A Água das Ilhas Maravilhosas
Por William Morris
A Sexta Parte: Os Dias de Ausência
[422]Capítulo XI Chegando à Ilha dos Reis Birdalone encontra lá Vinte e duas Donzelas que ficariam encantadas ter a companhia dela.
Birdalone chegou à costa da dita ilha durante a aurora do dia e viu pouca mudança na ilha quando ela ficou clara, e o castelo ainda se erguia, olhando terrivelmente para baixo, sobre os campos. Mas quando tinha colocado os pés na terra, ela empunhou seu arco com receio de que o pior poderia acontecer, e olhou ao redor de si, considerando que, desta vez, ela não seguiria seus caminhos para a mostra terrível que estava montada no castelo, se verdadeiramente aquela gente morta ainda residisse lá.
Assim, enquanto agora olhava através do campo, ela viu alguém com vestimenta leve e flutuante surgir das árvores e olhar na direção dela, enquanto que ela se erguia brilhando e cintilando ao sol como uma imagem do Deus do Amor tornado guerreiro. Agora Birdalone considerou certamente que essa era uma mulher; ela viu ela chegar um pouco mais perto dela, e então permanecer olhando para ela sob a palma da mão dela; então ela virou-se e correu para o matagal de onde ela veio; e logo Birdalone ouviu o som de vozes vindo de lá, e pouco tempo depois saíram do dito matagal um tumulto de mulheres (uma vintena e duas, como elas contaram depois) e caminharam através do campo diretamente para ela. Ela permaneceu de pé onde estava, de modo a estar perto do bote dela no caso delas desejarem a perturbá-la; [423]pois, embora elas parecessem estar sem armas, elas eram muitas.
Quando tinham chegado perto, elas ficaram de pé ao redor dela em um meio anel, sussurrando e rindo uma para a outra. Birdalone viu que elas eram todas jovens, e que nenhuma delas poderia ser chamada de não bela, e algumas eram completamente belas. Elas eram brilhantes e bonitas de arranjo. Muitas portavam ouro e gemas nos dedos da mão e pescoço e braços; elas estavam trajadas em vestimenta leve, ou pode ser dito, atrevida de cores diversas, a qual tinha apenas isto de moda delas em comum, que nenhuma delas ocultava excessivamente os corpos nus delas; pois ou a seda escorregava do ombro dela, ou se afastava girando do flanco dela; e aquela cujos pés estavam calçados; não se poupavam de mostrar joelho e alguma parte de coxa; e aquela cujo vestido alcançava ininterrupto de pescoço a tornozelo, usava-o de um tecido tão fino e delgado que ela ocultava apenas pouco entre tornozelo e pescoço.
Birdalone permaneceu encarando-as e ponderando, e ela teve uma ideia de pensar que elas eram alguma manifestação enviada pela sua antiga senhora, a bruxa, para a ruína dela, e ela soltou a espada dela em sua bainha e colocou uma flecha no arco.
Mas então correram à frente duas das donzelas e ajoelharam-se diante dela, e cada uma pegou uma mão dela e imediatamente começou a beijá-la, e ela sentiu nas mão delas que elas era firmes e os lábios delas que eles eram macios e quentes, e, sem dúvida, elas estavam vivas e eram reais. Então falou uma delas e disse: ‘Saudações, nosso senhor! Como podem palavras dizer quanto nos regojizamos com a tua chegada nesta manhã feliz! Agora todas nós entregamos a nós mesmas a ti como tuas escravas para tu fazeres o que desejares. Contudo, nós suplicamos-te, sê misericordioso conosco e com nossos anseios.’
[424]Depois disso, todas elas se ajoelharam sobre a grama diante de Birdalone e juntaram suas mãos enquanto orando para ela. E Birdalone ficou completamente desconfortável, e não tinha conhecimento de onde ela estava. Mas ela disse: ‘Saudações! E bons dias e satisfação de desejos para vós, belas donzelas! Mas dizei-me, esta é a Ilha dos Reis, como eu considerava; pois para mim é estranho ver-vos aqui, mulheres?’
Disse aquela quem tinha falado antes: ‘Sim, verdadeiramente esta é a Ilha dos Reis; mas há muito os reis estão mortos, e ainda eles se sentam mortos no grande salão do castelo acolá, como tu podes ver se tu, quem és um homem e um guerreiro valente, atreveres-te a seguir aquele caminho de montanha acolá até lá; mas nós, mulheres fracas e de coração pequeno, não nos atrevemos a aproximarmo-nos dele; e nós trememos quando, às vezes às noites, desce de lá o som de espadas colidindo e escudos barulhentos, e os gritos de homens em batalha. Mas, louvado seja o Deus do Amor, nada desce de lá para nós. Portanto, nós vivemos vidas pacificas e agradáveis aqui, não carecendo de nada exceto de ti, senhor; e oh, agora tu vieste a nós, e nós estamos felizes em nossos corações mais íntimos.’
Agora Birdalone ficou perplexa e não soube o quê fazer; mas, por fim, ela disse: ‘Gentis donzelas, eu suplico-vos perdão para mim, mas eu tenho de partir imediatamente; pois eu tenho uma missão, e vida ou morte dependem dela. Em tudo, senão na minha residência aqui, possam vós ter o vosso desejo.’
Com isso ela moveu-se um pouco na direção do seu barco; mas com isso todas elas irromperam chorando e gemendo e lamentando, e algumas delas vieram [425]até Birdalone e jogaram-se no chão diante dela, e agarraram os joelhos dela, e seguraram a saia dela, e imploraram piedosamente a ela para permanecer com elas. Mas ela colocou-as de lado tão bem quanto ela conseguiu, e pisou a bordo do Bote de Expedição, e permaneceu no meio dele aguardando a partida delas; mas elas não se foram, e permaneceram ao longo da margem da água gritando e implorando com muito clamor.
Então Birdalone tornou-se um pouco irada diante do barulho e confusão delas, e ela sacou sua faca e desnudou o braço e sangrou-o. Mas quando elas viram a brancura e redondeza dele, e quão belo e macio ele era, imediatamente elas mudaram seu tom, e bradaram: ‘Uma mulher, uma mulher, uma tola de uma mulher!’ E elas riram em desprezo e zombaria. E a falante delas disse: ‘Agora há apenas uma coisa para tu fazeres, e que é sair do teu bote e despires-te da tua veste roubada, e nós deveremos fazer-te tão bela quanto nós mesmas, e tu deves vir conosco, e conosco aguardar a chegada do nosso senhor. Ou melhor, tu és tão bela e amável, que tu deves ser a Senhora e Rainha de nós, e nós agiremos segundo teus comandos, e tu podes castigar-nos se nós falharmos nisso. Mas agora, se tu não saíres do bote desencorajada, nós deveremos arrancar-te dele.’
E com isso ela colocou o pé dela sobre a amurada do bote, e duas ou três outras agiram da mesma maneira. Mas agora, Birdalone tinha sua espada desembainhada na mão, e ela tornou-se vermelha como sangue e bradou: ‘Abstende, eu ordeno-vos! Sim, verdadeiramente eu sou uma mulher; mas eu não aceitarei essa oferta tampouco, considerando que eu tenho [426]uma missão, como eu vos contei. E tão séria ela é que, se agora vós permitirdes minha partida, eu não dispensarei de golpear com esta espada quem quer que primeiro embarque em meu bote, e, embora eu não seja um homem, você devereis descobrir que nessa questão eu sou pouco pior, visto que eu estou armada e vós estais nuas.'
Então elas recuaram e permaneceram escarnecendo e zombando dela; mas ela não prestou a mínima atenção para isso, apenas vermelhou proa e popa do Bote de Expedição, e entoou o feitiço dela, e adiante deslizou o bote, enquanto as donzelas permaneceram e encararam espantadas. Quanto a Birdalone, enquanto ela acelerava em seu caminho, ela não conseguiu conter o riso. Dessa maneira, ela dirigiu-se pela estrada úmida.
ORIGINAL:
MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 422-426. Disponível em: <https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/422/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
Nenhum comentário:
Postar um comentário