[141]Muito antes do nascer do sol, na escuridão da alvorada, ela despertou e descobriu que o bote dela chegara novamente a terra. Pouco ela podia ver do que a dita terra parecia-se; assim ela sentou-se pacientemente e aguardou o dia no bote; mas, quando o dia chega, pouco mais havia para ver do que outrora. Pois plana era a ilha, e escassamente se elevava acima da ressaca da ondulação a sotavento em um belo dia; nem era arborizada ou coberta por arbustos ou grama, e, até onde Birdalone podia ver, nenhum pé dela diferia em coisa alguma de outro. Todavia, ela considerava que estava obrigada a ir à praia procurar aventura ou, do contrário, arruinar sua missão.
Então ela saiu do bote, encontrou a terra toda pavimentada com um cascalho mediano e absolutamente coisa alguma crescendo ali, nem mesmo a menor das ervas. Ela abaixou-se, examinou o cascalho e não encontrou nem verme nem besouro ali, nem qualquer uma das criaturas astutas e viscosas que são comuns em semelhante solo.
Um pouco adiante ela prosseguiu, e ainda um pouco adiante, e nenhuma mudança havia na terra. Ela dirigiu-se em seu caminho na direção do sul segundo o sol, e o dia estava sem vento.
Finalmente ela prosseguira por um longo caminho e não tinha visão de água ao sul da ilha, nem vira qualquer colina, não, nem tanto quanto um formigueiro, por isso [142]ela podia olhar mais longe em volta; e parecia a ela que poderia continuar para sempre, e finalmente alcançar o coração de lugar nenhum. Portanto, ela pensou que retornaria e partiria desta ilha horrível e que nenhuma outra aventura aguardava-a naquele lugar. E por agora era meio-dia. Ela virou-se e deu alguns passos para trás na estrada.
Mas mesmo com isso, parecia como se o sol, o qual até agora estivera brilhando intensamente nos céus, extinguisse-se como uma vela queimada, e tudo se tornasse cinza opaco sobre a cabeça e tudo sobre os pés fosse um pardo enfadonho. Mas Birdalone considerava que ela poderia seguir um curso reto para retornar, e assim caminhava vigorosamente. Hora após hora ela prosseguia e não se detinha, mas não via diante de si nenhum vislumbre da costa norte, e nenhuma mudança no aspecto do solo em torno dela.
Assim acontecera que, um pouco adiante, ela teve de se virar para retornar. Ela comera seu jantar de um pedaço de pão e um bocado de queijo, e agora, enquanto ela parava e perscrutava o chão, procurando algum sinal do caminho, como suas pegadas indo em direção ao sul, e tinha seus olhos baixos e próximos à terra, ela viu alguma coisa branca aos seus pés no anoitecer (pois o dia estava esgotando-se). Ela colocou mão nisso e ergueu-a, e descobriu uma migalha de pão, e sabia que ela deveria ter vindo de seu jantar de sete horas atrás, visto que, até agora, o pão jazera inteiro na bolsa dela. Com isso, medo e angústia atingiram-na, como ela viu que, naquela terra enfadonha, cada pedaço dela era igual a cada outro pedaço; pois ela deve ter caminhado em volta de um círculo e retornado [143]para onde primeiramente se virou para a costa norte.
Contudo, ela não se desfez de toda a esperança, mas revestiu a si mesma de sua valentia. Verdadeiramente ela sabia que não a beneficiaria em nada tentar seguir em frente no crepúsculo; assim ela deitou-se na região deserta e preparou a mente para dormir, se ela pudesse, e aguardar o novo dia ali e então lutar com o caminho uma vez mais, pois talvez, ela pensou, pode ser um belo amanhã, com o sol brilhante. E, como estava muito cansada em caminhar pesadamente no deserto durante todo o dia, ela adormeceu imediatamente e dormiu a breve noite do princípio ao fim.
Mas quando ela acordou, e viu como o novo dia estava, o coração dela de fato caiu, pois agora ela estava cercada e confinada por uma grossa névoa negra (embora parecesse ser plena luz do dia), de maneira que, se houvesse alguma coisa ali para ver, ela não teria visto à própria altura dela de distância. Assim ela permaneceu, pendendo a cabeça, e esforçando-se para pensar; mas o pensamento principal de morte atraindo para si todos os outros pensamentos, ou tornando-os sombrios e debeis.
Por muito tempo ela permaneceu ali; mas, subitamente, algo veio a sua mente. Ela colocou a mão na bolsa belamente ornamentada, que pendia do cinto de Viridis, e tirou dali sílex e aço e graveto, coisas que importam, verdadeiramente, pois antes a serviram no bote para fazer fogo sobretudo. Então ela colocou a mão na cabeça, e puxou a trança de cabelo que Habundia dera-a, e a qual foi enrolada na coroa dos próprios caxos abundantes dela, os quais a cobriam tão gloriosamente; ela retirou dois fios da dita trança, e segurou-os entre os lábios enquanto [144]arrumava novamente a trança no lugar dela, e então, pálida e trêmula, começou a acender uma luz e, quando ela tinha o graveto queimando, ela clamou: ‘Oh mãe-do-bosque, mãe-do-bosque! Como então nós podemos encontrar-nos novamente como tu prometeste-me, se eu morrer aqui neste deserto vazio? Oh mãe-do-bosque, se tu puderes, apenas vem aqui para minha libertação!’
Então ela queimou os cabelos um após o outro, e permaneceu esperando, mas nada aconteceu por muito tempo e o coração dela adoeceu, e lá ela permaneceu como uma pedra.
Mas, após um tempo, oh! Ali surgiu como se fosse uma sombra meio à neblina, ou melhor situada ali, fraca e sem cor, e era da forma da mãe-do-bosque, com vestido cingido e arco em mãos. Birdalone gritou de alegria e apressou-se em direção à imagem, mas não chegou mais perto dela, e ainda ela prosseguiu, e a imagem ainda escapava dela, e ela seguia-a sem parar; e isso durou muito tempo, e mais e mais rápido ela precisou seguir com medo de que ela desaparecesse, e ela reuniu suas saias em seu cinto, e começou a correr velozmente atrás da sombra em fuga, a qual ela amava carinhosamente até em meio às mandíbulas da morte; e toda a rapidez de seus pés Birdalone teve de aplicar para seguir com a perseguição; mas, mesmo ao morrer na dor, ela não perderia aquela querida sombra.
Mas subitamente, enquanto ela corria, a névoa desaparecera completamente diante dela, e o sol brilhou quente e sem nuvens; então não havia nem sombra ou forma de Habundia ali, nada senão o lago azul e a orla feia daquele deserto horrendo, com o Bote de Expedição situado a uma meia vintena de jardas dos pés dela; e atrás dela permanecia, [145]como se fosse uma muralha, a névoa da qual ela saiu.
Verdadeiramente, Birdalone estava muito sem fôlego para gritar de alegria, mas o coração dela chegou perto de se partir com isso, e de fato amáveis para ela eram a água ondulada e o céu azul. Ela sabia que sua mãe-do-bosque despachara um envio para a ajudar, e ela imediatamente começou a chorar onde permanecia, de amor por sua mãe sábia e de anseio por contemplá-la. Ela estendeu os braços para o quartel norte, e disse bençãos para ela em uma voz fraca de cansaço. Então ela deitou-se na região deserta e descansou com sono, a despeito do sol quente, e, quando despertou, umas três horas depois disso, tudo estava como antes, exceto que agora o sol tinha algumas nuvens de voo leve, e a muralha de névoa ainda estava atrás ela. Portanto, ela considerava que ainda tinha tempo, e a ondulante água azul cortejava seus membros muito suados; assim, ela retirou suas vestes, tomou a água e tornou-se feliz e incansável naquele lugar. Então ela foi a terra e permaneceu de pé ao sol para se secar, e assim, fortalecida com o refrescamento, vestiu-se, embarcou e realizou os devidos ritos, e acelerou através das águas, e logo perdera a vista daquela mancha horrenda na bela face da Grande Água.
Aqui termina a Segunda Parte da Água das Ilhas Maravilhosas, a qual é chamada de Sobre ilhas Maravilhosas, e começa a Terceira Parte do dito conto, o qual é chamado de Sobre o Castelo da Busca.
ORIGINAL:
MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 141-145. Disponível em: https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/141/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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