A Água das Ilhas Maravilhosas
Por William Morris
A Sexta Parte: Os Dias de Ausência
[489]Capítulo XXV A Mãe-do-bosque cura e cuida do Escudeiro Negro.
Ela ergueu-se sobre Arthur por um minuto ou dois e, em seguida, abaixou-se e sussurrou uma palavra no ouvido dele, e logo ele se mexeu na cama e meio que abriu os olhos, mas imediatamente virou de lado, como se para adormecer, mas ela pegou-o pelo ombro e disse para ele em uma voz clara: ‘Não, cavaleiro, não; tu não dormiste o suficiente? Não há algo para tu fazeres?’ Ele sentou-se na cama e esfregou os olhos, e o rosto dele agora retornou à sua cor saudável, e os olhos dele olhavam quieta e calmamente enquanto ele olhava de um lado para o outro da caverna e via a esposa-do-bosque de pé perto dele; e ele falou em uma voz que era um pouco fraca mas na qual não havia nenhuma paixão de raiva ou loucura; ‘Onde eu estou, então? E quem és tu, dama?’ Ela disse: ‘Tu estás em uma caverna no bosque, e, para começar, eu sou tua curandeira, e parece-me que tu desejas comer e beber.’ Ele sorriu e acenou com a cabeça; e ela trouxe-lhe leite e ele bebeu um longo gole, e suspirou depois, como alguém quem está satisfeito; e ela sorriu para ele, e ele comeu e bebeu novamente, e então deitou e adormeceu rapidamente. E ela tolerou o torpor dele por duas horas ou algo assim, e então o despertou novamente; e novamente ele perguntou onde ele estava e o que era ela, mas ela disse como antes. E ela disse: ‘A próxima coisa que tu tens de fazer é levantar, como tu bem podes, e pegar [490]esta vestimenta, a qual é bela e limpa, e ir lavar-te no riacho e retornar para mim; e então nós conversaremos, e tu deverás contar-me como foi para ti, e talvez eu possa contar-te um pouco de como deverá ser para ti.’ Enquanto falava, ela foi a um cofre que ficava em um canto da caverna, e tirou de lá uma camisa e calças e calçado, e uma túnica e um capuz de belo tecido negro, e cinto dourado e uma bela espada, de bainha vermelha, e disse: ‘Esses deverão servir à tua personalidade pelo presente, assim, pega-os e arruma-te com eles, e tu deverás parecer-se com um escudeiro, pelo menos, se não um cavaleiro.’
Assim ele ficou de pé como alguém em um sonho e saiu; mas enquanto ele passava por ela, ela viu alguma coisa brilhando no peito dele, e notou que era o belo anel de safira de Birdalone, o qual pendia ao redor do pescoço dele; assim ela sorriu e disse sob a respiração dela: ‘Astuta é minha querida filha! Mas isso deverá me poupar algumas palavras, pelo menos!’ E ela aguardou o retorno dele.
Sem demora ele retornou trajado em bela vestimenta, com a espada ao lado dele; e a esposa-do-bosque bateu palmas e bradou: ‘Agora, de fato, tu estás belo e de boa aparência, e uma bela dama bem poderia ter prazer observando-te.’
Mas a testa dele estava franzida e ele parecia taciturno e raivoso, e ele disse: ‘O que é todo este jogo? E onde tu obtiveste esse anel que agora mesmo eu descobri em volta do meu pescoço? E quem és tu, e por que eu fui trazido para cá?’
Os olhos deles olhavam ferozmente para ela enquanto ele falava, erguendo sua palma com o anel estendendo-se nela. Mas a esposa-do-bosque respondeu: ‘Muitas questões, belo [491]jovem! Mas eu te contarei: o jogo é para tua cura e prazer, considerando que tu tem estado tanto doente quanto triste. Quanto ao anel, é tu quem o obtiveste e não eu. Mas eu te contarei isto, que eu o vi no dedo de uma bela donzela quem habita o bosque não longe daqui. Quanto a quê eu sou, isso seria um longo conto para te contar, se eu o contasse de qualquer modo; mas acredita nisto enquanto isso, que eu sou a dama e senhora das redondezas, e eu não estou sem poder sobre meu povo e minha terra. E quanto a porque tu foste trazido para cá, eu trouxe-te porque eu não tinha melhor casa conveniente para um homem doente deitar.’
Então Arthur permaneceu por um longo tempo considerando o anel que estava na palma dele e, finalmente, ele colocou a mão no ombro da esposa-do-bosque, olhou para a face dela suplicantemente, e disse: ‘Oh mãe, se tu fores poderosa sê misericordiosa além disso, e tenha piedade de mim! Tu chamas-me de um jovem, e assim eu possa ser com respeito a ti; mas eu digo-te que são cinco longos anos e não houve nenhum outro pensamento em meu coração exceto o quê foi detestável para mim, e desgastou e arruinou minha juventude, de modo que ela diminuiu e secou e nada é. Oh, se tu fores poderosa, leva-me para ela, para que eu possa vê-la pelo menos uma vez antes que eu morra.’ E com isso caiu de joelhos diante dela e beijou a bainha do vestido dela, e chorou. Mas ela ergueu-o e olhou para ele com o semblante alegre de uma velha mulher, e disse: ‘Não, não, eu não sou tão dura para ser conquistada para tua ajuda que tu precises suplicar tão intensamente e chorar: não temos de nos demorar mais aqui, e se tu desejares vir comigo, nós deveremos ir procurar a donzela [492]quem portava este anel, embora como ele deveria ter chegado a ti, por que eu deveria saber? Tampouco eu sei se a dita portadora do anel é a única mulher de quem tu necessitas. Mas eu te contarei de uma vez que ela é uma querida amiga de mim.’
Então Arthur lançou os braços em volta dela, e beijou as bochechas dela, enquanto ela ria dele e dizia: ‘Não, belo senhor, se tu fazes tanto com o galho ressecado, o que tu farás com a floração da árvore?’ E ele ficou envergonhado diante dela, mas a esperança fazia o coração dele dançar.
Assim a esposa-do-bosque pegou seu arco, e pendurou sua aljava nas costas, e colocou sua espada curta no cinto, e então conduziu-o adiante, e assim para dentro do matagal e para fora do vale e adiante para a campina de carvalhos, e ligeiramente ela conduziu-o depois através do bosque.
ORIGINAL:
MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 489-492. Disponível em: <https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/489/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
Nenhum comentário:
Postar um comentário