Os Ses da História
Por Joseph Edgar Chamberlin
[56]Capítulo VI Se a Filarmonia não tivesse realizado Concertos em Vicenza
Em consideração à variedade, talvez à diversão, no meio de especulações mais sérias, tenhamos um “se” de história musical – e um que, sem dúvida, os músicos podem considerar como puramente fantasioso, totalmente absurdo. Deveria ser afirmado desde o começo que este capítulo é escrito por alguém que não tem conhecimento de música, mas é capaz de uma apreciação muito aguda dela e, em sua época, ouviu muita música profissional – muitos concertos, óperas e oratórios – e também muito da música espontânea, não treinada, do povo, incluindo antigas baladas da Nova Inglaterra [57]agora esquecidas; as canções de camponeses alemães à fogueira e à roda de fiar; as canções nativas de milho, “wails” e “shouts” dos negros sulistas nas plantações; e as canções de medicina, canções de escalpo, cânticos cerimoniais e cançõezinhas de amor de índios americanos.
A contingência que será apresentada aqui é esta: Se um certo grupo de cantores e músicos não profissionais na cidade italiana altamente cultivada de Vicenza, por volta do meio do século XVI, não tivesse se reunido em uma sociedade chamada de Filarmonia e, pela primeira vez na Europa, concedido entretenimento musical para o qual o público era admitido, a instituição musical chamada de o concerto nunca poderia ter existido, e, nesse caso, a música teria permanecido uma expressão espontânea da emoção humana, não contaminada pelo quê agora é chamada de virtuosidade – quer dizer, o conflito e esforço em busca de maestria técnica, o qual afeta o [58]caráter inteiro da música, e afasta-o do seu propósito original de agradar o sentido e confortar o coração.
Música profissional especializada foi uma coisa de crescimento muito lento. É claro, os antigos mestres de capela ou mestres de corais eram profissionais, em um sentido, uma vez que eles viviam na igreja. Mas eles também tinham um caráter sacerdotal. No começo eles eram sempre sacerdotes. Para criar uma classe de músicos profissionais, competindo uns com os outros por mera maestria, o concerto público, com músicos pagos, tinha de ser desenvolvido.
Embora a Filarmonia realizasse concertos públicos em Vicenza, como nós dissemos, no meio do século XVI, música de concerto e música de ópera não tiveram existência geral por tanto quanto um século depois. A primeira ópera alguma vez apresentada foi “Eurydice” de Peri, escrita por volta de 1600. Mesmo isso foi meramente a expressão de um grupo de entusiastas, um tipo de tentativa presente para encarnar uma [59]teoria própria sobre o quê a música deveria ser. Não foi até o ano de 1672 que o primeiro concerto, com um preço para admissão, foi realizado em Londres. O preço então cobrado foi de um xelim, e o concerto foi em uma casa privada.
Por aquele momento, o começo já tinha sido feito. Outros concertos foram realizados logo depois. Eles tornaram-se populares. Houve uma demanda por músicos e solistas habilidosos. Músicos começaram praticando pelo bem da excelência em realização técnica. Através de passos rápidos e súbitos um prêmio foi colocado sobre a perfeição mecânica no manejo de instrumentos. Os antigos métodos espontâneos de expressão gradualmente tornaram-se desacreditados.
Como uma consequência do novo desenvolvimento, dois tipos de música surgiram no mundo. No lado de uma, estava a música de concerto, música profissional, música virtuosa. Essa era difícil e complicada, e era impossível para o povo ordinário cantá-la [60]ou tocá-la. No lado da outra, ficava a música popular – música folclórica, a música da rua, do berçário, do estábulo e da taberna. Como a música popular agora foi regularmente abandonada em favor da escola de concerto por aqueles que possuíam o maior talento musical, ela começou a degenerar até que ela finalmente alcançou a degradação de “Grandfather’s Clock,” “Ta-ra-ra-boom-de-ay,” “Waiting at the Church” e o grafofone.
Por outro lado, a música de concerto moveu-se mais e mais longe dos corações e da compreensão do povo, até que ela se tornou uma coisa separada das vidas deles, a ser apreciada tanto com o olho quanto com o ouvido, o interesse estando principalmente na produção, na sucessão, de mestres individuais, cada um dos quais visivelmente supera as realizações mecânicas do seu predecessor imediato.
Se aqueles concertos não tivessem sido realizados pela Filarmonia em Vicenza, [61]e a ideia não tivesse ondulado lentamente para longe a partir dai, como círculos se espalhando a partir de uma pedra jogada dentro da água, até que ela alcançasse Viena, Paris e Londres, qual teria sido o estado da música hoje em dia?
Manifestamente o desenvolvimento da música de igreja teria prosseguido. Sem dúvida as pessoas teriam estado tomando parte em corais magníficos. As massas da Igreja Católica teriam sua característica correspondente nos anátemas e hinos cantados nas igrejas protestantes pelas congregações. Todo instrumento que existia no século XVI teria sido aperfeiçoado, mas nenhum teria seguido o desenvolvimento intrincado que o mecanismo musical exige.
Em outras palavras, o cravo nunca teria se tornado um piano, e nunca se teria ouvido falar do órgão elétrico de igreja. Todos nós deveríamos tocar algum instrumento como a harpa, o violino, a viola da gamba, a flauta, [62]a pipe ou o saltério. Todos poderiam ser compositores, como os negros e os índios são hoje, mas em um plano mais elevado.
Que música popular poderia existir agora apenas por aquela sem sorte descoberta da Filarmonia é sugerida por um extrato dos escritos de Thomas Morley, um inglês que se tornou um grande amador e introdutor dos madrigais italianos em seu próprio país. No ano de 1597 ele escreveu que, em uma certa noite, na Inglaterra, -
ceia estando terminada, e livros de música, de acordo com o costume, sendo trazidos à mesa, a senhora da casa apresentou-me com um papel, seriamente me requisitando a cantar. Mas quando, após muitas desculpas, eu protestei sem motivo que eu não poderia, todos começaram a ficar curiosos. Sim, alguns sussurram uns para os outros, perguntando como eu fui trazido. De modo que, em consequência de vergonha da minha ignorância, eu agora procuro meu antigo amigo, mestre Gnorimus, para tornar a mim mesmo seu estudante.
Naqueles dias, uma pessoa que não poderia cantar, e cantar bem, era considerada uma aberração, e era requerido que ela se ajustasse para se juntar à diversão universal. [63]Se nós não tivéssemos aberto mão da nossa produção de música, seria assim agora. Em vez de irem ao concerto ou à ópera depois de uma refeição noturna, ou jogando bridge ou fofocando, as pessoas teriam participado no cântico de madrigais, canções ou seja qual for o outro tipo de música popular espontânea que tivesse se desenvolvido, e tudo teria sido sustentado e elevado pela alegria exaltada que surge a partir de se juntar com outros na produção de boa música.
As pessoas teriam sido musicais, alegremente e de coração. O gosto delas não teria sido degradado ao ponto onde ele é gratificado, como no grafofone, com uma sucessão complicada de sons chatos e estridentes, não musicais em si mesmos.
ORIGINAL:
CHAMBERLEIN, J. E. The Ifs of History. Philadelphia: Henry Altemus Company, 1907. p. 56-63. Disponível em: <https://archive.org/details/ifsofhistory00chamuoft/page/56/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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