[120]“Pode parecer estranho para vocês, mas isso foi dois dias antes que eu pudesse seguir a pista desses Morlocks, no que era manifestamente a maneira apropriada, e descer no poço. Eu sentia um peculiar afastamento de seus corpos pálidos. Eles eram exatamente da mesma cor meio branqueada dos vermes e coisas que alguém vê preservada em álcool em um museu zoológico. E eles eram gélidos ao toque. Provavelmente meu afastamento era amplamente devido à influência simpática dos Eloi, cujo desgosto dos Morlocks eu agora começava a apreciar.”
“Na noite seguinte eu não dormi muito bem. Possivelmente minha saúde estivesse um pouco desordenada. Eu estava oprimido com dúvida e perplexidade. Uma ou duas vezes [121]eu tive um sentimento de medo intenso para o qual eu não pude perceber nenhuma razão definida. Eu lembro-me de rastejar silenciosamente para o grande salão onde o pequeno povo estava dormindo à luz do luar – nessa noite era que Weena estava em meio a eles – e sentir-me tranquilizado pela presença deles. Até me ocorreu então que, quando no curso de uns poucos dias a lua atravessasse seu último quartel e as noites tornavam-se escuras, o aparecimento dessas criaturas desagradáveis de baixo, esses lêmures esbranquiçados, esses novos vermes que substituíram os antigos, poderia ser mais abundante.”
“Durante ambos esses dias eu tive o sentimento sem descanso de alguém que se esquiva de um dever inevitável. Eu senti-me assegurado de que a Máquina do Tempo somente devia ser recuperada ao corajosamente penetrar nesses mistérios subterrâneos. Todavia, eu não pude encará-lo. Se apenas eu tivesse um companheiro isso teria sido diferente. Mas eu estava tão terrivelmente sozinho, e mesmo escalar para baixo [122]na escuridão da poço assustava-me.”
“Eu não sei se vocês entenderão meu sentimento, mas eu nunca me senti bem seguro nas minhas costas.”
“Foi esse sentimento sem descanso, talvez, que me guiou mais longe do que até agora eu fora em minhas expedições de exploração. Indo na direção do sudoeste para a região que agora é chamada de Bosque do Vale, eu observei bem distante, na direção do Banstead do século XIX, uma vasta pilha verde, de um sinal diferente do que até agora eu vira. Era maior do que até os maiores dos palácios ou ruínas que eu conhecia, e a fachada parecia-me oriental em suas características. A face dela tinha o lustre assim como o pálido matiz verde, um tipo de verde azulado, de um certo tipo de porcelana chinesa. A diferença na aparência do prédio sugeria uma diferença em seu uso. Eu fiquei inclinado a perseverar e explorá-lo. Mas o dia estava ficando tarde e eu cheguei [123]à visão do lugar após uma longa e cansativa volta. Eu resolvi adiar esse exame para o dia seguinte, e retornei para a acolhida e carinhos da pequena Weena.”
“Mas, na manhã seguinte, eu fiquei com uma disposição de remorso por minha hesitação em descer no poço e encarar os Morlocks nas cavernas deles. Eu percebi que minha curiosidade relativa a essa pilha de Porcelana Verde era uma autodecepção para fugir da experiência que eu temi outro dia. Eu resolvi que eu desceria sem mais desperdício de tempo e parti, no início da manhã, na direção de um poço perto das ruínas de granito e alumínio.”
“A pequena Weena corria ao meu lado. Ela seguiu-me dançando até o poço, mas, quando ela viu eu inclinar-me sobre a boca e olhar para baixo, ela pareceu estranhamente desconcertada.”
“‘Adeus, pequena Weena,’ disse eu, beijando-a e então baixando-a eu comecei a tatear sobre o parapeito [124]em busca de ganchos de escalda – bastante apressadamente, pois eu temia que minha coragem poderia escoar-se.”
“Primeiramente Weena observou-me com espanto, então ela deu um grito muito comovente e, correndo para mim, começou a puxar-me com suas pequenas mãos. Eu acho que a oposição dela encorajou-me bastante para prosseguir. Eu sacudia-a para longe, talvez um pouco grosseiramente, e, em outro momento, eu estava na garganta do poço.”
“Eu vi a face agonizada dela sobre o parapeito, e sorri para a tranquilizar. Então eu tive que olhar para os instáveis ganchos abaixo pelos quais eu pendia.”
“Eu tinha escalar para baixo um abismo de talvez duzentas jardas. A descida foi efetuada através de barras metálicas que se projetavam a partir dos lados do poço, e, uma vez que elas eram adaptadas às necessidades de uma criatura muito menor e mais leve do que eu mesmo, eu rapidamente me apertei e fatiguei-me devido à descida. E não simplesmente fatigado. Meu peso subitamente curvou [125]um dos ganchos e quase me balançou para longe na escuridão abaixo.”
“Por um momento eu pendurei-me por uma mão e, após essa experiência, eu não me atrevi a descansar novamente e, embora meus braços e costas estivessem atualmente agudamente doloridos, eu continuei a escalar para baixo com um movimento tão rápido quanto possível a simples descida. Relanceando para cima eu vi a abertura, um mero pequeno disco azul acima de mim, no qual uma estrela estava visível, e a pequena cabeça de Weena aparecia como uma pequena projeção redonda. O som de batida de alguma máquina abaixo de mim crescia e tornava-se mais opressivo. Tudo, exceto aquele minúsculo círculo acima, estava profundamente escuro. Quando eu olhei novamente para cima, Weena tinha desaparecido.”
“Eu fiquei em agonia de desconforto. Eu tive algum pensamento de tentar subir o abismo novamente, e deixar o mundo inferior sozinho. Mas, enquanto ponderava sobre isso em minha mente, eu continuava a descer.”
[126]“Foi com alívio intenso que eu vi vagamente uma base emergindo à minha direita, uma fina brecha na parede do abismo e, balançando-me para dentro, descobri que ela era a abertura de um estreito túnel horizontal no qual eu podia deitar-me e descansar.”
“Não era muito cedo. Meus braços doíam, minhas costas estavam constrangidas, e eu estava tremendo com o medo prolongado de cair. Além disso, a escuridão ininterrupta tivera um efeito angustiante sobre meus olhos. O ar estava cheio de batida e zumbido do maquinário que bombeava o ar para baixo no abismo.”
“Eu não sei por quanto tempo eu permaneci naquele túnel. Eu fui despertado por uma mão macia tocando meu rosto. Começando na escuridão, eu estendi a mão para meus fósforos e, rapidamente acendendo um, eu vi três grotescas criaturas brancas, similares àquela que eu vira na ruína acima do solo, rapidamente fugindo diante da luz. Vivendo como eles faziam [127]no que me parecia escuridão impenetrável, os olhos deles eram anormalmente grandes e sensíveis, exatamente como eram os olhos de peixes abissais ou de quaisquer criaturas puramente noturnas, e eles refletiam a luz da mesma maneira. Eu não tinha dúvida de que eles podiam enxergar na escuridão sem raios de luz, e que eles não pareciam ter medo nenhum de mim, além da luz. Eu acendi um fósforo a fim de os ver, eles fugiram imediatamente, desaparecendo nos canais e túneis escuros a partir dos quais os olhos deles encaravam-me da maneira mais estranha.”
“Eu tentei chamá-los, mas que linguagem eles tinham era aparentemente de um tipo diferente daquela do mundo de cima. De modo que eu fui deixado em carência à minha própria exploração solitária. O pensamento da fuga em vez da exploração ficou mesmo em minha mente na hora.”
“‘Você está dentro, por agora,’ disse eu para mim e prossegui.”
“Sentindo meu caminho ao longo deste túnel [128]de mina, o barulho confuso desse maquinário ficou mais alto, e logo as paredes afastaram-se de mim e eu cheguei a um grande espaço aberto. Acendendo outro fósforo, eu vi que tinha entrado em uma vasta caverna arqueada estendendo-se na escuridão, pelo menos, além do alcance da minha luz.”
“A visão que eu tinha desta caverna era tanto quanto alguém podia ver sob a queima de um fósforo. Necessariamente minha memória disso é muito vaga. Grandes formas como grandes máquinas surgiam a partir da escuridão e lançavam grotescas sombras negras, nas quais os espectrais Morlocks abrigavam-se do clarão. O lugar, a propósito, era muito abafado e opressivo, e o halitus fraco de sangue recentemente derramado estava no ar. A alguma distância abaixo da vista central ficava uma pequena mesa de metal sobre a qual uma refeição parecia estar posta. De qualquer maneira, os Morlocks eram carnívoros. Mesmo na ocasião, eu lembro-me de pensar que grande animal poderia ter sobrevivido para fornecer a [129]articulação vermelha que eu vi. Tudo estava muito indistinto, o cheiro pesado, as grandes formas sem sentido, as figuras brancas escondendo-se nas sombras, e apenas esperando para a escuridão retornar. Então o fósforo queimou todo, ardeu meus dedos e caiu; um contorcente ponto vermelho no preto.”
“Desde então eu pensei quão particularmente mal equipado eu estava. Quando eu começara com a Máquina do Tempo eu iniciara com a suposição absurda de que os homens do futuro certamente estariam infinitamente diante de nós em todas os instrumentos deles. Eu vim sem armas, sem medicamentos, sem qualquer coisa para fumar, - às vezes, assustadoramente, eu sentia falta de tabaco, - até sem fósforos suficientes. Se eu tivesse apenas pensado em uma câmera fotográfica! Eu poderia ter fotografado aquele vislumbre do mundo inferior em um segundo e examinado-o quando conveniente. Mas como estava, eu permanecia ali apenas com as armas e poderes de que a natureza dotara-me – mãos, pés e dentes – exceto [130]por quatro fósforos de segurança que ainda me restavam.”
“Eu estava como medo de abrir meu caminho em meio a toda esse maquinário no escuro, e foi apenas com meu último vislumbre de luz que eu descobri que minha provisão de fósforos estava baixa. Nunca me ocorrera, até aquele momento, que havia qualquer necessidade de os economizar, e eu desperdiçara quase metade da caixa surpreendendo o povo de cima do solo, para quem o fogo era uma novidade. Como eu digo, eu tinha quatro restando.”
“Então, enquanto eu permanecia no escuro, uma mão tocou a minha; em seguida, alguns dedos magros vieram sentindo através de meu rosto. Eu fiquei consciente de um estúpido e desagradável odor. Eu imagino que detectei a respiração de um número daqueles pequenos seres à minha volta. Eu senti a caixa de fósforos em minha mão sendo gentilmente desembaraçada, e outras mãos atrás de mim arrancando minha roupa.”
“A sensação dessas criaturas não vistas examinando-me era indescritivelmente desagradável. A súbita realização [131]de minha ignorância das maneiras deles de pensar e ações possíveis tocou-me muito vividamente na escuridão. Eu gritei para eles tão alto quanto pude, e então eu pude senti-los aproximando-se de mim novamente. Eles apertaram-me mais atrevidamente, sussurrando estranhos sons uns para os outros. Desta vez eles não ficaram tão alarmados e fizeram um estranho barulho de riso enquanto eles vinham novamente na minha direção.”
“Eu confessarei que estava terrivelmente assutado. Eu determinei-me a acender outro fósforo e escapar sob seu clarão. Aumentando-o com um pedaço de papel que estava em meu bolso, eu fiz uma boa retirada para o túnel estreito. Mas, mal eu entrara nele quando minha luz foi soprada, e eu pude ouvi-los na escuridão farfalhando como o vento em meio a folhas e tamborilando como a chuva, enquanto eles corriam atrás de mim.”
“Em um momento, eu fui agarrado [132]novamente por várias mãos, e agora não houve engano de que eles estavam tentando puxar-me de volta. Eu acendi outro fósforo e agitei-o nos rostos deslumbrados deles. Escassamente vocês podem imaginar quão nauseantemente inumanos eram aqueles rostos pálidos, sem queixo e com grandes olhos sem pálpebras que pareciam cinza-rosados, enquanto eles encaravam estupidamente, evidentemente cegos pela luz.”
“Assim, eu ganhei tempo e recuei novamente e, quando meu segundo fósforo consumiu-se, eu acendi meu terceiro. Ele quase queimara enquanto eu alcançava a abertura do túnel no poço acima. Eu deitei-me na borda, pois o rodopio latejante da máquina de bombeamento de ar abaixo deixou-me tonto, e caí de lado pelos ganchos projetados. Enquanto eu assim o fazia, meus pés foram agarrados por trás e eu fui violentamente arrastado para trás. Eu acendi meu último fósforo – e ele incontinentemente se esgotou. Mas agora eu tinha minhas mãos nas barras de escalada e, chutando violentamente, libertei-me das [133]garras dos Morlocks e velozmente estava escalando o abismo novamente.”
“Eles permaneceram olhando e piscando para o abismo acima, exceto por um pequeno miserável quem me seguiu por parte do caminho, e de fato quase capturou minha bota como um troféu.”
“Aquela escalada para cima parecia sem fim. Enquanto eu ainda tinha os últimos vinte ou trinta pés dela acima de mim, uma náusea mortal veio sobre mim. Eu tive a maior dificuldade para continuar. As últimas poucas jardas foram uma luta terrível contra essa fraqueza. Várias vezes minha cabeça flutuou e eu senti todas as sensações de cair.”
“Finalmente eu superei a boca do poço de alguma maneira e cambaleei para fora da ruína para a luz do sol ofuscante. Até o solo parecia doce e limpo.”
“Então eu lembrei-me de Weena beijando minhas mãos e ouvidos, e das vozes de outros Eloi. Em seguida, eu fiquei inconsciente por um tempo.”
ORIGINAL:
WELLS, H.G. The Time Machine; An Invention. New York: Henry Holt and Company, 1895. pp.120-133. Disponível em: <https://archive.org/details/timemachineinven00well/page/120/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
Nenhum comentário:
Postar um comentário