela descoberta da imensidade do universo quando o bloqueio de nuvens foi atravessado tinham acabado em desapontamento amargo. A vastidão de poder da parte do Criador tinha sido fortemente ilustrada; mas, muito certamente, nenhuma luz tinha sido lançada sobre qualquer um dos seus outros atributos. Assim, é fácil entender a intensidade de interesse com a qual as notícias de uma chegada a partir de outro mundo foram recebidas. Que o visitante deles vinha da Terra foi imediatamente determinado, como nós já vimos, através da familiaridade dele [161]com os mapas da Terra no museu em Lucetta.

Quando essa chegada maravilhosa foi telegrafada na metrópole, o parlamento mundial instantaneamente se reuniu. Foi resolvido que um comité deveria ser nomeado em Lucetta, cuja tarefa deveria ser, primeiro, aprender a linguagem do estranho, e então comunicar a ele uma descrição geral de Vênus, e os fatos principais na história dos seus habitantes, de modo a possibilitar a ele trazer diante deles os pontos principais de concordância e diferença nas condições de vida nos dois planetas. Que essas instruções foram bem realizadas pelo comité está manifesto a partir das notas que foram trazidas à luz e traduzidas para a língua inglesa.

Tão logo esse processo preliminar foi completado, o doutor, por sua vez, foi requisitado a conceder aos hesperianos um relato das coisas da Terra; da sua condição física; dos seus animais irracionais, supondo-se [162]que esses existissem; dos seus animais racionais, um dos quais eles tinham visto; e, por último, responder à grande questão das questões – Se os seres racionais terrestres tinham qualquer conhecimento direto do Criador do todo.

Sobre todos esses pontos ele apresentou preleções na catedral de Lucetta, para uma audiência superlotada de mais cinco mil pessoas. A partir das notas breves no seu livro de bolso, é fácil inferir o seu modo de tratar os assuntos acima. É claro, o leitor terá em mente a grande intensidade da misantropia dele.

Ele começou descrevendo a condição física da superfície da Terra e contrastando-a, muito para a desvantagem dela, com aquela de Hésperos. Em ilustração das observações perversas dele, ele parece ter feito muito uso dos grandes mapas terrestres que tinham sido construídos nos observatórios. O terrível clima polar da Terra surgiu muito desfavoravelmente quando comparado com aquele das regiões correspondentes de Hésperos; como [163]também o calor ardente da zona tórrida, desprotegida dos raios solares por um permanente bloqueio de nuvens. Ele expandiu, com muito deleite, sobre os fenômenos de terremotos, vulcões, trovão e relâmpago, dilúvios, secas, grandes tempestades de areia, e outras peculiaridades terrestres de um caráter desagradável, os quais eram bastante desconhecidos para os hesperianos.

Conforme ele abordava o reino animal, os espíritos dele parecem ter subido. A abundância sobre a Terra de tipos repugnantes e nocivos de vida animal; a fecundidade portentosa; a formação da sua espécie inteira que apenas pode viver destruindo e devorando o mais fraco e mais sem defesa, foram alegremente contrastadas com a fauna inocente de Hésperos, confinada a um número pequeno de animais inofensivos, frugíferos, nos quais o poder de reprodução nas mais do que é suficiente para manter a raça.

Mas quando ele chegou a explicar a natureza e as circunstâncias da vida racional terrestre, [164]o ódio de Van Varken pelos yahoos irrompeu em uma descrição que parece ter enchido a congregação hesperiana com horror e desânimo. A entrada do ser humano na vida através do mesmo processo reprodutivo que aquele dos animais inferiores; a redundância de poder reprodutivo, em respeito aos meios de subsistência, a qual é uma das maldições da raça; a sua infância indefesa; a sua educação miserável; a suscetibilidade a doenças horríveis e torturantes; sua extinção precoce por morte; a civilização baixa na qual as massas vegetam, levando as vidas de gado; o seu ódio mútuo: suas guerras incessantes – todos esses tópicos, e muitos mais de natureza similar foram discorridos pelo doutor com uma veemência alegre que muito assombrou a audiência dele e intensificou o contraste entre todas essas abominações e a vida social em Hésperos.

Quando à questão final – aquela do Criador de todos – ele começou expressando hipocritamente [165]o seu arrependimento profundo de que a sua profissão como um doutor de medicina tornasse-o apenas uma pessoa mal qualificada como uma expositor de teologia; ele também professou um desejo sério de que um instruído terrestre doutor de teologia pudesse ser encontrado para o aliviar de uma uma tarefa tão incompatível. O leitor prontamente apreciará a sinceridade das suas aspirações pela ajuda de um teólogo yahoo.

Em seguida, ele prosseguiu para informar a audiência dele de que os habitantes da Terra, não estando incluídos, como os hesperianos, em um único império vasto, mas estando dispersos em um grande número de nacionalidades independentes, as quais variaram muito em seus graus de civilização, tinham formado para si mesmos sistemas teológicos igualmente variantes. Que aqueles que estavam nos graus inferiores, ou absolutamente não reconheciam o Criador, ou, se eles o reconhecessem, consideravam-lhe como um demônio que apenas devia ser aplacado ao oferecer-lhe sacrifícios sangrentos. Que havia outro sistema de crenças religiosas, os seguidores [166]do qual estavam em um estado muito mais elevado de civilização do que aqueles falados por últimos, quem sustentavam que todos os crentes verdadeiros (significando eles mesmos) seriam por fim admitidos a um paraíso de deleites sensoriais, o passaporte mais efetivo sendo a extirpação, pela espada, dos infiéis (significando todo o resto). Esse outros sistema, os seguidores do qual eram, talvez, os mais numerosos de qualquer um, ensinavam que o Criador por fim concederiam a dádiva da cessação de existência para as criaturas dele, mas apenas após eles terem passado por uma longa série de transmigrações em outras formas de vida.

Finalmente ele chegou à forma de religião que descrevia como aquela que, embora não incluindo o maior número, é certamente professada por todos dos tipos mais civilizados da humanidade. Na exposição da fé cristã pelo doutor nós não precisamos entrar. É suficiente dizer que, quando ele chegou à afirmação explícita – comunicada com marcas evidentes de deleite – de que o Criador projetou a maior parte da raça humana [167]para viver eternamente em tortura excruciante por fogo, a inteira assembleia simultaneamente ficou de pé e deixou a catedral. Eles não ouviriam mais nada.

Cada palavra dessas preleções extraordinárias era automaticamente registrada e enviada através do mundo tão rapidamente quanto comunicada. A inteira história da Terra contida ali foi sentida como um relâmpago sobre os hesperianos, quem estavam bastante despreparados para qualquer revelação similar do Desconhecido. Depois disso, as notas mostram que o doutor teve muitas entrevistas e discussões com pessoas de todas as partes, mas nenhum memorando deles deve ser encontrado. Claramente, o resultado das comunicações dele foi uma intensificação da tristeza que prevalecia em Hésperos. As esperanças das pessoas, as quais tinham sido tão fortemente excitadas pela chegada deles, foram tão subitamente mudadas em desânimo. E nenhuma surpresa; pois, certamente, notícias de um Criador tal como o Ser retratado pelo visitante deles, não foram calculadas para elevar nenhum deleite entusiasmado.

[168]Dúvidas parecem ter brotado entre alguns dos hesperianos quanto à precisão perfeita das afirmações dele, as quais, como um ou dois dos jornais principais bastante evidentemente insinuava, possivelmente poderiam ser coloridas por prejudicado. De fato, tão incríveis algumas das partes das preleções dele pareceram, que duas pessoas empreendedoras, então no período rejuvenescente da vida, voluntariaram-se para tentar a passagem para a Terra, se Van Varken desejasse confiar a eles o segredo da transferência. Eles desejavam examinar os fenômenos terrestres, tanto religiosos quanto temporais, por si mesmos.

Dr. Van Varken, quem ficou muito mortificado diante dessas suspeitas quanto à veracidade dele, recebeu-nos com um pouco de frieza. Ele fez duas objeções a proposta deles. Primeiro, ele estava sob um juramento de segredo com o sr. Homi, e, em segundo lugar, a tentativa seria acompanhada por perigo extremo para eles mesmos. Pois era bastante impossível de dizer antecipadamente em qual região da terra eles poderiam aterrissar; e, [169]se eles topassem com uma nação incivilizada, morte por lesão mortal, e essa além da influência salutar do polo hesperiano, seria o destino quase certo deles.

Mas a indignação dele diante das suspeitas indignas deles, e o desejo ardente dele de que uma prova irrefragável da verdade das afirmações dele poderia ser propiciada para os céticos, através de uma inspeção atual da terra pelos dois pares de olhos hesperianos, finalmente superou os escrúpulos dele. Ele argumentou que, na medida que ele mesmo tinha efetivamente descoberto o modo de atravessar o espaço interplanetário, ele não estava, nesse aspecto, obrigado por nenhuma promessa com o sr. Homi; e que, tendo advertido aos aventureiros do risco que eles corriam, o dever dele com eles estava quitado. Assim, finalmente, ele desistiu e comunicou o segredo da transferência interplanetária através do processo de desintegração.

Tudo em vão; a desintegração foi efetuada imediatamente como a dificuldade mais leve; mas, quando esse estágio foi alcançado, a polaridade hesperiana provou-se forte demais para a influência terrestre; [170]ela superou-a instantaneamente, e os dois missionários para a Terra, para o desgosto muito grande dele, encontraram a si mesmos reintegrados, em segurança perfeita, no polo sul de Vênus, de acordo com a lei ordinária. Ficou bastante evidente que os hesperianos estavam absolutamente presos no planeta deles, e que a fuga, mesmo se ela fosse desejável, era desesperançada.


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ORIGINAL:

BARLOW, J. W. The Immortals' Great Quest, translated from An Unpublished Manuscript in the Library of a Continental University. London: Smith, Elder & Co.,15, Waterloo Place, 1909. p. 159-170. Disponível em: <https://archive.org/details/immortalsgreatqu00barl/page/159/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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