A Água das Ilhas Maravilhosas
Por William Morris
A Sexta Parte: Os Dias de Ausência
[406]Capítulo VIII Birdalone chega ao Castelo da Busca, ouve o Conto desse Lugar de Leonard, e parte de lá no Bote de Expedição
Ela levantou-se cedo pela manhã e estava fora de Greenford tão logo os portões estavam abertos e, inicialmente, desenvolveu toda velocidade que ela pôde na direção do Castelo da Busca; e nada a impediu, pois a terra estava verdadeiramente em boa paz, e ela poderia ter chegado lá, se desejasse, antes do pôr do sol, pois todos com quem ela se encontrava favoreciam-na. Mas conforme o dia declinava a coragem dela declinava com ele, de modo que, pelo menos, ela permaneceu a aproximadamente seis milhas em relação à casa, e implorou abrigo na propriedade de um agricultor ali, o qual foi concedido a ela com toda gentileza; e eles trataram-na muito bem, e ela contou-lhes do seu voto da celada, e eles nada consideraram exceto que ela era um homem jovem.
Ela partiu cedo na manhã com o Vá com Deus deles e, enquanto o dia ainda estava jovem, entrou nos campos diante do castelo e viu as torres de lá se erguendo diante dela: então ela acalmou o cavalo dela e cavalgou não mais rápido do que um ritmo de passadas; a despeito de quão lentamente ela pudesse cavalgar, ela deve chegar ao portão enquanto o dia ainda estava jovem.
Assim Birdalone se aproximou daquele caramanchão onde ela tinha dormindo na primeira noite que ela chegou ao castelo; e ela guiou com as rédeas para o olhar; e enquanto ela sentava-se lá observando, saiu um homem de lá trajado como um homem de religião; e o coração dela bateu apressado, e ela [407]estava prestes a cair do cavalo dela, pois aí surgiu na mente dela o quê o citadino tinha dito, que o Escudeiro Negro tinha entrado para a religião. Mas o eremita veio na direção dela com um copo de água na mão dele, e ele jogou o capuz para trás e ela imediatamente viu que era Leonard, o sacerdote, e embora não fosse o amigo quem ela buscava, contudo, ela ficou feliz que era um amigo; mas ele veio e ficou de pé perto dela, e disse: ‘Saudações, viajante! Tu beberás do nosso poço e descansar-te-ás um momento?’ Assim ela aceitou o copo e bebeu da água, olhando amavelmente para ele, enquanto ele ponderava sobre a beleza da mão dela, e suspeitou ele. Então ela devolveu o copo e desmontou do cavalo, e tirou a celada da cabeça dela e falou: ‘Eu não posso passar por um amigo sem uma palavra; pensa se tu não me viste antes?’
Então ele reconheceu-a, e não pôde evitar, mas lançou seus braços ao redor dela e beijou-a, chorando; e ela disse: ‘É doce para eu encontrar um amigo depois do quê me contaram sobre a casa acolá.’ ‘Sim,’ disse ele, ‘e tu irás para lá?’ ‘Certamente,’ disse ela, ‘por que não?’ Disse ele: ‘Eles foram-se, e todos se foram!’ ‘Como e para onde?’ disse ela. ‘Mas eu muito certamente tenho de ir para lá de uma vez; eu caminharei a pé contigo; não amarres meu cavalo até que tu retornes.’
Ele disse: ‘Mas tu não retornarás?’ ‘Eu não sei,’ ela disse; ‘eu não sei de nada exceto que eu quero ir mais longe; seja suficiente que eu te permito ir comigo, e, durante o caminho, tu deves contar-me o quê tu podes do conto.’
[408]Então foi Leonard e amarrou o cavalo, e eles foram juntos a pé para o portão; e Birdalone contou o que ela tinha ouvido de Arthur e Hugh, e Leonard disse: ‘Isso é verdadeiro, e não há muito mais a ser dito. Quando o Escudeiro Negro retornou do cerco ao Domínio Vermelho, e antes tinha ouvido da tua partida, ele ficou de humor pesado e de poucas palavras, e perambulava para lá e para cá como alguém que não poderia encontrar descanso; contudo, ele não ficou severo com Atra, quem, por sua própria parte, não estava menos de coração pesado: verdadeiramente uma companhia triste nós fomos, e foi um pouco melhor quando meu lorde Arthur seguiu seus caminhos para longe de nós; e de fato, ansioso ele estava para ir embora; e poderia ser visto dele que ele estava atraído pelo labor e perigo que aqueles de Greenford ofereceram a ele. Em seguida, em uns quatro meses, meu lorde Hugh falou que ele também iria embora para onde houvesse tanto uma terra quanto um povo que pareceriam amigáveis com ele; assim ele foi com minha senhora Virides e minha senhora Aurea, e eles tinham Atra com eles; e a mim também eles teriam aceito, mas meu coração falhou-me para deixar o lugar onde eu tinha sido tão feliz e tão triste contigo; a morte teria sido melhor; portanto, naquele caramanchão acolá, como um eremita, eu sirvo a Deus e aguardo minha hora. Mas embora eu não tenha nenhum conhecimento de para onde foi o Escudeiro Negro, eu sei para onde aqueles quatro foram, e fica apenas a uma cavalgada de sete dias a partir daqui, e a terra é vistosa e pacífica, e, se não estiverem mortos, muito provavelmente eles ainda estarão lá. Quê dizes então, tu, mais querida e amável, irás tua para eles lá? Pois se sim, eu bem posso te conduzir para lá.’
[409]Birdalone sacudiu a cabeça. ‘Não,’ ela disse, ‘eu acredito que eu sou atraída para outro lugar, mas em breve eu deverei te contar. Oh, agora o portão. Mas antes que nós entremos, conta-me do sir Geoffrey de Lea, e porque foi que ele não pôde tolerar as coisas estranhas, se houve algo semelhante.’ Falou Leonard: ‘Coisas estranhas houve, e eu fui convocado para as aplacar, e eu agi em todos os sentidos como ordenou a Santa Igreja, e ainda elas eram vistas e ouvidas, até que o povo não pôde mais suportar.’
‘E como eram essas coisas?’ Disse Birdalone, ‘e elas ainda são vistas e ouvidas?’ Disse Leonard: ‘É estranho, mas na última noite eu entrei no grande salão onde elas principalmente aconteciam, e deitei-me lá, como às vezes eu faço, pois eu não as temo, e veria se elas ainda aparecem; mas durante toda a noite não apareceu absolutamente nada. Quanto à aparência delas…’ Então ele parou, mas logo disse: ‘Difícil é contar para ti sobre elas, mas eu devo. Há duas dessas coisas; e uma é uma imagem de uma mulher alta, de meia idade, cabelo vermelho, pele branca e magra, e às vezes ela tem um bastão de galho na mão dela, e às vezes uma espada curta desembainhada, e às vezes absolutamente nada. Mas a voz dela é maldição e blasfêmia e mal ditos.’
Disse Birdalone: ‘Então isso é artificio da minha senhora-bruxa, de quem eu te contei outrora, e a imagem dela; qual é a outra?’ Disse Leonard: ‘Eu estava inclinado a não te contar.’ ‘Contudo tu deves,’ disse Birdalone. ‘Querida dama,’ disse Leonard, ‘a outra é uma imagem de ti, e ainda mais parecida contigo; mas às vezes envolta em um diminuto casaco cinza e descalça, e às vezes envolta em um belo vestido verde vistosamente bordado, e calçado bordado; [410]e às vezes completamente nua.'
‘E qual voz surge da minha imagem?’ disse Birdalone, sorrindo, contudo, um pouco pálida com isso. Disse Leonard: ‘De vez em quando uma voz de canto doce, como de um pássaro no mato, e isso é quando tu estás vestida; e novamente, quando tu estás nua, uma voz de gritos e gemidos, como de alguém suportando tormentos.’
Falou Birdalone: ‘E quando essas maravilhas começaram?’ Ele disse: ‘Não até depois do sir Hugh e tuas amigas terem ido embora daqui.’
Birdalone ponderou um pouco; então ela disse: ‘Eu vejo aqui a malícia da minha senhora-bruxa; ela não enviaria esses artifícios enquanto Hugh estivesse aqui, com receio de que ele voltasse para me procurar com toda a força dele. Mas quando eles partiram, ela teria o castelo devastado, e então ela enviou-a, sabendo que, através disso, ela se livraria do sir Geoffreu de Lea; enquanto que, por outro lado, eu não era nada tão importante para ele para que ele despendesse toda a vida dele procurando-me. Mas agora eu considero que conheço tanto dela que posso te aconselhar a considerá-la morta se esses artifícios não retornarem dentro de pouco tempo. Então tu podes convocar e fazer sir Geoffrey ter conhecimento disso, e talvez ele retornará; e eu ficaria satisfeita com isso, pois será mais feliz se o Castelo da Busca for habitado uma vez mais.’
‘Sim, verdadeiramente,’ disse Leonard; ‘mas muito mais feliz ainda fosse tu habitares lá.’ ‘Não,’ ela disse, ‘mas agora eu vejo que isso não é destinado para mim. Entremos, pois eu chegarei ao quê eu desejo fazer.’
[411]Assim, com isso, eles passaram sob a arcada, e Birdalone não se demorou, mas foi diretamente para o salão, e atravessou-o; e o sacerdote, quem ficou um pouco para trás dos pés rápidos dela, gritou para ela: ‘Para onde tu vais? Qual aposento tu desejas visitar primeiro?’ Mas ela não se deteve, e falou para ele sobre o ombro enquanto ela caminhava: ‘Segue-me se tu desejares; eu tenho apenas um lugar para ir antes que eu deixe o Castelo da Busca, a não ser que eu tenha de retornar sobre meus passos.’
Então Leonard subiu com ela, e ela seguiu seu caminho para fora do salão e para fora, para a valeta do castelo, e assim para o pequeno porto do portão da água. Lá Birdalone olhou ao redor de si ansiosamente; então ela voltou-se para Leonard e apontou com o dedo e disse: ‘Oh tu! Lá ainda está meu bote de tempo antigo, o Bote de Expedição; agora eu sei porque eu fu atraída para cá.’ E os olhos dela brilharam e o corpo dela tremeu enquanto ela falava.
‘Sim, verdadeiramente,’ disse Leonard, ‘aí está; quem entre toda gente no castelo tinha se atrevido a tocá-lo? Mas o quê isso tem a ver contigo, oh dama mais amável?’
‘Amigo,’ ela disse, ‘se este dia passar-se, e eu ainda estiver dentro dessa muralhas, então parece que eu tenha de residir aqui para sempre; e aí, talvez, eu deverei encontrar aquela aparência de mim mesma, talvez por esta noite, talvez para sempre, até que eu morra aqui neste castelo vazio de tudo que eu amo, e eu excessivamente jovem para isso, amigo. E agora eu sei que há esperança dentro de mim; pois eu lembro-me de uma querida amiga através da água acolá, de quem eu nunca contei nada, nem te contarei agora, exceto isto, que ela é a sabedoria da minha vida. [412]Portanto, agora eu testarei esse bote e saberei se a criatura dele ainda obedecerá a voz do falante do feitiço, quem derramou o sangue dela para pagar por isso. Por esse motivo, não estendas uma mão nem fales uma palavra comigo, mas recebe este adeus de mim, com minha piedade e com tanto amor quanto eu posso conceder-te, e deixa-me ir, e pense amavelmente em mim.’
Então ela subiu até ele, e colocou as mãos nos ombros dele, e beijou-o, e virou-se sem mais delongas e pisou dentro do bote; em seguida, ela sentou-se, tirou a manga do braço dela, desembainhou uma faca e sangrou o braço dela; depois se ergueu e besuntou proa e popa com isso, e então sentou-se com sua face para a papo e cantou:
O vermelho vinho-corvo agora
Tu bebeste, popa e proa;
Desperta então e acorda
E o Caminho para o note toma:
O caminho adiante dos Viajantes através da enchente,
Pois a vontade dos Emissários está misturada com o sangue.
Então ela demorou-se um pouco, enquanto Leonard permaneceu encarando-a com tristeza e cego por suas lágrimas amargas, até que o bote começou a mover-se debaixo dela, e logo deslizou para fora do pequeno porto e para dentro do amplo lago; então ela virou a face de volta para ele e acenou com a mão, e ele ajoelhou-se e abençoou-a, chorando. E assim ela desapareceu diante dele.
ORIGINAL:
MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 406-412. Disponível em: <https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/406/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
Nenhum comentário:
Postar um comentário