A Máquina do Tempo - Capítulo VII O Animal Estranho

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[92]Eu realizei o progresso que eu pude e, adicionalmente, impulsionei minhas explorações aqui e ali. Ou eu perdi algum ponto sútil ou a linguagem deles era excessivamente simples, quase exclusivamente composta de substantivos concretos e verbos. Pareciam haver poucos, se alguns, termos abstratos, ou pouco uso de linguagem figurativa. As sentenças eram usualmente simples e de duas palavras, e eu falhava em compreender ou entender qualquer coisa exceto as mais simples proposições. Eu determinei-me a colocar o pensamento de minha Máquina do Tempo e o mistério das portas de bronze sob a esfinge, tanto quanto possível, em um canto de minha memória, até que meu conhecimento crescente [93]levar-me-ia de volta a eles de uma maneira natural. Todavia, um certo sentimento que você pode entender restringiu-me a um círculo de umas poucas milhas em torno do ponto de minha chegada.”

Até onde eu podia ver, todo o mundo exibia a mesma riqueza exuberante que o vale do Tâmisa. A partir de cada colina que escalava, eu via a mesma abundância de construções esplêndidas, infinitamente variadas em material e estilo; os mesmos matagais agregados de folhas persistentes; as mesmas árvores carregadas de flores e samambaias em árvores. Aqui e ali, água brilhava como prata, e além, a terra erguia-se no azul de colinas ondulantes e então desvanecidas na serenidade do céu.”

Uma característica peculiar que logo atraiu minha atenção foram certos poços circulares que pareciam afundar-se em uma profundidade muito grande. Um localizava-se ao lado do caminho para cima da colina, o qual eu seguira durante minha primeira caminhada. Esses poços eram orlados com bronze, curiosamente trabalhados, e frequentemente protegidos [94]da chuva por pequenas cúpulas. Sentando-me ao lado desses, e olhando para baixo, eu não conseguia ver nenhum vislumbre de água, e não podia capturar nenhum reflexo de um fósforo acesso. Eu ouvia um peculiar som aborrecido; baque, baque, baque, como a batida de alguma grande máquina, e eu descobri que uma estável corrente de ar pousava no abismo.

Além disso, eu descuidadamente joguei um bocado de papel dentro da garganta do poço e, em vez de flutuar lentamente para baixo, ele foi sugado velozmente para fora da visão. Após um tempo, eu também vim a conectar com esse poços certas torres elevadas que se erguiam aqui e ali sobre as encostas das colinas. Acima dessas frequentemente havia uma aparente e peculiar tremulação do ar, muito como alguma vista em um dia quente sobre a praia queimada pelo sol.

Juntando essas coisas, ali certamente me parecia uma sugestão forte de um extenso sistema de ventilação subterrânea, embora sua [95]verdadeira importância fosse difícil de imaginar. Primeiramente eu estive inclinado a associá-lo ao aparato sanitário desse povo. Era a sugestão óbvia dessas coisas, mas eu estava absolutamente enganado.”

E aqui preciso admitir que eu aprendi muito pouco de ralos, de corolas, de modos de transporte e comodidades semelhantes durante meu tempo neste futuro real. Em algumas das visões fictícias de Utopias e tempos vindouros que eu li, há uma vasta quantidade de detalhe sobre construção de prédios e arranjos sociais e assim por diante. Mas, enquanto tais detalhes são suficientemente fáceis de se obter quando o mundo interior localiza-se na imaginação de alguém, eles são completamente inacessíveis a um viajante real no meio de semelhantes realidades como as que me rodeavam. Conceba que história de Londres um negro da África Central levaria de volta à tribo dele. O que ele conheceria de companhias ferroviárias, de movimentos sociais, de cabos de telefone e [96]telégrafo, de companhias de entrega de encomendas e encomendas postais? E todavia, nós pelo menos estaríamos dispostos a explicar essas coisas. E mesmo do que ele conhecia, quanto poderia ele fazer seu amigo não viajado acreditar? Então pense quão pequena é a separação entre um negro e um homem de nosso tempo, e quão grande o intervalo entre eu mesmo e o povo da Era Dourada. Eu estava consciente de muito que era oculto, e que contribuía para meu conforto, mas, exceto por uma impressão geral da organização automática, eu temo que posso comunicar muito pouco da diferença para as suas mentes.”

Em matéria de sepulcro, por exemplo, eu não pude ver nenhum traço de crematórios ou qualquer coisa sugestiva de tumbas. Mas ocorreu-me que, possivelmente, cemitérios e crematórios existissem em algum local além do alcance de minhas explorações. Novamente, essa foi uma questão que eu deliberadamente coloquei para mim mesmo, e sobre a qual minha curiosidade foi, em princípio, inteiramente [97]derrotada. Nem haviam nenhum velho ou enfermo em meio a eles.

Eu preciso confessar que minha satisfação com minhas primeiras teorias de uma civilização automática e uma humanidade decadente não duraram. Todavia, eu não pude pensar em nenhuma outra. Permita-me colocar minhas dificuldades. Os vários grandes palácios que eu explorara eram meros lugares de convivência, grandes salas de jantar e apartamentos para dormir. Eu não pude encontrar maquinário, nem utensílios de qualquer tipo. Contudo, essas pessoas estavam vestidas em tecidos agradáveis que às vezes precisam de renovação, as sandálias deles, embora sem ornamento, eram espécimes relativamente complexas de trabalho em metal. De alguma maneira essas coisas precisavam ser produzidas. E o povo pequeno não mostrava nenhum vestígio das tendências criativas de nosso tempo. Não havia nenhuma fábrica, nenhuma oficina, nenhuma indicação de importações de qualquer outra parte da terra. Eles despendem o tempo deles divertindo-se gentilmente, banhando-se no rio, fazendo amor de uma maneira meio [98]lúdica, comendo frutas e dormindo. Eu não podia ver como as coisas estavam continuando.

Então, novamente, sobre a Máquina do Tempo. Alguma coisa, eu não sabia o que, levara-a para dentro do oco pedestal da esfinge. Por quê? Pela minha vida eu não podia imaginar.”

Então havia aqueles poços sem água, aqueles pilares tremeluzentes. Eu senti que perdi uma pista em algum lugar. Eu senti – como deveria dizê-lo? Suponha que você encontrasse uma inscrição com sentenças aqui e ali em inglês claramente excelente e interpoladas com outras formadas de palavras, até de letras, absolutamente desconhecidas para você. Era como o mundo de 802701 apresentava a si mesmo no terceiro dia de minha estadia.”

Naquele dia, também, eu fiz um amigo – de um tipo. Aconteceu que, enquanto eu estava observando alguns do pequeno povo banhando-se em um raso do rio, um dele foi pego por uma cãibra e começou a afogar-se no córrego. [99]A corrente principal do córrego corria bastante rapidamente ali, mas não tão rapidamente para mesmo um nadador moderado. Isso dará a você uma ideia, portanto, da estranha carência de ideias dessas pessoas, quando eu contar a vocês que nenhum fez a mais leve tentativa de resgatar a fraca, choroso e pequena criatura que estava afogando-se diante dos olhos deles.”

Quando compreendi isso, eu apressadamente retirei minhas vestes e, correndo abruptamente a partir de um ponto baixo abaixo, agarrei a pobre pequena alma e trouxe-a para terra.

Um pouco de massagem nos membros logo a trouxe de volta, e eu tive a satisfação de ver que ela estava completamente bem antes que eu deixasse-a. Eu conseguira um tal baixa estima dessas pequenas pessoas que eu não esperava gratidão. Nisso, contudo, eu estava errado.

O incidente ocorreu pela manhã. À tarde eu encontrei minha pequena mulher, como eu acredito que era, quando em estava retornando em direção ao meu centro de uma de minhas explorações, [100]e ela recebeu-me com gritos de prazer e presenteou-me com uma grande guirlanda de flores – evidentemente preparada para mim.

A ação tomou minha imaginação. Muito provavelmente eu estivera sentindo-me desolado. De qualquer maneira, eu fiz meu melhor para mostrar minha apreciação do presente.

Logo nós estávamos sentados juntos em um pequeno refúgio de pedra, engajados em uma conversa que era principalmente de sorrisos.

A afabilidade da pequena criatura afetou-me exatamente como a de uma criança poderia. Nós passamos flores um para o outro e ela beijou minhas mãos. Eu fiz o mesmo com as dela. Então eu tentei conversar e descobri que o nome dela era Weena, o qual, embora eu não conhecesse o que ele significava, de alguma maneira parecia suficientemente apropriado. Esse foi o começo de uma estranha amizade que durou completamente uma semana e terminou – como eu contarei a vocês.”

Ela era exatamente como uma criança. Ela queria estar sempre comigo. Ela [101]tentava seguir-me por toda parte, e passou por meu coração cansá-la em minha próxima exploração e deixá-la afinal exausta, e chamando por mim bastante queixosamente. Mas os problemas do mundo tinham de ser dominados. Eu não tinha vindo ao futuro, eu disse a mim mesmo, para manter um flerte em miniatura. Todavia, a aflição dela quando eu deixava-a era muito grande, suas queixas nas despedidas, algumas vezes frenéticas, e eu pensei que, no todo, eu tinha tanto problema quando conforto com a afeição dela. E, todavia, ela era, de alguma maneira, um conforto muito grande.”

Eu pensei que era mera afeição infantil que a fez apegar-se a mim. Até que fosse muito tarde, eu não sabia claramente o que eu infligira sobre ela quando eu deixava-a. Nem, até que fosse muito tarde, eu claramente entendi o que ela era para mim. Pois, a pequena boneca de uma criatura, ao parecer gostar de mim e mostrar, em sua fútil maneira inútil, que ela importava-se [102]comigo, logo dava ao meu retorno à redondeza da esfinge branca quase o sentimento de retorno ao lar. Eu observaria sua pequena figura de branco e ouro tão logo eu surgisse sobre a colina.

Foi dela, também, que eu aprendi que o medo não deixara completamente o mundo. Ela era suficientemente destemida à luz do dia e tinha a mais estranha confiança em mim – pois, uma vez em um momento tolo, eu fiz caretas ameaçadoras para ela, e ela simplesmente riu delas. Mas ela temia o escuro, temia as sombras, temias coisas negras. Escuridão para ela era a única coisa terrível. Era um temor singularmente apaixonado e colocou-me pensando e observando. Eu então descobri, entre outras coisas, que essas pequenas pessoas reuniam-se dentro de grandes casas após a escuridão, e dormiam juntas em quantidade. Entrar nelas sem uma luz era colocá-las em um tumulto de apreensão. Eu nunca encontrei um fora das portas ou um [103]dormindo sozinho dentro de portas após a escuridão.

Contudo, eu ainda era um tal estúpido que eu perdi a lição daquele medo e, a despeito do evidente sofrimento de Weena, insistia em dormir longe daqueles montes adormecidos de humanidade. Isso perturbava-a grandemente, mas usualmente a estranha afeição dela por mim triunfava e, por cinco noites de nossa familiaridade, incluindo a última noite de todas, ela dormiu com a cabeça repousada ao lado da minha. Mas minha história esquiva-se de mim conforme eu falo dela.”

Precisa ter sido na noite antes que eu resgatei Weena que eu despertei aproximadamente no alvorecer. Eu tinha ficado sem descanso, sonhando o mais desagradavelmente que estava afogado e que anêmonas marinhas estavam sentindo através de meu rosto com os palpos macios delas. Eu acordei com um arranco e com uma fantasia estranha de que algum animal acinzentado há pouco saíra correndo da câmara na qual eu dormia.”

Eu tentei adormecer novamente, mas senti-me inquieto e desconfortável. Era [104]aquela sombria hora cinzenta, quando as coisas estão apenas se arrastando para fora da escuridão, quando tudo está sem cor e simples e, todavia, irreal. Eu levantei e desci para o grande salão e sai para as lajes diante do palácio. Eu pensei que faria da necessidade uma virtude e veria o nascer do sol.”

A lua estava pondo-se, e a moribunda luz da lua e a palidez do alvorecer mesclaram-se em uma pavorosa meia luz. Os arbustos estavam pretos como tinta, o chão um cinza sombrio, o céu, sem cor e sem alegria. E acima, na encosta da colina, eu pensei que vi fantasmas. Três, várias vezes, conforme eu examinava a encosta, eu vi figuras brancas. Duas vezes eu imaginei que vi um branco solitário semelhante a macaco, correndo bastante rapidamente colina acima, e uma vez, próximo das ruínas, eu vi um grupo de dois carregando algum corpo negro. Eles moviam-se apressadamente. Pareceu que eles desapareceram em meio aos arbustos.”

[105]“O alvorecer ainda estava indistinto, vocês precisam entender. Eu estava sentindo aquele frio, incerto, sentimento de manhã cedo que vocês podem ter experienciado. Eu duvidei de meus olhos. Conforme o céu oriental tornava-se mais brilhante, e a luz do dia aumentava, um colorido vívido retornou ao mundo uma vez mais, e eu examinei intensamente a visão, mas não vi confirmação de minhas figuras brancas. Elas eram meras criaturas da meia luz.”

“‘Eles devem ser fantasmas,’ eu disse; ‘eu pergunto-me de onde eles datam-se.’

Pois uma estranha noção de Grant Allen surgiu em minha cabeça e divertiu-me. Se cada geração morre e deixa fantasmas, ele argumenta, o mundo finalmente ficará superlotado com eles. Nessa teoria, eles tornar-se-iam muito densos em oitocentos mil anos a partir de agora, e não me surpreendeu ver quatro todos de uma vez. Mas a piada era insatisfatória, e eu fiquei pensando [106]nessas figuras durante toda a manhã até que o resgate de Weena expulsou o assunto da minha cabeça. Eu associei-os, de alguma maneira indefinida, ao animal branco que eu assustara em minha primeira busca apaixonada pela Máquina do Tempo. Mas Weena era um substituto agradável para um tal tópico.”

Aquelas formas fantasmagóricas logo estavam destinadas a tomar posse de minha mente de uma forma muito mais vívida. Eu considero que disse quão mais quente do que o nosso era o clima dessa era futura. Eu não posso explicar. Pode ser que o sol fosse mais quente, ou senão a terra estava mais próxima do sol. É usual assumir que o sol resfriar-se-á constantemente no futuro, mas pessoas não familiares com tais especulações como aquelas do Darwin mais jovem, esqueceram-se de que, por fim, os planetas, um por um, precisam cair no corpo da fonte. Conforme essas catástrofes ocorram, o sol arderá em chamas com energia renovada. Pode ser que algum planeta interior sofrera [107]esse destino. Qualquer que seja a razão, o fato permanece de que o sol era muito mais quente do que é agora.”

Era uma manhã muito quente, minha quarta manhã, acho, enquanto eu estava buscando um refúgio do calor e brilho intensos em uma colossal ruína perto da grande casa onde me abrigava, que este acidente notável ocorreu. Escalando entre esses montes de alvenaria, eu encontrei uma longa galeria estreita, as janelas do final e do lado da qual eram bloqueadas por massas caídas de alvenaria e as quais, por contraste com o brilho exterior, em princípio, pareciam-me impenetravelmente escuras.”

Eu entrei nela tateando, pois a mudança de luz para escuridão fez manchas de cor flutuarem diante de mim. Subitamente eu parei fascinado. Um par de olhos, luminosos por reflexão contra a luz do dia do lado de fora, estava observando-me a partir da escuridão!

O velho pavor indistinto de animais selvagens veio sobre mim. Eu cerrei minhas mãos e firmemente olhei para [108]os olhos brilhantes. Eu temi virar-me. Nessa altura, o pensamento da segurança absoluta na qual a humanidade parecia viver surgiu em minha mente. Então eu lembrei; aquele estranho pavor do escuro.”

Vencendo meu medo até certo ponto, eu avancei um passo, e falei. Eu admitirei que minha voz foi rouca e controlada. Eu estendi minha mão e toquei em algo macio.”

Imediatamente os olhos lançaram-se de lado, e alguma coisa passou correndo por mim. Eu virei-me, com o coração na boca, e vi uma estranha pequena figura semelhante a macaco, com a cabeça mantida para baixo em uma maneira peculiar, correndo através do espaço iluminado pelo sol atrás de mim. Ele tropeçou contra um bloco de granito, cambaleou para o lado e, em um momento, estava oculto em uma sombra negra sobre outra pilha de alvenaria arruinada.”

Minha impressão disso foi, é claro, muito imperfeita. Era de uma aborrecida cor branca, e tinha estranhos, largos [109]olhos vermelho-cinzentos. Havia algum cabelo linhoso em sua cabeça, que caía até as costas. Mas, como eu digo, ia muito rápido para eu ver distintamente. Eu não posso nem mesmo dizer ser corria de quatro ou apenas com seus antebraços mantidos muito baixos.

Após uma hesitação momentânea, eu segui a criatura ao segundo monte de ruínas. Inicialmente, eu não pude encontrá-lo, mas, após um tempo, na profunda obscuridade, descobri uma daquelas aberturas redondas, semelhantes a poços, sobre a qual eu contei a vocês, meio fechada por um pilar caído. Um pensamento súbito ocorreu-me. Poderia a coisa ter desaparecido sob o abismo? Eu acendi um fósforo e, olhando para baixo, vi uma pequena criatura branca em movimento, com grandes olhos brilhantes, que me observavam firmemente conforme ela retirava-se.

A coisa fez-me estremecer. Era tão semelhante a uma aranha humana. Ela estava escalando para baixo a parede do abismo, e agora eu notei pela primeira vez um número de projeções de metal [110]para pé e mão, formando um tipo de escada para baixo.

Subitamente a luz queimou meus dedos e caiu de minha mão, extinguindo-se enquanto caia; e, quando eu acendera outra, o pequeno monstro desaparecera.”

Eu não sei quanto tempo sentei-me espreitando o prodigioso poço abaixo. Muito lentamente eu pude persuadir a mim mesmo de que aquela coisa que vira era um homem. Mas gradualmente a verdade real desceu sobre mim; que o homem não permanecerá uma espécie, mas diferenciara-se em dois animais distintos; que minhas crianças graciosas do mundo de superior não eram os únicos descendentes dos homens da minha geração, mas que essa coisa branqueada, noturna, que cintilara diante de mim, também era herdeiro de nossa era.

Eu pensei nos pilares tremeluzentes, e em minha teoria de uma ventilação subterrânea. Eu comecei a suspeitar da verdadeira importância delas.”

Mas o que essa criatura estava fazendo [111]em meu esquema de uma organização perfeitamente balanceada? Como isso relacionava-se à serenidade indolente do belo povo do mundo superior? E o que estava oculto lá embaixo? Eu sentei-me sobre a beira do poço, contando a mim mesmo que não tinha nada a temer em descer, que para lá precisava ir para a solução de minhas dificuldades e, ao mesmo tempo, estava absolutamente com medo de descer.”

Enquanto eu hesitava, duas das belas pessoas do mundo superior entraram correndo, em seu esporte amoroso, através da luz do dia, na sombra. Uma perseguia a outra, arremessando flores nela enquanto ele corria. Eles pareceram desapontados quando eles encontraram com meu braço sobre o pilar tombado, olhando para baixo no poço. Aparentemente, era considerado maneira ruim observar essas aberturas, pois, quando eu apontei para ele e tentei formar uma questão sobre ele na língua deles, eles pareceram angustiados e afastaram-se. Contudo, eles estavam interessados por meus [112]fósforos, e eu acendei vários deles para os entreter.

Todavia, todas as minhas tentativas de os persuadir na direção do assunto que eu queria falharam; e logo eu deixei-os. Eu resolvi voltar para Weena e ver o que eu poderia conseguir dela.”

Mas minha mente já estava em revolução, minhas suposições e impressões escorregando e deslizando para um novo arranjo. Agora eu tinha a pista para esses poços, para as torres de ventilação, para o problema dos fantasmas e um palpite, de fato, do significado dos portões de bronze e do destinho da Máquina do Tempo. Vagamente, de fato, ali surgiu uma sugestão para o problema econômico que me intrigara.

Aqui estava a nova visão: Evidentemente essa segunda espécie de homem era subterrânea. Havia três circunstâncias em particular que me fizeram pensar que sua rara emergência na superfície era o resultado de longos hábitos subterrâneos. Em primeiro lugar, a aparência branqueada, [113]comum a muitos animais que vivem largamente no escuro – o peixe-branco das cavernas do Kentucky, por exemplo. Em seguida, os olhos largos e a capacidade deles de refletirem a luz – uma característica comum de olhos noturnos, ver a coruja e o gato. E finalmente a evidente confusão à luz do sol, a fuga apressada para a sombra escura, e o comportamento da cabeça enquanto sob a luz, reforçaram a ideia de uma retina extremamente sensível.”

Sob meus pés, então, a terra precisa estar perfurada por tuneis a uma extensão enorme, e nessas cavernas a nova raça vive. A presença dos abismos de ventilação e poços desde o começo nas encostas de colina – em todo lugar, de fato, exceto ao longo do vale do rio – mostravam quão universalmente as ramificações do mundo inferior estendiam-se.

E era natural presumir que era no mundo de baixo que o trabalho necessário ao mundo de cima era realizado. Isso era tão plausível que eu aceitei-o sem hesitar. [114]A partir disso eu prossegui para assumir como a divisão das espécies humanas ocorreu. Eu atrevo-me a dizer que vocês anteciparão que forma a minha teoria tomou, embora eu logo sentisse que ela ainda era insuficiente da verdade do caso.”

Mas primeiramente, começando a partir dos problemas de nossa época, parecia-me tão claro quanto a luz do dia que a gradual ampliação do presente diferença meramente temporária e social do capitalista do trabalhador era a chave para a explicação. Sem dúvida isso parecerá suficientemente grotesco para vocês e selvagemente incrível e, todavia, mesmo agora, há circunstâncias que apontam na direção que as coisas prosseguiram. Há uma tendência suficientemente clara para utilizar o espaço subterrâneo para os propósitos menos ornamentais de civilização; há a Rodovia Metropolitana em Londres, por exemplo, e todas essas estradas de ferro elétricas; há metrôs, oficinas subterrâneas, e assim por diante. Evidentemente, [115]eu pensei, essa tendência aumentara até que a indústria gradualmente perdera a visão do dia, descendo para maiores e maiores fábricas subterrâneas, nas quais os trabalhadores despenderiam uma crescente quantidade de seu tempo. Mesmo agora, um trabalhador de East End vive em tais condições artificiais como a praticamente estar inteiramente destacado da superfície da terra e do céu claro.

Então novamente, a exclusiva tendência das pessoas mais ricas devida, sem dúvida, ao crescente refinamento de sua educação e alargamento do abismo entre elas e a violência rude do pobre, já está levando ao fechamento de consideráveis porções da superfície do país contra o último. Em torno de Londres, por exemplo, talvez metade da região mais bela está fechada contra semelhante intrusão. E o mesmo golfo em expansão, devido à extensão e ao custo do processo educacional superior e às facilidades incrementadas para, e tentações [116]relativas a, formação de hábitos refinados em meio aos ricos, farão com que troca frequente entre classe e classe, que a promoção e casamento entre uma e outra, o que, no presente, retarda a divisão de nossa espécie ao longo das linhas de estratificação social, menos e menos frequentes.”

Assim, no final, você teria acima do solo Os quê têm, buscando riqueza, conforto e beleza, e abaixo do solo Os quê não têm; os trabalhadores, sendo continuamente adaptados para seu trabalho. Sem dúvida, uma vez que eles estejam sob o solo, aluguéis consideráveis seriam cobrados pela ventilação de suas cavernas. Trabalhadores que entrassem em greve passariam fome ou seriam sufocados por atrasos no aluguel do ventilador; trabalhadores que fossem assim constituídos para ser miseráveis e rebeldes morreriam. No final, se a balança se mantivesse permanente, os sobreviventes tornar-se-iam tão bem-adaptados às condições de sua vida subterrânea quanto as pessoas [117]do mundo superior ficariam em relação às delas, e tão felizes de sua maneira. Parecia-me que a beleza refinada do mundo superior, e a palidez estiolada do inferior, seguiam-se suficientemente naturalmente.

O grande triunfo da humanidade que eu sonhara agora tomou uma forma diferente em minha mente. Não fora nenhum triunfo de educação universal e cooperação geral, tais como eu imaginara primeiramente. Em vez disso, eu vi uma aristocracia real, armada com ciência aperfeiçoada e sucedendo para uma conclusão lógica do sistema industrial de hoje. O triunfo da humanidade do mundo superior não fora um simples triunfo sobre a natureza, mas um triunfo sobre a natureza e seus companheiros humanos.”

Eu preciso avisar a vocês de que essa foi minha teoria à época. Eu não tive um conveniente cicerone sobre o padrão dos livros utópicos. Minha explicação pode estar absolutamente errada. Eu ainda penso que é a mais plausível. Mas, mesmo sob a suposição de balança de [118]civilização que final foi alcançada, muito deve ter passado-se de seu zênite e agora estava adiantada em declínio. A segurança perfeita demais do mundo superior conduzira-os finalmente a um lento movimento de degeneração – a uma diminuição geral de tamanho, força e inteligência. Isso eu já vi suficientemente claro, mas o que acontecera ao povo do mundo inferior eu ainda não suspeitava. Contudo, a partir do que eu vira dos Morlocks – que, a propósito, era o nome pelo qual essas criaturas eram chamadas, - eu podia imaginar a modificação do tipo humano foi muito mais profunda no mundo inferior do que nos Eloi, as belas raças que eu já conhecia.”

Então surgiram algumas dúvidas incômodas. Por que os Morlocks tomaram minha Máquina do Tempo? Pois eu estava certo de que essas pessoas de baixo tomaram-na. Por que, também, se os Eloi eram os mestres, não podiam eles restaurar a coisa para mim? E por que os Eloi estavam tão assustados com o escuro?

[119]“Eu determinei-me, como disse, a questionar Weena sobre esse mundo inferior, mas agora, novamente, eu fiquei desapontado. Primeiramente, ela não entenderia minhas questões ela se recusou a responder. Ela estremeceu como se o assunto fosse insuportável. E, quando eu pressionei-a, talvez um pouco duramente, ela explodiu em lágrimas.

Elas formas as únicas lágrimas que eu alguma vez vi naquela era futura, exceto as minhas próprias. Quando as vi, eu parei abruptamente de me incomodar sobre os Morlocks e fiquei apenas preocupado em tirar novamente esses sinais de sua herança humana dos olhos dela. E logo ela estava sorrindo e batendo palmas enquanto eu solenemente queimava um fósforo.”


Próximo capítulo


ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Time Machine; An Invention. New York: Henry Holt and Company, 1895. pp.92-119. Disponível em: <https://archive.org/details/timemachineinven00well/page/92/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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