A Coluna de César I A Grande Cidade

A Coluna de César. Uma História do Século XX.


Por Ignatius L. Donnelly


Ao Público e Conteúdos


[9]Capítulo I A Grande Cidade


[Este livro é uma série de cartas, de Gabriel Weltstein, em Nova Iorque, para o irmão dele, Heinrich Weltstein, no Estado de Uganda, África.]


Nova Iorque, 10 de setembro de 1988.


Meu Querido Irmão:

Aqui estou eu, finalmente, na grande cidade. Meu olhos estão cansados de pasmar, e minha boca, sem fala de admiração; mas em meu cérebro ressoa perpetuamente o pensamento: Magnifica! – Magnifica! – Muito Magnifica!

Que coisa infinita é o homem, como revelado na tremenda civilização que ele construiu! Essas formigas abundantes, laboriosas e inteiramente capazes parecem suficientemente grandes para atacarem o céu mesmo, se elas pudessem apenas encontrar um apoio para suas escadas. Quem pode estabelecer um limite para a inteligência ou para as realizações da nossa espécie?

Mas a nossa admiração pode estar aqui, e nossos corações em outro lugar. E assim, de toda essa glória e esplendor, eu volto-me para o antigo lar, em meio aos elevados vales montanhosos da África; para a primitiva vida de pastor; para minha mãe amada, para você e para todos os nossos queridos. Esta sala linda, dourada, desaparece e eu vejo as colinas inclinadas, os córregos escorrendo, os vales profundos onde os nossos milhares lanosos pastam; [10]e uma vez mais eu ouço os ecoantes chifres suíços dos nossos pastores reverberando a partir das montanhas cobertas de neve.

Mas meu sonho está perdido. O rugido da poderosa cidade surge ao meu redor como o ronco de muitas cataratas.

Nova Iorque contém agora dez milhões de habitantes; é a maior cidade que existe, ou alguma vez existiu, no mundo. É difícil dizer onde ela começa ou termina; pois as vilas estendem-se, em sucessão quase ininterrupta, claras, até a Filadélfia; enquanto as habitações dos nobres a leste, oeste e norte espalham-se milha após milha, muito além dos limites municipais.

Mas a cidade maravilhosa! Deixe-me contar a você sobre ela.

Conforme aproximávamos dela em nosso dirigível, vindo do oriente, nós podíamos ver, uma centena de vezes antes que alcançássemos o continente, o esplendor das suas milhões de luzes magnéticas, refletidas no céu, como o brilho de uma grande conflagração. Essas luzes não são alimentadas como antigamente, a partir de dínamos elétricos, mas o magnetismo mesmo do planeta é aproveitado para o uso do homem. Essa maravilhosa força da terra, a qual os índios chamavam de “a dança dos espíritos,” e o homem civilizado designava de “a aurora boreal” agora é usada para iluminar esta grande metrópole, com uma luz clara, suave, branca, como aquela da lua cheia, mais muitas vezes mais brilhante. E a força é tão astuciosamente conservada que ela é retornada para a terra, sem nenhuma perda de poder magnético para a planeta. O homem simplesmente fez um empréstimo temporário à natureza pelo qual ele não paga juro.

Noite e dia são um todo, pois a luz magnética aumenta continuamente, conforme a luz do dia enfraquece; e as partes comerciais da cidade abundam tanto à meia-[11]noite quanto ao alto meio-dia. Antigamente, contaram-me, parte das ruas era reservada para os caminhos a pé para homens e mulheres, enquanto que o meio era concedido aos cavalos e veículos com rodas; e alguém não poderia passar de um lado para o lado sem o perigo de ser pisoteado até a morte pelos cavalos. Mas, conforme a cidade crescia, foi descoberto que o pavimento não suportaria as poderosas multidões súbitas; elas ficavam amontoadas nas ruas, e muito acidentes aconteciam. Finalmente as autoridades foram compelidas a excluírem todos os cavalos das ruas, nas partes comerciais da cidade, e elevar as partes centrais para o mesmo nível que as calçadas, e concedê-las para o uso exclusivo dos pedestres, erigindo aqui e ali pilares de pedra para dividirem a multidão movendo-se em uma direção daqueles movendo-se em outra. Essas ruas são cobertas por tetos de vidro, os quais excluem a chuva e a neve, mas não o ar. E então a maravilha e a glória dos comércios! Eles superam toda descrição. Abaixo de todas as ruas comerciais estão as ruas subterrâneas, onde vastos trens são puxados por motores elétricos sem fumaça e sem barulho, alguns transportando passageiros, outros, carga. Em cada esquina de rua há elevadores elétricos, através dos quais os passageiros podem ascender e descender aos trens. E altas, acima dos topos das casas, construídas sobre pilares de aço, há outras estradas, não como os trens elevados sem graça que nós víamos nas imagens dos nossos livros de escola, mas cruzando diagonalmente sobre a cidade, a uma grande altura, de modo a melhor economizar tempo e distância.

O inteiro território entre a rua Broadway e a Bowery e rua Broome e a rua Houston é ocupado pelos terrenos das estações das linhas áreas intercontinentais; e é uma visão assombrosa ver as naves ascendendo e descendendo, como pássaros [12]monstruosos, negras com as massas abundantes de passageiros, para, ou de, a Inglaterra, a Europa, a América do Sul, a Costa do Pacífico, a Austrália, a China, a Índia e o Japão.

Essas linhas áreas são de dois tipos: o ancorado e o independente. O primeiro é imenso, através de rodas girantes, sobre grandes cabos suspenso no ar; os cabos mantidos no lugar por balões metálicos, da forma de peixe, feitos de alumínio, e construídos para virarem com o vento de modo a sempre apresentarem a menor superfície para as correntes de ar. Esses balões, onde as linhas cruzam os oceanos, são seguros em imensas ilhas flutuantes de borracha, as quais, por sua vez são ancoradas ao fundo do mar por quatro imensos cabos metálicos, estendendo-se norte, sul, leste e oeste, e suficientemente poderosos para resistirem a quaisquer tempestades. Essas ilhas artificiais contêm habitações, nas quais homens residem, quem mantêm o suprimento de gás necessário para os balões. As linhas aéreas independentes são imensos balões no formato de cigarros, não amarrados à terra, movendo-se através de poder elétrico, com velocidade e força tão tremendas de modo a serem pouco afetadas pelos ventos, como uma bola de canhão. De fato, a menos que o vento esteja diretamente à frente as velas da nave são estabelecidas de modo a tirarem vantagem dele, como as velas de uma embarcação; e o balão ascende ou descende, como os pássaros fazem, através do ângulo no qual ele está posicionado para o vento, o fluxo de ar forçando-o para cima, ou pressionando para baixo, como possa ser o caso. E exatamente como os antiquados navios a vapor eram providos com botes, nos quais se esperava que os passageiros se refugiassem se o navio estivesse preste a afundar, assim os conveses superiores dessas embarcações de ar são supridas com parachutes, a partir dos quais são suspensos botes; e, no caso de acidente, dois marinheiros e dez passageiros são atribuídos a cada parachute; e prática longa tem ensinado aos audaciosos [13]artífices a descerem gentilmente e pousarem no mar, mesmo em clima tempestuoso, com tanta habilidade quanto uma gaivota. De fato, uma população inteira de marinheiros do ar cresceu para manejar essas naves, nuncas sonhadas pelos seus ancestrais. A velocidade dessas embarcações aéreas é, como você sabe, muito grande – trinta e seis horas são suficientes para passarem de Nova Iorque a Londres, em clima ordinário. A perda de vida tem sido menor do que nas antiquadas embarcações a vapor; pois, como aquelas que vão para o leste movem-se a uma elevação maior do aquelas indo para o oeste, não há perigo de colisões; e elas usualmente voam acima das neblinas, as quais tanto acrescentam aos perigos da viagem no mar. No caso de furações, elas ascendem imediatamente a níveis superiores, acima da tempestade; e, com o nosso conhecimento científico intensificado, a chegada de um ciclone é conhecida com muitos dias de antecedência: e mesmo o estrato de ar no qual ele se moverá pode ser previsto.

Eu poderia despender horas, meu querido irmão, contando a você o esplendor deste hotel, chamado de The Darwin, em honra do grande filósofo inglês do último século. Ele ocupa um bloco inteiro da Avenida Quinta à Avenida Madison e da Rua Quarenta e Seis à Quarenta e Sete. A inteira estrutura consiste em uma série infinita de ajuste astuciosos, para o deleite e a gratificação da criatura humana. Um objeto parece ser o alívio dos hóspedes de toda necessidade de esforço muscular. O elevador antigo, ou “ascensor,” como eles o chamavam na Inglaterra, agora se expandiu até salas inteiras, cheias de damas e cavalheiros, são fisicamente levados para cima a partir do primeiro andar até o teto: enquanto isso, um músico profissional tocando o piano – não a coisa antiquada que nossas avôs usavam, mas um imenso instrumento, capaz de emitir todos os sons de harmonia, desde o trinado de um [14]rouxinol até os trovões de uma orquestra. E quando alcança o teto do hotel, você encontra-se em uma floresta tropical coberta por vidro, preenchida com o perfume de muitas flores, e brilhante com a plumagem cintilante de pássaros deslocando-se; todos sons de doçura enchem o ar, e muitas donzelas gloriosas, de olhos estrelados, hóspedes do hotel, vagueiam, meio vistas em meio à folhagem, como as virgens do paraíso maometano.

Mas, como descobri a mim mesmo ficando faminto eu desci à sala de jantar. Ela tem trezentos pés de comprimento: uma vasta multitude havia ali para comer em perfeito silêncio. É considerado mau costume aqui interromper a digestão com a fala, é dito que uma tal prática tende a atrair os poderes vitais do estômago para a cabeça. Era esperado que nossos antepassados brilhassem em conversação, e fossem sábios e inteligentes enquanto engolindo sua comida entre passagens brilhantes. Eu sentei-me em uma mesa para qual fui guiado por um senhor grande e respeitável em um uniforme imponente. Enquanto eu tomava meu assento, meu peso colocou algum maquinário em movimento. Uns poucos pés à minha frente surgiu da mesa um grande espelho ereto, ou tal eu entendi-o ser; mas instantaneamente ali apareceu sobre a superfície um grande um menu, cada artigo estando numerado. O mundo inteiro tinha sido saqueado para produzir os pratos nomeados ali; nem os recessos congelados do norte nem as regiões sufocantes do sul tinham sido poupados; toda forma de comida, animal e vegetal, pássaro, besta, réptil, peixe; o pé de um elefante, a corcunda de um búfalo, os ninhos comestíveis de pássaros da China; lesmas, aranhas, marisco, as criaturas estranhas e deliciosas recentemente encontradas nas profundezas extremas do oceano, e pescadas com dinamite; de fato, toda forma de comida prazerosa ao paladar do homem estava ali. Pois, como você sabe, há homens [15]que agora fazem fortunas preservando e criando animais de caça, como o veado, o alce, a rena, o búfalo, o antílope, a ovelha e cabra da montanha, e muitos outros, os quais, exceto pelo cuidado deles, há muito teriam se tornado extintos. Eles selecionam regiões desertas em climas temperados, não adequadas para agricultura, e fecham várias extensões com cercas de arame, eles criam grandes quantidades desses valiosos animais de caça, os quais eles vendem para gastrônomos das grandes cidades, a preços muito altos.

Eu fiquei perplexo, e, voltando-me para o grande homem quem estava de pé perto de mim, eu comecei a nomear uns poucos dos artigos que eu queria. Ele sorriu complacentemente diante da minha ignorância de interior, e chamou minha atenção para o fato de que a mesa imediatamente diante de mim continha centenas de pequenas protuberâncias ou botões, cada um dos quais numerado; e ele disse-me que esses estavam conectados através de fios elétricos com a cozinha do hotel, e se eu desejasse observar os números adicionados a qualquer um dos artigos do menu que eu desejava, e tocasse nos números correspondentes das protuberâncias diante de mim, meu jantar seria pedido em um espelho similar na cozinha, e velozmente servido. Eu fiz como ele me dirigiu. Em pouco tempo, um sino elétrico perto de mim ressoou; o menu desapareceu do espelho; houve um leve som de clique; a mesa partiu-se diante de mim, a protuberâncias elétricas moveram-se de lado; e para cima através da abertura apareceu meu jantar, cuidadosamente arrumado, como sobre uma mesa, a qual preencheu exatamente a lacuna causada pela recessão daquela parte da mesa original que continha os botões elétricos. Eu não tenho de dizer que fiquei surpreso. Eu comecei a comer e imediatamente o mesmo sino, o qual tinha anunciado o desaparecimento do menu, ressoou novamente. Eu olhei para cima e o [16]espelho agora continha o nome de cada estado na República, da Baía de Hudson até o Istmo de Darien; e os nomes de todas as nações do mundo; cada nome estando numerado; meu atendente, percebendo minha perplexidade, chamou minha atenção para o fato de que os lados da mesa que tinha trazido meu jantar para cima continham outro conjunto de botões elétricos, correspondendo aos números do espelho; e ele explicou-me que, se eu desejasse selecionar qualquer estado ou país e tocasse no botão correspondentes, as notícias do dia, daquele estado ou país, apareceriam no espelho. Ele chamou minha atenção para o fato de que cada hóspede na sala tinha diante dele um espelho similar, e muitos deles estavam lendo as notícias do dia enquanto eles comiam. Eu toquei a protuberância correspondente ao nome do novo estado de Uganda, na África, e imediatamente ali apareceram no espelho todos os feitos das pessoas daquele estado – seus crimes, seus acidentes, seus negócios, a produção das suas minas, os mercados, os ditos e feitos de homens importantes; de fato, a vida inteira da comunidade estava desenrolada diante de mim como um panorama. Então eu toquei no botão para outro estado africano, Nyanza; e imediatamente eu comecei a ler sobre as novas linhas de estradas; novas frotas de barcos a vapor sobre o grande lago; sobre grandes colônias de homens brancos, estabelecendo novos estados, sobre as terras altas do interior; das suas faculdades, livros, jornais; e particularmente sobre uma dissertação sobre o gênio de Chaucer, escrita por um professor zulu, a qual tinha criado interesse considerável entre as sociedades instruídas do Transvaal. Eu toquei o botão para a China e li as notícias importantes que o Congresso Republicano daquela nação grande e altamente civilizada tinha decretado que o inglês, a língua universal do resto [17]do globo, daqui para frente deveria ser usada nas cortes de justiça e ensinada em todas as escolas. Então chegaram notícias de que um professor manchuriano, um iconoclasta, tinha escrito uma obra instruída, em inglês, para provar que o gênio e a grandeza moral de George Washington tinham sido muito superestimados pela parcialidade dos seus concidadãos. Ele foi respondido por um doutor instruído do Japão, quem argumentou que a grandeza de todos os grandes homens consistia simplesmente em oportunidade, e que, para cada nome ilustre que brilhava nas páginas da história, associado com eventos importantes, uma centena de homens mais capazes tinha vivido e morrido desconhecida. A batalha estava rangendo intensamente, e toda China e Japão estavam divididos em facções contenciosas sobre essa grande questão.

Nossos pobres ancestrais ignorantes de cem anos atrás bebiam álcool em várias formas, em quantidades que o sistema não poderia consumir nem assimilar, e ele destruía seus órgãos e encurtava suas vidas. Grandes agitações surgiram até que a manufatura e venda de bebidas alcoólicas fosse proibida por quase todo o mundo. Finalmente os cientistas observaram que o desejo era baseado em uma carência natural do sistema; que o álcool era encontrado em pequenas quantidades em quase qualquer artigo de bebida; e que o curso verdadeiro era intensificar assim o montante de álcool na comida, sem gratificação do paladar, como pra satisfazer as necessidades reais do sistema e evitar um decréscimo dos poderes vitais.

É risível ler daqueles dias, quando os homens eram drogados com pílulas, bóluses e pós. Agora nosso remédio está na nossa comida; e o doutor prescreve uma série de artigos a serem comidos ou evitados, como possa ser o caso. Alguém pode ver imediatamente, consultando seu “relógio vital,” o qual mostra cada mudança nas forças magnéticas [18]e elétricas do corpo, exatamente como sua força física enfraquece ou aumenta; e ele pode modificar sua dieta de acordo; por exemplo, ele pode selecionar um prato altamente carregado com quinino ou ferro e, contudo, perfeitamente palatável; consequentemente, entre as classes mais ricas, um homem de cem anos é tão comum hoje em dia quanto um homem de setenta era há um século; e muitos vão muito além desse ponto, em posse completa de todas as suas faculdades.

Eu dei uma olhada ao redor da grande sala de jantar e inspecionei meus vizinhos. Eles todos portavam a aparência de riqueza; eles eram quietos, decorosos e corteses. Mas eu não pude evitar de reparar que as mulheres, jovens e idosas, eram muito semelhantes em alguns particulares, como se causas gerais tivessem moldado-as na mesma forma. As sobrancelhas delas eram todas finas – amplas, quadradas e profundas da orelha adiante; e as mandíbulas delas também eram firmemente desenvolvidas, quadradas como as de um soldado; enquanto que os perfis eram clássicos em sua regularidade, e marcados por grande firmeza. A característica mais peculiar eram os olhos delas. Eles não tinham nada daquele olhar suave, gentil, benevolente que adorna tanto a expressão de minha querida mãe e de outras boas mulheres a quem nós conhecemos. Pelo contrário, os olhares delas eram ousados, penetrantes, imodestos, se eu posso expressá-lo assim, quase à ferocidade: eles desafiavam você; eles convidam você; eles mantinham relação com a sua alma.

As principais características na expressão dos homens eram de incredulidade, descrença, astúcia, observação, crueldade. Eu não vi um bom rosto na sala inteira: havia rostos poderosos, eu concedo a você; narizes elevados, bocas resolutas, sobrancelhas finas; todas as marcas de astúcia e energia; uma raça forte e capaz; mas isso era tudo. Eu não vi um, meu querido irmão, [19]de quem eu pudesse dizer, “Esse homem sacrificaria a si mesmo por outro; aquele homem ama seu companheiro humano.”

Eu não pude senão pensar quão universais e irresistíveis têm de ter sido as influências da época que poderiam moldar todos esses homens e mulheres na mesma aparência sem alma. Eu apiedei-me deles. Eu apiedei-me da humanidade, capturada no agarrão de tendências tão difundidas. Eu disse para mim mesmo: “Onde está tudo para acabar? O que nós devemos esperar de uma raça sem coração ou honra? O que nós podemos esperar quando os poderes da mais elevada civilização suplementam os instintos de tigres e lobos? O cérebro do homem pode florescer quando o coração está morto?”

Eu levantei-me e sai da sala.

Eu observei que o ar do hotel era mais doce, mais puro e mais frio do que aquele das ruas do lado de fora. Eu pedi a um dos meus atendentes uma explicação. Ele levou-me para onde nós poderíamos comandar uma visão do prédio inteiro, e mostrou-me que um grande tubo de lona ergue-se alto acima do hotel, e rastreando-o para cima, até onde o olho podia alcançar, ele apontou para um balão, ancorado por cabos, tão alto quanto a ser reduzido a uma mera mancha contra o rosto do céu azul. Ele disse-me que o grande tubo era duplo; que através de uma divisão subia o ar quente, exaurido do hotel, e que a poderosa corrente de ar assim criada operava um maquinário que bombeava para baixo o ar puro, doce de uma região mais elevada, várias milhas acima da terra; e, a corrente uma vez estabelecida, o peso da atmosfera mais fria mantinha o movimento, e o ar era então distribuído por tubos para cada parte do hotel. Ele também me contou que os hospitais da cidade eram supridos da mesma maneira; e o resultado tinha sido, diminuir a mortalidade de doentes pela metade; pois o ar assim trazido [20]para eles era perfeitamente livre de bactérias e cheio de todas as propriedades saudáveis. Uma companhia tinha sido organizada para suprir as casas dos ricos com esse ar frio e puro, por até mil pés, como, há muito tempo, o gás iluminante era suprido.

Eu não pude senão pensar que havia necessidade de que algum homem devesse abrir conexão com as regiões superiores da caridade de Deus, e trazer para baixo o puro espírito beneficente de amor fraternal para esta terra afligida, para que ele pudesse se espalhar através de todos os hospitais manchados por corrupção para a cura dos corações e das almas do povo.

Este atendente, um tipo de servo superior, eu suponho, foi bastante cortês e educado e, vendo que eu era um estrangeiro, ele prosseguiu para me contar que a cidade inteira era aquecida por água quente, extraída das profundezas aquecidas da terra, e distribuída como a água para beber era distribuída há um século, em canos, para todas as casas, por um preço fixo e muito razoável. Esse suprimento de calor é tão uniforme e barato que excluiu bastante todas as antigas formas de combustível – madeira, carvão, gás natural, etc.

E então ele contou-me algo que me chocou muito. Você sabe que, de acordo com as nossas ideias antiquadas, é injustificável para qualquer pessoa tirar sua própria vida e, dessa maneira, apressar-se para a presença do seu Criador antes que ele seja chamado. Nós somos da opinião de Hamlet de que Deus “fixou seu cânone contra autoabate.” Você acreditaria em mim, meu querido irmão, nesta cidade, eles atualmente facilitaram o suicídio! Uma raça de filósofos surgiu nos últimos cinquenta anos, quem argumentavam que, como o homem não foi consultado sobre a sua entrada no mundo, ele tinha um perfeito direito a deixá-lo sempre que ele se tornasse desconfortável. Esse argumentos [21]estranhos foram suplementados pelos economistas, sempre um grupo poderoso nesta terra utilitarista, e eles insistiram que, como não se pode impedir que os homens destruam a si mesmos, se eles decidiram-se a fazê-lo, eles poderiam exatamente tão bem se livrarem do corpo mortal de uma maneira que daria menos dificuldade para os seus concidadãos sobreviventes. Que, como era, eles poluíam os rios, e mesmo os reservatórios de água potável, com seus corpos mortos, e colocavam a cidade em grande despesa e dificuldade para os recuperar e identificar. Então vieram os humanitários, quem disseram que muitas pessoas intencionavam o suicídio, mas nada conhecendo sobre as melhores maneiras de efetivarem seu objetivo, despedaçavam-se com disparos de pistolas ou ferimentos de faca, ou tomavam venenos corrosivos, os quais os sujeitavam a torturas agonizantes por horas antes que a morte viesse em seu alívio; e eles argumentaram que, se alguém tivesse se determinado a deixar o mundo, era uma questão de humanidade ajudá-lo a partir dele da maneira mais agradável possível. Finalmente essas visões prevaleceram, e agora, em todas as praças ou parques públicos, eles tinham erigido lindas casas, belamente mobiliadas, com banhos e quartos. Se um homem decidiu morrer, ele vai lá. Primeiro ele é fotografado; então o nome dele, se ele considera apropriado fornecê-lo, é registrado, com a residência dele; e suas orientações são tomadas quanto à disposição do corpo dele. Há mesas nas quais ele pode escrever suas cartas de adeus para seus amigos. Um médico explica para ele a natureza e o efeito dos venenos diferentes, e ele seleciona o tipo que ele prefere. Espera-se que ele traga as roupas com as quais ele intenciona ser cremado. Ele engole uma pequena pílula, deita-se sobre uma cama, ou, se ele prefere, em seu caixão; música agradável é tocada para ele; ele vai dormir, e desperta no [22]outro lado da grande linha. A cada dia, centenas de pessoas, homens e mulheres, perecem dessa maneira; e eles são trazidos para as grandes fornalhas para os mortos, e consumidos. As autoridades asseguram que isso é uma melhora marcada em relação aos métodos antiquados; mas para minha mente isso é uma combinação chocante de impiedade filantropia de zombaria. A verdade é, que, nessa cidade vasta, superpopulosa, o homem é uma droga, - uma superfluidade, - e eu penso que muitos homens e mulheres dão fim às suas próprias vidas por causa de uma sensação esmagadora da sua própria insignificância; - em outras palavras, por causa de um mero cansaço do sentimento de que eles nada são, de que eles nada se tornaram.

Eu tenho de trazer esta carta a um fim, mas, antes de me retirar, eu devo fazer uma visita aos grandes salões do hotel. Você supõe que eu caminharei lá. Absolutamente não, meu irmão. Eu deverei sentar-me em uma cadeira; há uma revista elétrica no assento dela. Eu toco uma mola, e ela sai. Eu guio-a com meus pés. Eu conduzo-a para dentro de um dos grandes elevadores. Eu desço para o piso da sala de estar. Eu toco a mola novamente e, em uns poucos segundos, eu estou movendo-me ao redor do grande salão, ocupado por homens de bela aparência, ou pelas mulheres belas, de olhos afiados, antipáticas que eu descrevi. A raça cresceu em pode e beleza – eu temo que ela tenha perdido em amabilidade.

Adeus. Com todo o amor, eu permaneço o seu irmão afeiçoado,


GABRIEL WELTSTEIN.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

DONNELLY, I. L. Caesar's Column. A Story of the Twentieth Century. Chicago: F. J. Schulte & Company, Publishers, 1890. p.9-22. Disponível em: <https://archive.org/details/csarscolumnsto00donn/page/9/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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