O Livro Vermelho das Fadas
Editado por Andrew Lang
[208]O Flautista de Hamelin
Há muito tempo, a cidade de Hamelin na Alemanha foi invadida por bandos de ratos, a semelhança dos quais nunca tinha sido vista antes, nem será alguma vez vista novamente.
Eles eram grandes criaturas negras que corriam audaciosamente à plena luz do dia através das ruas e abundavam por todas as casas, de modo que, por fim, as pessoas não poderiam baixar sua mão ou pé em qualquer lugar sem tocar um. Quando se vestindo às manhãs, elas encontravam-nos em seus calções e suas anáguas, nos seus bolsos e suas botas; e quando eles queriam um bocado para comer, a horda voraz tinha varrido tudo, desde do porão ao sótão. À noite era ainda pior. Tão logo as luzes estivessem apagadas, esses roedores incansáveis começam a trabalhar. E em toda parte, nos tetos, nos pisos, nos armários, às portas, havia uma perseguição e uma revista, e um barulho tão furioso de brocas, pinças e serrotes, que um surdo não poderia ter descansado por uma hora contínua.
Nem gatos nem cães, nem veneno nem armadilhas, nem preces nem velas queimadas para todos os santos – nada faria nenhuma coisa. Quanto mais eles matavam, mais apareciam. E os habitantes de Hamelin começavam a recorrer ao cães (não que eles fossem de muito uso), quando, em um sexta-feira, ali na cidade chegou um homem com um rosto estranho, quem tocava gaita de fole e cantava estes versos:
‘Qui vivra verra:
Le voilà,
Le preneur des rats.’
Ele era um grande camarada desajeitado, seco e bronzeado, com um nariz torto, um bigode de cauda de rato longa, dois grandes olhos amarelos penetrantes e zombadores, sob um grande chapéu caído encimado por uma pena escarlate de galo. Ele estava vestido em uma jaqueta verde com um cinto de couro e calças vermelhas, e, nos pés dele, haviam sandálias amaradas por tiras enroladas ao redor das pernas dele à moda cigana.
[209]Assim é como ele pode ser visto neste dia, pintado em uma janela da catedral de Hamelin.
Ele caminhou na grande praça de mercado diante da prefeitura, virou as costas para a igreja e seguiu com sua música, cantando:
‘Quem vive deverá ver:
Aqui está ele,
O rateiro.’
O conselho da cidade há pouco tinha se reunido para considerar mais uma vez essa praga do Egito, a partir da qual ninguém poderia salvar a cidade.
O estranho notificou os conselheiros de que, se eles desejassem fazer o tempo dele valer a pena, ele os livraria de todos os ratos deles antes da noite, até o último.
‘Então ele é um feiticeiro!’ gritaram os cidadãos com uma voz; ‘nós temos de ter cuidado com ele.’
O Conselheiro da Cidade, quem era considerado esperto, tranquilizou-os.
Ele disse: ‘Feiticeiro ou não, se esse gaiteiro fala a verdade, foi ele que nos enviou esses vermes horríveis dos quais ele quer nos livrar hoje por dinheiro. Bem, nós temos de aprender a pegar o diabo em suas próprias armadilhas. Deixem-no comigo, vocês.’
‘Deixe isso para o Conselheiro da Cidade,’ disseram os cidadãos uns para os outros.
E o estranho foi trazido diante deles.
‘Antes da noite,’ disse ele, ‘eu deverei ter despachado todos os ratos em Hamelin, se vocês desejarem apenas me pagar um gros por cabeça.’
‘Um gros por cabeça!’ gritaram os cidadãos, ‘mas isso chegará a milhões de florins!’
O Conselheiro da Cidade simplesmente deu de ombros e disse para o estrangeiro:
‘Uma barganha! Ao trabalho; os ratos serão pagos a um gros por cabeça como você diz.’
O gaiteiro anunciou que ele operaria naquela noite mesmo quando a lua surgisse. Ele acrescentou que, a essa hora, os habitantes deveriam deixar as ruas livres, e contentarem-se em olhar das janelas para o quê estava acontecendo, e que isso seria um espetáculo agradável. Quando as pessoas de Hamelin ouviram da barganha, eles também exclamariam: ‘Um gros uma cabeça! Mas isso nos custará muito dinheiro!’
‘Deixe isso para o Conselheiro da Cidade,’ disse o conselho da cidade, com um ar malicioso. E as pessoas de Hamelin repetiram com seus conselheiros, ‘Deixe isso para o Conselheiro da Cidade.’
[210]Perto das nove da noite, o gaiteiro reapareceu na praça do mercado. Inicialmente, ele voltou suas costas para a igreja, e, no momento em que a lua subiu, ‘Trarira, trari!’ A gaita de foles ressoou.
Inicialmente foi um som lento, acariciante, então mais e mais vívido e urgente, e tão sonoro e penetrante que ele penetrava tão longe quanto os becos e retiros mais distantes da cidade.
Logo, a partir dos fundos dos porões, do topo dos sótãos, de debaixo de toda mobília, de todos os cantos e recantos das casas, saem os ratos, procuram pela porta, lançam-se à [211]rua, e trip, trip, trip, começaram a correr na direção da frente da prefeitura, tão apertados juntos que eles cobriam o pavimento como as ondas de torrente alagada.
Quando a praça estava bastante cheia, o gaiteiro encarou ao redor e, ainda tocando rapidamente, voltou-se na direção do rio que corre aos pés das muralhas de Hamelin.
Chegando lá, ele virou-se; os ratos estavam seguindo.
‘Hop! Hop!’ ele bradava, apontando com o dedo para o meio do córrego, onde a água rodopiava e era atraída como se através de um funil. E hop! Hop! sem hesitação, os ratos saltaram, amontoados diretamente para o túnel, mergulhando de cabeça e desapareceram.
O mergulho continuou dessa maneira, sem cessar, até meia-noite.
Finalmente, arrastando-se com dificuldade, veio um grande rato, branco de idade, e parou no banco de areia.
Ele era o rei do bando.
‘Eles estão todos lá, amigo Blanchet?’ perguntou o gaiteiro.
‘Eles estão todos lá,’ respondeu o amigo Blanchet.
‘E quantos eles eram?’
‘Novecentos e noventa e nove mil, novecentos e noventa e nove.’
‘Bem contados?’
‘Bem contados.’
‘Então vá e junte-se a eles, velho senhor, e au revoir.’
Então, por sua vez, o velho rato branco pulou dentro do rio, nadou para o redemoinho e desapareceu.
Quando o gaiteiro tinha concluído dessa maneira a sua tarefa, ele foi para a cama na sua estalagem. E, pela primeira vez durante três meses, o povo de Hamelin dormiu quietamente através da noite.
Na manhã seguinte, às nove horas, o gaiteiro dirigiu-se à prefeitura, onde o conselho da cidade esperava-o.
‘Todos os seus ratos pularam dentro do rio ontem,’ disse ele aos conselheiros, ‘e eu garanto que nenhum deles retorna. Eles eram novecentos e noventa e nove mil, novecentos e noventa e nove, à um gros uma cabeça. Calculem!’
‘Contemos as cabeças primeiro. Um gros por cabeça é uma cabeça o gros. Onde estão as cabeças?’
O gaiteiro não esperava esse golpe traiçoeiro. Ele empalideceu com raiva e seus olhos brilharam com fogo.
‘As cabeças!’ gritou ele, ‘se vocês se importam com elas, vão e encontrem-nas no rio.’
[212]‘Então,’ respondeu o Conselheiro da Cidade, ‘você recusa-se a sustentar os termos do nosso acordo? Nós mesmos poderíamos recusar a você todo o pagamento. Mas você foi de uso para nós, e nós não deixaremos você ir sem uma recompensa,’ e ele ofereceu-lhe cinquenta coroas.
‘Guarde a sua recompensa para si mesmo,’ respondeu orgulhosamente o rateiro. ‘Se você não me pagar, eu serei pago pelos seus herdeiros.’
Depois disso, ele baixou seu chapéu até os olhos, saiu apressadamente da prefeitura, e deixou a cidade sem falar com uma alma.
Quando o povo de Hamelin ouviu como o assunto tinha acabado, eles esfregaram as mãos, e com não mais escrúpulo do que o Conselheiro da Cidade, eles riram do gaiteiro, quem, eles disseram, foi pego na própria armadilha dele. Mas, acima de tudo, o que lhes fez rir foi a ameaça dele de conseguir ser pago pelos herdeiros deles. Há! Eles desejavam que eles apenas tivessem tais credores pelo resto das suas vidas.
No dia seguinte, o qual era um sábado, todos eles foram alegremente à igreja, pensando que, depois da Missa, eles finalmente seriam capazes de comer boa comida, coisa que os ratos não tivessem provado antes deles.
Eles nunca suspeitaram da terrível surpresa que lhes esperava em seu retorno para casa. Nenhuma criança em nenhum lugar, todas elas tinham desaparecido!
‘Nossas crianças! Onde estão as nossas pobres crianças?’ foi o grito que logo foi ouvido em todas as ruas.
Então, através da porta leste da cidade, chegaram três meninos pequenos, quem gritavam e choravam, e isto é o que eles contaram:
Enquanto os pais deles estavam na igreja, uma música maravilhosa tinha ressoado. Logo, todos os pequenos meninos e todas as pequenas meninas que tinham sido deixados em casa, saíram, atraídos pelos sons mágicos, e tinham se apressado pela grande praça de mercado. Ali eles encontraram o gaiteiro tocando sua gaita de foles no mesmo ponto que na noite anterior. Então, o estrangeiro tinha começado a caminhar rapidamente, e eles tinham seguido, correndo, cantando e dançando ao som da música, tão longe quanto o pé da montanha que alguém vê ao entrar em Hamelin. À aproximação deles, a montanha tinha se aberto um pouco, e o gaiteiro tinha entrado com eles, depois do quê, ela tinha se fechado novamente. Apenas os três pequeninos que contaram a aventura tinham permanecido fora, como se por um milagre. Um era de pernas tortas e não conseguiu correr suficientemente rápido; o outro, quem tinha deixado a casa com pressa, um pé calçado, o outro, nu, tinha machucado a si mesmo em uma pedra grande e não poderia caminhar sem dificuldade; o terceiro tinha chegado a tempo, mas, ao apressar-se para entrar com os outros, tinha colidido tão violentamente com a muralha da montanha, que ele caiu para trás no momento que ela se fechava sobre seus camaradas.
[213]Diante dessa história, os pais redobraram suas lamentações. Eles correram com piques e sachos para a montanha, e buscaram até a noite para encontrar a abertura através da qual os filhos deles tinham desaparecido, sem ser capaz de a encontrar. Finalmente, a noite caindo, eles retornaram desolados a Hamelin.
Mas o mais infeliz de todos era o Conselheiro da Cidade, pois ele perdeu três meninos pequenos e duas lindas meninas pequenas, e, para coroar tudo, as pessoas de Hamelin oprimiram-no com reclamações, esquecendo-se de que na noite anterior todos eles tinham concordado com ele.
O que tinha acontecido com todas aquelas crianças infelizes?
Os pais sempre esperaram que elas não estivessem mortas, e que o gaiteiro, quem, certamente, deve ter saído da montanha, teria levado-os com ele para o país dele. É por isso que, por vários anos, eles enviaram pessoas em busca delas para países diferentes, mas ninguém nunca voltou no rastro dos pobrezinhos.
Não foi até muito tempo depois que qualquer coisa foi ouvida delas.
Por volta de cento e cinquenta anos depois do evento, quando não mais havia nenhum restante dos seus pais, mães, irmãos ou irmãs daquele dia, ali chegaram em uma noite em Hamelin alguns mercadores de Bremen, retornando do Oriente, quem pediram para falar com os cidadãos. Eles disseram que, ao cruzarem a Hungria, eles tinham ficado [214]em uma região montanhosa chamada de Transilvânia, onde os habitantes falavam apenas alemão, enquanto todos ao redor deles nada falavam senão húngaro. Essas pessoas também declararam que elas tinham vindo da Alemanha, mas não sabiam como eles acontecerem de estar nessa região estranha. ‘Agora,’ disseram os mercadores de Bremen, ‘esses alemães não podem ser outros senão os descendentes dos filhos perdidos de Hamelin.’
O povo de Hamelin não duvidava disso; e desde aquele dia eles consideram como certo que os transilvanianos da Hungria são seus concidadãos, cujos ancestrais, como crianças, foram trazidos para lá pelo rateiro. Há coisas mais difíceis de acreditar do que está.1
ORIGINAL:
LANG, A. The Red Fairy Book. Edited by Andrew Lang, with Numerous Illustrations by H. J. Ford and Lancelot Speed. London: Longmans, Green and Co., and New York: 15 East 16th Street, 1890. p.208-214. Disponível em: <https://archive.org/details/redfairybook00langiala/redfairybook00langiala/page/208/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1Ch. Marelles.


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