[286]Em meio àquelas horas separadas por sono e constituidoras das noites dos Vril-ya, eu fui despertado do sono perturbado no qual eu caíra há não muito tempo, por uma mão em meu ombro. Eu ergui-me e contemplei Zee, de pé a meu lado.
“Silêncio,” ela disse em um sussurro; “que ninguém nos ouça. Tu pensas que eu cessei de cuidar de tua segurança porque não consegui conquistar teu amor? Eu vi Taë. Ele não levou a melhor com o pai dele, quem entrementes conferenciara com três sábios com quem, em assuntos duvidosos, ele aconselhava-se, e, pelo conselho deles, ele ordenou-te perecer quando o mundo despertar novamente para a vida. Eu te salvarei. Levanta e veste-te.”
Zee apontou para uma mesa ao lado do sofá na qual eu vi as roupas que eu usara ao deixar o mundo de cima, e as quais eu subsequentemente [287]trocara pelas vestes mais pitorescas dos Vril-ya. Em seguida, a jovem Gy moveu-se na direção da janela e pisou no balcão, enquanto que, com vivacidade e admiração, eu ajeitava meus trajes. Quando eu juntei-me a ela no balcão, a face dela estava pálida e rígida. Tomando-me pela mão, ela disse suavemente, “Vê quão brilhante é a arte dos Vril-ya que ilumina o mundo no qual eles habitam. Amanhã esse mundo ficará escuro para mim.” Ela puxou-me de volta para o quarto sem esperar por minha resposta, daí para o corredor, a partir do qual nós descemos para o salão. Nós passamos por ruas desertas e pela ampla estrada para cima que feria abaixo das rochas. Aqui, onde não havia nem dia nem noite, as Horas Silentes eram indizivelmente solenes, - o vasto espaço iluminado por habilidade mortal está tão inteiramente sem a visão e o rebuliço da vida mortal. Suaves como eram nossos passos, os sons deles aborreciam o ouvido, como para fora da harmonia do repouso universal. Eu estava consciente em minha mente, embora Zee não o dissesse, que ela decidira ajudar meu retorno ao mundo de cima, e que nós estávamos direcionados ao local a partir do qual eu descendera. O [288]silêncio dela infectou-me, e comandou o meu. E agora nos aproximávamos do abismo. Ele fora reaberto; não apresentando, de fato, o mesmo aspecto de quando eu emergira dele, mas, através daquela parede fechada de rochas diante da qual eu estivera da última vez com Taë, uma nova fenda fora aberta, e, ao longo de seus lados escurecidos, ainda cintilavam faíscas e ardiam cinza. Minha visão para cima, contudo, não podia penetrar mais do que uns poucos pés nas trevas do buraco vazio, e eu permaneci consternado e perguntando-me como aquela subida sombria devia ser realizada.
Zee adivinhou minha dúvida. “Não tema,” disse ela, com um sorriso fraco; “seu retorno está assegurado. Eu comecei este trabalho quando as Horas Silentes iniciaram, e todos os outros estavam adormecidos: acredite que eu não parei até que o caminho de volta para teu mundo estivesse limpo. Eu ainda deverei ficar contigo por um pouco. Nós não partimos até que tu digas, ‘Vá, pois eu não preciso mais de ti.’”
Meu coração atingiu-me com remorso diante dessas palavras. “Ah!” eu exclamei, “queria que tu fosses da minha raça ou eu da tua, então eu nunca deveria dizer, ‘Eu não preciso mais de ti.’”
[289]“Eu abençôo-te por essas palavras, e deverei lembrar-me delas quando tu tiveste ido,” respondeu a Gy, ternamente.
Durante essa breve troca de palavras, Zee afastara-se de mim, a forma dela inclinada e sua cabeça curvada sobre o peito. Agora, ela ergueu-se à altura completa de sua grande estatura e colocou-se diante de mim. Enquanto ela estivera dessa maneira afastada de minha visão, ela iluminara o diadema que usava em torno de sua testa, de maneira que ele brilhava como se fosse uma coroa de estrelas. Não apenas sua face e sua forma, mas a atmosfera em volta, foram iluminadas pelo esplendor do diadema.
“Agora,” disse ela, “põe teus braços em torno de mim pela primeira e última vez. Não, desta maneira; coragem, e segura-te firme.”
Enquanto ela falava, a forma dela dilatava-se, as vastas asas expandidas. Segurando-me nela eu fui carregado para o alto, através do abismo terrível. A luz estrelada da testa dela lançava-se em torno e diante de nós, através das trevas. Brilhantemente, e firmemente, e rapidamente como um anjo pode disparar na direção do céu com a alma que ele resgata do túmulo, prosseguiu o voo da Gy, até que eu ouvi à distância o [290]zum-zum de vozes humanas, os sons de labuta humana. Nós paramos na pavimentação das galerias da mina, e além, à vista, queimavam as sombrias, raras e fracas lâmpadas dos mineiros. Então eu soltei meu apoio. A Gy beijou-me na testa apaixonadamente, mas como com uma paixão de mãe, e disse, enquanto as lágrimas brotavam dos olhos dela, “Adeus para sempre. Tu não permitirás que eu vá a teu mundo – tu nunca poderás retornar ao meu. Até que nossa casa livre-se do sono, as rochas novamente terão sido fechadas sobre o abismo, não para serem reabertas por mim, nem talvez por outros, por eras ainda não adivinhadas. Pensa em mim de vez em quando, e com gentileza. Quando eu alcançar a vida que se estende além deste cisco no tempo, eu deverei procurar em volta por ti. Até lá, o mundo consignado a ti mesmo e a teu povo pode ter rochas e golfos que o dividem daquele no qual eu reúno-me àqueles de minha raça que foram antes, e eu posso ficar impotente para abrir caminho para te recuperar como eu abri caminho para te perder.”
A voz dela cessou. Eu ouvi o murmúrio semelhante ao de um cisne das asas dela, e vi os raios de seu diadema estrelado recuando longe e mais longe através da escuridão.
[291]Eu sentei-me por algum tempo, meditando tristemente; então levantei-me e tomei meu caminho com lentos passos na direção do lugar no que eu ouvi vozes de homens. Os mineiros que eu encontrei eram estranhos para mim, de outra nação que não a minha. Ele viraram-se para olhar-me com alguma surpresa, mas descobriram que eu não podia responder às suas breves questões em seu próprio idioma, eles retornaram ao trabalho deles e permitiram-me passar não molestado. No fim, eu alcancei a boca da mina, pouco trabalho com outros interrogatórios; - salvo aqueles do amigável oficial de quem eu era conhecido, e felizmente ele estava muito ocupado para falar comigo. Eu tomei cuidado para não retornar ao meu antigo alojamento, apenas me apressei naquele mesmo dia para sair de uma vizinhança onde eu não podia desejar ter escapado de interrogatórios aos quais eu não podia ter dado respostas satisfatórias. Eu voltei em segurança ao meu próprio país, no qual eu há muito estivera assentado pacificamente, e envolvi-me em negócios práticos, até que me aposentei, com uma fortuna competente, há três anos. Eu fui pouco convidado e pouco tentado para falar das errâncias e aventuras de minha juventude. Um pouco desapontado, como a maioria dos homens está, em assuntos [292]conectados ao amor e vida domésticos, eu frequentemente penso na jovem Gy enquanto sento sozinho à noite, e pergunto-me como pude ter rejeitado um tal amor, não importa que perigos assombravam-no, ou por que condições fosse restrito. Somente, quanto mais eu penso em um povo calmamente se desenvolvendo, em regiões excluídas de nossa visão e consideradas inabitadas por nossos sábios, poderes superando nossos mais disciplinados modos de força, e virtudes para as quais a nossa vida, social e política, torna-se antagônica em proporção a que nossa civilização avança, - mais devotamente eu oro para que eras ainda possam passar-se antes que ali emerjam à luz do sol nossos inevitáveis destruidores. Contudo, sendo francamente contado por meu médico que eu sou afligido por uma enfermidade que, embora ela cause pouca dor e nenhuma indicação visível de suas invasões, pode a qualquer momento ser fatal, eu considerei meu dever para com meus semelhantes registrar essas advertências sobre A Raça Vindoura.
FIM
ORIGINAL:
BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. p.286-292. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/286/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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