Os Ses da História III Se o Rei Etelredo não tivesse se casado com a Normanda Emma

Os Ses da História


Por Joseph Edgar Chamberlin


Prefácio e Conteúdos


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[30]Capítulo III Se o Rei Etelredo não tivesse se casado com a Normanda Emma


Não ocorre muita coisa por causa do casamento de reis hoje em dia. O kaiser alemão não é menos indubitavelmente alemão porque a mãe dele era uma mulher inglesa. Nem o casamento dela com o príncipe coroado da Prússia concede à Prússia ou Alemanha o mais leve domínio sobre a Inglaterra.

Era completamente diferente em uma época antiga. Um casamento real em particular, aquele do rei Etelredo, o Desatento, o “Despreparado,” da Inglaterra, com Emma, a filha de Ricardo, o Destemido, duque da Normandia, no ano de 1002, exerceu [31]sobre a Britânia e o mundo a influência mais tremenda. Ela levou à invasão e subjugação da Inglaterra por William, apelidado de o Conquistador, e à reconstrução daquele país-mãe nosso, politicamente, socialmente e racialmente, sobre novas linhas. Talvez nenhum casamento real alguma vez teve consequências tão duradouras e de longo alcance; nenhuma rainha-eleita alguma vez levou com ela para o seu pais adotante uma carga tão grande de mudanças fatídicas.

O casamento em si mesmo foi uma questão suficientemente banal. Etelredo era um príncipe suave a bastante gentil, quem pensava muito mais de suas próprias fortunas fáceis do que em qualquer outra coisa. Ele queria uma esposa e não gostava das dinamarquesas, quem eram racial e politicamente as vizinhas mais próximas da sua casa real. Ele visitou a Normandia, e deve ter agradado o duque, pois Ricardo um homem corajoso e engenhoso, concedeu essa Emma de cabelos claros, uma descendente linear dos vitoriosos piratas nórdicos, mas [32]agora bastante afrancesados, ao jovem inglês.

Ela não estava destinada a ver o longo reino da sua progênie sobre a Inglaterra. Mas isso não importou sobre os descendentes dela. A grande mudança não veio com eles. O que ela realmente fez foi conceder ao sobrinho dela, o duque William, conhecido na história como o Conquistador, quem ainda estava por alcançar o trono da Normandia, um pretexto para agarrar a coroa inglesa para si mesmo.

William foi de nascimento ilegítimo. A mãe dele era Arvela, uma garota pobre a quem o duque Roberto um dia viu lavando roupas no rio e imediatamente se enamorou por ela. Mas do lado do pai dele, William era, através do casamento de Emma, primo do rei Eduardo, o Confessor, filho do despreparado Etelredo. Em um dia de sorte para ele, ele visitou a Inglaterra. Foi um momento quando Eduardo estava muito doente, e William sempre alegou depois disso que ele tinha recebido de Eduardo, em sua cama de doente, uma promessa solene de que [33]o duque normando deveria sucedê-lo no trono inglês.

Eduardo não tinha filho, mas parece bastante improvável que um soberano tão sábio quanto ele foi devesse deliberadamente ter aberto a mão do trono e do país para um estrangeiro, especialmente quando o seu cunhado, Haroldo, conde de Wessex, um homem capaz, estava pronto para o suceder. De qualquer modo, os ingleses trataram da questão, pois eles imediatamente tornaram Haroldo rei, ignorando a reivindicação do trono ao vilmente nascido duque William.

Mas como o mundo sabe, William foi capaz de tirar proveito de sua reivindicação fraca. Se Eduardo concedeu ou não a coroa a ele, Stamford Bridge e Hastings concederam-na a ele. Quando finalmente, seguindo a lei da época, ele apresentou a si mesmo ao sufrágio da nação inglesa, os representantes do povo vencido não tiveram opção senão o eleger. Ele foi uma parte da bagagem que a rainha Emma trouxe com ela.

[34]Qual foi o resto disso? Em primeiro lugar, união e consolidação, centralização. Até aquela época, a Inglaterra tinha sido apenas um amontoado quebrado de condados ou territórios tribais, e teria seguido assim se não tivesse finalmente encontrado um mestre. Em segundo lugar, William trouxe o toque de França, de Roma, do gracioso mundo latino, para a Inglaterra. Esse filho de uma centena de piratas passou para a Inglaterra a tocha da cultura que tinha sido acessa na Grécia e reacendida em Roma. Não foi por nada que o que tinha sido carne de boi com os saxões agora se tornou bife para o inglês; o que tinha sido carne de bezerros tornou-se vitela, e carne básica de suíno reapareceu como um prato mais elegante chamado de porco. Significou alguma coisa que a linguagem rude de Beowulf devia ser sucedida pelo cadência mais suave de Chaucer – em resumo, que o inglês tinha uma nova e livresca língua.

Em simples verdade, isso significou o desaparecimento da antiga Inglaterra e [35]o nascimento de uma nação nova e maior. “Foi naqueles anos de sujeição,” diz Green, “que a Inglaterra se tornou realmente Inglaterra.” Os normandos degradaram o grosso dos lordes ingleses, mas eles tornaram esses nobres deslocados o núcleo de uma nova classe média. Ao mesmo tempo, a proteção deles levou à elevação da mesma classe média de uma raça de cultivadores que tinham sido camponeses. Além disso, o governo normando expandiu vilas em vilarejos e cidades, e esses, com o tempo, começaram a erguer-se, como poderosos distritos, pelos direitos do povo. A conquista, diz Green, “assegurou para a Inglaterra uma nova comunhão com a vida artística e intelectual do mundo fora dela. A essa ela não deveu meramente a riqueza inglesa e a liberdade inglesa, mas a Inglaterra mesma.”

Edward A. Freeman chamou a conquista normanda de “o evento mais importante na história inglesa desde a chegada inicial dos ingleses e a [36]conversão deles à cristandade.” Se a sucessão de reis nativos tivesse continuado, diz a mesma autoridade, “a liberdade poderia ter morrido passo a passo, como ela fez em algumas outras terras. Por assim dizer, o efeito principal da conquista foi conjurar o antigo espírito inglês em uma nova e antagonística forma, dar à nação inglesa novos líderes nos conquistadores, quem, gradualmente, foram mudados em concidadão, e, através da união de homens de ambas as raças, conquistar de volta a substância das antigas instituições sob novas formas.”

Em outras palavras, a princesa normanda Emma trouxe consigo John Bull como uma parte do seu dote, quando ela veio ao fraco Etelredo como sua noiva.


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ORIGINAL:

CHAMBERLEIN, J. E. The Ifs of History. Philadelphia: Henry Altemus Company, 1907. p. 30-36. Disponível em: <https://archive.org/details/ifsofhistory00chamuoft/page/30/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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