[19]Até aqui, tudo o que eu expus tem sido claro, e não pode haver dúvida de que o que assim se entregou de boca a boa está pela maior parte correto. Quando eu passo das árvores e animais aos homens, contudo, a coisa é diferente, pois nada é certo e tudo é confuso. Nenhum dos relatos concorda, nem podem todos eles juntos ser reconciliados com os fatos atuais ou com suposição razoável; contudo, não faz tanto tempo desde que umas poucas memórias, adicionadas umas às outras, podem formar uma ponte no tempo, e, embora não muitas, ainda há algumas notas escritas a serem encontradas. Eu preciso atribuir a discrepância às guerras e ódios que brotaram e dividiram o povo, de maneira que um não ouviria o que os outros gostariam de dizer, e a verdade foi perdida.
Além do que, nas conflagrações que consumiram as cidades, a maior parte dos registros foi destruída, e não mais existem para serem referidos. E pode ser que, até quando eles forem procedentes, as causas das mudanças [20]não foram entendidas. Portanto, o que eu estou prestes a descrever não é considerado como a verdade definitiva, mas como a mais próximo que eu pude atingir após comparar as várias tradições. Alguns dizem, então, que o primeiro começo da mudança foi porque o mar assoreou as entradas para os portos, e interrompeu o comércio que uma vez fora conduzido. Certamente é verdadeiro que muitos dos portos estão assoreados, e como tal agora são inúteis, mas quer o assoreamento precedeu ao desaparecimento da população, ou quer o desaparecimento da população e a consequente negligência causaram o assoreamento, eu não posso aventurar-me a declarar positivamente.
Pois há sinais de que o nível do mar baixou em alguns lugares, e sinais de que se tornou mais alto em outros, de modo que o historiador judiciosa simplesmente afirmará os fatos, e abster-se-á de colori-los com sua própria teoria como Silvester tem feito. Novamente, outros mantêm que o suprimento de comida de através do oceano subitamente parando causou grandes desordens, e que as pessoas abarrotaram-se a bordo de todos os navios para escaparem da fome, e navegaram para longe, e nunca mais se ouviu delas.
Também foi dito que a terra, a partir de algum poder atrativo exercido pela passagem de um enorme corpo negro através do espaço, tornou-se pensa ou mais inclinada em sua órbita do que antes, e que isso, enquanto durou, alterou o fluxo das correntes magnéticas, as quais, de uma maneira imperceptível, influenciaram as mentes dos homens. Até agora, o curso da vida humana tem dirigido-se para o oeste, mas com essa inversão do magnetismo ocorrida, um desejo geral [21]de retornar ao leste surgiu. E aqueles cuja a ocupação é teologia evidenciaram que a fraqueza dos tempos superou o entendimento, e que uma mudança e varredura para longe do mal humano que se acumulara foi necessária, e foi efetuada por meios sobrenaturais. A conexão disso deve ser deixada a eles, uma vez que não é a província do filósofo intrometer-se em semelhantes matérias.
Tudo que parece certo é, que quando o evento ocorreu, as imensas multidões reunidas nas cidades foram as mais afetadas, e que as classes mais ricas e altas fizeram uso de seu dinheiro para escapar. Aqueles deixados para trás foram principalmente os inferiores e mais ignorantes, tão longe ao que diz respeito às artes; aqueles que habitavam em lugares distantes e periféricos; e aqueles que viviam da agricultura. Esses últimos, àquela data, caíram em tal dificuldade que eles não puderam contratar embarcações para transportarem a si mesmos. O número exato daqueles deixados para trás não pode, é claro, ser contado, mas está registrado que, quando os campos pela primeira vez foram negligenciados (como eu já descrevi), um homem podia cavalgar uma centena de milhas e não encontrar outro. Eles não eram apenas poucos, mas espalhados, e não se juntaram e formaram cidades como no presente.
Do que se tornou das vastas multidões que deixaram o país, nada nunca foi ouvido, e nenhuma comunicação foi recebida deles. Por essa razão, eu não posso esconder minha opinião de que eles precisam ter navegado ou para o oeste ou para o sul, onde se entendia que a maior extensão de oceano existe, e não para [22]o leste, como Silvester compreenderia em seu trabalho sobre a “Orbe Desconhecida,” o corpo negro viajando através do espaço ao qual eu aludi. Nenhuma de nossas embarcações nos dias de hoje aventurar-se-ia nessas imensas regiões de mar, nem, de fato, fora da visão da terra, a menos que eles soubessem que eles deveriam vê-la novamente tão logo eles tivessem alcançado e sobrepujado o cume do horizonte. Houvessem eles apenas cruzado para a terra firme ou continente novamente, nós deveríamos, muito provavelmente, ter ouvido aqui de sua passagem através de países.
É verdadeiro que raramente chegam navios, e somente para dois portos, e que os homens neles dizem (tão longe quanto pode ser entendido) que o país agora deles está igualmente deserto, e do mesmo modo perdeu sua população. Mas ainda, como homens falam para homens, e nós passamos inteligência através de grandes extensões de terra, é quase certo que, houvessem eles viajado daquela maneira, algum eco dos passos deles ainda soaria de volta para nós. Com respeito a essa teoria, portanto, como insustentável, eu apresento como uma sugestão de que os antigos realmente navegaram para o oeste ou para o sul.
Como, pela maior parte, aqueles quem foram deixados para trás eram ignorantes, rudes e iletrados, consequentemente aconteceu que muitas das coisas maravilhosas que os antigos construíram, e os segredos da ciência deles, são conhecidos por nós apenas pelo nome, e, verdadeiramente, dificilmente pelo nome. Aconteceu a nós em nossa vez como aconteceu aos antigos. Pois eles estavam cientes de que em épocas anteriores as deles mesmos a arte de tornar o vidro maleável fora descoberta, de maneira que ele poderia ser batido em forma como cobre. Mas a maneira como através da qual isso era realizado era inteiramente desconhecida para [23]eles; o fato estava no registro, mas a causa, perdida. Então agora nós sabemos que aqueles que para nós são os antigos tinham uma maneira de produzir diamantes e pedras preciosas a partir de carvão negro e sem brilho, uma fato que se aproxima do incrível. Entretanto, nós não duvidamos disso, embora nós não possamos imaginar por quais meios era executado.
Eles também enviavam inteligência para as partes mais remotas da terra ao longo de fios que não eram tubulares, mas sólidos, e portanto não poderiam transmitir som, e contudo a pessoa quem recebida a mensagem podia ouvir e reconhecer a voz do emissor a mil milhas de distância. Com máquinas movidas por fogo, eles atravessavam a terra, rápidos como a andorinha plana através do céu, mas dessas coisas nem uma relíquia restou-nos. Que trabalho em metal ou rodas ou barras de ferro foram deixados, e poderiam dar-nos uma pista, foram todos quebrados e derretidos para usos de outras maneiras quando o metal tornou-se escasso.
Dize-se que montes de terra ainda existem nos bosques, os quais originalmente formaram as estradas para essas máquinas, mas agora eles estão tão baixos, e tão cobertos com matagais, que nada pode ser aprendido a partir deles; e de fato, embora eu tenha ouvido falar da existência deles, nunca vi um. Grandes aberturas eram feitos através das colinas mesmas para a passagem da carruagem de ferro, mas agora elas estão bloqueados pelas coberturas caídas, nem se atreve ninguém a explorar tais partes que, contudo, ainda podem estar abertas. Onde estão as maravilhosas estruturas com as quais os homens daqueles dias eram erguidos aos céus, erguendo-se acima das nuvens? Essas coisas maravilhosas são para nós pouco mais do que fábulas dos gigantes e dos [24]deuses antigos que caminhavam sobre a terra, as quais eram fábulas até para aqueles que nós chamamos de antigos.
Verdadeiramente, nós temos conhecimento mais completo daqueles tempos extremamente antigos do que do povo que imediatamente nos precedeu, e os romanos e gregos são mais familiares a nos que os homens que cavalgaram em carruagens de ferro e subiram aos céus. A razão por que tantas artes e ciências foram perdidas é porque, como eu disse anteriormente, a maior parte daqueles que foram deixados no país eram ignorantes, rudes e analfabetos. Eles viram as carruagens de ferro, mas não entenderam o método da construção delas, e não podem passar a diante o conhecimento que eles mesmo não possuem. Os cabos mágicos de inteligência passavam através das vilas deles, mas eles não sabiam como os operar.
Os hábeis artífices das cidades partiram todos, e tudo caiu rapidamente no barbarismo; nem poderia isso ser admirado, pois as poucas e espalhadas pessoas daqueles dias tinham o suficiente a fazer para preservar suas vidas. Comunicação entre um lugar e outro estava absolutamente interrompida, e se alguém por acaso recolhesse alguma coisa que poderia ter sido de uso, ele não poderia consultar outro que conhecia a outra parte, e dessa maneira entre eles reconstruir a máquina. Na segunda geração, até essas memórias desarticuladas morreram.
Primeiramente, supôs-se que aqueles que permaneceram para trás existiam em consequência do grão nos armazéns, e do que eles podiam debulhar pelo mangual das colheitas deixado negligenciado nos campos. Mas, conforme as provisões nos armazéns foram [25]consumidas ou estragadas, eles caçaram os animais, recentemente domesticados e contudo como apenas meio selvagens. Conforme esses diminuíram em número e tornaram-se difíceis de alcançar, eles começaram a trabalhar novamente para cultivar o solo, e limparam pequenas porções da terra, já entravadas com espinheiros e cardos. Alguns cultivaram milho e alguns assumiram o comando de ovelhas. Dessa maneira, com o tempo, lugares muito distantes uns dos outros foram povoados e cidades foram construídas; cidades, de fato, nós chamamo-las assim para distingui-las de campo aberto, mas elas não são dignas do nome em comparação com as poderosas cidades do tempo antigo.
Há muitas que não possuem mais do que cinquenta casas na cercada, e talvez nenhuma outra paragem dentro de um dia de viajem, e as maiores são apenas vilas, calculando pela antiguidade. Pela maior parte elas têm seus próprios governos, ou tiveram, até recentemente, e dessa maneira cresceram muitas províncias e reinos no âmbito do que originalmente foi apenas um. Assim separadas e divididas, ali também vieram a ser muitas raças onde, em primeiro lugar, foi apenas um povo. Agora, recontando brevemente as principais divisões de homens, eu começarei com aqueles que são em toda parte considerados como os mais baixos. Eles são os homens do mato, quem vivem integralmente nos bosques.
Mesmo em meio aos antigos, quando cada homem, mulher e criança, podia exercitar essas artes que agora são a marca especial de nobreza, ou seja, leitura e escrita, havia uma classe degradada de pessoas que se recusava a utilizar-se dos benefícios da civilização. Eles obtinham sua comida implorando, perambulando ao longo de estradas principais, [26]agachando-se em volta de fogos que eles acendiam no aberto, envoltos em trapos e exibindo semblantes dos quais cada traço de amor-próprio desaparecera. Esses foram os ancestrais dos atuais homens dos matos.
Eles entravam naturalmente nos campos negligenciados, e formando “assentamentos”, como eles chamam suas tribos, ou antes famílias, vagavam para lá e para cá, facilmente subsistindo em consequência de raízes e armadilhas. Assim eles viveram até hoje, tendo tornado-se extremamente habilidosos em capturar todas as espécies de pássaro e animal e os peixes dos córregos. Estes últimos eles algumas vezes envenenavam com uma droga ou planta (não é conhecida qual), o conhecimento da qual tem sido preservado entre eles desde os dias dos antigos. O veneno mata os peixes e trá-los à superfície, quando eles podem ser coletados às centenas, mas não os prejudica para comer.
Como os cães negros do bosque, os homens do mato, frequentemente em ataque de frenesi selvagem, destroem três vezes mais do que eles podem devorar, capturando cervos em cercas vivas de vime, por mera sede de sangue. O boi e o rebanho nas cercadas ocasionalmente são da mesma maneira medrosamente mutilados por esses desgraçados, algumas vezes por diversão, e algumas vezes em vingança por ferimentos causados neles. Homens do mato não têm casas estabelecidas, não cultivam nenhum tipo de milho ou vegetal, não mantêm animais, nem mesmo cães, não têm casa ou cabanas, nem botes ou canoas, nada que requeira a mínima inteligência ou energia para construir.
Vagueando para lá e para cá sem qualquer alvo ou objetivo aparente, ou qualquer rota particular, eles estabelecem seu acampamento por uns [27]poucos dias onde quer que satisfaça o desejo deles, e novamente prosseguem, nenhum homem sabendo o porque ou para onde. É essa incerteza de movimento que os torna tão perigosos. Hoje pode não haver o menor sinal de qualquer um deles a milhas de uma cercada. À noite, um “acampamento” pode passar, massacrando tanto gado quanto pode ter permanecido do lado de fora da paliçada, ou matando o pastor infeliz que não foi para dentro das muralhas, e pela manhã eles não podem ser vistos em nenhum lugar, tendo desaparecido como vermes. Face a face o homem do mato nunca deve ser temido; um “acampamento” inteiro ou família tribal dispersar-se-á se um viajante tropeça no meio deles. É de trás de uma árvore ou sob cobertura da noite que ele desfere seu golpe assassino.
Um “assentamento” pode consistir de dez ou vinte indivíduos, algumas vezes, talvez, de quarenta, ou até de cinquenta, de várias idades, e é governando pelo mais velhos, quem também é o pai. Ele é o mestre absoluto de seu “assentamento,” mas não tem poder ou reconhecimento além dele, de maneira que quantos líderes podem haver entre eles não é possível mesmo adivinhar. Nem é o mestre conhecido por eles como rei, ou duque, nem tem ele qualquer título, mas é simplesmente o mais velho ou fundador da família. O “assentamento” não tem lei, nem costume estabelecido; eventos acontecem, e mesmo o mestre não pode ser dito reinar. Quando ele torna-se fraco, eles simplesmente o deixam para morrer.
Eles são depravados, e sem vergonha, envoltos em peles de ovelha, principalmente, se vestidos em absoluto, ou em tais roupas que eles roubaram. Eles não têm cerimonias de qualquer tipo. O número desses “assentamentos” deve ser considerável, e contudo os homens do mato raramente são vistos, nem [28]frequentemente se ouve das depredações deles, as quais são relatadas pela extensão da região através da qual eles perambulam. É nos invernos severos que o perigo principal ocorre; então eles sofrem de fome e frio, e são impelidos à vizinhanças das cercadas para roubar. Tão habilidosos eles são em se esgueirar entre os arbustos, e esgueirar-se em meio a juncos e vimes, que eles atravessarão umas poucas jardas sem que a presença deles seja descoberta, e sinais da passagem deles somente podem ser detectados pelo caçador experiente, e nem sempre por ele.
Foi observado que qualquer que seja a injúria que o homem do mato cometa, ele nunca toca fogo em quaisquer montões ou prédios; a razão é que a natureza dele é escapulir da cena de suas depredações, e queimar imediatamente atrai pessoas para o lugar. Duas vezes a ocorrência de uma inverno notavelmente severo causou os homens do mato a reunirem-se e agirem na perspectiva de planejarem atacar as cercadas. Os homens do mato do norte, quem eram ainda mais selvagens e brutais, então desceram, e com dificuldade foram repelidos das cidades muradas. Em tempos ordinários nós vemos muitos poucos deles. Eles são os ladrões, os vermes humanos dos bosques.
Sob o nome de ciganos, aqueles que são agora frequentemente conhecidos como romani e zíngaro eram bem conhecidos dos antigos. De fato, eles gabam-se de que a ancestralidade deles retrocede a tão mais distante do que o mais velho de nós pode alegar, que os antigos mesmos eram apenas modernos para eles. Mesmo na era de civilização mais elevada, a qual imediatamente precedeu a atual, eles dizem (e não há dúvida disso) [29]que eles preservaram o sangue da raça deles puro e imaculado, que eles nunca habitaram sob tetos permanentes, nem dobraram os joelhos para a religião dominante. Eles permaneceram à parte, e continuam, após a civilização ter desaparecido, exatamente os mesmos que como eles eram antes dela ter começado.
Desde a mudança seus números aumentaram muito, e não estivessem eles sempre em guerra uns com os outros, é possível que ele poderiam ir tão longe quanto a varrer a casa das pessoas da terra. Mas há tantas tribos, cada uma com seu rei, rainha ou duque, que o poder deles é dividido e a força deles dissipa-se. O governante das famílias de homens do mato é sempre um homem, mas entre os ciganos uma mulher, e até uma jovem garota, frequentemente exerce autoridade suprema, apenas precisa ser de sangue sagrado. Esses reis e duques são autocratas absolutos dentro das tribos deles, e podem ordenar com um aceno de cabeça a destruição daqueles quem os ofenderam. Os hábitos da mais simples obediência sendo ordenados na tribo a partir da primeira infância, tais execuções são raras, mas o direito de as comandar não é questionado em nenhum momento.
Sobre os feiticeiros, e particularmente as feiticeiras, entre eles, todos têm ouvido, e de fato, que os lugares onde eles habitam parecem cheios de mistério e mágica. Eles vivem em tendas, e eles constantemente se retirem de distrito a distrito, uma tribo nunca colidindo ou cruzando com outra, porque todas têm suas rotas especiais, sobre as quais intrusão alguma nunca é feita. Alguma agricultura é praticada, e rebanhos e manadas são cuidados, mas o trabalho é inteiramente realizado por mulheres. Os homens estão sempre a cavalo ou dormindo em suas tendas.
[30]Cada tribo tem seu local de acampamento central, ao qual eles retornam a intervalos, após talvez vaguearem por meses, um certo número de pessoas sendo deixadas em casa para a defender. Esses acampamentos frequentemente são situados em posições inacessíveis, e bem protegidos por paliçadas. O território que é reconhecido pertencer a um tal campo é extremamente limitado; seus meros arredores apenas são considerados a atual propriedade da tribo, e um segundo pode montar suas tendas dentro de umas poucas centenas de jardas. De fato, essas paliçadas são mais como armazéns do que residências; cada uma é um mero ponto de encontro.
Os ciganos estão em todo lugar, mas as paliçadas deles são mais numerosas no sul, junto aos lados das colinas e planícies verdes e, especialmente, em torno de Stonehenge, onde, nas grandes planícies abertas, entre imensos pedregulhos, desde eras colocados em círculos, eles realizam estranhas cerimônias e encantamentos. Eles atacam cada viajante, e cada caravana ou comboio de carroções que eles sente-se suficientemente fortes para dominar, mas eles não matam o solitário caçador ou pastor adormecido como os homens do mato. De fato, eles roubarão dele, mas não o mataram, exceto em combate. Uma vez, de vez em quando, eles encontraram seus caminhos para as cidades, quando terríveis massacres seguiram-se, pois, quando excitados, os selvagens não sabem como se conter.
A vingança é o ídolo deles. Se qualquer comunidade feriu-os ou afrontou-os, eles nunca deixam de tentar retaliar, e aniquilá-la-ão em fogo e sangue gerações depois. Há cidades que dessa maneira foram subitamente atormentadas, quando os cidadãos esqueceram-se de que qualquer causa de inimizade existia. A vingança é a religião e [31]lei social deles, que guia todas as suas ações entre eles mesmos. É por essa razão que eles estão continuamente em guerra, duque contra duque, e rei contra rei. Uma contenda mortal, também, colocou homem do mato e cigano na garganta um do outro, muito além da memória do homem. O romani vê o homem do mato como um cão, e mata-o como tal. Por sua vez, o desprezado cão humano esgueira-se nas trevas da noite na tenda do romani, e esfaqueia a filha ou esposa dele, pois tal é a vileza e covardia do homem do mato que ele sempre preferiria matar uma mulher a um homem.
Também há uma terceira classe de homens que não são verdadeiros ciganos, mas têm alguma coisa do temperamento deles, embora os ciganos não admitirão que eles foram originalmente mestiços. Os hábitos deles são quase iguais, exceto que eles são homens a pé e raramente usam cavalos e, portanto, são chamados de ciganos a pé. O cavalo do cigano é realmente um pônei. Somente uma vez os romani combinaram-se para atacar o povo das casas, impelidos, como os homens do mato, por um inverno excessivamente severo, contra o qual eles não tinha provisão.
Mas então, em vez de reunirem suas forças e lançarem seus números irresistíveis sobre uma cidade ou território, tudo sobre o que eles conseguiram concordar foi que, em um certo dia, cada tribo deveria invadir a terra mais próxima dela. O resultado foi que eles foram, embora com dificuldades, repelidos. Até ultimamente, nenhum líder aventurou-se a perseguir os ciganos até suas fortalezas, pois eles eram considerados invencíveis atrás de suas paliçadas. Ao infestarem os bosques e situarem-se em emboscadas eles tornaram difícil e perigosa a comunicação entre cidade e cidade, [32]exceto para grupos de homens armados, e cada carroção tinha de ser defendido por tropas.
Os ciganos, conforme eles vagueiam, fazem pouco segredo de sua presença (a menos, é claro, intentem causar dano), mas acendem seus fogos durante o dia e a noite destemidamente. Os homens do mato nunca acendem um fogo durante o dia, com medo de que a fumaça ascendente, a qual não pode ser escondida, deva revelar o paradeiro deles. Os fogos deles são acendidos à noite em vales ou lugares bem cercados por matas, e naqueles onde a chama não pode ser vista, eles construirão grades de galhos de abetos ou samambaias. Quando eles obtiveram um bom suprimento de carvões de madeira quente, nenhum outro pau é jogado ao fogo, mas esses são cobertos com turfa e dessa maneira conservado por tempo suficiente para os propósitos dele. Muito da carne deles é devorada crua, e dessa maneira não necessitam de um fogo tão frequentemente quanto os outros.
ORIGINAL:
JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.19-32. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/19/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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