O Livro Azul das Fadas - O Gato Mestre; ou, O Gato de Botas

O Livro Azul das Fadas


Editado por Andrew Lang


Dedicatória, Prefácio e Conteúdos


[141]O Gato Mestre; ou, O Gato de Botas


Havia um moleiro que nada mais deixou de propriedade para os três filhos que ele tinha do que o seu moinho, seu asno e seu gato. A partição logo foi feita. Nem escrivão nem advogado foi convocado. Logo eles tinham consumido todo o patrimônio do pobre. O mais velho recebeu o moinho; o segundo, o asno e o mais jovem, nada senão o gato.

O pobre rapaz estava bastante desconsolado diante do recebimento de um quinhão tão pobre.

Meu irmãos,’ disse ele, ‘podem obter de modo suficientemente generoso o seu sustento ao combinarem seus estoques; mas, pela minha parte, quando eu tiver comido meu gato e feito um regalo da pele dele, eu devo morrer de fome.’

O Gato, quem ouviu tudo isso, mas fez como se não tivesse ouvido, disse para ele com um ar sério e grave:

Não se aflija desse jeito, meu bom mestre; você não tem mais nada a fazer senão me dar uma sacola, e conseguir um par de botas para mim, que eu posso correr através do barro e dos espinheiros, e deverá ver que você não tem um quinhão tão ruim em mim como você imagina.’

O mestre do Gato não se baseou muito do quê ele disse; contudo, ele frequentemente o tinha visto jogar muitos truques astutos para capturar ratos e ratazanas; como quando ele costumava se suspender pelos tornozelos, ou se esconder na refeição, e fazer como se ele estivesse morto; de modo que ele não se desesperou completamente de lhe propiciar alguma ajuda em sua condição miserável. Quando o Gato recebeu o que tinha pedido, ele calçou-se com as botas muito galantemente, e, colocando sua sacola ao redor do pescoço, ele segurou as cordas dela em suas duas patas dianteiras e foi a uma madrigueira, onde havia grande abundância de coelhos. Ele colocou farelo e cardo de porca dentro da sua sacola e, esticando-se extensamente, como se estivesse morto, esperou por alguns jovens coelhos, não muito familiarizados com as trapaças do mundo, chegarem e remexerem a sua sacola pelo quê ele tinha colocado dentro.

[142]Escassamente ele tinha se deitado meramente que ele tinha recebido o que desejava: um jovem coelho precipitado e tolo pulou dentro da sua sacola, e Monsieur Gato, imediatamente fechando as cordas, pegou-o e matou-o sem piedade. Orgulhoso da sua presa, ele foi com ela para o palácio e pediu para falar com sua Majestade. Ele apresentou-se escadaria acima dentro do apartamento do rei e, fazendo uma reverência baixa, disse para ele:

Eu trouxe para você, senhor, um coelho da madrigueira, o qual meu nobre Senhor, o Mestre de Carabas(pois esse foi o título que Gato ficou satisfeito de conceder ao mestre dele) ‘ordenou-me a apresentar a vossa Majestade a partir dele.’

Diz a teu mestre,’ disse o Rei, ‘que eu lhe agradeço, e que ele me causou grande prazer.’

Outra vez ele foi e ocultou-se entre alguns milhos de pé, segurando parada sua grande sacola aberta; e quando um par de perdizes correu para dentro dela, ele puxou as cordas e assim capturou ambos. Ele foi e fez desses um presente para o Rei, como antes ele tinha feito do coelho que ele pegou na madrigueira. De uma maneira similar, o Rei [143]recebeu as perdizes com grande prazer, e arranjou-lhe algum dinheiro, para beber.

O gato continuou por dois ou três meses, dessa maneira, a levar para sua Majestade, de tempos em tempos, caça de captura do mestre dele. Um dia em particular, quando ele sabia por certo que ele devia tomar ar ao longo do lado do rio, com a filha dele, a mais bela princesa no mundo, ele disse para o mestre dele:

Se você desejar seguir meu conselho, a sua fortuna está feita. Você nada mais tem a fazer senão ir e lavar-se no rio, nessa parte eu deverei mostrar a você, e deixe o resto comigo.’

O Marquês de Carabas fez o quê o Gato aconselhou-o a fazer, sem conhecer o motivo ou a razão. Enquanto ele estava lavando-se, o Rei passou por perto, e o Gato começou a gritar:

Ajuda! Ajuda! Meu Senhor Marquês de Carabas vai afogar-se.’

Diante desse barulho o Rei colocou sua cabeça para fora da janela da carruagem e, descobrindo que era o Gato quem tão frequentemente tinha trazido caça tão boa para ele, ele ordenou aos seus guardas para correrem imediatamente para auxiliarem sua Senhoria, o Marquês de Carabas. Enquanto eles estavam arrastando o pobre Marquês para fora do rio, o Gato subiu à carruagem e disse ao Rei que, enquanto o mestre dele estava banhando-se, chegaram alguns bandidos ali, quem levaram as roupas dele, embora ele tivesse gritado: ‘Ladrões! Ladrões!’ várias vezes, tão alto quanto ele conseguiu.

Esse gato astuto tinha escondido-as debaixo de uma grande pedra. O Rei imediatamente ordenou aos oficiais do seu guarda-roupa a correrem e buscarem uma da suas melhores vestimentas para o Lorde Marquês de Carabas.

O Rei acariciou-o de uma maneira muito extraordinária, e as roupas finas que ele tinha dado a ele enfatizaram seu bom semblante (pois ele era muito bem constituído e muito belo em sua pessoa), a filha do Rei sentiu uma inclinação secreta por ele, e antes que o Marquês de Carabas tivesse lançado duas ou três olhadas respeitosas e um pouca tenras, ela apenas apaixonou-se por ele excessivamente. O Rei desejou que ele entrasse na carruagem e tomasse parte no arejamento. O Gato, bastante muito alegre de ver o projeto dele começar a ter sucesso, marchou adiante, e, encontrando-se com alguns camponeses, quem estavam segando uma campina, ele disse para eles:

Boa gente, vocês que estão segando, se não disserem ao Rei que a campina que vocês segam pertence ao meu Senhor Marquês de Carabas, vocês deverão ser cortados tão pequenos quanto as ervas para a panela.’

O Rei não falhou em perguntar aos segadores a quem a campina que eles estavam segando pertencia.

[144]Ao meu Senhor Marquês de Carabas,responderam eles no todo, pois as ameaças do Gato tinham-nos tornado terrivelmente assustados.

Você vê, senhor,’ disse o Marquês, ‘está é uma campina que nunca falha em produzir uma colheita abundante todo ano.’

O Mestre Gato, quem ainda seguia adiante, encontrou-se com alguns ceifadores e disse-lhes:

Boa gente, vocês quem estão ceifando, se não disserem ao Rei que todos esse milho pertence ao Marquês de Carabas, vocês deverão ser cortados tão pequenos quanto ervas para a panela.’

O rei, quem passou perto um momento depois, desejou saber a quem todo aquele milho, o qual ele então via, pertencia.

Ao meu Senhor Marquês de Carabas,responderam os ceifadores, e o Rei ficou muito satisfeito com isso, assim como o Marquês, a quem ele congratulou por isso. O Mestre Gato, quem ia sempre à frente, dizia as mesmas palavras para todos que ele encontrava, e o Rei ficou assombrado diante das vastas propriedades do meu Senhor Marquês de Carabas.

Finalmente, o monsieur Gato chegou a um castelo majestático, o mestre do qual era um ogro, o mais rico que alguma vez tinha sido conhecido; pois todas as terras pelas quais o Rei tinha passado pertenciam a esse castelo. O Gato, quem tinha tomado o cuidado de informar a si mesmo de quem o ogro era e do quê ele podia fazer, pediu para falar com ele, dizendo que não poderia passar tão perto do castelo dele sem ter a honra de render seus respeito a ele.

[145]O ogro recebeu-o tão civilmente quanto um ogro poderia fazê-lo, e fê-lo sentar-se.

Foi-me assegurado,’ disse o Gato, ‘que você tem o dom de ser capaz de mudar a si mesmo em todos os tipos de criaturas para as quais você tenha uma intenção; por exemplo, você pode transformar a si mesmo em um leão, ou elefante, e semelhantes.’

Isso é verdadeiro,respondeu o ogro muito energeticamente; ‘e para convencer você, você deverá ver-me agora me tornar um leão.’

O Gato ficou tão tristemente aterrorizado diante de um leão tão perto dele que imediatamente entrou na calha, não sem abundância de problema e perigo, por causa das botas dele, as quais não eram absolutamente de nenhum uso para ele caminhando sobre as telhas. Um pouco depois, quando o Gato viu que o ogro tinha reassumido a sua forma natural, ele desceu e admitiu que ele tinha ficado muito assustado.

Além disso, eu fui informado,disse o Gato,mas eu não sei como acreditar nisso, que você também tem o poder de assumir a forma dos menores animais; por exemplo, de mudar [146]a si mesmo em um rato ou um camundongo; mas eu admito a você que eu considero isso ser impossível.

Impossível!bradou o ogro; ‘você deverá ver isso imediatamente.’

E, ao mesmo tempo, ele mudou a si mesmo em um rato, e começou a correr de um lado para o outro no chão. Tão logo o Gato percebeu isso apenas ele caiu sobre ele e comeu-o.

Entrementes, o Rei, quem viu, enquanto ele passava, esse belo castelo do ogro, teve uma intenção de entrar nele. O Gato, quem ouviu o barulho da carruagem de sua Majestade correndo sobre a ponte levadiça, correu para fora e disse ao Rei:

Você Majestade é bem-vinda neste castelo do meu Senhor Marquês de Carabas.’

O quê! Meu Senhor Marquês,’ bradou o Rei,e este castelo também pertence a você? Não pode haver nada mais fino do que esta corte e todas essas construções majestáticas que a circundam; entremos nele, se agradar-lhe.

O Marquês deu a sua mão à Princesa, e seguiu o Rei, quem foi na frente. Eles passaram para um salão espaçoso, onde encontraram uma refeição magnífica, a qual o ogro tinha preparado para os amigos deles, quem deviam visitá-lo naquele mesmo dia, mas não se atreveram de entrar, sabendo que o Rei estava lá. Sua Majestade ficou perfeitamente [147]encantado com as boas qualidades do meu Senhor Marquês de Carabas, como ficou a filha dele, quem tinha se apaixonado violentamente por ele, e, vendo as vastas propriedades que ele possuía, disse para ele, após ter bebido cinco ou seis taças:

Será devido apenas a você, meu Senhor Marquês, se você não se tornar meu genro.’

O Marquês, fazendo várias reverências baixas, aceitou a honra que sua Majestade conferiu a ele, e sem demora, naquele mesmo dia, casou-se com a Princesa.

O Gato tornou-se um grande senhor e nunca mais correu atrás de ratos, senão apenas para a sua diversão.1


ORIGINAL:

LANG, A. The Blue Fairy Book. Edited by Andrew Lang, with Numerous Illustrations by H. J. Ford and G. P. Jacomb Hood. London: Longmans, Green and Co., and New York: 15 East 16th Street, 1889. p.141-147. Disponível em: <https://archive.org/details/bluefairybook00langiala/page/141/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[147]Charles Perrault.

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