Os Ses da História
Por Joseph Edgar Chamberlin
[79]Capítulo IX Se Charles II tivesse aceito a Coroa da Virgínia
Pelo menos uma vez o Novo Mundo forneceu ao Velho Mundo um rei governante, verdadeiro; uma vez, por treze anos, um monarca, sentado em um trono na América, governou a partir daí um reino antigo na Europa. E duas vezes essa coisa singular poderia ter acontecido, desta vez com um soberano entronizado sobre os bancos de areia de James em vez de na costa de uma baía brasileira, se um certo filho de rei e futuro rei tivesse sido de uma disposição um pouco mais ousada e menos indolente.
A ocasião quando a coisa realmente [80]aconteceu foi quando Don João VI, rei de Portugal, removeu o seu trono real e toda a parafernália de governo de Lisboa para o Rio de Janeiro, em 1807 (sendo impelido para lá por um movimento intrusivo da parte de um Napoleão Bonaparte), e tornou Portugal em uma dependência real do Brasil. Isso ele permaneceu até que o rei João recruzou o Atlântico em 1820. Por todo aquele período o cetro portou autoridade do oeste para o leste, da América na direção da Europa.
Exatamente a mesma coisa teria ocorrido mais ao norte, na contingência à qual eu me referi; e, se tivesse ocorrido, uma influência realista ou monarquista poderia ter sido lançada sobre as colônias inglesas na América, a qual teria colorido a histórias e as instituições dela em um grau acentuado, mesmo se o destino delas não tivesse sido permanentemente afetado.
Quando Charles I, rei da Inglaterra foi capturado, [81]aprisionado e executado pelo partido do Parlamento em 1649, a Virgínia experienciou um choque de vergonha e indignação. Essa colônia não tinha absolutamente nenhuma simpatia por Cromwell ou seu partido. Ela não era, em nenhuma acepção ou parte, puritana. O sentimento monarquista dominava-a completamente: pois se o grosso dos seu habitantes eram muito pobres, e estavam tão longe quanto possível de serem “cavalheiros,” eles absolutamente não eram do material do qual os Cabeças Redondas eram feitos: nem tinham eles qualquer influência no governo da província. A Assembleia Geral representava os cavalheiros da colônia, quem eram unanimamente realistas.
Portanto, não é surpreendente que, diante do recebimento das notícias da execução de Charles I, a Assembleia Geral da Virgínia não perdeu tempo para se reunir e passar um ato no qual o filho do rei morto, Charles II, foi reconhecido como o soberano de direito e reinante. Processos legais, e [82]o mecanismo do governo provincial continuaram a funcionar no nome do rei. Na Inglaterra, Cromwell foi instalado como Lorde Protetor. Mas a Virgínia recusou-se a reconhecê-lo ou o título dele. Pelo menos um condado da Virgínia proclamou formalmente Charles o rei, requerendo “todo o povo de sua majestade soberana a suplicarem a Deus para abençoar Charles II, rei da Inglaterra, Escócia, França e Irlanda, Virgínia, Nova Inglaterra e das Ilhas do Caribe.” Eu acredito que esse seja o primeiro aparecimento do termo “Rei da Virgínia,” um título que estava destinado a ser ouvido novamente um pouco depois.
Nem o povo se contentou com a proclamação de Charles como rei. Em 1650, o governador Berkeley enviou o coronel Norwood para a Holanda para convidar o princípio a tornar-se o soberano reinante do que Raleigh tinha chamado de “a nova Nação Inglesa” deste lado da água. Charles não aceito. Tampouco ele francamente recusou. Ele não tinha [83]a ousadia de ir para a Virgínia, mas ele ficou encantado com a chance de colocar por um momento a conduta e a autoridade de um soberano. Ele enviou a Berkeley uma nova delegação como governador, assinada por si mesmo como rei, e concedeu ao coronel Norwood uma delegação como tesoureiro da colônia. As duas delegações foram honradas na Virgínia.
De fato, a colônia, com Barbados, nas Índias Ocidentais, constituiu-se virtualmente no Domínio do rei Charles II; e é em memória dessa suposição de prerrogativa do reino inteiro, como os virginianos acreditavam que o estado é chamado de Domínio Antigo hoje em dia.
Nem o povo propôs que a aliança deles devesse permanecer meramente nominal. Eles atualmente ensaiaram cortar a conexão com a Commonwealth de Cromwell e manterem a si mesmo como o remanescente soberano do reino inglês. Eles tiveram sucesso em manter essa posição por um tempo considerável – quer dizer, até 1651, [84]quando o governo de Cromwell enviou três navios de guerra para reduzir os virginianos à submissão. Como todos os principais povoados estavam dentro de fácil alcance da água navegável, e não tinham desenvolvido suficiente território interiorano através do qual suportarem a si mesmos, foi impraticável para eles resistirem por muito tempo; eles foram obrigados a submeter-se. Cromwell tratou a província opressivamente e proibiu as outras províncias de comerciarem com ela.
Não é de maneira nenhuma surpreendente que a Virgínia, a qual, entrementes, tinha se tornado o lugar de refúgio de muitos mais realistas, deu passos para se livrar da aliança puritana tão logo quanto possível depois da morte de Cromwell, e buscou antecipar a restauração dos Stuarts. Sir William Berkeley, a quem Cromwell tinha substituído por um governador Cabeça Redonda, foi novamente convocado à liderança das coisas pelo povo. Ele recusou-se a assumir a governadoria diante do mandato deles, [85]a menos que eles lhe concedessem sua promessa formal e solene de arriscarem suas vidas e fortunas pelo rei Charles II. Essa promessa foi concedida a ele pela voz unânime dos eleitores. Berkeley então procedeu para proclamar Charles “Rei da Inglaterra, Escócia, França, Irlanda e Virgínia.” Uma vez mais, a Virgínia era o único segmento existente do domínio do rei. Na Virgínia, e apenas na Virgínia, processos e documentos eram emitidos no nome dele.
Portanto, Charles foi realmente o rei na Virgínia, a despeito do fato de que ele ainda estava vivendo uma vida preguiçosa, ou antes baixa, nas cidades holandesas ou comendo, como um convidado, o pão da nobreza francesa e espanhola. Todavia, os virginianos absolutamente não estavam contentes em terem estabelecido uma mera soberania de papel para ele. Berkeley tinha se mantido em contado, por carta e através de mensageiros, com Charles, e tinha enviado mensagem para ele na Holanda, antes que a Commonwealth tivesse caído, para que ele [86]erguesse o seu estandarte na Virgínia se o rei concedesse-lhe o seu consentimento. Uma vez mais ele ofereceu-lhe uma coroa virginiana. Richard Lee foi enviado à Holanda com uma proposição de Berkely para tomar o campo pelo rei. Até foi proposto que Charles deveria vir para a Virgínia e estabelecer o seu trono ali.
Mais uma vez o rei enviou agradecimentos cordiais aos virginianos. Mas ele não aceitou a proposta deles. Nós podemos imaginar que, de um lado da sua natureza, isso apelava para ele, e, do outro e dominante lado dela, isso era bastante indesejado; quer dizer, enquanto isso deve ter inflamado um pouco a ambição dele de ser rei uma vez mais e deixar de comer do pão de outros, era bastante contrário à sua indolência natural e covardia moral. A sua primeira tentativa de afirmar sua coroa, quando, no campo de Worcester, ele foi derrotado ignominiosamente por Cromwell, tinha enojado-o com todos os procedimentos [87]tendo a estampa de energia sobre eles. Como uma questão de fato, teria sido perfeitamente seguro para ele ter erguido seu estandarte e estabelecido seu trono na Virgínia. Mas ele não se aventurou a isso. Ele permaneceria no continente e aguardaria a mudança dos eventos.
Logo eventos tornaram-no rei na Inglaterra. A Commonwealth despedaçou-se quando não havia mais nenhuma mão forte para a guiar. Charles desembarcou miseravelmente, até sordidamente, em Dover, quando se esgueirando para o país, em vez de chegar em triunfo da Virgínia, com um régio Novo Mundo em sua mão, como ele poderia ter feito se tivesse aceito o convite de Berkeley.
Se, depois da sua derrota em Worcester, ele tivesse tirado vantagem da primeira oferta da Virgínia e da assistência francesa, e tivesse erguido o seu estandarte na América, Charles poderia ter afetado a história do mundo muito materialmente. Não houve momento quando os puritanos não [88]estivessem em uma minoria na Inglaterra. Eles oprimiram a maioria por um tempo porque eles tinham desenvolvido uma capacidade militar superior, e tinham um exército esplêndido, resoluto. Mas para o núcleo de um comando monarquista no Novo Mundo, os mais vigorosos realistas ingleses poderiam ter se reagrupado. Uma corte em Williamsburg, a qual, então e por um longo tempo depois, foi a capital da Virgínia, teria significado uma corte em Londres muito mais cedo do que ela realmente chegou, e teria feito a Commonwealth deixar uma marca mais fraca e mais estreita sobre a história da Inglaterra do que ela realmente deixou.
Entrementes, que corte brilhante teria se reunido ao redor do monarca alegre e falante em Williamsburg! Já os Lee, os Washington, os Berkeley e muitos outros das “primeiras famílias,” estavam estabelecidos na Virgínia. Charles provavelmente teria sido feliz na atmosfera agradável, despreocupada, [89]das plantações. Lá não existiam puritanos para o incomodar. A Virgínia tinha criado suas próprias leis contra as práticas puritanas – e fazia-as cumprir.
Nunca houve um monarca que teria ficado mais satisfeito em ter em volta de si escravos reais – homens e mulheres cujos corpos ele teria possuído. A sua autoridade deveria ter espalhado-se em direção ao norte, tão longe quanto a fronteira das possessões francesas, pois, embora a Nova Inglaterra fosse puritana, ela curvou-se relutantemente à autoridade da Commonwealth, parecendo pressentir na soberania dos Cabeças Redondas um tipo de rival que ameaçava tomar sua autonomia meio conquistada. Uma coroa exercida na América provavelmente teria se ajustado aos homens da Nova Inglaterra muito bem.
Com toda probabilidade, no devido tempo, o trono deveria ter sido transferido para o país-mãe. Mas a sua instalação aqui, mesmo por uns poucos anos, deveria ter infundido no caráter dos [90]americanos de um modo geral um elemento maior de monarquismo do que o destinado a eles como foi. Dificilmente a Virgínia teria caído tão prontamente no republicanismo colonial como ela fez em 1774-1776. A negligência inglesa de uma Virgínia realmente realista semeou a semente da rebelião virginiana. Se a Virgínia não tivesse apoiado Massachusetts ombro a ombro, não poderia ter havido uma Revolução Americana. Charles não sabia quão longe ele deixou a Virgínia ir quanto ele recusou os emissários de Berkeley.
O sentimento de lealdade pessoal à coroa permaneceu forte nas colônias até a explosão mesma da Revolução. Os americanos dissolveram a relação de súdito e soberano com arrependimento. Se eles alguma vez tivessem tido um rei a quem eles pudessem chamar de seu próprio, o interesse excitado e perpetuado pela presença dele poderia muito bem ter virado a balança em 1776 e impedido a retirada das colônias.
ORIGINAL:
CHAMBERLEIN, J. E. The Ifs of History. Philadelphia: Henry Altemus Company, 1907. p. 79-90. Disponível em: <https://archive.org/details/ifsofhistory00chamuoft/page/79/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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