A Máquina do Tempo - Capítulo VI A Máquina é Perdida

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[79]“Em outro momento eu estava em um sentimento de medo e correndo com grandes, saltitantes, longos passos descendo a encosta. Uma vez eu cai de cabeça para baixo e cortei meu rosto. Eu não perdi tempo estancando o sangue, apenas pulei e corri, com uma gota quente descendo por minha bochecha e queixo. Durante todo o tempo em que corri, eu dizia a mim mesmo: ‘Eles moveram-na um pouco – empurraram-na para fora do caminho sob os arbustos.’ Mesmo assim eu corria com toda a minha força. O tempo todo, com a certeza que algumas vezes surge com o pavor excessivo, eu sabia que semelhante garantia era loucura, sabia instintivamente que a máquina fora removida para fora de meu alcance.”

Minha respiração vinha com dor. Eu [80]suponho que cobri a distância inteira, do cume da colina até o pequeno gramado, duas milhas talvez, em dez minutos. E eu não sou um homem jovem. Enquanto corria, eu amaldiçoava em voz alta a loucura confiante de deixar a máquina, desse modo desperdiçando bom fôlego. Eu bradei em voz alta, e ninguém respondeu. Nenhuma criatura parecia estar mexendo-se naquele mundo iluminado pela lua.

Quando eu alcancei o gramado, meus piores medos estavam realizados. Nem um traço da coisa havia para ser vista. Eu senti síncope e frio quando encarei o espaço vazio em meio ao emaranhado negro de arbustos. Eu corri em volta dele furiosamente, como se a coisa pudesse estar oculta em um canto, e então abruptamente parei com as mãos agarrando o cabelo. Acima de mim elevava-se a esfinge, sobre o pedestal de bronze, branca, brilhante, leprosa à luz da lua ascendente. Ela parecia sorrir em zombaria de meu desalento.

Eu poderia ter consolado a mim mesmo ao imaginar que o pequeno povo colocara [81]o mecanismo em algum abrigo para mim, não tivesse eu assegurado-me da insuficiência física e intelectual deles. Isto é o que me consternava: a sensação de algum poder, até agora insuspeitado através, da intervenção do qual minha invenção desaparecera. Contudo, de uma coisa eu sentia-me seguro: a menos que alguma outra era produzira sua exata duplicata, a máquina não poderia ter movido-se no tempo. A ligação das alavancas – depois eu mostrarei o método a vocês – impedia qualquer um de mexer com ela dessa maneira quando elas eram removidas. Ela fora removida, e oculta, somente no espaço. Mas então, onde ela poderia estar?”

Penso que eu devo ter tido um tipo de frenesi. Eu lembro de correr violentamente, para dentro e para fora, em meio aos arbustos iluminados pela lua em volta da esfinge, e provocando algum animal branco que, à luz sombria, eu tomei por um pequeno cervo. Igualmente eu lembro-me, mais tarde naquela noite, de bater nos arbustos com meus punhos cerrados até que os nós dos meus dedos ficaram cortados [82]e sangrando dos galhos quebrados.

Então, soluçando e delirante em minha angústia de mente, eu desci ao grande prédio de pedra. O grande salão estava escuro, silencioso e deserto. Eu escorreguei no chão irregular e caí sobre uma das mesas de malaquita, quase quebrando meu queixo. Eu acendi um fósforo e prossegui ao longo das cortinas poeirentas das quais eu contei a vocês.

Lá eu encontrei um segundo grande salão com almofadas, sobre as quais talvez uma vintena ou aproximadamente do pequeno povo estava dormindo. Eu não tenho dúvida de que eles consideram meu segundo aparecimento suficientemente estranho, saindo subitamente da escuridão quieta com barulhos inarticulados e o crepitar e a labareda de um fósforo. Pois eles esqueceram-se de fósforos. ‘Onde está minha Máquina do Tempo?’ Eu comecei, berrando como uma criança zangada, colocando as mãos sobre eles e sacudindo-os juntos. Isso deve ter sido muito estranho para eles. Alguns riram, a maioria deles parecia [83]intensamente assustada. Quando eu vi-os de pé à minha volta, veio a minha cabeça que eu estava fazendo uma coisa tão tola quanto era possível para fazer sob as circunstâncias, ao tentar reviver a sensação de medo. Pois, raciocinando a partir do comportamento à luz do dia, eu pensei que o medo devia ter sido esquecido.

Abruptamente eu destruí o fósforo e, lançando uma das pessoas através de meu percurso, novamente saí, tropeçando através do grande salão de jantar, sob a luz da lua. Eu ouvi clamores de terror e seus pequenos pés correndo e tropeçando por aqui e por ali. Eu não me lembro de tudo que fiz enquanto a lua arrastava-se no céu. Eu suponho que foi a natureza inesperada de minha perda que me enfureceu. Eu sentia-me sem esperança separado de minha própria espécie, um animal estranho em um mundo desconhecido. Eu devo ter delirado para lá e para cá, gritando e exclamando sobre Deus e Destino. Eu tenho uma memória de horrível fadiga, enquanto a longa noite de [84]desespero consumia-se, de olhar para este lugar impossível e de tal maneira, do tatear em meio às ruínas iluminadas pela lua e tocar criaturas estranhas nas sombras escuras; e, afinal, de me deitar no chão próximo à esfinge e chorar com absoluta miséria, até de raiva diante da loucura de deixar a máquina tendo escoado para longe com minha força. Eu não tinha mais nada, apenas miséria.”

Então eu dormi, e quando eu acordei era dia pleno, e uma dupla de pardais estavam saltitando à minha volta, sobre a relva, dentro do alcance de meu braço.”

Eu sentei na frescura da manhã tentando lembrar de como chegara ali, e do porque tinha uma tal profunda sensação de abandono e desespero. As coisas vieram claras à mente. Com a clara e razoável luz do dia eu pude olhar minhas circunstâncias na face. Eu vi a loucura selvagem de meu frenesi durante a noite eu pude raciocinar comigo mesmo.”

[85]“‘Suponha o pior,’ eu disse, ‘suponha a máquina inteiramente perdida – talvez destruída. Compete-me ficar calmo e paciente, aprender os modos do povo, obter uma ideia clara do método de minha perda e dos meios de obter materiais e ferramentas; de modo que, no final, talvez, eu possa construir outra. Essa seria minha única esperança, uma pobre esperança, talvez, mas melhor do que desespero. E, afinal, era um mundo belo e curioso.’”

“‘Mas provavelmente a máquina apenas fora removida. Eu preciso ficar calmo e paciente, encontrar seu esconderijo, e recuperá-la por força ou astúcia.’ E com isso eu coloquei-me de pé e olhei à minha volta, perguntando-me onde poderia banhar-me. Eu sentia-me cansado, teso e sujo de viajem. A frescura da manhã fez-me desejar uma frescura igual. Eu exaurira minha emoção. De fato, enquanto eu cuidava de meu assunto, eu encontrei-me refletindo sobre minha excitação intensa durante a noite.

[86]“Naquela manhã eu realizei um exame cuidadoso do solo em torno do pequeno gramado. Eu consumi algum tempo em fúteis questionamentos, tão bem quanto eu era capaz de tal, das pessoas pequenas conforme elas aproximavam-se. Todos eles falharam em entender meu gestos – alguns deles ficaram simplesmente impassíveis; alguns pensaram que era uma brincadeira e riram de mim. Eu tinha a tarefa mais difícil do mundo para manter minhas mãos longe de suas belas faces sorridentes. Foi um impulso tolo, mas o diabo gerado de medo e raiva cega estava mal controlado, e ainda ansioso para tirar proveito de minha perplexidade. A relva deu melhor conselho. Eu encontrei um sulco aberto nela, aproximadamente no meio do caminho entre o pedestal da esfinge e as marcas de meus pés onde, na chegada, eu debatera-me com a máquina derrubada. Havia outros sinais da remoção de um corpo pesado em volta, de estranhas, estreitas pegadas como aquelas que eu podia imaginar feitas por uma preguiça. Isso dirigiu minha atenção mais estreita ao pedestal. Ele [87]era, como eu achei que vi, de bronze. Não era um mero bloco, mas levemente decorado com painéis de molduras profundas em cada lado. Eu caminhei e bati levemente nesses. O pedestal era oco. Examinado os painéis com cuidado, eu descobri-os descontínuos com as molduras. Não havia nem alças nem buracos de fechadura, mas apenas os painéis, se eles fossem portas, como eu supus, abriam-se a partir de dentro. Uma coisa ficou suficientemente clara na minha mente. Não requereu um efeito mental muito grande para inferir que minha Máquina do Tempo estava dentro do pedestal. Mas como eu chegaria ali era um problema diferente.”

Eu vi as cabeças de duas pessoas vestidas de laranja atravessando os arbustos e sob algumas árvores de maçãs cobertas de flores na minha direção. Eu virei-me sorrindo para eles, e acenei-lhes para mim. Eles vieram, e então, apontando para o pedestal de bronze, eu tentei declarar minha vontade de o abrir. Mas, diante de meu primeiro gesto na direção disso, eles comportaram-se muito estranhamente. Eu não sei como [88]transmitir a expressão deles a vocês. Suponham que estivessem para usar um gesto grosseiramente impróprio para uma mulher de mente delicada – é como ela pareceria. Eles saíram como se eles tivessem recebido o último insulto possível.”

Contudo, eu queria acesso à Máquina do Tempo; então, eu tentei um pequeno indivíduo de branco, de aparência doce, com exatamente o mesmo resultado. De alguma maneira, os modos deles fizeram-me envergonhar-me de mim mesmo. Mas, como eu digo, eu queria a Máquina do Tempo. Eu tentei mais uma vez. Enquanto ele rejeitava-me como os outros, meu temperamento dominou-me. Em três passos largos eu estava depois dele, alcançava-o pela parte folgada de seu robe em volta do pescoço, e comecei a arrastá-lo na direção da esfinge. Então eu vi o horror e repugnância no rosto dele e, de repente, deixei-o ir.”

Mas eu ainda não estava derrotado. Eu bati com meu punhos nos painéis de bronze. Eu pensei que ouvi alguma coisa mexer-se dentro – para ser explícito, eu pensei que ouvi um som como o de uma risada – mas [89]devo ter estado enganado. Então eu peguei um grande seixo do rio, vim e malhei até que eu achatara [a forma de] uma moeda nas decorações, e o verdete saiu em flocos quebradiços. O delicado pequeno povo deve ter ouvido o batimento em explosões irascíveis a uma milha de distância de cada lado, mas nada veio dele. Eu vi uma aglomeração deles sobre as encostas, olhando furtivamente para mim. Finalmente, quente e cansado, eu sentei-me para observar o lugar. Mas eu estava inquieto demais para observar por muito tempo, e, além disso, eu sou muito ocidental para uma longa vigília. Eu podia trabalhar em um problema por anos, mas esperar inativo por vinte quatro horas – isso é outra questão.

Após um tempo, eu levantei-me e comecei a caminhar sem rumo através dos arbustos na direção da colina novamente.

“‘Paciência,’ disse eu a mim mesmo. ‘Se você quer sua máquina de volta, precisa deixar essa esfinge sozinha. Se eles pretendem levar sua máquina embora, é pouco benéfico a sua destruição [90]dos painéis de bronze deles, e, se eles não pretendem, você consegui-la-á de volta tão logo peça por ela. Sentar em meio a todas essas coisas desconhecidas diante de um quebra-cabeça como este é sem esperança. Dessa maneira estende-se a monomania. Encarar este mundo. Aprender seus caminhos; observá-lo; ser cuidadoso de suposições muito precipitadas diante de seu sentido. No fim, você encontrará pistas para tudo isso.’”

Então subitamente o humor da situação entrou em minha mente: o pensamento dos anos que eu despendera no estudo e labor para chegar à era futura, e agora minha paixão de ansiedade para sair dela. Eu construíra para mim mesmo a mais complicada e mais sem esperança armadilha que alguma vez um homem imaginou. Apesar de ser à minha própria custa, eu não podia ajudar. Eu ri alto.

Atravessando o grande palácio, parecia-me que o pequeno povo evitava-me. Pode ter sido minha imaginação, ou pode ter tido alguma coisa a ver com meu batimento dos portões de bronze. Contudo, eu tive [91]toleravelmente certeza da evasão. Todavia, eu fui cuidadoso, para não mostrar preocupação, e para me abster de qualquer perseguição deles e, no curso de um dia ou dois, as coisas voltaram à sua antiga condição.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Time Machine; An Invention. New York: Henry Holt and Company, 1895. pp.79-91. Disponível em: <https://archive.org/details/timemachineinven00well/page/79/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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