A Água das Ilhas Maravilhosas - A Sexta Parte: Os Dias de Ausência - Capítulo XXIII A Esposa-do-bosque traz Birdalone à Vista de Arthur no Bosque selvagem

A Água das Ilhas Maravilhosas


Por William Morris


A Sexta Parte: Os Dias de Ausência


Capítulo anterior


[475]Capítulo XXIII A Esposa-do-bosque traz Birdalone à Vista de Arthur no Bosque selvagem.


Agora elas caminham novamente, não menos rapidamente do que antes, e descansam apenas pouco, até que era perto de uma hora antes do pôr do sol. E agora Habundia começava a caminhar cautelosamente, como se elas tivessem chegado perto do fim da jornada delas e da coisa que elas procuravam. Nessa altura elas passaram por uma longa campina da floresta, bem crescida com árvores de carvalho de grandes troncos, não muito próximas umas das outras, de modo que curto relvado fino estava todo debaixo delas; e Habundia ia cuidadosamente de tronco a tronco, como se desejasse estar pronta para se ocultar se houvesse necessidade; e Birdalone seguia-a, e agora estava com a face ruborizada, e os olhos dela cintilavam, e o coração dela batia rápido, e as pernas dela tremiam sob ela, enquanto ela corria de árvore a árvore.

Assim elas chegaram perto do topo da campina, e diante delas o carvalhos ficaram mas escassos e menores enquanto elas desciam para o outro lado, o qual parecia, pelo seu encurtamento súbito, ser mais íngreme do que o lado de cá; e entre eles era visível o topo de espinheiros e mostajeiros-brancos e campeche, entrelaçados com roseira-brava e madressilva e novos brotos do cipó-do-reino. Ali a esposa-do-bosque estendeu a mão para mandar Birdalone parar, quem veio até a amiga dela e ficou diante dela, ansiosa e trêmula: e sem demora surgiu o som da voz de um homem cantando, embora elas não pudessem ouvir nenhuma [476]palavra nela visto que ainda em meio ao ruído das árvores e ao tumulto da canção que os melros e tordos-bravos erguiam no vale abaixo delas.

Então falou suavemente a esposa-do-bosque: Escuta com atenção, nós estamos certas e o tempo é bom, a nossa besta está vocalizando: agora, abaixo de nós está a ladeira lateral da campina, e ela desce para dentro de um vale bem pequeno com um claro córrego correndo através dele; e ali está o covil mesmo da coisa que nós estamos caçando. Portanto, deslizemos para baixo com cuidado entre os arbustos até que nós cheguemos perto da criatura, e então, talvez, nós devamos ver a criatura mesma bastante de perto e deveremos considerar e pensar o que deveremos fazer com ele.

Birdalone não teve voz com a qual a responder, apenas ela se moveu sorrateira e quietamente ao lado dela, até que elas chegaram ao banco de areia do vale e mergulharam dentro do matagal que florescia ali, e começaram a atravessá-la, tornando-as tão pequenas quanto elas poderiam ser. Mas, antes que elas tivessem caminhado apenas uma pequena distância, a canção sem palavras do quê estava abaixo tinha cessado, e elas ouviram o doce tinido do tocar de cordas, e a esposa-do-bosque parou-a para ouvir com atenção, e os sorrisos seguiram ondulando através da face dela, e ela marcou o ritmo batendo com os dedos; mas Birdalone, ela encarava descontroladamente diante de si, e teria escalado o banco de areia abaixo imediatamente, diante de todos os perigos, pois aquele tocar de cordas era a melódia do Castelo da Busca, mas Habundia segurou-a pelo braço. E então, subitamente, a música morreu, e ali subiu uma voz de lamúria e lamentação, e Birdalone colocou as mãos dela nos ouvidos e manteve as palmas apertadas, e estava prestes a gritar de si mesma; mas Habundia puxou uma mão dela [477]para baixo e sussurrou no ouvido dela: ‘Criança, criança, torna a ti mesma forte e suporta, e então talvez a alegria possa vir a ti; acalma-te e avança suavemente comigo!’

Assim Birdalone se reprimiu e lutou com sua paixão, embora os soluços ocupassem o peito dela por um tempo; e por então a lamentação intensa enfraqueceu e terminou, e o som de soluço subiu a partir de baixo, e como se tivesse sido um eco do sofrimento de Birdalone.

Então Habundia puxou-a novamente até que elas viram o nível do vale e do seu córrego aos poucos entre as folhas, e eles tiveram um vislumbre de um homem do outro lado do córrego; e novamente elas desceram mais, até que estavam bem perto do nível do relvado do vale; e enquanto Birdalone ajoelhava-se com a cabeça inclinada para baixo, e as mãos cobrindo os olhos, a esposa-do-bosque afastou da frente dela as espessas folhas de um arbusto de avelãs e disse sussurrando: ‘Criança, criança! Olha para frente agora e vê o quê está diante de ti, e vê se tu o conheces, ou, se ele for estranho para ti, e tua mãe não fez nada para ti no fim.’

Birdalone olhou para cima, pálida e de olhos arregalados, e para dentro do vale, e viu um homem sentado na grama ao lado do riacho com a cabeça dele curvada sobre os joelhos e o rosto coberto pelas mãos; ele estava envolto apenas em duas ou três peles de veado suspensas ao redor dele, com uma tira de pele como um cinto, ao qual estava enfiada uma espada curta; o cabelo castanho dele suspenso para baixo, longo e desgrenhado, sobre o rosto dele. Perto ao lado dele estava uma pequena harpa, mais adiante uma lança curta, grosseiramente hasteada com um bastão de freixo. Ele estava batendo [478]a terra com os pés e contorcendo-se ao redor deles. E Birdalone olhou, e o fôlego dela quase falhou com ela. Pois logo ele sentou-se mais quietamente e ergueu a cabeça, e ela viu o rosto dele que era Arthur, seu amado; e agora ela não se atreveu a mover-se, com receio de que ele deveria saltar e fugir; e a dor e o anseio misturados dentro dela eram doces, de fato, mas quase mortais.

Agora a mão dele procurou ao redor por sua harpa, e ele pegou-a em seus braços e acariciou-a, por assim dizer, e os dedos deles entraram entre as cordas, e imediatamente a voz dele surgiu, e ela não estava nada mudada da última vez que ele falou, e Birdalone ouviu com atenção e sem fôlego, até que a melódia morreu novamente e Arthur olhou em volta de si e levantou o rosto como um cão quando busca uivar.

Então Birdalone deu um grande grito, e saltou adiante para fora do matagal e ficou de pé sobre o relvado com nada entre os dois, e ela estendeu os braços para o amado dela e bradou: ‘Oh! Não, não, não! Não faz isso, eu suplico-te, com receito de que eu considere que tu estejas inteiramente mudado, e que o homem e o querido coração amado de ti saiu de ti e deixou-te apenas uma besta na forma de um homem!

Ele pulou enquanto ela falava, e empurrou a cabeça para frente e olhou feroz para ela, e bradou: O quê! Tu vieste novamente? Está é a segunda vez que eu te vi, tu, a imagem daquela que tem me atormentado por tanto tempo; daquela que me abandonou na minha maior necessidade e escondeu-se longe de mim. Ah! Um homem, tu dizes? Eu não lutei contra ti, e mantive minha virilidade tanto quanto eu pude; e finalmente [479]não pôde mais ser e eu tornei-me uma besta e um matador de homem? Mas de que vale falar contigo, uma vez que tu és a imagem daquela que arruinou minha vida. Todavia, talvez eu consiga dar um fim à imagem, uma vez que eu não posso colocar a mão na destruidora mesma; e, ai de mim, como eu a amei! Sim, e ainda amo; mas não a ti, oh imagem falsa!

E sem demora ele desembainhou a lâmina do cinto dele e pulou na direção de Birdalone; e ela encolheu-se e aninhou-se com medo, mas não se moveu mais. Mas com isso a esposa-do-bosque surgiu saltando de entre os arbustos, e ela colocou uma flecha em seu arco curvado e, com isso, ameaçou-o e bradou: ‘Tu homem-besta, eu te matarei se tu machucares minha criança e minha querida; assim, abstém-te! Não, eu digo-te mais, a menos que tu a faças tão feliz à vista de ti como eu a intencionei ficar, a longo prazo, eu te matarei; assim, considera para isso.’

Ele riu e disse: O quê! Há outra imagem do amor que me arruinou, há! Não, mas, pelos Santos, esta recém-chegada é a primeira, e a outra que tagarelou comigo é a segunda. Ou é que todas as mulheres agora têm a aparência da maligna que me arruinou, e não há mais nada restante?

E ele permaneceu encarando Birdalone e não se moveu por um tempo; e ela permaneceu com as mãos diante da face aninhando-se com medo diante dele. Então ele ergueu o braço e jogou a arma longe dentro dos arbustos ao lado do banco de areia, e em seguida veio a frente e colocou-se de pé diante de Birdalone, e baixou as mãos dela da face dela e encarou os olhos dela, segurando-a pelos [480]dois braços; e ele disse: ‘Tu esqueceste agora, talvez, quão bela vida nós poderíamos ter vivido juntos se tu não tivesses fugido de mim e arruinado-me.’

E tu! Pela aparência de ti, pois tu és elegante e bela, embora neste momento tu estejas pálida por medo de mim, tu tens vivido uma vida feliz através de todos esses anos, com muitas coisas alegres nas quais pensar: e tu consideras que minha vida foi feliz, ou que eu pensei em qualquer coisa alegre, ou em qualquer coisa, exceto no meu sofrimento? Tu duvidas disso? Vai perguntar às boas lanças de Greenford, ou aos Cavaleiros do Domínio Vermelho, e ao campo do massacre! Se houve um pouco de alegria lá, houve menos em outros lugares.

Com isso, ele soltou-a e permaneceu de pé diante dela, e ela curvou-se e colocou palma na palma e estendeu-as para ele como alguém que suplicar, e ela não sabia o que ela fez.

Então ele soltou um grito lamentável e disse: Oh, ai de mim! Pois eu amedrontei-a e espantei a sanidade dela, de modo que ela não sabe quem eu sou nem o que eu desejo; e eu desejo suplicar a ela e implorar a ela para se apiedar de mim, e não se separar de mim novamente ou zombar de mim com imagens de si mesma.

Então ele baixou os joelhos para ela, e também juntou suas mãos para suplicar a ela; mas pareceu como se ela tivesse sido petrificada, tão inteiramente ela não se movia. Mas quanto a ele, ele afundou sua testa na terra e rolou, e os membros dele estendidos, e cabeça dele virou de lado e sangue jorrou da boca dele. Mas Birdalone gritou e jogou-se sobre o corpo dele, e exclamou: ‘Eu encontrei-o, e ele está morto! Ele está morto, e eu matei-o, [481]porque eu fui uma tola tímida e temi-o; e ele estava voltando a si e conheceu-me pelo que eu era?’

Mas Habundia veio e ficou sobre ele, e puxou Birdalone para cima, e disse: Não, não, fica confortada! Pois agora que ele está dessa maneira, e a força desapareceu dele, nós podemos lidar com ele. Aguarda, e eu buscarei a erva estancadora de sangue e a erva do sono, e então nós o curaremos, e ele voltará a si e a ser homem novamente.

Com isso ela correu para longe e desapareceu apenas por um momento; e entrementes Birdalone ajoelhou-se ao lado do amor dela e limpou o sangue dele, e acariciou aos mãos endurecidas de espada dele e gemeu sobre ele. Mas quando a esposa-do-bosque retornou ela colocou Birdalone de lado mais uma vez, ajoelhou-se ao lado do escudeiro, e aplicou o estancador de sangue na boca e coração dele, e sussurrou palavras sobre ele, enquanto Birdalone olhava sobre o ombro dela com sua face pálida; então a curandeira buscou água do córrego em um copo que ela tirou da bolsa dela, e ela lavou o rosto dele, e ele voltou um pouco a si mesmo, de modo que ela conseguiu lhe dar de beber da água; e ele voltou a si mesmo ainda mais. Assim então ela pegou a erva de sono e esmagou-a em suas mãos e colocou na boca dele e novamente disse palavras sobre ele, e logo a cabeça dele caiu para trás e os olhos dele fecharam-se e ele dormiu pacificamente.

Então ela colocou-se de pé e voltou-se para Birdalone e disse: Agora, minha criança, nós fizemos tudo que nós podemos fazer, exceto que nós temos de o levar para um lugar onde o orvalho e o sol não o atormentem e [482]adoeçam; pois ele deverá ficar assim até que o sol suba amanhã, ou por mais tempo; e não temas, pois, quando ele acordar, ele deverá está em sua mente correta, e deverá conhecer-te e amar-te. Isso eu te juro, pela terra e pelo sol e pelo bosque.

Disse Birdalone, ainda tremendo: Oh mãe, mas eu posso beijá-lo e acariciá-lo?’ ‘Sim, certamente,disse a mãe-do-bosque, sorrindo, ‘mas não fiques por tempo demais sobre ele, pois oh! O resquício do sol, e seria melhor se ele estivesse sob cobertura antes que o crepúsculo caísse.’

Birdalone ajoelhou-se quietamente ao lado do amor dela diante dessa palavra, e imediatamente começou a beijá-lo suavemente, e colocou sua bochecha na dele, e disse-lhe nomes gentis tais como ninguém pode dizer novamente sem vergonha, até que a esposa-do-bosque colocou a mão no ombro dela e disse gentil e docemente: ‘Levanta-te agora, pois tu fazes o suficiente por este presente; tu deverás ter tempo suficiente depois para mais e muito mais.’

Assim Birdalone se levantou e disse: Como nós deveremos carregá-lo para o lugar dele? Não deverei eu levá-lo pelos ombros e tu pelas pernas? Pois eu sou mais forte do que tu após todos esses anos.

A mãe-do-bosque riu: Não, pequenina,disse ela; ‘tu não me conhece completamente ainda. Tu não deverás o carregar de maneira nenhuma, nem qualquer parte dele; eu sou suficientemente forte para mais do que isso; vê tu!’ E ela abaixou-se e ergueu-o nos braços como se ele fosse uma pequena criança, e deu um passo para trás levemente com ele; mas olhou para trás sobre o ombro e disse a Birdalone: ‘Mas tu podes caminhar ao meu lado e segurar uma mão dele enquanto nós caminhamos, embora isso [483]me embaraçara um pouco; mas eu conheço teu coração e desejo agradar-te, minha criança.’

Birdalone correu até ela e agradeceu-a e beijou-a, e segurou a mão esquerda de Arthur, enquanto Habundia carregava-o vale abaixo e para fora dele, e ainda ao longo do córrego até que elas chegaram a um lugar onde era estreito de cada lado dele, e uma rocha nua descia tão perto da água que havia apenas uma faixa de relvado de três jardas de largura entre água e rocha; e no rosto da rocha ficava uma caverna suficientemente larga para homem entrar caminhando um pouco. Para lá a esposa-do-bosque levemente carregou Arthur, e Birdalone seguiu; e elas encontraram a caverna seca e espaçosa dentro; havia uma cama ali de urze e samambaias secas e sobre ela Habundia deitou o fardo dela, e disse: ‘Agora, minha criança, não há mais nada a fazer senão aguardar até que ele volte a si mesmo novamente, o que pode ser algum momento amanhã; e sê de bom ânimo, pois ele retornará ao seu eu correto, mas ele estará fraco e humilde; mas eu deverei ter comida e bebida pronta para ele. Mas se tu desejas ser comandada por mim, tu desejarás estar fora do caminho quando ele despertar; além disso, não te assustes se eu receber o despertar dele com outra forma da que tu tens me conhecido; pois é certo que perturbará demais os sentidos dele se ele vir duas de nós parecidas. Mas não temas; pelo teu bem, minha criança, eu não tomarei forma feia, embora ela pode ser bem menos bela do que a tua.’

Eu farei o quê tu desejares, mãe,disse Birdalone, pois eu vejo que tu estás me ajudando em tudo que tu podes; [484]contudo, eu suplico-te, deixa-me sentar ao lado dele até que o momento do despertar aproxime-se.

A mãe-do-bosque sorriu e sacudiu a cabeça afirmativamente para ela, e elas sentaram-se, ambas elas, ao lado do homem adormecido, e o dia tornou-se noite enquanto elas ouviam com atenção a ondulação do riacho e a canção dos rouxinóis.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 475-484. Disponível em: <https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/475/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O Último Homem - Volume I - Capítulo IV-II

O Último Homem Por Mary Shelley Volume I Capítulo anterior [121] Capítulo IV-II Há um sentimento tal como amor à primei...