A Grande Busca dos Imortais, traduzida de Um Manuscrito Não publicado na Biblioteca de uma Universidade Continental
Por James William Barlow
[1]Capítulo I Sobre o Nascimento e a Educação do dr. Gervaas Van Varkee, e da Repugnância e Aversão por toda a Raça Humana
Sobre o Nascimento e a Educação do dr. Gervaas Van Varkee, e da Repugnância e Aversão por toda a Raça Humana – Como ele encontrou um antigo mercador parse em Bombai, e foi introduzido ao Grande Mágico do Tibete – Como ele foi ao Tibete; o quê ele aprendeu lá, e como ele partiu de lá.
[O sr. Gervaas Van Varen foi um comerciante que floresceu nos Boomptjes de Roterdã nos anos iniciais do século XVIII. O negócio dele era aquele de um fornecedor de navios – pois assim nós podemos traduzir aproximadamente a inscrição, “Koopman em Touwwerk em andere Scheepsbehoeften,” a qual aparecia no lado da porta dele.
Van Varken conduziu um comércio toleravelmente ativo, e, sendo de hábitos extremamente avarentos, sucedeu em acumular um montante respeitável de capital. Ele foi um homem de disposição muito [2]taciturna e mal-humorada e, quando ele tinha alcançado o período da meia-idade, casou-se com uma holandesa não apenas dotada com um caráter moral assemelhando-se estritamente ao seu próprio, mas que, além disso, tinha abraçado visões calvinistas do tipo mais austero.
Esse casal desagradável foi abençoado com uma pequena família consistindo em um filho, chamado de Gervass, segundo o nome do pai dele, e esse Gervaas júnior foi o autor do diário diante de nós.
As experiências pessoais desse jovem sem sorte foram tais que a sua absorção das visões mais sombrias das coisas em geral e, em particular, da natureza humana, foi uma simples questão de necessidade. Em sua primeira infância ele chegou à conclusão de que não havia absolutamente nada que ele poderia fazer que não resultasse em uma surra sólida, administrada ou por seu pai ou sua mãe – suplementada, no caso posterior, por garantias enérgicas de que o seu sofrimento presente era uma mera piada em comparação com os tormentos elaborados [3]e permanentes armazenados para ele, como um reservatório de ira, no próximo mundo. Em adição a essas severidades pessoais, a criança despendia a maior parte do tempo dela trancada em um cômodo vazio, imperfeitamente vestida, mais do que meio faminta, e com nada que fosse senão para refletir sobre o problema inescrutável da vida humana.
Quando tinha dez anos de idade, ele foi enviado para uma escola mantida por um violento velho amigo do fornecedor de navios, quem levou a cabo o sistema paterno de disciplina com vigor ainda maior; e desse modo resultou-se que, quando, no curso do tempo, Gervaas júnior moveu-se para a Universidade de Leida para estudar para a profissão médica – uma profissão para a qual ele foi destinado pelo pai dele, sem a menor consideração pelos desejos pessoais do moço – ele tinha contraído um hábito tão grande de misantropia intensa que ela permaneceu com ele como sua característica principal para a vida.
Gervaas, embora, por natureza, de uma disposição um pouco [4]dura, não era, de modo nenhum, um homem cruel – pelo menos ele não tinha nada daquele deleite em infligir dor como tal, o qual caracteriza alguns da nossa espécie. De fato, ele era afeiçoado à maioria dos tipos de animais, e confinava sua malevolência estritamente à raça humana, da qual sua experiência tinha sido tão desfavorável. Quando a sua educação médica estava completada, ele foi enviado, como um cirurgião, em várias viagens em uma embarcação inglesa comandada por outro amigo maligno do pai dele; e seguramente a vida dura e grosseira a bordo não teve nenhuma tendência para contrariar sua estima pessimista da humanidade. Os marinheiros britânicos, com seu desdém habitual por estrangeiros, consideravam o doutor Van, como eles o chamavam, um assunto elegível para todos os tipos de violentas piadas práticas; as quais, para o fazer justiça, ele retaliava, sempre que obtinha a chance, através da inflição de tormentos duradouros em várias operações cirúrgicas.
O doutor, quem tinha um dom considerável por linguagens, logo absorveu o inglês, e [5]uma cópia das então recém-publicadas “Voyages of Captain Gulliver” caindo em sua mãos, ele leu-as com interesse intenso; ficando especialmente deleitado com o relato dos filósofos loucos na terceira viajem, e, acima de tudo, com a descrição horrível yahoos, na quarta. De fato, desde essa época, ele parece ter usado invariavelmente esse termo ao falar dos seus companheiros humanos.
Quando ele tinha alcançado a idade de aproximadamente vinte e três anos, a mãe dele morreu; e, visto que seu pai não sobreviveu por muito tempo a ela, o moço herdou um montante de propriedade que lhe propiciou uma renda tolerável e tornou-o independente da sua profissão. Ele resolveu abandoná-la e visita o Oriente; pois, tendo realizado várias viagens a Bombaim, ele tinha chegado à conclusão de que os yahoos daquela parte do mundo eram menos intoleráveis do que os exemplares europeus da raça.
Assim ele embarcou em um East Indiaman inglês e, após uma [6]viagem sem intercorrências, desembarcou em Bombaim no começo do ano de 1729. Tão logo a âncora foi lançada, ele não perdeu nenhum momento para deixar o navio, tendo escapado com dificuldade da indignidade de ser obrigado a apertar a mãos com o capitão yahoo. Ao desembarcar, ele chegou aos seus aposentos na casa de um comerciante para quem ele tinha uma carta de introdução; e, pouco depois, pelo mais mero acidente, ele encontrou-se na rua com um velho mercador parse, quem, embora claramente um yahoo, parece não ter sido absolutamente intolerável aos olhos do misantropo excessivamente sensível, cujas notas, neste ponto, tornaram-se contínuas pela primeira vez.]
“Enquanto eu estava caminhado à sombra de uma fileira de árvores que se alinhava com a rua, eu fui abordado por um mercador muito antigo de fé parse, quem me perguntou se eu não tinha vindo da Inglaterra no navio que tinha chegado naquela manhã. Eu respondi que tinha sido um passageiro nele, e nós imediatamente começamos a [7]conversar. O velho cavalheiro quase não era tão ofensivo aos sentidos quanto eram os yahoos ingleses, e ele estavam perfeitamente bem familiarizado com a língua inglesa. Eu descobri que, no exercício da sua profissão, ele tinha viajado muito em diversas partes da Ásia; e, a partir da sua maneira de falar, eu inferi que os yahoos daqueles países eram tão completamente abomináveis aos olhos deles quanto os espécimes europeus da raça eram aos meus próprios. Esse sentimento comum de desprezo pelos nossos vizinhos provou-se para nós mesmos uma ocasião de união, e logo havia entre nós uma amizade tão calorosa quanto dois yahoos são capazes de entreter um pelo outro.”
“Um dia, enquanto estava relatando algumas das suas aventuras, ele contou-me que, nos dias de sua juventude, quando viajando em negócios mercantis nas montanhas do Himalaia, ele por acaso encontrou um cavalheiro tibetano de nome Koot Homi. Tendo em uma ocasião feito um serviço digno de nota para esse sr. Homi, veio a acontecer que o tibetano, quem estava [8]em caráter graciosa de ânimo, sempre tinha se mostrado um amigo fiel para o parse. O velho mercador informou-me adicionalmente que Homi era um homem dotado de muitos e estranhos dons; que as famosas maravilhas operadas pelos mágicos ou prestidigitadores indianos eram a mais mesquinha brincadeira de bebês, quando comparadas com os feitos alcançados por Homi; e que se você apenas sussurrasse o nome dele nos ouvidos de um desses mágicos quando engajados em sua obra, o mágico daria um rugido terrível, e correria como se Belzebu mesmo estivesse em perseguição a ele.”
“Entre todas as maravilhas operadas por esse Homi, houve uma que me impressionou como a mais notável de todas. Esse foi o poder de mover a si mesmo, e vários artigos em contato com a pessoa dele, de uma maneira inescrutável de um distrito da superfície da terra para outro, não importa quão distante, e aparentemente em um instante de tempo. Eu perguntei ao meu amigo se alguma vez ele tinha visitado o sr. Homi no Tibete. Ele disse-me que tinha [9]estado lá, mas apenas uma vez; que uma jornada longa e terrível tinha de ser empreendida; terríveis passagens de montanha tinham de ser superadas; que a região na qual a residência do mágico estava fixada era habitada por uma sociedade ou irmandade estranha, os membros da qual eram dotados de muitos poderes possuídos por Homi mesmo, quem era o chefe deles; e que o acesso, a menos que através de uma permissão especial, a qual era muito raramente concedida, era uma impossibilidade absoluta.”
“E nesse ponto o ancião acrescentou uma expressão do seu arrependimento sem fim de que ele não tinha tirado proveito da oportunidade dele de, quando no Tibete, persuadir o sr. Homi de exercer o seu poder maravilhoso sobre ele, ou transportando-o inteiramente das regiões yahoo, ou, possivelmente, transmutando-o em uma forma menos odiosa. ‘Eu nunca deixei de me lamentar sobre minha estupidez a esse respeito,’ ele disse, ‘e, fosse eu apenas capaz disso, eu alegremente deveria repetir minha visita ao Tibete. Mas eu sou [10]velho demais para me aventurar nas fadigas de uma tal jornada. Quanto a você, contudo, o caso é muito diferente; você é um homem ativo e energético; e você deveria considerar que vale a pena tentar o que poderia ser feito em seu benefício da maneira que eu sugeri, eu alegremente daria a você uma carta que o possibilitaria a passar sem impedimento da Irmandade para o quartel general do sr. Homi.’ Eu agradeci-lhe muito pela oferta, e pedi-lhe para me deixar pensar sobre a questão até o dia seguinte, quando eu lhe daria minha resposta.”
“Quanto mais eu refleti sobre a oferta gentil do meu amigo, mais eu fiquei satisfeito com a perspectiva da jornada. Na medida que a vida tinha se tornado quase intolerável, eu importava-me muito pouco com fadiga ou perigo. Meu tempo estava inteiramente à minha disposição. Assim, na manhã seguinte, eu disse ao parse que eu alegremente aceito a proposta dele; e ele, sem nenhuma demora, não apenas escreveu a carta prometida de introdução, mas também desenhou para o meu uso [11]um itinerário da estrada mais conveniente de Bombaim para o Tibete Oriental, contendo informações de vilas, distâncias e várias peculiaridades dos países através dos quais era necessário passar.”
[Neste momento os memorandos assumem uma forma muito fragmentária. Esse eu tenho observado ser sempre o caso quando o doutor está ocupado com viagens. Quando estacionado em alguma localidade fixa, ele escreve suas observações bastante completamente; mas sempre que ele se move de um lugar para o outro, meras pistas estão disponíveis para a orientação do editor. Evidentemente, a jornada dele foi muito longa e árdua, e ela certamente ocupou muitos meses. Em seu curso, evidentemente muitos obstáculos foram postos em seu caminho pelos nativos dos territórios diferentes que ele teve de atravessar; e o incômodo surgindo a partir disso grandemente irritado o temperamento dele, e parece ter intensificado a uma extensão quase inacreditável sua desprezo pela raça humana.
[12]Pelo menos sua energia e perseverança indomáveis foram exitosas. Ele alcançou a misteriosa região tibetana; e, tendo exibido a carta do velho parse, foi permitido a ele pela Irmandade passar para a residência do chefe deles. Koot Homi recebeu o doutor de uma maneira muito amigável, e mesmo declinou de inspecionar a sua carta de introdução, assegurando-o de que o chefe da Irmandade oculta não tinha necessidade de o fazer. Van Varken parece ter residido com o chefe por aproximadamente cinco meses e, evidentemente, foi admitido a grande intimidade com o todo da Irmandade.
Uma razão para isso foi claramente o interesse muito grande tomado por Homi nas “Voyages of Gulliver,” uma cópia das quais foi apresentada a ele pelo doutor. Em particular, os relatos dos filósofos em Lagado, e dos animais racionais na forma exterior de cavalos, encontrados na sua quarta expedição, foram ouvidos pelo sábio com atenção ansiosa. O chefe [13]não parece ter duvidado da veracidade de Gulliver mesmo no mais leve grau; mas ele certamente expressou o desdém mais intenso pelos professores de Lagado, colocando muita ênfase na profundidade da estupidez deles em não tendo melhorado a condição deplorável dos Struldbrugs e Luggnagg, da existência dos quais, sem dúvida, os professores estavam cientes. “Mesmo quando a vida imortal foi concedida a eles sobre a qual trabalharem, eles foram incompetentes para se guardarem contra os efeitos da decadência senil! Porque, o mais mesquinho principiante em nossas escolas ficaria envergonhado de permitir que o velho Struldburg chegasse em um tal estado.” Disse ele, com indignação desdenhosa.
Mas, embora ele mostrasse muita simpatia pelo anseio do dr. Van Varken para ser transmutado em uma espécie diferente daquele que ele tanto abominava, o sr. Homi não sustentava nenhuma esperança de sucesso em um empreendimento tão louvável. “Não,” disse ele, “muitos anos de preparação árdua, para não dizer nada dos raros dons naturais, são qualificações indispensáveis [14]para tal transformação; poucos mesmos dentre os adeptos são capazes dela. Mas o poder de passagem instantânea de um ponto terrestre para outro é muito mais fácil de ser alcançado.”
E parece que, após uns poucos meses de provação, o segredo desse processo foi efetivamente comunicado ao doutor; mas, sobre obrigações tão rígidas para silenciar que nenhum traço da sua natureza deve ser encontrado confiado à escrita. Tudo que pode ser determinado sobre isso é que uma desintegração instantânea, e reintegração igualmente rápida, das moléculas últimas dos corpos movidos, é efetuada; que o deslocamento é alcançado através do meio das ondulações do veículo etéreo que permeia todo o espaço; e que a taxa de transmissão é idêntica àquela da transmissão da luz, a saber, 186.000 milhas em um segundo. Uma vez mais as notas se tornam contínuas.]
Eu fiquei muito satisfeito em obter essa nova e maravilhosa faculdade de me mover; [15]mas, após fazer alguns ensaios exitosos, pareceu-me que eu não deveria ficar muito melhor em sua posse. Yahoos estando espalhados em todas as partes sobre a face da terra, para onde quer que eu me movesse eu certamente ainda deveria os encontrar; e talvez essa foi razão de porque, enquanto eu estava caminhando por mim mesmo em uma noite, e aconteceu-me de ver o planeta Vênus, ou Hésperos, brilhando no céu, o pensamento entrou em minha mente de que, na medida que o éter preenche todo o espaço entre os planetas, poderia ser exatamente possível que o poder de movimento através de desintegração de moléculas, o qual, até agora, apenas tinha sido ensaiado entre os lugares da superfície da terra, poderia estender-se até os planetas mesmos.
A lua, sendo o mais próximo dos corpos celestes, naturalmente pareceria propiciar a oportunidade mais promissora para tentar o experimento; mas, tendo aprendido no Tibete que ela é bastante destituída de ar, eu resolvi tentar alguma outra região; pois eu [16]pensei que seria bastante inútil chegar lá e imediatamente morrer por falta de respiração. Se eu apenas pudesse chegar até Hésperos minhas chances de vida seriam muito melhores, na medida que, eu fui assegurado pelos mesmos filósofos, há boa razão para acreditar que o planeta é muito abundantemente suprido com ar. Além disso, afortunadamente, aconteceu que ele estava apenas então aproximando-se da posição chamada pelos astrônomos de sua conjunção inferior, assim a distância dele a partir da terra não era muito acima de vinte e duas mil milhas.
O risco principal no qual eu deveria incorrer na tentativa de fazer essa passagem evidentemente seria a possibilidade, talvez eu devesse dizer a probabilidade, e extinção da força vital durante o período de desintegração, o qual eu estimei de um pouco mais do que dois minutos. Era conhecido pela Irmandade tibetana que as partículas desintegradas moviam-se exatamente à mesma velocidade que a luz; e, visto que a luz requer aproximadamente oito minutos para atravessar a distância [17]entre o sol e terra, dois seriam quase suficientes para se moverem até Hésperos em sua conjunção inferior. Se após um tal intervalo de suspensão a força vital manteria energia suficiente para realizar a reintegração da qual a continuação da vida corporal depende, apenas um experimento poderia revelar. Mas eu me importava muito pouco com o risco. A vida há muito tinha se tornado odiosa para mim; agora uma chance tinha sido dada para escapar da sociedade dos yahoos e de todas as suas abominações. Eu resolvi tentar a sorte – no pior caso, eu apenas deveria perecer.
Eu não fiz nenhuma comunicação da minha intenção para o chefe, com o receio de que ele devesse levantar alguma objeção ao meu empreendimento intencionado; e na noite seguinte mesma, às dez horas, eu sai, levando comigo, nos vários bolsos da vestimenta oriental que, por conveniência na viagem asiática, eu tinha adota em Bombaim, diversos pequenos artigos para higiene, também meu relógio de prata, e um instrumento engenhoso para mensuração das quantidades de calor, o qual tinha [18]sido enviado para mim como um presente exatamente antes de eu deixar a casa, pelo meu bom amigo, sr. Gabriel Fahrenheit, de Amsterdã, que recentemente o tinha inventado. Eu sentei-me sobre uma rocha ao lado da montanha; Hésperos estava distintamente visível, embora apenas um fino crescente do seu rosto iluminado estava voltado em direção à terra. Cuidadosamente notando o tempo, o qual era exatamente trinta e sete minutos após as dez, e também tendo marcado a temperatura, a qual era de vinte e sete graus no meu termômetro, como o instrumento é chamado, eu realizei a desintegração, indicando Hésperos como o objetivo.
ORIGINAL:
BARLOW, J. W. The Immortals' Great Quest, translated form An Unpublished Manuscript in the Library of a Continental University. London: Smith, Elder & Co.,15, Waterloo Place, 1909. p. 1-18. Disponível em: <https://archive.org/details/immortalsgreatqu00barl/page/1/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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