A Água das Ilhas Maravilhosas
Por William Morris
A Sexta Parte: Os Dias de Ausência
[518]Capítulo XXXII Da Luta na Floresta e o Resgate daqueles Amigos dos Homens da Companhia Vermelha.
A luz estava crescendo na aurora do dia seguinte, e as cores das coisas podiam ser vistas, quando Birdalone, quem estava mantendo a sua última vigilância da noite, permanecia parada e escutava com atenção, considerando que ela deveria ouvir algum barulho que não fosse nem o vento da manhã nos galhos de árvore nem as idas das coisas selvagens perto deles no bosque.
Assim ela tirou o elmo dela para ouvir melhor, e permaneceu dessa maneira por um tempo; então ela virou-se e baixou-se até Arthur, quem ainda estava dormindo, e estendeu uma mão para o despertar. Mas ou ela já o tocou, ou irrompeu o som de vozes grandes e roucas e riso, e, em meio a isso, dois gritos como de mulheres.
Arthur ouviu isso, e ficou de pé em um momento, e de capacete, e pegou seu arco curvo e amarrou a aljava (pois Birdalone já estava armada). Sem mais palavras, eles avançaram velozmente até o banco de areia e através do matagal até que estavam olhando para o caminho meio sem saída, mas sob cobertura, e ainda não havia nada diante deles.
Ali eles permanecerem e ouviram com atenção intensa. Não houve mais gritos de mulheres, nem eles ouviram nenhum choque de armas, mas a conversa e o riso de homens prosseguia; e finalmente eles ouviram uma algazarra imensa e sombria de muitos homens juntos; e então, depois, o som de conversa ficou menor, mas surgiu o tinido como se de [519]armas e arreios; e Arthur suspirou no ouvido de Birdalone: ‘Permanece perto! Eles montaram a cavalo, e virão na nossa direção. Coloca uma flecha no arco.’ E assim mesmo ele fez.
Após o que eles ouviram claramente a cavalgada de homens e, em menos do que o espaço de cinco minutos, eles viram três homens grandes, armados, cavalgando juntos, envoltos em robes vermelhos, e eles estavam tão próximos que ouviram as palavras da conversa deles. Um disse para os outros: ‘Por quanto tempo vós achais que o cavaleiro sobrevive?’ ‘Oh, uma semana, talvez,’ disse o outro. ‘Parece-me que foi infortúnio que não nos demoramos um pouco para o enfraquecer,’ disse o primeiro homem. ‘Não,’ disse o segundo, ‘nós ficamos sobrecarregados com equipamento de cama para nos demorar.’ E todos eles riram com isso, e assim seguiu a escuta.
Mas então chegaram quatro juntos, dos quais um, um homem magro, um tanto velho, estava dizendo: ‘Não é muito longe para nós chegarmos lá, mas o quê deverá acontecer quando nós chegarmos lá. Pois isso não é como carregar um rebanho de rês, do qual a partilha é fácil, mas com esse gado de pele nua, bípede, o qual verdadeiramente vós podeis comer e contudo ter, bem pode haver conflito sobre a partilha. E considerai se isso já não começou: nós tivemos de desmontar três dos nossos melhores homens para que essas prostitutas de pele branca pudessem ter cada uma um cavalo para si mesma, ou senão eles lutariam sobre qual deles deveria ter uma donzela delas diante dele na cela: tolos amaldiçoados!’
Riram aqueles que estavam ao redor dele, e um homem jovem fez uma zombaria com ele, o significado da qual eles não puderem compreender, e novamente eles riram; e [520]esse ato passou. E em seguida surgiu um alvoroço maior, uma meia vintena ou algo assim, e eles também rindo e zombando; mas, em meio a eles, evidente para ser vista cavalgando montadas, seus tornozelos torcidos juntos sob as barrigas dos cavalos, suas mãos amarradas atrás delas, primeiro Atra, envolta em negro, como outrora; então Aurea, em um vestido da cor de trigo; então Viridis, envolta em verde. Atra cavalgava ereta e olhando diretamente para frente; Aurea pendia sua cabeça tanto quanto ela conseguia, e o longo cabelo vermelho dela caia ao redor do seu rosto; mas Viridis tinha desmaiado, e era segurada na sela por um dos covardes de cada lado dela. Elas estavam apenas um pouco desarrumadas, exceto que algum criminoso tinha rasgado o peito do vestido de Viridis, e puxado o tecido para baixo de maneira que o ombro esquerdo dela estava nu.
Arthur olhou e atraiu o patife que ia a pé ao lado de Atra, e Birdalone atraiu aquele que ia perto de Viridis, pois ela tinha conhecimento de para qual direção a flecha de Arthur estaria voltada. A soltura de dois arcos produziu apenas um som; ambos homens caíram mortos, e os outros se amontoaram por um momento, e eles correram na direção do matagal, de cada lado, e daqueles que correram para o norte, dois deles não viram Arthur, por causa da armadura verde dele, até que eles sentiram a morte que existe na espada dele. E então ele irrompeu em meio a eles, e haviam três deles sobre ele, todavia não por muito tempo, considerando que as armas deles não perfuravam a armadura das Fadas, e lâmina do bosque dele cortou rente couro e cota de malha até carne e osso: poderosos foram os golpes dele, e logo todos os três estavam chafurdando sobre a terra.
Mesmo com isso os sete quem tinham passado adiante tinham [521]se virado e deviam vir sobre ele a cavalo; e duramente tinha ocorrido com ele, a despeito de sua força e seu valor e da confiança da malha de Habundia. Mas enquanto isso Birdalone tinha corrido para Viridis, quem tinha caído como um peso morto ao lado do cavalo dela, e estava meio suspensa pelas amarras nos seus tornozelos. Birdalone rapidamente cortou as cordas, tanto dos pés quanto das mãos dela, tirou-a do cavalo tão bem quanto ela conseguiu e deitou-a sobre a grama; e então correu até Arthur de espada erguida, exatamente quando a nova batalha dele estava a ponto de começar.
Mas enquanto ela corria, surgiu na mente dela num piscar de olhos que a espada dela seria fraca demais, e o chifre pendia ao redor do pescoço dela. Então ela parou os pés e levou o chifre aos lábios e soprou; e o olifante deu vazão a uma longa nota cantada que foi estranha para ela. Mas enquanto ele ainda estava nós lábios dela, um dos covardes estava sobre ela, e ele bradou: ‘Ah, a bruxa, a maldita bruxa verde!’ E infligiu-a um grande golpe a partir da sela dele, e golpeou-a no capacete; e, embora a espada dele não cortasse aquele bom capacete, ela caiu ao chão sem consciência.
Contudo, a promessa da esposa-do-bosque não foi inútil, pois mesmo enquanto a voz do chifre ainda estava no ar, a estrada e os matagais ficaram vivos com homens armados, trajados de verde como aqueles dois, que imediatamente caíram sobre os covardes e, com Arthur para ajudar, não deixaram nenhum deles vivos. Em seguida alguns foram até Viridis e ergueram-na, e assim lidaram com ela até que ela retornou a si mesma novamente; e o mesmo eles fizeram por Birdalone, e ela ficou de pé, e olhou em volta confusamente, mas enquanto ela observava isso, eles tinha obtido a vitória. Ao mesmo tempo alguns [522]foram até Aurea, e cortaram as amarras dela e tiraram-na do cavalo dela e colocaram-na no chão; e ela estava totalmente aturdida e não sabia onde ela estava.
Mas Arthur, quando ele viu Birdalone de pé e, aparentemente, não machucada, foi a Atra, e cortou as amarras dela e soltou-a, e colocou-a no chão, tudo sem uma palavra, e então ficou de pé diante dela timidamente. Com isso, a cor retornou ao rosto dela, e ela ruborizou, pois ela conheceu-o, a despeito do seu estranho arreio de guerra verde, e ela estendeu a mão para ele, e ele ajoelhou-se diante dela, tomou a mão dela e beijou-a. Mas ela inclinou-se sobre ele até que a face dela estava perto do rosto dele, e ele ergueu o rosto e beijou a boca dela. E ela recuou um pouco, mas ainda olhava para ele seriamente, e disse: ‘Tu salvaste minha vida, não da morte, de fato, mas de um inferno terrível; eu bem posso te agradecer por isso. E oh, se meus agradecimentos pudessem ser frutíferos para ti!’ E o seio dela pesou, e os soluços vieram e as lágrimas começaram a correr sobre as bochechas dela. E ele pendeu a cabeça sobre ela. Mas em um momento ela deixou de chorar, e virou a face e olhou ao redor do campo de feitos; e ela disse: ‘Quem é aquele magro guerreiro verde acolá, quem agora mesmo se ajoelhou perto de Viridis? Não é uma mulher?’ Arthur ruborizou: ‘Sim,’ disse ele; ‘é Birdalone.’ ‘Teu amor?’ ela disse. Ele disse rapidamente: ‘Sim, e tua amiga e, neste momento, tua libertadora.’ ‘Assim seja,’ ela disse. ‘São cinco anos desde que eu a vi. Meu coração anseia por ela; eu deverei regozijar-me com nosso encontro.’
Ela ficou silente, e ele também, por um tempo; então ela disse: ‘Mas por que nos demoramos aqui, em conversa fiada, quando ele [523]ainda está amarrado, e em tormento de corpo e alma; ele, o irmão valente, e o amável e o querido? Vem, não te demores por nenhuma questão.’ E ela caminhou rapidamente ao longo da estrada verde indo para o oeste, e Arthur ao lado dela; e, enquanto eles passavam por Viridis, Oh! Aurea dirigiu-se para elas, e agora Birdalone estava sem o elmo e beijando-a e confortando-a. Então Atra gritou para Viridis: ‘Mantém teu coração, Viridis! Pois agora nós te buscamos teu homem seguro e são.’
Então eles caminharam apenas um pouco adiante na estrada verde antes que eles encontrassem sir Hugh amarrado com força e firmeza em um tronco de árvore, e ele nu em sua camisa, e perto jaziam os corpos de dois fortes rapazes com suas gargantas cortadas; pois esses homens honestos e os dois criminosos que os traíram foram todo o acompanhamento com o qual o Cavaleiro Verde tinha entrado em Evilshaw. E, como aconteceu, os traidores tinham sido colocados para vigiar enquanto os outros dormiam; e dormindo, os covardes os encontraram, e mataram os ditos homens de armas de uma vez, mas amarraram Hugh a uma árvore para que ele pudesse demorar a morrer; uma vez que ninguém olhava para ninguém, exceto a sua própria gente ao passar por aquela estrada. Tudo isso eles ouviram depois de Hugh.
Mas agora o dito Hugh ouviu homens caminhando, e ele abriu os olhos, e viu Atra e um homem armado com ela; e ele bradou: ‘Há, o que é isto agora, irmã? Um resgate?’ ‘Sim,’ ela disse, ‘e olha tu para a face do resgatador; e há outro perto, e ela é uma mulher.’
Com isso Arthur estava sobre ele cortando as amarras dele, e, quando ele estava solto, eles caíram nos braços um do outro, e Hugh falou: ‘Agora então, finalmente, [524]a vida começa para mim como eu desejava!’ ‘E tu tens minha doce amiga, Birdalone, contigo’ ‘Sim,’ disse Arthur. ‘Quão bom isso é!’ Disse Hugh. ‘E contudo, poderia apenas ser que Baudoin ainda estivesse vivo para nós procurarmos!’ Então ele riu e disse: ‘Estas são roupas bastante tristes com as quais caminhar ao lado de damas queridas e belas, irmão!’ ‘Não,’ disse Arhtur, ‘isso logo pode ser concertado, pois acolá, onde espada encontrou espada, há vestimenta abundantemente sobre a grama.’ ‘Vergonha nisso!’ Disse Hugh, rindo; ‘deveria eu vestir desses traidores vis?’ ‘Não, pela cruz! Tu deves procurar mais a frente por minha vestimenta, querido rapaz!’ Assim eles todos riram, e estavam felizes por rirem juntos. Mas Atra disse: ‘É ainda mais fácil do que isso, pois tuas próprias vestes e armas belas nós deveremos encontrar se nós as procurarmos. Verdadeiro dizer que não restava ninguém para as carregar, salvo se fosse este homem, ou o companheiro de Birdalone.’
Com essa palavra, ela olhou amavelmente para Arthur, e novamente os três riram; embora verdadeiramente eles estivessem bem perto de chorar; um por alegria, e esse era Hugh; um pela memória dos dias passados; e uma pela amargura de amor que nunca deveria ser recompensado; embora querida mesma para ela fosse a reunião dos amigos e a glória do perdão e do fim da inimizade.
ORIGINAL:
MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 518-524. Disponível em: <https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/518/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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