O Livro Azul das Fadas
Editado por Andrew Lang
Dedicatória, Prefácio e Conteúdos
[96]Rumpelstiltzkin
Uma vez existiu um pobre moleiro que tinha uma filha muito bonita. Agora, aconteceu que um dia ele teve uma audiência com o rei, e, para parecer uma pessoa de alguma importância, ele disse-lhe que tinha uma filha que poderia fiar palha em ouro. ‘Agora, esse é um talento digno de se ter,’ disse o rei para o moleiro; ‘se a sua filha for tão esperta quanto você diz, traga-a para o meu palácio amanhã, e eu a testarei.’ Quando a garota foi trazida a ele, ele conduziu-a a uma sala cheia de palha, deu-a uma roda de fiar e um fuso, e disse: ‘Agora, comece a trabalhar e fie a noite toda até cedo pela manhã, e, se por essa hora, você não tiver fiado a palha em ouro, você deverá morrer.’ Então ele fechou a porta atrás de si e deixou-a sozinha.
Assim a pobre filha do moleiro sentou-se e de modo nenhum sabia o que devia fazer. Ela não tinha a menor ideia de como fiar palha em ouro e finalmente se tornou tão miserável que começou a chorar. Subitamente a porta abriu-se e entrou um minúsculo homem e disse: ‘Boa noite, Senhorita criada-moleira; por que você está chorando tão amargamente?’ ‘Oh!’ respondeu a garota, ‘Eu tenho de fiar palha em ouro, e não tenho noção de como isso é feito.’ ‘O que você me dará se eu fiar isso para você?’ perguntou o anão. ‘Meu colar,’ respondeu a garota. O pequeno homem pegou o colar, sentou-se na roda, e zumbido, zumbido, zumbido, a roda girou três vezes, e a bobina ficou cheia. Em seguida ele colocou outra, e zumbido, zumbido, zumbido, a roda girou três vezes, e a segunda também ficou cheia; e assim foi até a manhã, quando toda a palha tinha sido fiada, e todas as bobinas estavam cheias de ouro. Tão logo o sol subiu, o rei veio, e, quando percebeu o ouro, ele ficou espantado e encantados, mas o coração dele ansiou mais do que nunca o metal precioso. Ele fez a filha do moleiro ser colocada em outra sala cheia de palha, muito maior do que a primeira, e ordenou que ela, se valorizava a vida dela, fiasse todo o ouro antes da [97]manhã seguinte. A garota não soube o que fazer e começou a chorar; então a porta abriu-se como antes, e o minúsculo homem apareceu e disse: ‘O que você me dará se eu fiar a palha em ouro para você?’
‘O anel do meu dedo,’ respondeu a garota. O anão pegou o anel, e zumbido! A roda de fiar girou novamente, e, quando a manhã tinha irrompido novamente, ele tinha fiado toda a palha em ouro cintilante. O rei ficou feliz além da medida diante da visão, mas a ganância [98]dele por ouro ainda não ficou satisfeita, e ele fez a filha do moleiro ser trazida a uma sala ainda maior cheia de palha, e disse: ‘Você tem de fiar tudo isso à noite; mas, se suceder desta vez, você deverá tornar-se minha esposa.’ ‘Ela é apenas uma filha de moleiro, é verdadeiro,’ ele pensou; ‘mas eu não poderia encontrar uma esposa mais rica se eu devesse procurar através do mundo todo.’ Quando a garota ficou sozinha, o pequeno homem apareceu pela terceira vez e disse: ‘O que você me dará se eu fiar a palha para você mais uma vez?’ ‘Eu não tenho mais nada para dar,’ respondeu a garota. ‘Então me prometa que, quando for rainha, você me dará o seu primeiro filho.’ ‘Quem sabe o que não pode acontecer antes disso?’ pensou a filha do moleiro; e, além disso, ela não viu nenhuma outra saída, assim ela prometeu ao anão o que ele demandou, e mais uma vez ele começou a trabalhar e fiou a palha em ouro. Quando o rei chegou pela manhã e viu tudo como ele tinha desejado, ele imediatamente a tornou sua esposa, e a filha do moleiro tornou-se uma rainha.
Quando um ano tinha se passado, ela deu à luz um belo filho, e ela não mais pensava no pequeno homem, até que, em um súbito dia, ela entrou na sala dela e disse: ‘Agora, dê-me o que você prometeu.’ A rainha estava em uma grande condição, e ofereceu ao pequeno homem todas as riquezas do reino dela se ele apenas deixasse a criança dela. Mas o anão disse: ‘Não, uma criatura viva é mais cara para mim do que todos os tesouros do mundo.’ Então a rainha começou a chorar e soluçar tão amargamente que o pequeno homem ficou triste por ela e disse: ‘Eu concederei a você três dias para adivinhar o meu nome, e, se descobri-lo nesse tempo, você pode ficar com a sua criança.’
Então a rainha ponderou a noite toda sobre todos os nomes que alguma vez ela tinha ouvido, e enviou um mensageiro para pesquisar a terra e catar longe e perto quaisquer nomes com os quais ele devesse deparar-se. Quando o pequeno homem chegou no dia seguinte, ela começou como Kasper, Melchior, Belshazzar, e todos os outros nomes que ela conhecia, mas diante de cada um o anão clamava: ‘Esse não é o meu nome.’ No dia seguinte ela convocou para inquirir os nomes de todas as pessoas na vizinhança, e obteve uma longa lista dos mais incomuns e extraordinários para o pequeno homem quando ele apareceu. ‘O seu nome é Sheepshanks, Cruickshanks, Spindleshanks?’ Mas ele sempre respondeu: ‘Esse não é o meu nome.’ No terceiro dia, o mensageiro retornou e anunciou: ‘Eu não fui capaz de encontrar nenhum nome novo, mas, conforme eu chegava a uma alta colina ao redor do canto da floresta, onde as raposas e as lebres desejam boa noite umas às outras, eu vi uma pequena casa, e à frente da [99]casa queimava uma fogueira, e ao redor dela pulava um pequeno homem grotesco, pulando em uma perna e gritando:’
Hoje eu preparo cerveja, hoje eu cozo no forno,
E então a criança para longe eu levo;
Pois pouco imagina minha pequena dama real
Que Rumpelstiltzkin é meu nome!
Você pode imaginar o deleite da rainha ao ouvir o nome, e, quando o homem pequeno logo depois entrou e perguntou: ‘Agora, minha dama rainha, qual é o meu nome?’ Ela perguntou primeiro: ‘O seu nome é Conrad?’ ‘Não.’ ‘O seu nome é Harry?’ ‘Não.’ ‘Talvez, o seu nome seja Rumpelstiltzkin?’ ‘Algum demônio disse isso a você, algum demônio disse isso a você,’ gritava o pequeno homem e, em sua fúria, enfiou tão fundo o seu pé direito no chão que ele afundou-o até a cintura dele; então, em uma cólera, ele agarrou o pé esquerdo com as mãos e partiu a si mesmo em dois.1
ORIGINAL:
LANG, A. The Blue Fairy Book. Edited by Andrew Lang, with Numerous Illustrations by H. J. Ford and G. P. Jacomb Hood. London: Longmans, Green and Co., and New York: 15 East 16th Street, 1889. p.96-99. Disponível em: <https://archive.org/details/bluefairybook00langiala/page/96/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1Grimm.


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