A Água das Ilhas Maravilhosas
Por William Morris
A Sexta Parte: Os Dias de Ausência
[458]Capítulo XVIII A Mãe-do-bosque vem a Birdalone e ouve a História Dela.
Agora Birdalone levantou, banhou-se e desjejuou e, em seguida, ocupou-se com seu trabalho com as bestas e a vacaria; mas todo aquele tempo pareceu longo para ela, até que ela tinha arco em mãos e aljava às costas, e estava dirigindo-se para o Carvalho de Encontro; e velozes foram os pés dela, e o coração dela batia rápido com a esperança de prazer.
Verdadeiramente, ela não teve demora longa, pois, escassamente ela tinha se sentado sob o carvalho antes que a mãe-do-bosque aparecesse a partir do bosquete, assim mesmo como na primeira vez que Birdalone a viu, e logo ela tinha seus braços ao redor de Birdalone e estava beijando-a e apertando-a. Então elas sentaram-se juntas sob a sombra da grande árvore, e mãe-do-bosque tratou muito bem a amiga dela com poucas palavras e essas foram simples, enquanto Birdalone chorava de alegria.
Finalmente, Birdalone falou: ‘Mãe-do-bosque, minha querida, eu olho tua face e vejo-te que tu não estás mudada de maneira nenhuma, de modo que me fazes lembrar da Birdalone que te encontrou aqui, quando ela estava perdida da Casa do Cativeiro, como um pássaro com uma corda na sua perna.’
Habundia sorriu para ela e disse: ‘Assim é que tu agora pareces mais velha do que eu mesma. Mais redondo e cheio é teu corpo, e teus membros, maiores e mais belos, e tua carne, mais elegante; tu és mais amável em todos os sentidos, e tal como eu tenho pensado de ti durante esses anos, exceto que tua face se tornou mais sábia e mais triste [459]do que poderia ser esperado.’ ‘Mãe,’ ela disse, ‘eu envelheci mais do que eu deveria pelo conto dos anos, pois eu tenho tido alegria e tristeza, e tristeza e alegria, e tristeza novamente; e agora que os anos passaram, a tristeza permaneceu e a alegria partiu, exceto esta alegria de ti e do dia de encontro que tão frequentemente eu tenho procurado.’
Disse a esposa-do-bosque: ‘Fosse eu ouvir a história de ti, eu considero mais provável que eu ficaria satisfeita de comprar tua alegria com tua tristeza, tanto aquela que foi quanto aquela que está por vir. E agora eu te pedirei diretamente para me contares todo teu conto, tanto quanto tu podes; e tudo tu podes contar-me, quem sou teu outro eu: e além disso eu tenho conhecimento de que não contaste de mim para ninguém que tu encontraste no mundo desde que nós estivemos juntas pela última vez: não é assim?’ ‘Em fé e em verdade é assim,’ disse Birdalone. Disse Habundia, depois dela ter olhado firme para Birdalone por um tempo: ‘Agora há isto que eu descubro em ti, que, embora tu ainda me chames de mãe-bo-bosque, tu não és minha filha como tu foste outrora, nem eu tua mãe; e eu não sei se fico contente ou triste com isso, uma vez que tu és mesmo tanto minha amiga quanto tu alguma vez foste. Mas muito eu regozijo-me nisto, que tu não contaste a nenhuma alma sobre mim.’
Disse Birdalone: ‘Eu tenho de te contar que aquela parte do conto que eu deverei te contar é de como eu encontrei minha mãe na carne e amei-a intensamente; e então eu a perdi novamente, pois ela está morta.’
Respondeu a esposa-do-bosque, sorrindo amavelmente para ela: ‘Então eu deverei ser ainda mais tua mãe do que outrora [460]eu fui: há mais alguma coisa em teu conto, querida.’
Então Birdalone ruborizou intensamente, e ela sorriu lamentavelmente na face de Habundia; mas em seguida ela ergueu as mãos para esconder a mudança ali que a angústia da espera operou, e os ombros dela tremeram e o peito dela pesou, e ela chorou amargamente; mas a esposa-do-bosque ainda olhava para ela sorrindo e finalmente disse suavemente: ‘Sim, quão doce seria ser lamentada com tua dor.’
Mas em um momento, Birdalone acalmou-se novamente e um sorriso mesmo floresceu na face dela, e elas beijaram-se. Em seguida, Habundia ergueu-se e olhou para ela, e finalmente disse e riu com isso: ‘Uma coisa eu tenho de dizer, que tu não te trouxeste vestimenta de preço dos casas de cavalaria e dos reis; ou eu não vi teu casaco verde de outrora, enquanto tu estava vivendo em meio à crueldade da bruxa?’ ‘Sim, verdadeiramente,’ disse Birdalone; ‘tu não necessitas perguntar isso.’ ‘Verdadeiramente não,’ disse Habundia, ‘nem porque tu não estás envolta em bela bata verde, a qual tu bordaste; pois às vezes eu vi a bruxa ostentado-a no desajeitado corpo feio dela, e tu não a usa depois de ela ter amaldiçoado-a com a imundície dela. Não é assim?’ ‘Sim, é assim mesmo,’ disse Birdalone; ‘tu me amas menos por causa disso?’ Habundia riu novamente: ‘Fosse eu um homem dos filhos de Adão,’ ela disse, ‘eu poderia produzir-te muitas palavras sobre a aparência do teu casaco curto, e a amabilidade dele, que estará para sempre escorregando de um ou outro dos teus ombros. Mas agora eu sou pelo menos suficientemente tua mãe, e tu estás habitando tanto [461]assim na minha casa que, da próxima vez que nos encontrarmos (e essa deverá ser amanhã), eu deverei trazer-te vestimenta que deverá fazer-nos esquecer que tu retornaste para esta terra tão nua quanto tu partiste daqui.’
Birdalone ruborizou e baixou a cabeça, mas a mãe-do-bosque sentou-se ao lado dela e beijou-a e disse: ‘Mas agora, esquece-te de tudo, exceto do teu conto, e conta tudo tão rigorosamente quanto tu podes, pois eu não quero perder nada disso.’ ‘Sim,’ disse Birdalone; 'e por onde eu deverei começar?’ Disse Habundia: ‘Eu não conheço nada disso exceto do começo, que tu fugiste nua e escapaste da bruxa; e o fim, a saber, que o Bote da Expedição falhou-te na última das Ilhas Maravilhosas e que tu me convocaste, não inteiramente em vão, considerando que a bruxa estava morta e, portanto, não havia nada para me impedir de te enviar uma de minhas árvores e a criatura de lá (quem, talvez, eu possa mostrar-te um dia) para te salvar do fundo da água profunda.’
Diante daquela Birdalone jogou-se sobre a esposa-do-bosque e apertou-a e beijou-a, e agradeceu-a pela ajuda com todas as palavras mais queridas que ela podia. Mas a esposa-do-bosque riu de alegria, acariciou as bochechas dela e disse: ‘Agora eu te considero minha filha novamente, visto que tu me agradeces com paixão tão doce por fazer para ti como uma mãe amável necessita sem nenhum pensamento disso. E eu ordeno-te, minha querida, nunca mais vás tão longe de mim para que eu não consiga facilmente te ajudar e confortar a partir do meu reino no qual eu sou poderosa. E agora, conta-me teu discurso querido.’
[462]Com isso Birdalone começou a história dela sem mais delongas, assim como vós a ouvistes outrora. Sim, e muito mais coisas do que nós podemos escrever ela conta, por inteiramente cheia ela estava com a sabedoria da floresta. E entre momentos, a mãe-do-bosque alimentou-a com comida e bebida delicadas, tais como Birdalone nunca outrora tinha provado parecidas. E por então, quando ela tinha ido tão longe quanto a fuga dela da Ilha do Aumento Inesperado, o sol pôs-se e o crepúsculo começou. E a esposa-do-bosque disse: ‘Agora tu deves ir para casa; e não tenhas medo de bruxa ou coisa maligna, pois eu não estou longe de ti e observar-te-ei. Doce é teu conto, minha filha, e queridas são tuas amigas; e se alguma vez possa ser que eu possa fazer-lhas qualquer prazer, disposta estarei eu; e isso especialmente para tua Viridis, quem, parece-me, é tanto doce quando sabia assim mesmo como tu mesma és. Não, tu invejas meu amor por ela?’ ‘Não, não,’ disse Birdalone, rindo; ‘eu apenas regozijo-me com ele. E depois, quando eu te contar quão intensamente eles pagaram por me ajudarem, eu te suplicarei para os amar ainda mais do que agora tu o fazes.’ Depois disso, elas separaram-se, e Birdalone veio para a casa dela; e no caminho ela fez como se fosse um conto simulado em zombaria à sua dificuldade antiga, que lá haveria uma senhora-bruxa esperando-a para a açoitar. De modo que, quando ela chegou à porta, ela estava meio assustada com a sua própria zombaria, com receio de que, agora, pelo menos, a bruxa tinha começado a caminhar.
Mas tudo estava quieto quando ela entrou com o fim do crepúsculo, e ela descansou naquela noite em completa paz, como no melhor dos dias dela na Cinco Ofícios.
ORIGINAL:
MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 458-462. Disponível em: <https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/458/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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