Mitologia de Bulfinch
Por Thomas Bulfinch
Histórias de Deuses e Homens
[12]Capítulo II Prometeu e Pandora
A criação do mundo é um problema naturalmente adequado para excitar o interesse mais vívido do homem, a sua habitação. Os pagãos antigos, não tendo a informação sobre o assunto que nós derivamos a partir das páginas da Escritura, tiveram sua própria maneira de contar a história, a qual é a seguinte:
Antes que terra e mar e céu fossem criados, todas as coisas usavam um aspecto, ao qual nós damos o nome de Caos – uma massa confusa e sem forma, nada exceto peso morto, no qual, contudo, dormiam as sementes das coisas. Terra, mar e ar estavam todos misturados; assim a terra não ara sólida, o mar não era fluído, e ar não era transparente. Deus e natureza finalmente interferiram e colocaram um fim nessa discórdia, separando terra de mar, e céu de ambos. A parte fogosa, sendo a mais leve, saltou e formou os céus; o ar foi o próximo em peso e lugar. A terra, sendo mais pesada, afundou; e a água tomou a posição mais baixa, e fez a terra boiar para cima.
Aqui algum deus – não é sabido qual – concedeu seus bons serviços no arranjo e na disposição da terra. Ele indicou a rios e baías os seus lugares, ergueu montanhas, esculpiu vales, distribuiu florestas, fontes e planícies pedregosas. O ar sendo limpo, as estrelas começaram a aparecer, peixes tomaram posse do mar, pássaros do ar e bestas de quatro patas da terra.
Mas um animal mais nobre estava faltando, e o Homem foi criado. Não é conhecido se o criador criou-o de materiais divinos ou se na terra, tão recentemente separada do céu, ali ainda se escondiam algumas sementes celestes. Prometeu tomou um pouco dessa terra e, amassando-a com água, criou o homem à imagem dos deuses. Ele concedeu-lhe uma estatura ereta, de modo que, enquanto todos os outros animais viravam seus rostos para baixo, e olhavam para a terra, ele erguia o dele para o céu, e encarava as estrelas.
[13]Prometeu era um dos titãs, uma raça gigante, quem habitavam a terra antes da criação do homem. A ele e ao irmão dele foi entregue a tarefa de criação do homem, e de providenciar para ele todos os outros animais as faculdades necessárias para a sua preservação. Epimeteu encarregou-se de realizar isso, e Prometeu devia supervisionar o trabalho dele quando estivesse pronto. Portanto, Epimeteu prosseguiu para conceder aos diferentes animais os vários dons de coragem, força, velocidade, sagacidade; asas para um, garras para outro, uma cobertura de concha para um terceiro, etc. Mas quando o homem chegou para ser provisionado, quem devia ser superior a todos os outros animais, Epimeteu tinha sido tão pródigo com seus recursos que ele não tinha nada restando para conceder a ele. Em sua perplexidade, ele recorreu ao seu irmão Prometeu, quem, com o auxílio de Minerva, subiu ao céu, acendeu sua tocha na carruagem do sol e trouxe o fogo para o homem. Com esse dom, o homem foi mais do que um equivalente para todos os outros animais. Ele possibilitou a ele criar armas com as quais os subjugar; ferramentas com as quais cultivar a terra; para aquecer sua habitação, de modo a ser comparativamente independente do clima; e finalmente, introduzir as artes e cunhar moedas, os meios de troca e comércio.
A Mulher não estava criada ainda. A história (suficientemente absurda!) é que Júpiter criou-a, e enviou-a a Prometeu e ao irmão dele para os punir pela presunção deles em roubarem o fogo do céu; e o homem, por aceitar o dom. A primeira mulher foi denominada de Pandora. Ela foi criada no céu, cada deus contribuindo com alguma coisa para a aperfeiçoar. Vênus concedeu-a sua beleza, Mercúrio a persuasão, Apolo a Música, etc. Dessa maneira equipada, ela foi transportada a terra, e apresentada a Epimeteu, quem alegremente aceitou-a, embora advertido por seu irmão para ter cuidado com Júpiter e seus presentes. Epimeteu tinha em sua casa um jarro, no qual eram guardados certos artigos nocivos, para os quais, ao ajustar o homem para sua nova residência, ele não tinha tido utilidade. Pandora foi dominada por uma curiosidade ansiosa para saber o que esse jarro continha; um dia ela deslizou a tampa e olhou dentro. Sem demora dali escaparam uma multitude de [14]pragas para o homem desafortunado, - tais como gota, reumatismo, e cólica para o corpo dele, e inveja, rancor e vingança para a mente dele, - e espalharam-se longe e em toda parte. Pandora apressou-se para substituir a tampa! Mas, ai de mim! O conteúdo inteiro da jarra tinha escapado, exceto apenas uma coisa, a qual jazia no fundo, e que era a esperança. Assim nós vemos nesse dia que, sejam quais forem os males que existam fora, a esperança nunca nos abandona inteiramente; e enquanto nós tivermos isso, nenhum montante de outros males pode tornar-nos completamente miseráveis.
Outra história é que Pandora foi enviada em boa fé, por Júpiter, para abençoar o homem; que ela foi provida com uma caixa contendo seus presentes de casamento, dentro da qual cada deus tinha colocado alguma benção. Ela abriu a caixa sem cautela, e todas as bençãos escaparam, apenas a esperança esperou. Essa história parece mais provável do que a anterior; pois como poderia a esperança, uma joia tão preciosa como ela é, ter sido mantida em uma jarra cheia de todos os tipos de males, como na formulação anterior?
O mundo estando ocupado por seus habitantes, a primeira era foi uma era de inocência e felicidade, chamada de a Idade de Ouro. Verdade e direito prevaleciam, embora não impostos por lei, nem havia qualquer magistrado ameaçado ou punido. A floresta ainda não tinha sido roubada das suas madeiras, nem os homens tinham construído fortificações ao redor das suas cidades. Não havia coisas tais como espadas, lanças ou capacetes. A terra gerava todas as coisas necessárias para o homem, sem o labor dele para lavrar e colher. Primavera perpétua reinava, flores brotavam sem semente, os rios fluíam com mel e vinho, e mel amarelo destilado dos carvalhos.
Então sucedeu a Idade de Prata, inferior à de outro, mas melhor do que a de bronze. Júpiter encurtou a primavera e dividiu o ano em estações. Então, primeiro, os homens tiveram de suportar os extremos de calor e frio, e casas tornaram-se necessárias. As cavernas foram as primeiras habitações, e coberturas folhadas das florestas, e cabanas entretecidas com galhos. Colheitas não mais crescem sem plantação, o fazendeiro era obrigado a semear a semente e laborar o touro para puxar o arado.
Em seguida, veio a Idade de Bronze, mais selvagem de temperamento, e mais pronta para o conflito de armas, contudo, não completamente [15]perversa. A mais dura e pior foi a Idade de Ferro. O crime irrompeu como uma enchente; modéstia, verdade e honra fugiram. No lugar delas surgiram fraude e astúcia, violência e o amor perverso pelo ganho. Então homens do mar espalharam velas ao vento, e as árvores foram arrancadas das montanhas para servirem de quilhas para embarcações e irritarem a face do mar. A terra, a qual até agora tinha sido cultivada em comum, começou a ser divida em possessões. Os homens não estavam satisfeitos com o que a superfície produzia, mas tiveram de cavar dentro de suas entranhas e tirar de lá os minérios de metais. Ferro pernicioso e ouro mais pernicioso foram produzidos. A guerra brotou, usando ambos como armas; o convidado não estava mais seguro na casa do seu amigo; e genros e sogros, irmãos e irmãs, esposos e esposas, não poderiam confiar uns nos outros. Filhos desejavam seus pais mortos para que eles pudessem chegar à herança; o amor de família deita-se prostrado. A terra ficou úmida com massacre, e os deuses abandonaram-na, até que apenas Astreia1 restava, e finalmente ela também partiu.
Júpiter, vendo esse estado de coisas, ardeu com ira. Ele convocou os deuses em conselho. Eles obedeceram a convocação e tomaram a estrada para o palácio do céu. A estrada, a qual qualquer um pode ver em uma noite clara, estica-se através da face do céu, e é chamada de Via Láctea. Ao longo da estrada erguem-se os palácios dos deuses ilustres; o povo comum dos céus vive separado, de cada lado. Júpiter dirigiu-se à assembleia. Ele apresentou a terrível condição de coisas sobre a terra, e concluiu anunciando a sua intenção de destruir todos os habitantes dela, e providenciar uma nova raça, diferente da primeira, [16]quem seriam muito mais dignos de vida e adoradores muito melhores dos deuses. Assim falando ele pegou um relâmpago e estava prestes a lançá-lo no mundo e destruí-lo queimando; mas lembrando-se do perigo de que uma conflagração tão grande poderia incendiar até o céu, ele mudou seu plano e resolveu inundá-lo. O vento norte, o qual espalha as nuvens foi acorrentado; o sul foi enviado e logo cobriu toda a face da face do céu com manto de escuridão pícea. As nuvens reunidas ressoam com um choque; torrentes de chuva caem, as colheitas são rebaixadas; o labor de um ano do agricultor perece em uma hora. Júpiter, não satisfeito com as suas próprias águas, convoca seu irmão Netuno a auxiliá-lo com as dele. Ele deixa os rios soltos, e verte-os sobre terra. Ao mesmo tempo, ele desloca a terra com um terremoto, e traz o refluxo do mar sobre as costas. Manadas, rebanhos, homens e casas são varridos, e templos, com seus cercados sagrados, profanados. Se qualquer casa permanecesse de pé, ela era sobrepujado, e suas torres jaziam escondidas debaixo das ondas. Agora tudo era mar, mar sem costa. Aqui e ali um indivíduo permanecia em topo de colina que se projetava, e uns poucos, em botes, puxavam o remo onde antes eles tinham conduzido o arado. Os peixes nadam em meio aos topos de árvores; a âncora é baixada em um jardim. Onde as ovelhas graciosas brincavam apenas há pouco, mar insubmisso separa a brincadeira. O lobo nada em meio à ovelha, os leões e tigres amarelos lutam na água. A força do javali selvagem não lhe serve de nada, nem a velocidade do veado a ele. O pássaros caem com asas cansadas dentro da água, não tendo encontrado nenhuma terra como um lugar de repouso. Aqueles seres vivos a quem a água poupou caíam presas para a fome.
Apenas o Parnaso, de todas as montanhas, ficou com o topo acima das ondas; e ali Deucalião e Pirra, da raça de Prometeu, encontraram refúgio – ele apenas um homem, e ela, uma fiel adoradora dos deuses. Júpiter, quando ele viu que ninguém restava exceto esse par, e lembrando-se das vidas inofensivas e do semblante pio deles, ordenou ao vento norte para expulsar as nuvens, e revelar os céus à terra e a terra aos céus. Netuno também dirigiu Tritão a soprar sua concha e [17]soar uma retirada para as águas. As águas obedeceram, e o mar retornou às suas costas e os rios, aos seus canais. Então Deucalião dirigiu-se desta maneira a Pirra: “Oh esposa, única mulher sobrevivente, junta a mim primeiro por vínculos de irmandade e casamento, e agora por um perigo comum, eu desejaria que nós possuíssemos o poder de nosso ancestral Prometeu, e pudéssemos renovar a raça como ele inicialmente a criou! Mas visto que nós não podemos, procuremos aquele tempo acolá e inquiriremos aos deuses o que resta para nós fazermos.” Eles entraram no tempo, deformado como ele estava pelo musgo, e aproximaram-se do altar, onde nenhum fogo queimava. Ali eles caíram prostrados sobre a terra e suplicaram à deusa para os informar como eles poderiam recuperar seus miseráveis assuntos. O oráculo respondeu, “Parti do tempo com cabeças veladas vestimentas desamarradas, e lançai atrás de vós os ossos de vossa mãe.” Eles ouviram as palavras com assombro. Primeiro Pirra rompeu o silêncio: “Nós não podemos obedecer; não nos atrevemos a profanar os restos dos nossos pais.” Ele procuraram as sombras mais espessas da floresta e consideraram o oráculo nas mentes deles. Finalmente, Deucalião: “Ou minha sagacidade engana-me, ou o comando é algo que nós podemos obedecer sem impiedade. A terra é a grande mãe de todos; as pedras são os ossos dela; esses nós podemos lançar atrás de nós; e eu considero que seja isso que o oráculo quis dizer. Pelo menos, não causará prejuízo tentar.” Eles velaram os rostos deles, desamarraram suas vestes e escolheram pedras, e jogaram-nas atrás. As pedras (maravilha para relatar) começaram a amolecer e assumir forma. Gradualmente, elas assumiram uma crua semelhança com a forma humana, como um bloco meio terminado nas mãos do escultor. A umidade e o musgo que havia ao redor delas tornaram-se carne; a parte pedregosa tornou-se ossos; as veias permaneceram veias, retendo seu nome, apenas mudando seu uso. Aquelas jogadas pela mão do homem tornaram-se homens, e aquelas jogadas pela mulher tornaram-se mulheres. Era uma raça dura, e bem adaptada para o labor, como nós encontramos a nós mesmos neste dia, concedendo indicações evidentes da nossa origem.
A comparação de Eva com Pandora é óbvia demais para [18]ter escapado a Milton, quem a introduz no Livro IV de “Paradise Lost”:
“Mais amável do que Pandora, a quem os deuses
Dotaram com todos os seus presentes; e Oh, também como
Em evento triste, quando, para o filho não sábio
De Jápeto (Japhet), trazida por Hermes, ela enredou
A humanidade com sua bela aparência, para se vingar
Dele quem tinha roubado o fogo autêntico de Jove.”
Prometeu e Epimeteu eram filhos de Jápeto, o qual Milton muda para Japhet.
Prometeu tem sido um tema favorito para os poetas. Ele é representado como o amigo da humanidade, quem se interpôs em seu nome quanto Jove foi incensado contra eles, e quem lhes ensinou civilização e as artes. Mas como, ao fazê-lo, ele transgrediu a vontade de Júpiter, ele atraiu sobre si mesmo a ira do governante de deuses e homens. Júpiter ordenou-o acorrentado a uma rocha no Monte Cáucaso, onde um abutre predava o seu figado, o qual era renovado tão rapidamente quanto era devorado. Esse estado de tormento poderia ter sido trazido a um fim em qualquer momento por Prometeu, se ele tivesse sido disposto a se submeter ao seu opressor; pois ele possuía um segredo que envolvia a estabilidade do trono de Jove, e se ele quisesse revelá-lo, ele poderia imediatamente ser favorecido. Mas ele desprezou fazer isso. Portanto, ele tornou-se um símbolo de resistência magnânima ao sofrimento imerecido, e força de vontade resistindo à opressão.
Byron e Shelley ambos trataram desse tema. As seguintes são linhas de Byron:
“Titã! Para cujos olhos imortais
Os sofrimentos da mortalidade,
Vistos em sua triste realidade,
Não eram como coisas que os deuses desprezam;
Qual foi tua recompensa pela piedade?
Um sofrimento silencioso, e intenso;
A rocha, o abutre, e a corrente;
Tudo que o orgulho pode sentir de dor;
A agonia que eles não mostram.
A sensação sufocante de angústia.”
[19]“Teu crime divino foi ser gentil;
Tornar com teus preceitos menor
A soma da perversidade humana,
E fortalecer o homem com sua própria mente.
E, confundido como tu foste do alto,
Ainda, em tua energia paciente
Na resistência e repulsa
Do teu espírito impenetrável,
O qual terra e céu não puderam convulsionar,
Uma lição poderosa nós herdamos.”
Byron também empregou a mesma alusão, em sua “Ode to Napoleon Bonaparte”:
“Ou, como o ladrão do fogo do céu,
Tu suportarás o choque?
E compartilhará com ele – o imperdoável –
Seu abutre e sua rocha?”
ORIGINAL:
BULFINCH, T. Bulfinch's Mythology: The Age of Fable, The Age of Chivalry & Legends of Charlamagne. By Thomas Bulfinch. Complete in One Volume. Revised and Enlarged, with Illustrations. New York: Thomas Y. Crowel Company Publishers, 1913. p. 12-19. Disponível em: <https://archive.org/details/bulfinchsmytholo0000thom_q8l3/page/12/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1[15]A deusa da inocência e pureza. Após abandonar a terra, ela foi colocada entre as estrelas, onde se tornou a constelação de Virgo – a Virgem. Têmis (Justiça) era a mãe de Astreia. Ela é representada como erguendo alto um par de balanças, nas quais ela pesa as alegações das partes opostas.
Era uma ideia favorita dos antigos poetas que essas deusas um dia retornariam, e trariam de volta a Idade de Ouro. Mesmo em um hino cristão, o “Messiah” de Pope, a ideia ocorre:
“Todos os crimes deverão cessar, e fraude antiga deverá falhar,
Justiça retornante ergue alto sua balança,
Paz através do mundo seu cajado de oliva estende.
E Inocência de robes brancos do céu descende.”
Ver também “Hymn on the Nativity,” Milton, estrofes xiv e xv.
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