Os Ses da História II Se os Mouros tivessem vencido a Batalha de Poitiers

Os Ses da História


Por Joseph Edgar Chamberlin


Prefácio e Conteúdos


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[21]Capítulo II Se os Mouros tivessem vencido a Batalha de Poitiers


As contingências mais tremendas em toda a história – a determinação do destino de continentes inteiros, civilizações inteiras, por um único acidente – algumas vezes são as ocorrências que são mais completa e significativamente ignoradas pelo cidadão ordinário. Por exemplo, não ocorre ao homem na rua que, exceto por uma virada na maré da batalha de um certo dia de outubro no ano de 732, em campo ensolarado na França central-norte, ele, homem na rua, seria hoje em dia um devoto muçulmano, ouvindo à noite a [22]convocação do muezim a partir de um minarete vizinho, repudiando porco e toda bebida alcoólica, e afastando-se de ações e todos os tipos de especulação como formas proibidas de apostas.

O islamismo provavelmente seria hoje em dia, se não fosse por um única batalha lutada arduamente e o seu resultado, a forma estabelecida de religião em toda a Europa. Até a Inglaterra teria sido incapaz de resistir à investida dos impetuosos árabes, uma vez que eles tivessem estabelecidos a si mesmos em triunfo do Tejo ao Vístula; e a conversão de toda a Europa teria levado com ela a islamização do novo mundo – supondo-se, de fato, que a América tivesse, até esse momento, sido descoberta sob auspícios mouros, o que é improvável.

Certamente a Europa estava mais próxima da conquista pelos mouros no século VIII do que a maioria das pessoas supõe. Há poucos episódios mais finos ou mais heroicos na história do que a série extraordinária de conquistas através [23]das quais um punhado de árabes fanáticos, inspirados pela profeta Maomé, levaram, com fogo e espada, a fé do Islã através de todo o mundo, até que, dentro de duzentos anos da data do nascimento do profeta, ele reinava desde as costas do atlântico até os bancos de areia do Indo. Horda após horda de impiedosos guerreiros do Crescente tinham surgido. O propósito deles, francamente, era converter o mundo, e convertê-lo à força. Separando-se das suas bases de suprimento, e dependendo de uma aliança de milagre e rapinagem para se sustentarem, as suas campanhas triunfantes eram uma contínua e colossal marcha de Sherman para o oceano.

Eles atingiram a Europa no leste e também através do oeste. O fogo grego deteve-os nos portões de Constantinopla no oriente, mas eles conquistaram todo o norte da África, cruzaram o estreito de Gibraltar, e fluíram como uma torrente através da Espanha e do sul da França. Pelo ano de 731, como Gibbon [24]fala verdadeiramente, o inteiro sul da França, desde a boca do Garona até aquela do Ródano, tinha assumido os costumes e a religião da Arábia.

Abd-er-Rahman, o conquistador reinava supremo na Europa sudoeste. Espanha e Portugal tinham sido anexados à Ásia, e agora a vez da França certamente tinha chegado.

Mas diante dessa crise, uma figura heroica surgiu na Europa – escassamente uma figura elegante, embora uma pitoresca. O trono dos francos tinha sido tomado por um filho ilegítimo do velho rei Pepino, um guerreiro grosseiro e desatento, cujo comando agradava o povo melhor do que o fazia aqueles de sacerdotes e mulheres a quem Pepino tinha deixado atrás de si. Esse usurpador sangrento era chamado de Carlos, ou Karl, e estava destinado a posteriormente ser chamado de Martel, “o Martelo.” por conta dos golpes de ferro que ele desferia sobre todos aqueles que o encaravam.

Abd-er-Rahman, o mouro vitorioso, avançou no norte da França, [25]derrubando exércitos com facilidade e saqueando cidades, igrejas e conventos enquanto ele marchava. Nada poderia o deter, como parecia. Eles tinha fincado o estandarte do profeta nos portões de Poitiers, a qual fica a cento e trinta milhas, como o corvo voa, de Páris. Mas entrementes, o usurpador e de nascimento humilde Carlos, em comando de um exército pequeno, composto principalmente de guerreiros germânicos gigantes e bem experientes, estava esgueirando-se adiante, como um indiano, sob o abrigo de uma cordilheira de colinas, na direção do acampamento sarraceno; e um dia, para a grande surpresa de Abd-er-Rahman, Carlos caiu sobre ele como um venerável martelo de ferro vermelho quente.

Não em um momento, nem em um dia, a questão foi decidida. Durante seis dias os exércitos lutaram, e através de tudo se aguentaram Abd-er-Rahman e sua horda de fanáticos. Mas no sétimo dia, Carlos liderou um batalhão dos seus germânicos maiores e mais ferozes, diretamente contra o centro mouro. Abd-er-[26]Rahman mesmo foi morto; o exército dele, horrorizado por essa circunstância, foi dividido e esmagado, e desapareceu na direção do sul.

Carlos Martelo tornou certa a sua vitória através de outra companhia exitosa. Os mouros foram expulsos da França para sempre. Em seu lugar, Carlos mesmo reinou. Ele salvou a Europa para a cristandade. Contudo, pela sua falta de docilidade, a igreja execrava-o.

Se Abd-er-Rahman tivesse invadido a França, como ele certamente teria feito se um antagonista menos formidável e terrível do que Carlos Martelo tivesse encarado-o em Poitiers, ele teria voltado sua atenção em seguida para a Alemanha. Com a queda dela, Itália e Roma teriam atraído a atenção dele. Ali ele teria encontrado apenas poucos sacerdotes para se oporem a ele, e o império do Oriente, atacado na retaguarda assim como na fronte, rapidamente teria sucumbido. Nenhum santo Cirilo teria partido para converter os russos e búlgaros, quem [27]teriam sido prontamente tartarizados.

Como nós vimos, nada poderia ter salvo Inglaterra ou Irlanda. A conquista mundial do profeta teria sido realizada.

E então? O mundo ocidental teria permanecido no estágio de cultura no qual nós vemos a Arábia hoje em dia? Não há razão para supor que esse teria sido exatamente o caso. Não foi assim na Espanha moura, a qual ascendeu a um alto nível de cultura. A cristandade não teria sido suprimida. Ela não foi suprimida na Turquia ou Espanha. Mas provavelmente ela teria sido governada, dominada, forçada para cantos estranhos e, em alguma extensão, islamizada. O conhecimento não teria definhado, pois, em certas formas importantes, ele floresceu na Espanha. O cérebro ocidental, o gênio ariano, tem de ter tido seu caminho em muitos aspectos intelectuais. Contudo o molde do pensamento oriental certamente teria sido adoecido por contemplatividade oriental.

O “despachado” nunca poderia ter existido sob o governo islâmico. O especulador nunca teria ascendido, porque ele não teria sido tolerado. A doutrina islâmica proíbe sensos e estatísticas, tratando-os como uma forma de curiosidade perversa relativa ao governo de Deus sobre a terra. Arte pictórica e escultura, as quais o Corão considera como idolatras, teriam sido firmemente reprimidas. A literatura teria sido grande, ao longo da linha da poesia; a ciência, grande, ao longo da linha da matemática.

A mulher ocidental teria sido orientalizada. Muito longe de formar clubes, a ela não teria sido permitido nem mesmo orar nas mesquitas.

A América teria permanecido não descoberta por séculos; e finalmente, se acidente ou busca tivessem desnudado-a, ela teria seguido o caminho da Europa. Os tons melífluos da [29]cadência do muezim, “La ilah ’i il ’Allah,” “Não há nenhum deus senão Deus,” ecoariam agora onde os gritos e brados dos especuladores de Wall Street reverberam. E a morada do poderoso teria sido uma Casa do Quieto, não uma casa de extenuação.


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ORIGINAL:

CHAMBERLEIN, J. E. The Ifs of History. Philadelphia: Henry Altemus Company, 1907. p. 21-29. Disponível em: <https://archive.org/details/ifsofhistory00chamuoft/page/21/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0 

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