A Água das Ilhas Maravilhosas - A Segunda Parte: Sobre As Ilhas Maravilhosas - Capítulo X Birdalone chega à Ilha das Rainhas

Capítulo anterior


[131]Birdalone despertou na manhã seguinte, enquanto o bote ainda estava deslizando depressa através da água e o sol estava alto. Mas ela estava próxima da terra, a qual se localizava baixa e verde, como uma campina excessivamente bela, no seio da água, e muitas árvores vistosas semeadas aqui e ali na terra verde. Mas, do meio dessas árvores, a não grande distância da beira da água, erguia-se uma grande casa, branca e bela, como fosse recém-construída, e toda gloriosa com pináculos e tabernáculos adornados com imagens.

Logo os remos do bote colidiram com o juncal e precipitaram-se sobre a orla da água. Birdalone pisou em terra sem muita dificuldade, e o perfume das ulmárias, em meio às quais ela desembarcou, trouxe de volta a ela a imagem da Ilhota Verdade daquele tempo passado.

Mas agora, quanto ela estava em terra firme, o pavor tomou conta dela novamente, e os joelhos tremerem sob ela, de maneira que ela escassamente se aguentou de pé, tão temerosa ela estava de que caminhava para alguma armadilha; especialmente quando ela contemplou aquela casa vistosa, com medo de que naquele lugar esperasse-a a senhora um pouco orgulhosa e cruel dela, e nenhuma donzela amável para a libertar.

Ela olhou em volta de si e não viu nem homem nem mulher por toda bela campina, nem besta de tração nem leiteira, nada, apenas as pequenas criaturas do matagal e da agróstis, as quais eram apenas como as florações dali, e os pássaros correndo na relva ou cantando em meio aos galhos de árvores.

[132]Então ela pensou que precisava avançar, ou talvez sua missão não seria exitosa; que o Bote de Expedição poderia não a obedecer, a menos que ela continuasse com a aventura até o fim; assim ela prosseguiu tremendo até a casa.

Logo, ela estava no alpendre do palácio branco e não vira nenhum homem nem ouvira qualquer voz de homens. Muito ela maravilhou-se, a despeito do seu medo, da beleza da dita casa e da novidade dali; pois era como se uma flor surgisse da terra, e cada parte dela fizesse a beleza das outras partes ainda mais excelente. Tão nova ela era, que teria parecido como se os pedreiros dali desmontaram o andaime deles ontem, salvo que, sob as bases mesmas das muralhas, as doces flores do jardim cresciam todas não esmagadas.

Agora, através do alpendre, chega Birdalone aos biombos do grande salão. Ela parou um pouco para recuperar o fôlego, para que pudesse estar a mais tranquila e mais calma em meio à grande gente e poderosos que ela esperava encontrar naquele lugar. Assim, ela reuniu o coração. Mas uma coisa intimidou-a, a saber, que ela não ouvia nenhum som vindo daquele grande e vistoso salão, de modo que ela duvidava de que talvez ele foi deixado deserto por aqueles que foram seus senhores.

Ela ergueu a mão à porta do biombo e ele abriu-se facilmente diante dela, e ela entrou e, de fato, lá viu novas notícias. Pois as mesas de fim a fim e de uma extremidade a outra estavam postas, e naquele lugar estavam sentadas muitas pessoas, e as mãos delas estavam estendidas a faca e prato, e travessa e copo. Mas havia uma tal quietude dentro, que [133]a canção dos pássaros do jardim soava para ela tão alta como se eles fossem vozes dos filhos de Adão.

Em seguida, ela viu toda aquela companhia, da grande gente no estrado até aquelas que se localizavam em torno da sala para o serviço, eram mulheres, todas juntas. Nenhum camponês ela pôde ver de onde ela estava: adoráveis eram muitas delas, e nenhuma menos do que graciosas; as bochechas delas eram brilhantes, e os olhos delas cintilavam, e seus cabelos caiam em um estilo belo. Ela permaneceu de pé e não se atreveu a mover por muito tempo, mas esperava até quando alguém dissesse uma palavra, e todas deveriam virar suas cabeças na direção da recém-chegada. Mas nenhuma se moveu ou falou. E o medo aumento nela em meio à quietude, e pesou tão forte no coração dela, que finalmente ela não poderia suportá-lo mais, apenas caiu desmaiando no chão.

Quando voltou a si mesma, e os sonhos de desmaio deixaram-na, ela viu a mudança do sol através das janelas do salão, e que ela deitara-se lá longamente, mais quase duas horas do que uma. Primeiramente ela cobriu a face com as mãos enquanto agachava-se lá, para que ela não pudesse ver a visão do salão silente, pois ainda ele estava são quieto quanto antes. Então, lentamente, ela levantou-se, e o som da veste dela e dos pés em movimento era ruidoso em seus ouvidos. Mas, quando estava direita sob seus pés, ela endureceu o coração e entrou no salão, e não menor foi sua maravilha do que outrora. Pois, quando ela chegou perto daquelas senhoras enquanto elas sentavam-se à mesa, e as vestes dela roçavam nas vestes das servas conforme ela passava, então ela viu que nenhuma respiração vinha de nenhuma delas, [134]e que elas nem falavam nem se moviam porque estavam todas mortas.

Então, primeiramente, ela pensou em fugir imediatamente, mas novamente ele teve o ânimo de sua missão, e assim subiu ao salão e, assim por diante, ao estrado. Lá novamente, perto da mesa alta, ela viu novas notícias. Pois ali estava posto um esquife, coberto com ouro e mortalha, e nele estava deitado um homem alto, um rei, cintado e coroado; e ao lado do dito esquife, próximo da cabeça do rei, ajoelhava-se uma rainha de corpo excessivamente vistoso, toda envolta em veste de pérola e brocado bordado luxuoso; e as mãos dela estavam apertadas juntas, e a boca estava torcida, e a sobrancelha franzida com a angústia de sua dor. Mas, de lado a lado do peito do rei, deitava-se uma espada desembainhada toda ensanguentada. E isto Birdalone notou; que considerando que a senhora era de pele e cor como se ela estivesse viva, o rei estava amarelo como cera, e as bochechas dele estavam enrugadas, e os olhos foram fechados pelos despertadores do morto.

Longamente Birdalone olhou e ponderou; e agora, se o medo dela era menor, a tristeza dela era maior por causa daquela gente sentada ali, morta em sua antiga condição e pompa. E não foi o pensamento removido de sua cabeça, de que todavia eles pudessem despertar e desafiá-la, e que ela poderia ser tornada uma da companhia silenciosa. Com o que, ela sentiu a cabeça começando a falhar e temia que pudesse desmaiar novamente e nunca mais despertar, mas deitar-se para sempre ao lado da imagem do rei morto.

Assim, ela absteve-se tanto do medo quanto da tristeza e caminhou rapidamente colina abaixo, não olhando nem para a direita nem para a esquerda. Ela saiu [135]para o jardim murado, mas não se deteve ali, tão próxima parecia aquela companhia calada. Dali ela saiu para a campina aberta, e doce e querido parecia seu brilho do sol quente, pássaros barulhentos e folhas farfalhantes. No entanto, tão grande era o tumulto dos espíritos dela que, uma vez mais, ela enfraqueceu-se e sentiu que escassamente poderia ir adiante. Assim, ela arrastou-se para a sombra de um espinheiro, e deixou seu corpo cair ao solo, e jazer ali longamente sem consciência.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 131-135. Disponível em: https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/131/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O Último Homem - Volume I - Capítulo IV-II

O Último Homem Por Mary Shelley Volume I Capítulo anterior [121] Capítulo IV-II Há um sentimento tal como amor à primei...