[275]Um dia, enquanto eu sentava-me sozinho e meditando em meus aposentos, Taë voou para dentro através da janela aberta e pousou no sofá ao meu lado. Eu sempre ficava satisfeito com as visitas de uma criança, na companhia da qual, se humilde, eu era menos eclipsado do naquela de um Ana que completara sua educação e amadurecera seu entendimento. E como eu era permitido a vagar do lado de fora com ele por minha companhia, assim como eu ansiava por revisitar o local através do qual eu descendera ao mundo inferior, eu precipitei-me a perguntar-lhe se ele estava com tempo livre para um passeio além das ruas da cidade. O semblante dele ficou mais grave do que o usual enquanto ele respondia, “eu vim aqui com o propósito de convidar você para sair.”
Logo nos encontramos na rua, e não tínhamos ido muito longe da casa quando encontramos cinco ou seis jovens Gy-ei, que estavam retornando [276]dos campos com cestas cheias de flores, e cantando em coro uma canção enquanto caminhavam. Uma jovem Gy canta mais frequentemente do que fala. Elas pararam ao ver-nos, abordando Taë com amabilidade familiar, e a mim com a galantearia cortês que distingue as Gy-ei em suas maneiras dirigidas ao nosso sexo mais frágil.
E aqui eu posso observar que, embora uma virgem Gy seja tão franca em seu cortejo ao indivíduo que ela favorece, não há nada que se aproxime daquela liberalidade e sonoridade gerais de maneira que aquelas jovens senhoras da raça anglo-saxã, para quem o distinto epíteto de ‘rápidas’ é concedido, exibem para os jovens cavalheiros a quem elas não professam amar. Não: a atitude das Gy-ei com respeito aos homens, em ordinário, é muito aquela de homens bem educados nas sociedades galantes do mundo de cima com respeito às senhoras que eles respeitam mas não cortejam; deferente, cortês, primorosamente elegante – o que nós deveríamos chamar de ‘cavalheiresca’.
Certamente eu fui um pouco confundido pelo número de coisas corteses endereçadas ao meu amor-próprio, as quais foram ditas a mim por essas jovens [277]Gy-ei amáveis. No mundo de onde eu venho, um homem teria considerado-se ofendido, tratado com ironia, ‘arreliado’ (se uma palavra de jargão tão vulgar pode ser permitida pela autoridade de novelistas populares que a usam livremente), quando uma bela Gy cumprimentou-me sobre o frescor de minha compleição, outra sobre a escolha das cores de meu robe, uma terceira, com um sorriso malicioso, sobre as conquistas que eu realizara no entretenimento de Aph-Lin. Mas eu sabia que toda essa linguagem era o que os franceses chamavam de banal, e que apenas expressava na boca da mulher, sob a terra, aquele tipo de desejo de se passar por amigável com o sexo oposto, o qual, acima do solo, costume arbitrário e transmissão hereditária demonstravam pela boca do homem. E exatamente como uma jovem senhora de boa educação, acima do solo, habituada a semelhantes cumprimentos, sente que ela não pode, sem impropriedades, retorná-los, nem evidenciar qualquer grande satisfação ao recebê-los; assim eu, quem aprendera maneiras polidas na casa de um tão rico e dignificado ministro daquela nação, podia apenas rir e tentar parecer encantador ao timidamente negar os comprimentos que choviam sobre mim. Enquanto nós estávamos conversando dessa maneira, a irmã de Taë, [278]parece, vira-nos a partir dos aposentos elevados do palácio real na entrada da cidade, e, precipitando-se sobre as asas dela, pousou no meio do grupo.
Escolhendo-me, ela disse, embora ainda com a deferência inimitável de maneira que eu chamei de ‘cavalheiresca,’ contudo não sem uma certa aspereza de tom que, como endereçada ao sexo mais fraco, Sr Philip Sidney poderia ter chamada de ‘rústica,’ “Por que você nunca vem ver-nos?”
Enquanto eu estava deliberando sobre a resposta certa para dar a essa questão não procurada, Taë disse rapida e firmemente, “Irmã, você esqueceu-se – o estrangeiro é de meu sexo. Não é para pessoas de meu sexo, tendo a devida consideração por reputação e modéstia, rebaixar-se correndo à sociedade do seu.”
No geral, essa fala foi recebida com aprovação evidente pelas Gy-ei; mas a irmã de Taë parecia grandemente envergonhada. ‘Pobrezinho! - e uma Princesa também!’
Exatamente neste momento uma sombra caiu no espaço entre mim e o grupo; e virando-me, eu contemplei o magistrado-chefe aproximando-se de [279]nós, com o passo silente e majestoso peculiar aos Vril-ya. À visão de seu semblante, o mesmo terror que me capturara quando primeiramente eu contemplei-o retornou. Naquela testa, naqueles olhos, havia aquele mesmo algo indefinível que marcava o ser de uma raça fatal para a nossa própria – aquela estranha expressão de isenção serena de nossos cuidados e paixões comuns, tão consciente de poder superior, compassiva e inflexível como aquela de um juiz que pronuncia o julgamento. Eu estremeci e, inclinando-me baixo, pressionei o braço de meu amigo-criança, e puxei-o para frente silenciosamente. O Tur colocou-se diante de nosso caminho, considerou-me por um momento, sem falar, então quietamente virou o olhar para a face de sua filha, e, com uma grave saudação a ela e outras Gy-ei, atravessou o meio do grupo, - ainda sem uma palavra.
ORIGINAL:
BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. p.275-279. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/275/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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