A Raça Vindoura - Capítulo XXVI

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[262]Após a recém-registrada conversa com Zee, eu caí em profunda melancolia. O interesse curioso com o qual eu até agora examinara a vida e os hábitos desta comunidade maravilhosa estava no fim. Eu não pude banir da mente a consciência de que estava em meio a pessoas que, por mais que amáveis e corteses, poderiam destruir-me a qualquer momento sem escrúpulo ou remorso. A vida virtuosa e pacífica do povo que, embora nova para mim, parecera um contraste tão sagrado às disputas, às paixões e aos vícios do mundo de cima, agora começava a oprimir-me com uma sensação de estupidez e monotonia. Mesma a serena tranquilidade do ar brilhante atacava meus espíritos. Eu ansiava por uma mudança, até pelo inverno, ou tempestade, ou trevas. Eu comecei a sentir que, quaisquer que fossem nossos sonhos de perfectibilidade, nossas aspirações [263]sem descanso a esferas melhores, mais elevadas, e mais calmas de ser, nós, os mortais do mundo de cima, não somos treinados ou adequados para desfrutar por muito tempo da felicidade mesma com a qual nós sonhamos ou à qual nós aspiramos.

Agora, neste estado social dos Vril-ya, era singular marcar como ele efetuou unir e harmonizar em um único sistema quase todos os objetos que os vários filósofos do muno de cima colocaram diante das esperanças humanas como os ideais de uma Utopia perfeita. Era um estado no qual a guerra, com todas as suas calamidades, era considerada impossível, - um estado no qual a liberdade de todos era assegurada ao mais extremo grau, sem nenhuma daquelas animosidades que fazem a liberdade no mundo de cima depender do conflito perpétuo de partidos hostis. Aqui a corrupção que avilta as democracias era tão desconhecida quanto os descontentes que minam os tronos das monarquias. Igualdade aqui não era um nome; era uma realidade. Ricos não eram perseguidos, porque eles não eram invejados. Aqui aqueles problemas conectados aos labores de uma classe operária, até agora insolúveis acima do solo, [264]e acima do solo conduzindo à semelhante amargura entre classes, foram resolvidos por um processo dos mais simples, - uma classe operária distinta e separada foi inteiramente dispensada. Invenções mecânicas, construídas sobre princípios que confundiram minha pesquisa ao verificar, funcionavam por uma ação infinitamente mais poderosa e infinitamente mais fácil de gerenciar do que qualquer coisa que nós extraímos da eletricidade ou vapor, com o auxílio de crianças cujas forças nunca eram sobrecarregadas, mais que amavam seus empregos como esporte e passatempo, era suficiente para criar uma riqueza pública tão dedicada ao uso geral que nem de um resmungão nunca se ouviu falar. Os vícios que apodrecem nossas cidades aqui não tinham apoio. Entretenimentos abundavam, mas eram todos inocentes. Nenhuma folia conduzida à intoxicação, ao tumulto, à doença. O amor existia, e era ardente na busca, mas seu objeto, uma vez assegurado, era fiel. O adultero, o libertino, a meretriz eram fenômenos tão desconhecidos nessa comunidade, que até para encontrar as palavras pelas quais eles eram designados alguém teria de buscar do começo ao fim em uma literatura obsoleta composta há milhares de anos. Eles quem [265]têm sido estudantes de filosofias teóricas acima do solo, sabem que todos esses estranhos desvios da vida civilizada apenas realizam ideias que têm sido abordadas, sondadas, ridicularizadas e contestadas; algumas vezes parcialmente tentadas, e ainda propostas em livros fantásticos, mas que nunca chegaram a resultados práticos. Nem eram todos esses os passos que essa comunidade dera na direção de perfectibilidade teórica. Tem sido a sóbria crença de Descartes que a vida do homem poderia ser prolongada, não, de fato, nesta terra, à duração eterna, mas ao que ele chamava de idade dos patriarcas, e modestamente definida ser entre 100 e 150 de extensão média. Bem, até esse sonho de sábios seria realizado aqui – não, mais do que realizado; pois o vigor da vida média era preservado mesmo após o termo de um século ter passado. Com essa longevidade combinava-se uma benção maior que ela mesma – aquela da saúde contínua. Doenças tais como as que acometem a raça eram removidas com facilidade por aplicações científicas daquela agência – tanto doadora de vida quanto destruidora – que é herdada no vril. Mesmo essa ideia não é desconhecida acima do solo, embora ela geralmente [266]tenha sido confinada a entusiastas ou charlatões, e emane de noções confusas sobre mesmerismo, força ódica, etc. Passando por invenções triviais tais como asas, a qual qualquer menino em idade escolar sabe ter sido tentada e considerada carecente, a partir do período mítico ou pré-histórico, eu prossigo para aquela questão delicada, urgida de última como essencial à perfeita felicidade de nossa espécie humana por duas das influências mais perturbadoras e potenciais na sociedade de acima do solo, - o Gênero feminino e a Filosofia. Eu quero dizer, os Direitos das Mulheres.

Agora, é concedido por juristas que é inútil falar de direitos onde não há poderes correspondentes para os fazer cumprir; e acima do solo, por alguma razão ou outra, o homem, em sua força física, no uso de armas ofensivas e defensivas, quando chega à positiva competição pessoa, pode, como uma regra de aplicação geral, dominar mulheres. Mas em meio a este povo, não pode haver dúvida quanto aos direitos das mulheres, porque, como eu disse antes, a Gy, fisicamente falando, é maior e mais forte do que o An; e a vontade dela sendo mais resoluta do que a dele, e a vontade sendo essencial para a direção da [267]força vril, ela pode trazer sobre ele, mais potentemente do que ele sobre ela, a ação mística que a arte pode extrair das propriedades ocultas da natureza. Portanto, tudo pelo que nossas filósofas acima do solo lutam como direitos das mulheres, é concedido como uma coisa natural nesta feliz comunidade. Além de tais poderes físicos, as Gy-ei têm (pelo menos na juventude) um desejo intenso por realizações e aprendizagem que excede aquele do homem; e dessa maneira elas são as estudiosas, as professoras – para resumir, a porção instruída da comunidade.

É claro, neste estado de sociedade a mulher estabelece, como eu mostrei, o seu mais valioso privilégio, aquele de escolher e cortejar seu parceiro de casamento. Sem esse privilégio ela desprezaria todos os outros. Agora, acima do solo, nós não deveríamos entender injustificadamente que uma mulher, dessa maneira potente e privilegiada, quando ela justamente caçara-nos e casara-se conosco, seria autoritária e tirânica. Não tanto com as Gy-ei: uma vez casadas, uma vez as asas suspensas, e mais amáveis, complacentes, dóceis companheiras, mais simpáticas, mais mergulhando suas capacidades mais elevadas [268]no estudo dos gostos e caprichos comparativamente frívolos de seus esposos, nenhum poeta poderia conceber em suas visões de felicidade conjugal. Por último, entre as mais importantes características dos Vril-ya, enquanto distintos de nossa humanidade – em último lugar, e mais importante nos comportamentos das vidas deles e na paz de suas comunidades, está o acordo universal na existência de uma misericordiosa Divindade beneficente, e em um mundo futuro para a duração do qual um século ou dois são momentos tão breves para desperdiçar em pensamentos de fama e poder e avareza; ao passo que com esse acordo está combinado outro – a saber, uma vez que eles não podem conhecer nada da natureza dessa Divindade além do fato de Sua suprema bondade, nem dessa vida futura além do fato de sua existência feliz, assim a razão deles condena todas as disputas raivosas sobre questões insolúveis. Assim, eles asseguram para aquele estado nas entranhas da terra o que nenhuma comunidade alguma vez assegurou sob a luz das estrelas – todas as bençãos e consolações de uma religião sem quaisquer dos males e calamidades que são engendrados pelo conflito entre uma religião e outra.

[269]Então, seria completamente impossível negar que a existência em meio aos Vril-ya é, dessa maneira, como um todo, imensamente mais feliz do que aquelas das raças do mundo de cima, e, realizando os sonhos dos mais otimistas filantropos, quase se aproxima da concepção do poeta de alguma ordem angelical. E contudo, se você desejasse tomar mil dos melhores e mais filosóficos seres humanos que você pudesse encontrar em Londres, Páris, Berlim, Nova York, ou até Boston, e colocá-los como cidadãos nesta comunidade beatificada, minha crença é que, em menos de um ano ou eles morreriam de tédio, ou tentariam alguma revolução pela qual eles militariam contra o bem da comunidade, e seriam queimados às cinzas a pedido do Tur.

Certamente eu não tenho nenhum desejo de insinuar, através do meio desta narrativa, qualquer depreciação da raça à qual eu pertenço. Eu tenho, pelo contrário, esforçado-me por tornar claro que os princípios que regulam o sistema social dos Vril-ya proíbem-lhes de produzir aqueles exemplos de grandeza humana que adornam os anais do mundo de cima. Onde [270]não há guerras não podem haver nenhum Aníbal, nenhum Washington, nenhum Jackson, nenhum Sheridan; - onde os estados são tão felizes que eles não temem nenhum perigo e não desejam nenhuma mudança, eles não podem dar à luz a um Demóstenes, um Webster, um Summer, um Wendel, um Holmes, ou um Butler; e onde a sociedade alcança um padrão moral, no qual não há crimes e nem tristezas a partir das quais a tragédia pode extrair seu alimento de piedade e sofrimento, nem vícios ou loucuras sobre as quais a comédia pode esbanjar sua sátira alegre, perdeu-se a chance de produzir um Shakespeare, ou um Molière, ou uma Sra. Beecher Stowe. Mas eu não tenho desejo de denegrir meus companheiros humanos acima do solo ao mostrar quão muito dos motivos que impelem as energias e ambições dos indivíduos em uma sociedade de competição e conflito – tornam-se dormentes ou anulados em uma sociedade que objetiva o agregado de calma e felicidade inocente que nós presumimos ser a sorte de imortais beatificados; nem, por outro lado, tenho eu o desejo de representar as comunidades dos Vril-ya como uma forma ideal de sociedade política, à obtenção da qual os nossos esforços de reforma deveriam ser dirigidos. Pelo [271]contrário, é porque nós assim combinamos ao longo da série das eras, os elementos que compõem o caráter humano, que seria completamente impossível para nós adotar os modos de vida ou reconciliar nossas paixões aos modos de pensamento entre os Vril-ya, - que eu cheguei à convicção de que esse povo – embora originariamente não apenas de nossa raça humana, mas, como me parece claro pelas raízes de linguagem deles, descendentes dos mesmos ancestrais que a grande família ariana, a partir da qual em várias correntes têm fluído a civilização dominante do mundo; e tendo, de acordo com seus mitos e sua história, passado através de fases de sociedades familiares a nós mesmos, agora, contudo, desenvolveram-se em uma espécie distinta com a qual é impossível que quaisquer comunidades do mundo de cima possam amalgamar-se. E que, se eles alguma vez emergissem desses recessos inferiores para a luz do dia, eles destruiriam, de acordo com suas próprias persuasões tradicionais de seu destino último, e substituiriam nossas variedades existentes de homem.

De fato, pode ser dito, uma vez que mais do que Gy poderia ser considerada de conceber uma parcialidade [272]por um tipo tão ordinário de nossa raça do mundo de cima como eu mesmo, que até se os Vril-ya aparecerem acima do solo, nós poderíamos ser salvos do extermínio por mistura entre raças. Mas isso é uma crença muito sanguinária. Instâncias de semelhante aliança ruim seriam tão raros quanto aquelas dos casamentos mistos entre emigrantes anglo-saxões e os índios vermelhos. Nem tempo seria permitido para a operação de relação familiar. Os Vril-ya, ao emergirem, induzidos pelo encanto de um céu iluminado pelo sol a formarem seus povoados acima do solo imediatamente começariam o trabalho de destruição, apoderando-se de territórios já cultivados, e eliminando, sem escrúpulos, todos os habitantes que resistissem àquela invasão. E considerando o desdém deles pelas instituições do Koom-Posh ou governo popular, e o valor combativo de meus amados concidadãos, eu acredito que se os Vril-ya primeiro aparecessem na América livre – como, sendo a mais excelente porção da terra habitada, eles, sem dúvida, seriam induzidos a fazê-lo – e dissessem, “Este quartel do mundo nós tomamos; Cidadãos de um Koom-Posh, abram caminho para o desenvolvimento da espécie dos Vril-ya,” meus bravos compatriotas [273]mostrariam luta, e nem o espírito deles seria deixado nesta vida, para se alinharem em torno de Estrelas e Barras, ao final de uma semana.

Eu agora via bastante pouco de Zee, salvo nas refeições, quando a família estava reunida, e então ela ficava reservada e silente. Minhas apreensões de perigo quanto a uma afeição que eu tinha tão pouco encorajado ou merecido, portanto, agora desapareceram, mas minha tristeza continuava a aumentar. Eu consumia-me por escapar para o mundo de cima, mas em vão eu exauria meu cérebro por quaisquer meios para o fazer. Eu nunca fui permitido a vaguear sozinho, de maneira que eu nem mesmo pude visitar o local no qual eu pousara, e ver se seria possível ascender novamente à mina. Nem mesmo nas Horas Silentes, quando a casa estava encerrada em sono, podia eu descer-me do piso elevado no qual meu apartamento estava localizado. Eu não sabia como comandar os autômatos que zombeteiramente permaneciam à minha disposição ao lado da parede, nem pude eu asserir as molas pelas quais eram postas em movimentos as plataformas que ocupavam o lugar das escadas. O conhecimento de como me utilizar desses aparelhos fora propositadamente me negado. Oh, se eu apenas pudesse ter [274]aprendido o uso das asas, tão livremente aqui ao serviço de qualquer infante, então eu poderia ter escapado do caixilho, voltado a alcançar as rochas, e flutuado alto através do abismo no qual os lados perpendiculares proibiam lugar para suporte humano!


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. p.262-274. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/262/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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