A Água das Ilhas Maravilhosas - A Terceira Parte: Do Castelo da Busca - Capítulo IV E como ela encontrou os Campeões

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[160]Agora, enquanto permanecia escutando atentamente, ela considerou que ouviu alguma coisa que não era tão alta quanto o melro no matagal, mas mais distante e de voz mais longa: e novamente ela escutou atentamente, e o som veio de novo, e agora ela considerava que ele era voz de um chifre. Mas, ao ouvi-lo pela terceira vez, ela sabia que não era nada menos; e finalmente ele aproximou-se, e havia misturado com ele o som de homens gritando e do mugido de gado bovino.

Então ela desceu à beira mesma da estrada, e agora percebia o cheiro forte de cavalgada subindo no céu claro e disse: ‘Agora eles estão vindo sem falta e eu preciso tomar coragem; pois certamente esses queridos amigos de minhas amigas não deverão nem causar dano a uma pobre donzela nem a desprezar.

Logo surgiram as bestas conducentes a partir da nuvem de poeira e, atrás delas, havia o brilho de pontas de lanças. Então, passado pouco tempo, havia uma rebanho de gado bovino bamboleando e empurrando ao longo da estrada e, depois deles, uma vintena ou aproximadamente de lanceiros em túnica acolchoada e celada, quem, verdadeiramente, viraram-se para observar Birdalone enquanto eles passavam e falavam aqui e ali uma palavra ou duas, rindo a apontando para ela, mas não se detiveram; e todos prosseguiram diretamente para o castelo.

Depois disso houve um vazio, e então vieram cavalgando vagarosamente outra vintena de homens armados, alguns dos quais em armadura branca. Em meio a eles havia cinco cavalos de carga carregados com carcaças de veado. [161]E todos eles passaram perto e não se detiveram, embora a maioria deles olhasse para Birdalone suficientemente severos.

Últimos de todos vinham três cavaleiros cavalgando, um com uma túnica dourada sobre sua armadura, e sobre ela um coração fendido em vermelho; o segundo com uma túnica verde, e sobre a mesma um chefe de prata com galhos verdes sobre ele, suas extremidades chamejantes; mas o terceiro portava uma túnica negra, salpicada com lágrimas de prata. E todos esses cavalgavam de cabeça descoberta, salvo que o Cavaleiro Negro levava uma coroa de carvalho na cabeça dele.

Agora Birdalone entrou em sua valentia e saiu para a estrada, até que ela ficou apenas a dez passos daqueles homens, quem se refrearam quando eles observaram-na; e ela disse em uma foz clara: ‘Aguardai, guerreiros! Pois, se vós sois quem eu considero que sois, eu tenho uma missão para vós.’

Escassas foram as palavras que saíram da boca dela, antes que todos os três saltassem de seus cavalos, e o Cavaleiro Dourado viesse a ela, colocasse as mãos sobre o lado dela, falasse avidamente e dissesse: ‘Onde está ela, de quem tu obtiveste este vestido de bom tecido?’ ‘E tu,’ disse ela, ‘és tu Baudoin o Cavaleiro Dourado?’ Mas ele colocou a mão no colar no pescoço dela e, ao mesmo tempo, tocou a pele e disse: ‘Isto, estava ela viva quando tu obtiveste isto?’ Ela disse: ‘Se tu fores Baudoin o Cavaleiro Dourado, eu tenho uma mensagem para ti.’ ‘Eu sou ele,’ disse o cavaleiro; ‘Oh conta-me, conta-me, ela está morta?’ Disse Birdalone: ‘Aurea estava viva quando eu vi-a pela última vez, e meu recado é dela para ti, se tu fores verdadeiramente o amante dela. Agora, com esta palavra, eu suplico-te, fica contente por um tempo,’ ela disse, sorrindo gentilmente para ele, ‘pois eu preciso [162]realizar minha missão da maneira tal como fui ordenada. E tu viste que teus amigos reclamariam uma palavra de mim.’

Verdadeiramente eles estavam confiando nela, e o Cavaleiro Verde agarrou o pulso esquerdo dela com a mão direita dele, e a sua mão esquerda ficou sobre o ombro dela, e seu rosto brilhante próximo ao seio dela no qual se estendia a bata de Viridis. Por causa disso ela encolheu-se um pouco mas disse: ‘Sir, é verdadeiro que a bata é para ti quando tu tiveres respondido uma questão ou duas. Enquanto isso, eu suplico-te, tolera um pouco; pois, como eu penso, tudo está bem, e tu deverás ver minha querida amiga Viridis novamente.’

Ele afastou-se um pouco, ruborizou e envergonhou-se. Ele era um jovem excessivamente belo, de pele clara e olhos cinzentos, com cabelos dourados encaracolados e portava a armadura dele como se ela fosse tecido sedoso. Birdalone olhou para ele gentil embora timidamente, e ficou feliz à raiz do coração que Viridis tivesse um homem tão amável para seu querido. Quanto ao Cavaleiro Dourado, como Birdalone podia ver agora, ele permanecia um pouco distante; ele era um homem muito vistoso de uns trinta e cinco invernos; alto ele era, de amplos ombros e de flancos finos, de cabelo negro, com sobrancelhas um pouco pesadas, e ferozes olhos de falcão; um homem terrível de aspecto, quando alguém primeiramente o contemplasse.

Agora, quando o Escudeiro Negro ouvira atentamente a palavra de Birdalone relativa a Viridis, ele jogou-se ao chão diante dela e começou a beijar os pés dela; ou, se você quiser, o calçado de Atra que os cobria. Quando ela afastou-se um pouco, ele ergueu um joelho e olhou para ela com um rosto [163]ansioso, e ela disse: ‘Para ti também eu tenho uma mensagem de Atra, tua amiga de fala, se tu fores Arthur o Escudeiro Negro.’ Ele não falou, mas ainda a encarou até que ela ruborizasse. Ela não sabia se considerava-o menos vistoso do que os outros dois. Ele também era um homem jovem, de não mais do que vinte e cinco anos, magro e ágil, com cabelo muito castanho; o rosto dele bronzeado tão escuro que seus olhos cintilavam claros em meio a ele; o queixo dele era redondo e fendido, sua boca e nariz excepcionalmente modelados; pouco pelo ele tinha sobre o rosto dele, suas bochechas eram um pouco mais vazias do que redondas. Birdalone notou de suas mãos nuas, que elas eram bronzeadas como o rosto dele, que elas eram muito elegantes e bem-feitas.

Agora ele colocou-se de pé, e os três puseram-se juntos e encararam-na; como eles poderiam fazer de outra maneira? Birdalone pendeu a cabeça e não sabia o que fazer ou dizer em seguida. Mas ela pensou dentro de si mesma, ‘esses três homens teriam sido tão gentis com ela quanto suas três amigas da Ilha, houvesse ela topado com eles em caso semelhante ao que foi daquela vez?’

Agora falou o Cavaleiro Dourado, e disse: ‘Irá a amável donzela realizar sua missão para nós aqui e agora? Pois nós estamos impaciente e cansados de dificuldades.Birdalone olhou para baixo e ficou um pouco confusa. ‘Bons senhores,’ disse ela, ‘eu farei vossa vontade neste lugar.’

Mas o Escudeiro Negro olhou para ela e viu que ela estava inquieta, e ele disse: ‘Vosso perdão, bons companheiros, mas não é verdade que nós temos uma casa um pouco perto, não mal provida de muitas coisas? Com [164]vossa permissão, eu rogaria a essa gentil e querida moça para nos honrar tanto quanto a entrar no Castelo da Missão conosco, e permanecer lá por quanto tempo ela desejar e, naquele lugar, ela pode contar-nos toda a mensagem dela à vontade; e já nós podemos ver e saber que ela não pode ser coisa alguma salvo uma alegre.

Então falou o Cavaleiro Dourado e disse:Eu convidarei a moça a perdoar-me e juntarei minha súplica a tua, irmão, de que ela venha para casa conosco. Moça,ele disse, ‘tu me perdoarás, que, no desejo ansioso de ouvir as notícias de minha amiga de conversa eu esqueci de tudo o mais.’

E com isso ele ajoelhou-se diante dela, tomou a mão dela e beijou-a e, a despeito de seus olhos inteiramente ferozes e seu semblante guerreiro, ela considerou-o amável e amigável. Então precisa o Cavaleiro Verde ajoelhar-se e beijar também, embora ele não tivesse perdão a almejar; mas um belo e doce rapaz ela considerou-o, e novamente o coração dela inchou com alegria de pensar que a sua amiga Viridis tinha um amigo de fala tão querido a ansiar por ela.

Então chegou a vez do Escudeiro Negro, e por essa altura os outros dois distanciaram-se um pouco na direção de seus cavalos. Ele ajoelhou-se sobre ambos os joelhos diante de Birdalone e tomou o braço direito dela acima do punho, olhou para a mão e beijou-a como se fosse uma relíquia, mas não se ergueu. Ela permaneceu curvando-se sobre ele, e uma nova doçura entrou nela, o anelo da qual ela nunca sentira. Mas quanto ao Escudeiro negro, parecia que uma mão não seria suficiente para ele; ele tomou a mão esquerda dela e começou a beijá-la, então ambas as mãos juntas por toda parte nas costas delas e então as palmas delas. [165]Ele enterrou seu rosto nas duas palmas e segurou-as contra suas bochechas; e as mãos queridas toleraram tudo e consentiram em abraçar suas bochechas. Mas Birdalone considerou que este era o mais amável e doce dos três tipos de guerreiros, e triste ela ficou quando ele soltou as mãos dela e colocou-se de pé.

O rosto dele ficou ruborizado, mas a fala dele calma, e ele falou, de maneira que os outros cavaleiros podiam ouvi-lo: ‘Agora nós iremos diretamente para o castelo, moça, e nós te perguntaremos qual de nós três tu honrarás ao cavalgar seu cavalo para lá; deverá ser o baio brilhante de Baudoin, ou o tordilho de Hugh, ou o meu ruão vermelho? E com isso ele tomou-a pela mão e conduziu-a na direção dos cavalos. Mas ela riu, virou-se um pouco, apontou para o palácio e disse: ‘Ou melhor, amáveis senhores, eu apenas viajarei a pé, um tão pequeno caminho como este é, e eu estou inteiramente desacostumada à sela.’

Falou o Cavaleiro Negro: ‘Se isso for assim, moça, então devemos nós três caminhar a pé contigo.’ ‘Não, não,era disse; ‘eu não tenho nada para carregar senão a mim mesma, mas vós tendes vossas cotas de malha e vossas outras armas, as quais seriam pesadas para vós arrastardes a pé, mesmo a pouca distância. Além disso, eu estava desejosa de ver vós montardes vossos cavalos, e cavalgardes e correrdes através do prado com crinas agitadas e espadas brilhantes, enquanto eu caminho lentamente através do portão; pois tais coisas, e tão belas, são inteiramente novas para mim, como vós aprendereis quando eu contar-vos minha história. Fazei tanto para me agradar, gentis cavaleiros.’

O alto Baudoin acenou com a cabeça para ela, sorrindo gentilmente, tanto quanto a dizer que ele pensava bem do desejo dela. Mas o Cavaleiro Verde correu para seu cavalo com um brado [166]feliz, e sem demora estava ele na cela com sua espada brilhante em punho; então ele esporreou e galopou aqui e ali através da campina, fazendo o cavalo dele virar brusca e contidamente, e brincando com muitos truques de pátios para justas, e clamando, ‘Hugh, Hugh, pelo Vestido Verde! O Cavaleiro Dourado foi mais lento e mais sóbrio, mas, de muitas maneiras, ele mostrou sua destreza de guerra, cavalgando após Hugh como se ele caísse sobre ele, e obstando seu caminho exatamente quando ele tornava-se perigoso;’ e ele clamou, ‘Baudoin, Baudoin, pelas Mangas Douradas!’ Tudo isso parecia a Birdalone igualmente terrível e amável.

Mas quanto ao Escudeiro Negro, ele foi lento para soltar a mão de Birdalone. Mas depois disso ele foi veloz para pular para sua sela, e ele efetuou percursos através da campina, mas sempre voltava a Birdalone enquanto ela caminhava em seus caminhos, cavalgando circularmente em volta dela, jogando sua espada para o ar enquanto isso e pegando-a conforme ela caía. E não menos amável isso parecia a Birdalone, e ela sorria para ele e acenava com a mão para ele.

Caminhando lentamente dessa maneira, finalmente ela chegou ao portão do castelo; e agora tinham todos aqueles três ultrapassado-a e permaneciam de pé no postigo para a receber, e o Cavaleiro Negro, quem era o mais velho dos três foi o orador das boas vindas.

Através da entrada do Castelo da Busca caminharam os pés de Birdalone, então, e ela tornara-se tão feliz como nunca considerara que deveria ser em toda a vida dela.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 160-166. Disponível em: https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/160/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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