[136]Quando voltou a si mesma, Birdalone estava sendo atraída na direção da escuridão. Ela ergueu-se rapidamente e desceu para o Bote de Expedição, pois, por coisa alguma, ela gostaria de permanecer à noite naquela ilha terrível, com medo de que a multidão no salão devesse ganhar vida e caminhar no crepúsculo e no escuro. Ela pisou a bordo ligeiramente e entregou seu sangue ao orgulho do bote, e ele despertou e levou-a adiante, e ela atravessou a noite até que adormecesse.
Quando ela acordou, era dia alto e o sol há pouco ascendendo, e oh! Diante dela, a uma meia milha de distância, uma ilha acidentada e rochosa, subindo íngreme a partir da praia. Então, sustentado como se fosse pelas presas das rochas e picos da terra mais elevada, havia um castelo, branco, alto e enormemente construído, embora, por causa da terra rochosa talvez, ele não se espalhasse muito de um lado para o outro. Como a casa amável de ontem, ele parecia recém-construído; e, pouco como Birdalone conhecia de semelhantes estruturas, o coração dela contou a ela que essa nova casa foi talhada para batalha.
Ela ficou desanimada quando viu a ilha tão acidentada e ameaçadora, mas, quando o bote chegou em um golfo pedregoso, de onde o chão subia um pouco abruptamente na direção das elevações, ela foi à praia imediatamente, e labutou para cima na direção da ameia branca. Logo ela encontrou-se em um estreito e acidentado caminho entre duas paredes de rocha, de modo que ela perdeu a visão do castelo por um tempo, até que saiu [137]em um lugar nivelado que olhava para a água azul abaixo a partir de cima; mas por toda parte diante dela, bem perto, ficavam as grandes torres e paredes. Ela estava cansada da estrada acidentada, e demasiado desamparada ela sentia-se; extremamente muito pequena para lidar com aquele imenso pedaço do mundo. A valentia dela cedeu, assim como a confiança na missão dela. Ela sentou-se em uma pedra e chorou abundantemente.
Após um tempo, ela emendou-se, olhou para cima, viu a imensa fortificação e disse: ‘Sim, mas se fosse menor pela metade do que é, ainda seria grande o suficiente para me intimidar.’ Todavia ela não ficou de pé. Então ela estendeu um pé, e disse alto: ‘Severamente esta estrada irregular testou os sapatos de Atra e seu vistoso detalhe; se eles devem ser conhecidos eu preciso ser célere em minha jornada ou ir a pé.’
Enquanto falava, ela colocou-se de pé, e o som da voz dela assustou-a, embora nada silencioso fosse o lugar; pois o vento estava lá, batia de um lado para outro no castelo e na rocha e corria confuso em cada canto daquele mercado de nada. Pois naquele pátio não havia cavaleiro, nem escudeiro, nem sargento; nenhuma ponta de lança cintilava da muralha, nenhum vislumbre de elmo mostrava-se a partir das campinas pantanosas de guerra; nenhum porteiro estava no portão; a ponte levadiça sobre a ravina profunda estava baixa, a grade levadiça estava alta, e a grande porta escancarada.
Birdalone preparou o coração e prosseguiu rapidamente; atravessou a ponte, entrou no pátio secundário e chegou sem mais alvoroço à porta do grande salão. Ela abriu-o facilmente, como com a [138]porta de ontem, examinando para encontrar outra ostentação como aquela, e assim mesmo aconteceu.
Verdadeiramente o salão não era nada luminoso e amável, e alegre com ouro e cores brilhantes, como aquele outro, mas coberto com imensos pilares redondos que sustentavam no alto uma grande abóboda de pedra, e de pedra eram as mesas; e as tapeçarias que pendiam na parede eram imagens terríveis de batalha e morte, e da queda de cidades, e torres caindo e casas queimando.
Apesar disso, também havia formas de pessoas que não se moviam nem falavam, embora não tão lotado quanto era o outro salão; e parecia como se os homens estivessem sentados em uma câmara de conselho em vez de um banquete. Perto da mão direita de Birdalone, enquanto ela entrava, ficavam de pé, em uma fileira ao lado do biombo, grandes homens de armas todos armados e seus rostos ocultos pelas celadas deles; e abaixo do estrado, em cada lado da mesa alta, novamente, ficava uma multidão de homens armados; e à mesa mesma, olhando o salão abaixo, sentavam-se três reis coroados, cada um com sua espada desembainhada deitada em seus joelhos, e três sábios de longos cabelos brancos de pé diante deles do lado baixo da mesa.
Birdalone observou tudo isso, lutando contra seu medo. Contudo, havia mais, pois ela considerava que necessitava atravessar o salão até o estrado, com medo de que o Bote de Expedição negasse sua obediência. Então, ela subiu na direção do estrado, passando pelos homens armados que se sentavam como se aguardando o fim do conselho em mesas de extremidade a extremidade. E agora, embora nenhuma forma de homem falasse ou respirasse ali, contudo, de som não se carecia, pois, no interior do salão, corria o vento como na parte exterior; batia [139]aqui e ali, de parede a parede, criava tinido e estrondo nas armas penduradas, ondulava a tapeçaria, passou gemendo nos recantos e zumbia na abóboda acima.
Então ela subiu ao estrado, colocou-se ao lado dos sábios, olhou para os reis, viu o poderio que houvera neles e estremeceu diante deles. Em seguida, ela virou-se deles, olhou para o chão abaixo e oh! Ali, exatamente abaixo do estrado, jaz uma mulher em um esquife dourado; excessivamente bela ela tinha sido, com longo cabelo dourado caindo da cabeça dela; mas agora embranquecida ela estava, com lábios cinzentos e bochechas encovadas. Envolta ela estava em vestes púrpuras e mortalha, mas o seio dela estava nu em um lado, e ali ficava o caminho pelo qual o viajara o aço que fora a ruína dela.
Agora, quando Birdalone olhara fixamente para isso por um tempo, considerou que se demorasse ali longamente em meio aqueles homens ferozes ao lado da mulher morta, ela deveria perder toda a sagacidade em breve, tão dolorido o medo contido, assaltava-a agora. Por conseguinte, ela virou-se e desceu apressadamente o salão, foi para o ar livre, atravessou a ponte e desceu velozmente o caminho rochoso pelo qual ela chegara, até que ela não pôde mais correr, e deitou-se sem fôlego e abandonada sob uma grande pedra. Todavia, o coração suportou-a e não a tolerou desmaiar, talvez porque ela dera a seus membros um trabalho tão difícil a fazer.
Ali ela deita-se, desperta e perturbada, por uma hora ou mais, então adormeceu e dormiu até que o dia consumira-se na direção do pôr do sol, e nada [140]interferiu com ela. Ela levantou-se e foi um pouco desanimada ao barco dela, ponderando quantos de semelhantes terrores deveriam ocorrer a ela; mai que isso, se o Bote de Expedição deveria conduzi-la dessa maneira, para que daqui em diante ela não devesse topar com nenhum dos filhos de Adão mas assim como se fossem imagens mortas dos vivos. Todo o mundo morrera desde que ela deixou a Ilha do Jovem e do Velho?
De qualquer maneira, ela não tinha nada a fazer senão embarcar no bote dela, e satisfazer a alma ávida dele com o sangue dela, e conduzi-lo com palavras de feitiço. E depois disso, quando ele estava acelerando e o crepúsculo depressa escureceu, ela olhou para trás, e pareceu ver o bosque muito distante na migalha do norte, e o cume envolto em carvalhos, onde primeiramente ela encontrara sua mãe-do-bosque; e então foi como se Habundia estivesse dizendo a ela: “Nós deveremos encontramo-nos novamente.” E com isso, imediatamente, a vida tornou-se mais doce para ela.
Então se aprofundou o crepúsculo, e tornou-se noite, e ela flutuou através dela e adormeceu sozinha no seio da água.
ORIGINAL:
MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 136-140. Disponível em: https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/136/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
Nenhum comentário:
Postar um comentário