A Grande Busca dos Imortais III Sobre a Hesperografia Física

A Grande Busca dos Imortais, traduzida de Um Manuscrito Não publicado na Biblioteca de uma Universidade Continental


Por James William Barlow


Prefácio e Conteúdos


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[35]Capítulo III Sobre a Hesperografia Física


Sobre a Hesperografia Física – Da grande Barreira de Nuvens e do seu efeito sobre a Astronomia Terrestre – Do grande Tornado Equatorial Crônico e da sua importância extraordinária na história de Hésperos – Das Montanhas Gigantes; e da Flora e Fauna.


Para entender corretamente a natureza do meu trato com os hesperianos, eu tenho de fornecer uma breve descrição da estrutura e das principais características naturais da superfície do planeta deles; e, da mesma maneira, alguma explicação da origem dos habitantes racionais de lá, e dos pontos principais nos quais as condições de vida deles diferem das nossas próprias. Todo esse conhecimento foi obtido por mim, como eu expliquei, depois do estabelecimento de um meio de comunicação, no curso de muito diálogos, não apenas com os três [36]a quem eu tinha instruído na língua holandesa, mas também com muito outros, quem tinham com rapidez e facilidade quase iguais, captado-a. Mas eu penso que o leitor considerar mais conveniente se eu apresentar a ele, em um discurso conectado, essa história estranha que veio ao meu conhecimento apenas gradualmente e de uma maneira bastante desviada.

Há muito tempo os nossos próprios astrônomos computaram a distância de Hésperos a partir do sol, sua magnitude, densidade, seu tempo de rotação sobre seu eixo, e uns poucos outros particulares. Algumas dessas computações estão extremamente corretas, mas eles superestimaram consideravelmente a distância dele a partir do sol, a qual realmente não é muito acima de sessenta e seis milhões de milhas. E com respeito à geografia física, ou, mais apropriadamente, hesperografia do planeta, eles estão, todos eles, em ignorância absoluta, e isso pela melhor das razões possíveis – nenhum ser humano, exceto eu mesmo, alguma vez viu a superfície dele. Aperfeiçoamentos no telescópio nunca possibilitarão [37]aos astrônomos terrestres penetrarem no estrato permanente de nuvens que, a uma elevação média de vinte milhas, circunda o planeta inteiro como uma barreira. O disco visível de Hésperos é simplesmente a superfície exterior dessa barreira de nuvens, a qual reflete os raios solares muito copiosamente. A atmosfera hesperiana é de densidade imensa, pois a altura média na qual o mercúrio fica em um tubo construído segundo o método do senhor Torricelli é aproximadamente de cinquenta e nove polegadas. É afortunado que, exceto na região equatorial, tempestades sejam desconhecidas, pois o impacto de um furação de ar de densidade tão grande seria fatal para a maioria das formas de vida.

Essa atmosfera pesada suporta o estrato de nuvens há pouco mencionado, o qual é suficientemente denso para agir como uma barreira contra os raios solares, e, dessa maneira, tornar o clima da maior parte do planeta de maneira nenhuma desagradável. Embora o suprimento de calor solar seja quase o dobro daquele recebido pela Terra, eu nunca, durante a minha [38]residência de dois anos em Hésperos, experienciei nem mesmo um inconveniente a partir dessa fonte como eu frequentemente tenho encontrado em nossos próprios países tropicais.

O planeta é dividido em duas regiões, as quais, em tempos antigos, eram supostas ser, e, em um aspecto, realmente eram, mutuamente inacessíveis. A divisão é feita por um imenso oceano equatorial que circunda o globo inteiro. A extensão desse oceano, medido do norte para o sul, não é em nenhum lugar menor do que quatro mil milhas. Cada um dos polos é o centro de um vasto continente que se estende para todos os lados até que ele encontra o grande oceano central. As margens desses continentes são excessivamente irregulares em forma, sendo quebradas por braços do mar, os quais frequentemente correm interior acima por milhares de milhas. Muitas ilhas, algumas das quais são de tamanho considerável, estão espalhadas através do oceano, mas nenhuma dessas está a uma distância muito grande do continente. A superfície inteira está quase inteiramente dividida [39]entre terra e água, essa distribuição formando um contraste marcado com o estado presente da Terra.

De longe o fenômeno físico mais impressionante sobre o planeta é o terrível furação crônico que se agita ao redor do equador. Para isso eu tenho de pedir a atenção especial do leitor, visto que alguns dos eventos mais espetaculares da história hesperiana devem ser apenas entendidos com referência a esse tornado extraordinário e até agora inexplicado. Eu já tinha mencionado a excessiva densidade do ar, e também a exceção feliz da maior do planeta de tempestades. Mas parece que essa energia latente da atmosfera encontra a sua vazão em uma zona de aproximadamente quinhentas milhas de largura, da qual o equador forma a linha central. De acordo com todos os relatos, um tornado permanente, de violência tão grande que alguém está acostumado apenas com as tempestades que ocorrem na atmosfera mais rarefeita da Terra é incapaz até de o imaginar, [40]dilacera e agita-se ao redor da zona para sempre. Ainda menos qualquer um poderia conceber o aspecto do oceano sujeitado a esse furacão incessante e tremendo. Qualquer um que pudesse realizar em sua imaginação a catarata do Niágara, liberta das suas amarras americanas, e errando sobre o mar, talvez pudesse tem alguma noção de uma das ondas equatoriais.

Essa é a razão pela qual eu descrevi os hemisférios hesperianos norte e sul como mutuamente inacessíveis. Nenhuma embarcação construída por mão mortais poderia aproximar-se desse pandemônio e viver. Mas à frente nós deveremos ver que, após a passagem de muitas eras, contando a partir do aparecimento inicial da vida racional, o trânsito foi efetuado de uma maneira totalmente inesperada. Esse trânsito levou a uma descoberta muito terrível, e, com essa descoberta, nós deveremos ver que a história moderna de Héspero começa.

Além disso, as diferenças quanto ao calor e ao frio nas várias regiões climáticas de [41]Hésperos quase não são tão grandes quanto aquelas experienciadas na Terra. Esse fato deve ser parcialmente explicado pelo aumento considerável na densidade do estrato permanente de nuvens, o qual ocorre conforme nós chegamos perto da zona equatorial. Isso fornece uma barreira muito efetiva contra os raios solares nos distritos onde um tal anteparo é mais necessário. Para o propósito de residência, as duas regiões polares são inquestionavelmente muito mais agradáveis. Cada uma delas abunda em lindos lagos e cenário magnífico de montanhas. As montanhas hesperianas estão em uma escala muito maior do qualquer uma que ocorrer na Terra. Em particular, começando a partir de um ponto perto do polo norte, dali se estende em uma direção sudestina uma poderosa cadeia que tem vários picos com não menos do que oitenta milhas inglesas de altura.

Alguns desses picos até perfuram através do anteparo de nuvens, e esses têm sido disponibilizados para a construção de extensos observatórios astronômicos. Há [42]similares, embora não cordilheiras tão elevadas no hemisfério sul, e os picos delas têm sido utilizados da mesma maneira. Deveria ser observado que, se não fosse por essas montanhas, os hesperianos teriam ficado inteiramente isolados de todo conhecimento do restante do universo, pois nenhum dos corpos celestes é visíveis através do anteparo permanente. Eu não tenho de dizer que precauções muito grandes são tomadas em todos os observatórios para protegerem os astrônomos e os instrumentos do grande calor do sol.

Eu já mencionei que, com a terrível exceção observada acima, tempestades são desconhecidas em Hésperos. O país é bem irrigado em toda parte, não há desertos arenosos. Evaporação intensa ocorre sobre o oceano central; nuvens de chuva são constantemente formadas em uma atitude muito mais baixa do que o anteparo, e, sendo sopradas pelas brizas muito gentis sobre a terra, descarregam seus conteúdos em chuva fertilizante. Não há tempestades de raios ou fenômenos elétricos de [43]nenhum tipo; nenhum hesperómoto, nenhum vulcão, de fato, nenhum daqueles vastos instrumentos de morte dos quais a nossa Terra está tão copiosamente suprida.

Como poderia ter sido esperado, o planeta abunda em múltiplas formas de vida vegetal. Há muitas árvores que se assemelham estritamente àquelas da Terra; muitas também de tipos muito diferentes de qualquer um daqui. A grande preponderância em número de árvores frutíferas sobre espécies estéreis é excessivamente digna de nota. Quanto às flores, eu não vi nenhuma na Terra, tropical ou não tropical, que, de qualquer maneira, aproxime-se do esplendor deslumbrante da coloração hesperiana.

Por outro lado, a vida animal é rara, e está confinada a um número pequeno de espécies aparentemente insignificantes. A tribo dos pássaros forma a única exceção. Desses, as formas são numerosas e amáveis, e, visto que eles nunca são molestados pelos habitantes, eles são singularmente domesticados. Não há mamíferos grande ou [44]carnívoros; e é digno de nota que nos tipos de tamanho pequeno e graminívoros dessa classe – os únicos quadrupedes de Hésperos – o poder reprodutivo é excessivamente pequeno, em comparação com as tribos da Terra. Insetos e répteis são inteiramente desconhecidos; os pássaros numerosos vivem inteiramente das frutas abundantes. Eu apreciei grandemente o conforto de ser capaz de sentar e descansar sobre a grama sem ser imediatamente coberto com uma multidão nojenta de formigas picantes, e, quando na casa, eu logo aprendi a submeter-me com resignação à ausência da barata repugnante e dos tanto repugnantes quanto perigosos centopeia e escorpião.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BARLOW, J. W. The Immortals' Great Quest, translated from An Unpublished Manuscript in the Library of a Continental University. London: Smith, Elder & Co.,15, Waterloo Place, 1909. p. 35-44. Disponível em: <https://archive.org/details/immortalsgreatqu00barl/page/35/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0 

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