Os Ses da História XVI Se James MacDonnell não tivesse fechado os Portões do Castelo de Hugomont

Os Ses da História


Por Joseph Edgar Chamberlin


Prefácio e Conteúdos


Capítulo anterior


[138]Capítulo XVI Se James MacDonnell não tivesse fechado os Portões do Castelo de Hugomont


De acordo com o duque de Wellington mesmo, o sucesso dos aliados na batalha de Waterloo resultou a partir de uma contingência surpreendentemente trivial, a saber, o fechamento de um portão ou porta de madeira na muralha de uma construção. Esse fato foi conclusivamente trazido quando, anos após a batalha, um clérigo inglês, o sr. rev. Narcross de Framlingham, morreu e deixou em seu testamento a soma de quinhentos libras simplesmente “para o homem mais corajoso na Inglaterra.” Os executores do testamento ficaram completamente perplexos. Quem [139]era o homem mais corajoso na Inglaterra? Sem dúvida muitos se apresentariam alegremente para reivindicar a distinção e o legado, mas quem era digno deles? Em sua dificuldade os executores solicitaram ao duque de Wellington uma resposta para a questão.

O Duque de Ferro não era um homem a ser derrotado por qualquer questão que fosse, ainda menos por uma militar. Ele retrocedeu um pouco em suas memórias – até que ele chegou à batalha de Waterloo. Então ele escreveu aos executores do eclesiástico Framlingham que essa batalha foi a maior que tinha sido disputada em tempos recentes. “O sucesso dela,” ele prosseguiu para dizer, “consistiu no fechamento dos portões de Hugomont; esses portões foram fechados da maneira mais corajosa, no último instante, por sir James Macdonnel; e ele é o homem a quem vocês deveriam pagar as quinhentas libras.”

Portanto, os executores foram a sir James com o dinheiro; mas ele [140]disse a eles: “Eu não posso reivindicar todo o crédito pelo fechamento dos portões de Hugomont. Meu sargento, John Graham, vendo a importância da medida, correu para me ajudar; e, com a sua permissão, eu compartilharei o legado com ele.” A requisição foi concedida e, nessa medida, o fato de que sir James Macdonnel e John Graham tinham fechado os portões do Hugomont, desse modo encerrando a questão da batalha e o destino da Europa, tinha sido estabelecido judicialmente.

Vejamos que eventos penderam sobre esse ato, e como eles dependeram dele. O exército com o qual o grande Napoleão encarou a mistura heterogênea de britânicos, prussianos, hanoverianos, holandeses e belgas em Waterloo era menor do que aquele dos Aliados, mas vastamente mais eficiente como um todo. A maioria das tropas dos Aliados eram inexperientes, e alguns deles eram material ruim, de fato. Os soldados de Napoleão eram endurecidos, [141]experientes, bravos e esplendidamente comandados.

Napoleão tinha feito os Aliados recuarem em Quatre Bras. Ele capturou a posição deles em La Haye Sainte. Ele percebeu que a chave estratégica para o inteiro campo de batalha estava na colina coroada pelo velho château de pedra de Hugomont. Se ele pudesse ser tomado, Napoleão seria capaz de atacar e mudar o flanco direito de Wellington. Isso realizado, uma junção de Blücher e seus prussianos com os ingleses seria evitada; as forças dos Aliados seriam divididas em duas, e, com toda a probabilidade, Napoleão derrotá-los-ia em separado, de acordo com seu método antigo. O imperador poderia facilmente ter eliminado os austríacos por sua vez, como ele planejou fazer; e a tentativa europeia combinada de o destituir teria sido frustrada. Desse modo, o corso teria sido, provavelmente enquanto ele vivesse, o mestre da França, pelo menos, mesmo se as restrições que [142]ele já tinha recebido, tivessem restringido o seu domínio do resto do continente.

Sabendo bem que nesse lance o seu destino estava apostado, Napoleão lançous as suas melhores tropas, sob o Príncipe Jerome, contra o pequeno velho château sobre a colina. Repetidamente ele o assaltou. Doze mil homens foram lançados contra o castelo meio dilapidado, o qual tinha sido perfurado com buracos pelos rifleiros britânicos. E aqui e agora ocorreu o incidente crucial cuja importância foi avaliado tão altamente por Wellington. Em um momento, quando a defesa principal do château foi confiada aos guardas Coldstream, sob o coronel James Macdonnel, os franceses estavam por um triz de o tomar. Eles empurraram contra o portão do castelo, e efetivamente o abriram à força, quando os guardas Coldstream atacaram com suas baionetas, forçando a fileira avançada dos franceses a recuar um pouco.

Mas os franceses estavam infiltrando-se [143]e não poderiam mais ser contidos à ponta da baioneta. Foi nesse instante, quando uma leve margem de manobra tinha sido ganha, que o coronel Macdonnel e o sargento Graham, debaixo de um fogo irritante dos franceses, caminharam adiante e, com as suas próprias mãos, fecharam os portões do château, barricando-os e, dessa maneira, possibilitando às tropas retomarem o seu feroz fogo de rifle a partir de dentro.

Depois disso os franceses fizeram muito mais assaltos contra os portões pesados, e não puderam abri-los à força novamente. Entrementes, Wellington comandava o avanço geral, seguindo uma repulsão nova do ataque francês; e a linha francesa foi lançada em confusão. Ele sabia que Blücher agora estava em sua mão – por essa hora era pouco depois das sete da noite – para o suportar. De fato, Blücher chegou e atacou e esmagou a direita francesa, forçando Napoleão a retirar-se em desordem. Dessa maneira, foi completada a vitória que a defesa heroica [144]de Hugomont tinha tornado possível.

O esmagamento da ala direita do exército britânico nessa ocasião, tivesse Napoleão sido capaz de o efetuar dessa maneira, teria revertido uma grande parte da história. Não é necessário aceitar uma visão extrema da situação para compreender isso. No campo de batalha imediato, os britânicos, os holandeses e os hanoverianos deveriam ter sido forçados a retroceder para Bruxelas, e Blücher teria sido incapaz de sustentar um fronte contra os franceses. Mesmo se os remanescentes dos exércitos aliados tivessem escapado e feito outra resistência, Napoleão deveria ter instantaneamente reconquistado um grau de prestígio e posição que o teria possibilitado a consolidar seu poder em casa e fazer acordos excelentes no exterior. Mesmo depois de Leipzig, quando ele tinha parecido estar completamente derrotado, as potências teriam ficado dispostas a conceder-lhe as “fronteiras naturais” da França – a saber, o Reno, os Alpes, e os Pirineus.

[145]É provável que Leipzig e Elba já tivessem ensinado ao imperador sabedoria que o impediria de tentar levar uma vez mais as fronteiras do seu domínio até o Báltico, ou parcelar o resto da Europa entre os seus parentes e dependentes. Mas no interior das fronteiras que eu nomeei, e a oeste do Reno, ele deveria ter permanecido inexpugnável; e todas as consequências momentosas que resultaram dessa derrota tinham de ter sido frustradas e deixadas de lado.

A partir da vitória dos Aliados em Waterloo veio, primeiro, o banimento e a morte prematura de Napoleão Bonaparte; a colocação de Luís XVIII no trono da França; a submissão completa da Revolução; a criação do reino unido da Holanda e da Bélgica (o que significou o moderno estado belga intensamente industrializado, e Leopoldo e o Congo); o engrandecimento e a liderança duradoura da Prússia na Alemanha; a fundação da Itália moderna [146]através da anexação da república genovesa ao reino do Piemonte; o alargamento da Suíça por três cantões tomados da França; a retirada da Noruega da Dinamarca e a sua concessão para a Suécia; a absorção do que restou da Polônia pela Rússia – e algum reparcelamento de território em um sentido arbitrário que, mesmo assim, pela maior parte, tem perdurado. Escassamente há alguma articulação política na Europa de hoje que não date de Waterloo; novas tendências que então tiveram o seu princípio ainda operam!

Indiretamente, as consequências foram momentosas. O engrandecimento da Prússia preparou o cominho para a unificação da Alemanha e a atrofia da Áustria como um estado alemão. Como eu tenho dito, o alargamento o Piemonte prenunciou uma Itália unificada, e construiu outra potência que tem contribuído para o encolhimento forçado da Áustria. Os dois grandes estadistas [147]construtivos europeus do século XIX, Bismarck e Cavour, foram ambos filhos de Waterloo.

Todas essas tendências poderiam ter estado operando exatamente no sentido oposto, se o coronel Macdonnel não tivesse sucesso no fechamento dos portões do château! Contudo, ainda há mais em estoque. Consequências intelectuais e morais de importância maior, talvez, do que os resultados políticos, ameaçaram. A vitória dos Aliados foi seguida por um período de repressão severa das tendências populares na Europa. A Santa Aliança, a qual se tornou uma liga continental de monarcas contra ideias liberais, foi uma consequência direta. Ela inaugurou a reação em todo lugar. E a reação, por sua vez, gera radicalismos novos e insidiosos. Lassalle, Marx, St. Simon e socialistas, e Bakunin e Proudhon, primeiros anarquistas, foram a prole da Santa Aliança, nutrida nos cantos escuros da sela da Repressão.

[148]De fato, o curso dos eventos na Europa teria sido muito de outra maneira se os veteranos de Napoleão, forçando seu caminho para dentro de Hugomont e dividindo a força britânica em duas, tivessem preparado o caminho para uma longa concessão do poder daquele mestre hábil e calculador, quem sabia tão bem como satisfazer a demandas populares e ainda manter a sua autoridade pessoal. Em sua expressão prática, o sistema dele era liberal. Cada proprietário pedinte na França de hoje possui seus acres em virtude da legislação napoleônica.

Isso não significa que tudo teria sido bom na França; longe disso. Uma falsidade estranha, uma insinceridade teatral, existe por trás de todos os sentimentos e ideia napoleônicos. Essas qualidades ainda colorem o pensamento da França. Alguma vez ela será capaz de escapar delas? Essas tendências teriam sido muitas vezes mais poderosas se Napoleão tivesse se entrincheirado no trono. Mais do que isso, elas deveriam ter passado para outros países. A [149]sombra das suas águias poderia estender-se através mesmo sobre a nossa América, suas ideias insidiosas expressando-se em nossa política e na nossa vida moral e intelectual, se aquela vasta contingência de momento tivesse seguido o caminho de Napoleão em Waterloo.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

CHAMBERLEIN, J. E. The Ifs of History. Philadelphia: Henry Altemus Company, 1907. p. 138-149. Disponível em: <https://archive.org/details/ifsofhistory00chamuoft/page/138/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O Último Homem - Volume I - Capítulo IV-II

O Último Homem Por Mary Shelley Volume I Capítulo anterior [121] Capítulo IV-II Há um sentimento tal como amor à primei...