[232]“E essa,” disse eu, com minha mente cheia do que testemunhara – “essa, eu presumo, é sua forma habitual de sepultamento?”
“Nossa forma invariável,” respondeu Aph-Lin. “Como é em meio a seu povo?”
“Nós enterramos o corpo inteiro sob a terra.”
“O quê! Para degradar a forma que você amou e honrou, a esposa sobre o seio da qual você dormiu, à repugnância da corrupção?”
“Mas se a alma vive novamente, pode importar se o corpo consome-se dentro da terra ou é reduzido por aquele impressionante mecanismo, trabalhado, sem dúvida, pela ação do vril, a uma pitada de poeira?”
“Você responde bem,” disse meu anfitrião, “e não há argumento em uma questão de sentimento; mas para mim o seu costume é horrível e repulsivo, e serviria [233]para envolver a morte em associações sombrias e medonhas. Também é alguma coisa para minha mente, ser capaz de preservar o símbolo do que foi nosso parente ou amigo dentro da residência na qual nós vivemos. Dessa maneira nós sentimos mais sensivelmente que ele ainda vive, embora não visivelmente para nós. Mas nossos sentimentos quanto a isso, como em todas as coisas, são criados por costume. O costume não deve ser mudado por uma An sábio, não mais do que é mudado por uma Comunidade sábia, sem a mais grave deliberação, seguida da mais séria convicção. É apenas dessa maneira que a mudança cessa de ser instabilidade e, uma vez feita, é feita para o bem.”
Quando nós voltamos a alcançar a casa, Aph-Lin chamou algumas das crianças a seu serviço e enviou-as em volta para vários de seus amigos, requisitando a presença deles naquele dia, durante o Tempo Ocioso, para um festival em honra da revocação do parente dele pelo Todo-Bom. Essa foi a maior e mais alegre assembleia que eu alguma vez testemunhei durante minha estada em meio aos Ana, e foi bastante prolongada até as Horas Silenciosas.
O banquete foi servido em uma vasta câmara especialmente reservada para grandes ocasiões. Ele [234]diferenciava-se de nossos entretenimentos, e não era sem uma certa semelhança àqueles sobre os quais nós lemos na era luxuosa do império romano. Não havia uma grande mesa posta, mas numerosas mesas pequenas, cada uma apropriada para oito convidados. Considera-se que além desse número a conversa definha e a amizade esfria. Os Ana nunca riem alto, como observei, mas o círculo alegre das vozes deles nas várias mesas indicava alegria de relação. Como eles não tinham bebidas estimulantes, e são moderados na comida, embora tão finos e delicados, o banquete mesmo não demorou muito. As mesas afundaram-se através do piso e, em seguida, vieram os entretenimentos musicais para aqueles que gostavam deles. Muitos, contudo, vaguearam para longe: alguns dos mais jovens acenderam em suas asas, pois o salão era a céu aberto, formando danças aéreas; outros passearam através de vários apartamentos, examinando as curiosidades com as quais eles estavam armazenados, ou formavam entre si grupos para vários jogos, o favorito do qual é um tipo complicado de xadrez jogado por oito pessoas. Eu misturei-me com a multidão, mas impedido de me juntar à conversa deles pela [235]constante companhia de um ou outro dos filhos de meu anfitrião, indicados para me manter longe de questionamentos indiscretos. Os convidados, contudo, notaram-me apenas levemente; eles acostumaram-se com minha aparência, vendo-me tão frequentemente nas ruas, e eu cessara de excitar muita curiosidade.
Para minha grande alegria, Zee evitou-me, e evidentemente buscou excitar meu ciúme por meio de atenções marcadas com um muito belo jovem An, quem (embora, como é o costume modesto dos homens quando abordados por mulheres, ele respondia com olhos baixos e bochechas coradas, e ficou acanhado e tímido como são as moças novas no mundo na maior parte dos países civilizados, exceto Inglaterra e América) evidentemente ficou muito encantado pela alta Gy, e pronto para gaguejar um envergonhado “Sim” se ela efetivamente tivesse proposto casamento. Fervorosamente esperando que ela o fizesse, e mais e mais averso à ideia de redução a uma cinza depois que eu vira a rapidez com a qual um corpo humano pode ser precipitado em uma pitada de poeira, eu entretinha-me observando as maneiras de outros jovens. Eu tive a satisfação de observar que Zee não era a única assertora dos mais valorizados direitos das mulheres. [236]Para onde quer que eu virasse meus olhos, ou emprestasse meus ouvidos, parecia-me que a Gy era o partido cortejador, e o An o recatado e relutante. Os ares muito inocentes com os quais um An dá a sim mesmo para ser assim cortejado, a destreza com a qual ele evita responder diretamente às declarações solenes de afeto, ou transformado em piadas os comprimentos lisonjeiros dirigidos a ele, teriam honrado a mais realizada coquete. Tanto meus acompanhantes masculinos foram grandemente sujeitos a essas influências sedutoras, quanto se absolveram com maravilhosa honra a seu tato e autocontrole.
Eu disse ao filho mais velho, quem preferia empregos mecânicos ao gerenciamento de uma grande propriedade, e quem era de um temperamento eminentemente filosófico, - “Eu considero difícil conceber como, na sua idade e com todos os efeitos intoxicantes sobre os sentidos, da música e luzes e perfumes, você pode ser tão frio com aquela Gy apaixonada que há pouco deixou você com lágrimas nos olhos diante de sua crueldade.”
O jovem An respondeu com um suspiro, “Gentil Tish, a maior desventura na vida é casar com uma Gy se você está apaixonado por outra.”
[237]“Oh! Você está apaixonado por outra?”
“Ai de mim! Sim.”
“E ela não corresponde ao seu amor?”
“Eu não sei. Algumas vezes um olhar, um tom, faz-me esperar que sim; mas ela nunca me contou claramente que ela ama-me.”
“Você suspirou no ouvido dela que a ama.”
“Vergonha! O que você está pensando? De que mundo você vem? Poderia eu trair dessa maneira a dignidade do meu sexo? Poderia eu ser tão impróprio de um An – tão perdido para a desonra, como para confessar amor a uma Gy que primeiro não me confessou o seu?”
“Perdão: eu não estava bem ciente de que você promovia tão longe a modéstia de seu sexo. Mas alguma vez um An diz para uma Gy, ‘Eu amo você,’ antes que ela diga-lhe primeiro?”
“Eu não posso dizer que nenhum An alguma vez fez isso, mas, se alguma vez ele o fez, ele desgraçou-se aos olhos dos Ana, e secretamente foi desprezado pelas Gy-ei. Nenhuma Gy bem-educada ouvi-lo-ia; ela consideraria que ele audaciosamente infringiu os direitos do sexo dela, enquanto ultrajando a modéstia que dignifica o seu próprio. É muito provocante,” [238]continuou o An, “pois ela quem eu amo certamente não cortejou mais ninguém, e não posso senão pensar que ela gosta de mim. Algumas vezes eu suspeito que ela não me corteja porque ela teme que eu pediria algum acordo não razoável como a rendição dos direitos dela. Mas, se assim for, ela não pode realmente me amar, pois, onde uma Gy realmente ama, ela renuncia a todos os direitos.”
“Essa jovem Gy está presente?”
“Oh sim. Ela senta-se acolá, falando com minha mãe.”
Eu olhei na direção para a qual meus olhos dessa maneira foram guiados, e vi uma Gy vestida em robes de vermelho brilhante, o que entre essa gente é um sinal de que uma Gy ainda prefere um estado de solteira. Ela usa cinza, uma cor neutra, para indicar que ela está procurando por um esposo; púrpura escura, se ela deseja insinuar que ela fez uma escolha; púrpura e laranja, quando ela está prometida ou casada; azul-claro, quando ela está divorciada ou é uma viúva e casaria novamente. É claro, azul-claro raramente é visto.
Em meio a gente onde todos eram de um tipo tão elevado de beleza, é difícil destacar alguém como [239]peculiarmente lindo. A escolha de meu jovem amigo parecia-me possuir a média de boa aparência; mas havia uma expressão na face dela que me agradava mais do que geralmente faziam as faces das jovens Gy-ei, porque ela parecia menos audaciosa – menos consciente de seus direitos de mulher. Eu observei que, enquanto ela conversava com Bra, ela relanceava de tempo em tempos, obliquamente, para meu jovem amigo.
“Coragem,” eu disse; “aquela jovem Gy ama você.”
“Sim, mas se ela não disser isso, como eu serei o melhor pelo amor dela?”
“Sua mãe tem consciência de seu afeto?”
“Talvez. Eu nunca confessei isso a ele. Seria impróprio de um An confessar semelhante fraqueza a uma mãe. Eu contei a meu pai; ele pode ter contado novamente a esposa dele.”
“Você permitir-me-á deixar-te por um momento e mover-me suavemente para trás de sua mãe e sua amada? Eu estou certo de que elas estão falando de você. Não hesite. Eu prometo que não me permitirei ser questionado até eu reunir-me com você.”
O jovem An pressionou a mão no peito, tocou-me lentamente a cabeça, e permitiu-me afastar-me de seu lado. Eu movi-me sem ser observado para trás [240]da mãe e da amada dele. Eu ouvi secretamente a conversa delas.
Bra estava falando; ela disse, “Não pode haver dúvida quanto a isso: ou meu filho, que está em idade casável, será seduzido ao casamento por uma de suas muitas pretendentes, ou ele se juntará àqueles quem emigram a uma distância e não mais deveremos vê-lo. Se você realmente se interessa por ele, minha querida Lo, você deveria propor casamento.”
“Eu interesso-me por ele, Bra; mas eu duvido de que realmente poderia ganhar seus carinhos. Ele é afeiçoado às suas invenções e relógios; e eu não sou como Zee, mas tão tediosa que temo que não poderia envolver-me com as atividades favoritas dele. Então ele se cansaria de mim e, ao final de três anos, divorciar-se-ia de mim, e eu não poderia nunca me casar com outro – nunca.”
“Não é necessário conhecer sobre relógios para saber como ser tão necessária à felicidade de um An, quem se importa com relógios de modo que ele antes desistiria dos relógios do que da Gy dele. Veja você, minha cara Lo,” continuou Bra, “que precisamente porque nós somos o sexo mais forte, nós comandamos o outro, dado que nós nunca exibamos nossa força. Se você fosse superior a meu filho na [241]construção de relógios e autômatos, você deveria, como a esposa dele, sempre o deixar supor que você considera-o superior a si mesma naquela arte. O An tacitamente permite a preeminência da Gy em tudo exceto em sua própria especial atividade. Mas, ou se ela ultrapassa-o nisso, ou não se afeta a admirá-lo por sua proficiência nisso, ele não a amará por muito tempo; talvez ele até possa divorciar-se dela. Mas, onde uma Gy realmente ama, ela logo aprende a amar tudo que o An faz.”
A jovem Gy não respondeu a esse discurso. Ela olhou para baixo pensativamente, então, um sorriso arrepiou-se em seus lábios, e ela levantou-se, ainda silente, e caminhou através da multidão até que ela parou perto do jovem An que a amava. Eu segui os passos dela, mas discretamente permaneci a uma pequena distância enquanto eu observava-os. Um pouco para minha surpresa, até que eu lembrei-me das táticas recatadas entre os Ana, o amante parecia receber os avanços dela com um ar de indiferença. Ele até se afastou, mas ela perseguiu seus passos e, pouco tempo depois, ambos desdobraram suas asas e desapareceram em meio ao luminoso espaço acima.
Exatamente então eu fui abordado pelo magistrado-chefe, [242]quem misturava-se com a multidão sem ser distinguido por sinais de deferência ou homenagem. Aconteceu que eu não vira este grande dignatário desde o dia em que eu entrei em seus domínios e, lembrando-me das palavras de Aph-Lin quanto a dúvida dele de se eu deveria ou não ser dissecado, um tremor arrepiou-se sobre mim à visão de sua tranquila fisionomia.
“Eu ouvi muito sobre você, estrangeiro, de meu filho Taë,” disse o Tur, polidamente colocando sua mão sobre minha cabeça curvada. “Ele está muito afeiçoado à sua sociedade, e eu confio que você não esteja descontente com os costumes de nosso povo.”
Eu murmurei alguma resposta ininteligível, a qual eu pretendia ser uma garantia de minha gratidão pela bondade que eu recebera do Tur, e de minha admiração por seus compatriotas, mas a faca de dissecação cintilou diante do olho de minha mente e sufocou minha fala. Uma voz mais suave disse, “O amigo de meu irmão precisa ser caro a mim.” E olhando eu vi uma jovem Gy, quem poderia ter dezesseis anos de idade, de pé ao lado do magistrado e olhando para mim com um semblante muito benigno. Ela não cresceu à sua altura completa, e mal [243]era mais alta do que eu mesmo (a saber, aproximadamente 5 pés e 10 polegadas) e, graças a essa comparativamente diminuta estatura, eu considerei-a a mais adorável Gy que eu vira até agora. Eu suponho que alguma coisa em meus olhos revelou aquela impressão, pois o semblante dela tornou-se ainda mais benigno.
“Taë conta-me,” ela disse, “que você ainda não aprendeu a acostumar-se com as asas. Isso afligi-me, pois eu deveria ter gostado de voar contido.”
“Ai de mim!” Eu respondi, “eu nunca posso ter a esperança de desfrutar dessa felicidade. Eu fui assegurado por Zee de que o uso seguro das asas é um dom hereditário, e requerer-se-iam gerações antes de que um de minha raça pudesse pairar no ar como um pássaro.”
“Não deixe esse pensamento aborrecer-te demais,” respondeu aquela amável princesa, “pois, depois de tudo, deve haver um dia quando Zee e eu mesma precisaremos renunciar às nossas asas para sempre. Talvez, quando esse dia chegar, nós poderíamos ficar felizes se o An que nós escolhermos também não tive asas.”
O Tur deixara-nos, e perdera-se em meio à multidão. Eu comecei a sentir-me à vontade com a charmosa irmã de Taë, e choquei-a um pouco pela [244]ousadia de meu comprimento em resposta “que nenhum An que ela escolhesse jamais usaria as asas dele para voar para longe dela.” É tão contra o costume para um An dizer tais coisas corteses para uma Gy antes que ela tivesse declarado sua paixão por ele, e ter aceito-o como seu prometido, que a jovem donzela permaneceu bem estupefata por uns poucos momentos. Mesmo assim ela não pareceu descontente. Finalmente, recuperando-se, ela convidou-me para uma das salas menos cheias e para ouvir as canções dos pássaros. Eu segui os passos dela conforme ela deslizava diante de mim, e ela conduziu-me a uma câmara quase deserta. Uma fonte de nafta estava brincando no centro da sala; em torno dela estavam alinhados sofás macios, e as paredes da sala de um lado estavam abertas para um aviário no qual os pássaros estavam cantando seu coro habilidoso. A Gy sentou-se em um lado dos sofás, e eu coloquei-me ao lado dela. ‘Taë conta-me,’ ela disse, ‘que Aph-Lin fez uma lei1 da casa dele que você não deve ser [245]questionado quanto ao país de onde veio ou sobre a razão pela qual nos visita. É assim?’”
“É.”
“Eu posso, pelo menos, sem pecar contra essa lei, perguntar se as Gy-ei em seu país são da mesma cor pálida que você, e não mais altas?”
“Eu não acho, Oh linda Gy, que eu infinjo a lei de Aph-Lim, a qual é mais obrigatória para mim do qual para qualquer um, se eu responder a uma questão tão inocente. As Gy-ei em meu país são muito mais claras de cor do que eu sou, e a altura média delas é, pelo menos, uma cabeça mais curta que o minha.”
“Então, elas não podem ser tão fortes quanto os Ana em meio a vocês? Mas eu suponho que a superior força de vril delas compense tal extraordinária desvantagem de tamanho?”
“Elas não praticam a força do vril como você conhece-a. Mas ainda assim elas são muito poderosas em meu [246]país, e um An tem pequena chance de uma vida feliz se ele não for mais ou menos governado por sua Gy.”
“Você fala comovidamente,” disse a irmã de Taë, em um tom de voz meio triste, meio petulante. “Você é casado, é claro?”
“Não – certamente não.”
“Nem noivo?”
“Nem noivo.”
“É possível que nenhuma Gy propuseste casamento a você?”
“Em meu país a Gy não propõe casamento; o An declara-se primeiro.”
“Que estranha inversão das leis da natureza!” disse a donzela, “e que falta de modéstia de seu sexo! Mas você nunca propôs casamento, nunca amou uma Gy mais do que a outra?”
Eu senti-me embaraçado por esses questionamentos engenhosos, e disse, “Perdoe-me, mas eu acho que nós estamos começando a infringir a determinação de Aph-Lin. Dessa maneira, apenas este tanto eu direi em resposta e, em seguida, imploro a você, não pergunte mais. Eu senti a preferência da qual você fala; eu propus casamento, e a Gy teria aceito-me de bom grado, mas os pais dela recusaram sua permissão.”
[247]“Pais! Você seriamente quer me dizer que pais podem interferir com a escolha de suas filhas?”
“De fato eles podem, e fazem-no muito frequentemente.”
“Eu não deveria gostar de viver nesse país,” disse a Gy, simplesmente; “mas eu espero que você nunca retorne para lá.”
Eu curvei minha cabeça em silêncio. A Gy gentilmente ergueu meu rosto com a mão direita, e olhou-me ternamente. “Fique conosco,” ela disse; “fique conosco, e seja amado.”
O que eu poderia ter respondido, que perigos de me tornar uma cinza poderia ter encontrado, ainda tremo de pensar, quando a luz da fonte de nafta foi obscurecida pela sombra de asas; e Zee, voando através do teto aberto, pousou ao nosso lado. Ela não disse nenhuma palavra, mas, tomando meu braço com sua poderosa mão, ela afastou-me, como uma mãe puxa uma criança travessa, e conduziu-me através dos apartamentos para um dos corredores, no qual, através do mecanismo que eles geralmente preferem às escadas, nós ascendemos ao meu próprio quarto. Isso alcançado, Zee respirou em minha testa, tocou meu peito com seu bastão, e [248]instantaneamente eu fui mergulhado em um profundo sono.
Quando eu despertei algumas horas depois, e ouvi a canção dos pássaros no aviário adjacente, a lembrança da irmã de Taë, sua aparência gentil e palavras carinhosas, vividamente retornaram a mim; e tão impossível é para alguém nascido e criado no estado da sociedade de nosso mundo de cima despojar-se das ideias ditadas por vaidade e ambição, que eu instintivamente me encontrei construindo orgulhosos castelos no ar.
“Embora eu seja Tish,” assim corriam minhas meditações – “Embora eu seja Tish, é claro então que Zee não é a única Gy a quem minha aparência pode cativar. Evidentemente, eu sou amado por uma Princesa, a primeira donzela desta terra, a filha do Monarca absoluto cuja autocracia eles tão ociosamente buscam disfarçar com o título republicano de magistrado-chefe. Mas pelo súbito arremate daquela horrível Zee, essa Senhora Real teria formalmente proposto casamento a mim; e embora possa ficar muito bem para Aph-Lin, quem é apenas um ministro subordinado, um mero Comissário da Luz, ameaçar-me com destruição se eu aceitasse [249]a mão de sua filha, contudo, um Soberano, cuja palavra é lei, poderia compelir a comunidade a abolir qualquer costume que proíbe o casamento misto com alguém de uma raça estrangeira, e que é, em si mesmo, uma contradição com sua alardeada igualdade de posições sociais.”
“Não se supõe que sua filha, quem falava com tal desprezo incrédulo da interferência de pais, não teria influência suficiente sobre o Régio Pai dela para me salvar da combustão à qual Aph-Lin condenaria minha forma. E se eu fosse exaltado através de semelhante aliança, quem sabe se e o Monarca não poderia eleger-me como sucessor dele. Por que não? Poucos em meio a essa raça indolente de filósofos gostam do fardo de semelhante grandeza. Todos poderiam ficar satisfeitos de ver o poder supremo alojado nas mãos de um estrangeiro talentoso, quem tem experiência de outras e mais animadas formas de existência; e, uma vez escolhido, que reformas eu instituiria! Que adições à realmente agradável mas muito monótona vida deste reino minha familiaridade com as nações civilizadas de acima do solo efetuariam! Eu sou apreciador de esportes do campo. Próximos da guerra, não é a caça um passatempo [250]de rei?” Em que variedades de jogos estranhos este mundo inferior abunda! Quão interessante abater criaturas que eram conhecidas acima do solo antes do dilúvio! Mas como? Através daquele terrível vril, no qual, devido à falta de transmissão hereditária, eu nunca poderia ser proficiente. Não, mas por uma civilizada retrocarga conveniente, a qual esses engenhosos mecânicos poderiam não apenas construir, mas, sem dúvida, melhorar; não, certamente eu vi uma no Museu. De fato, como rei absoluto, eu deveria completamente desaprovar o vril, exceto em casos de guerra. A propósito de guerra, é perfeitamente absurdo restringir um povo tão inteligente, tão rico, tão bem armado, a um insignificante limite de território suficiente para 10.000 ou 12.000 famílias. Não é essa restrição um mero capricho filosófico, variando com o elemento de aspiração na natureza humana, tal como foi tentado parcialmente, e com completa falha, no mundo superior, pelo recente Sr. Robert Owen. É claro, ninguém iria à guerra com nações vizinhas tão bem armadas quanto os próprios súditos; mas então, e quanto a essas regiões habitadas por raças desconhecedoras do vril, e aparentemente se assemelhando, em suas instituições [251]democráticas, a meus compatriotas americanos? Alguém poderia invadi-los sem ofensas as nações com vril, nossos aliados, apropriar-se dos territórios deles, estendendo-se, talvez, às mais distantes regiões da terra inferior e, desse modo, governando um império no qual o sol nunca se põe. (Eu esquecei, em meu entusiasmo, de que nessas regiões não há sol para se por.) Quanto à fantástica noção contra a concessão de fama ou renome a um indivíduo eminente, porque, verdadeiramente, a outorga de honras assegura a disputa na busca delas, estimula paixões raivosas, e estraga a felicidade da paz – isso está oposto aos elementos mesmos, não somente da humana, mas da bruta criação, da qual são todos, se domáveis, participantes do sentimento de elogio e rivalidade. Que renome seria dado a um rei que dessa maneira estende seu império! Eu deveria ser considerado um semideus.” Pensando nisso, a outra noção fanática de regular esta vida por referência a uma na qual, sem dúvida, nós cristãos firmemente acreditamos, mas nunca levamos em consideração, eu resolvi que filosofia iluminada compelia-me a abolir uma religião pagã tão supersticiosamente variante [252]do pensamento moderno e da ação prática. Meditando sobre esses vários projetos, eu senti quão muito eu teria gostado, naquele momento, de avivar minha inteligência com um bom copo de uísque com água. Não que eu habitualmente seja um bebedor de álcool, mas certamente há situações quando um pequeno estimulante de natureza alcoólica, tomado com um cigarro, anima a imaginação. Sim; certamente em meio a essas ervas e frutas haveria um líquido a partir do qual alguém poderia extrair um agradável álcool vínico; e com um bife cortado de um daqueles alces (ah! Que ofensa à ciência rejeitar a comida animal que nossos principais médicos concordam em recomendar aos sucos gástricos da humanidade!) alguém certamente passaria uma mais estimulante hora de repasto. Então, também, em vez desses dramas antiquados encenados por amadores infantis, certamente, quando eu for rei, eu introduzirei nossa ópera moderna e um copro de balé, para os quais alguém poderia encontrar, entras as nações que eu deverei conquistar, jovens de peso e músculos menos formidáveis do que as Gy-ei – não armadas com vril, e não insistindo com alguém para casar com elas.
[253]Eu fiquei tão extasiado com essas e semelhantes reformas políticas, sociais e morais, calculadas para conceder às pessoas do mundo inferior as bençãos de uma civilização conhecida das raças do superior, que eu não percebi que Zee entrara nos aposentos até que eu ouvi um profundo suspiro e, erguendo os olhos, contemplei-a de pé próxima ao meu sofá.
Eu não preciso dizer que, de acordo com as maneiras desse povo, uma Gy pode, sem indecência, visitar uma An em seus aposentos, embora um An seria considerado impaciente e imodesto ao último grau se ele entrasse nos aposentos de uma Gy sem previamente obter a permissão dela para o fazer. Felizmente, eu estava nos trajes completos que eu usara quando Zee colocou-me no sofá. Mesmo assim, eu senti-me muito irritado, bem como chocado, pela visita dela, e perguntei em tom rude o que ela queria.
“Fale gentilmente, amado, eu suplico-te,” disse ela, “pois eu estou infeliz. Eu não dormi desde que nos separamos.”
“Uma justa sensação de sua vergonhosa conduta com o hóspede de seu pai poderia ser suficiente para banir [254]o sono de suas pálpebras. Onde estava a afeição que você pretende ter por mim, onde estava até a polidez da qual os Vril-ya orgulham-se, quando, tomando vantagem semelhante àquela força física na qual seu sexo, nesta região extraordinária, excede ao nosso próprio, e daqueles poderes detestados e profanos que as agências do vril investem em seus olhos e pontas dos dedos, você expôs-me a humilhação diante de seus visitantes reunidos, diante de Sua Alteza Real – eu quero dizer, a filha de seu próprio magistrado-chefe, e mergulhando-me no sono, sem pedir minha permissão?”
“Ingrato! Você censura-me por evidências de meu amor? Você pensa que, mesmo se não picada pelos ciúmes que frequentam o amor até que ele desaparece em confiança bem-aventurada, quando nós sabemos que o coração que nós cortejamos é conquistado, eu poderia ficar indiferente aos perigos aos quais as propostas audaciosas daquela boba criança pequena poderia expor você?”
“Espera! Uma vez que você introduziu o assunto de perigos, talvez seja apropriado para eu dizer [255]que meus mais eminentes perigos vêm de você mesma, ou, pelos menos, viriam se eu acreditasse em seu amor e aceitasse suas cortes. Seu pai contou-me claramente que, nesse caso, eu deveria ser consumido em uma cinza, como se eu fosse o réptil que Taë explodiu em cinzas com um lampejo da vara dele.”
“Não deixe que o medo esfrie seu coração para mim,” exclamou Zee, caindo de joelhos e absorvendo minha mão direito no espaço de sua ampla palma. “É verdadeiro, de fato, que nós dois não podemos casar como aqueles da mesma raça casam; verdadeiro que o amor entre nós precisa ser puro como aquele que, em nossa crença, existe entre amantes que se reuniram na nova vida além daquela fronteira na qual a velha vida termina. Mas não é felicidade suficiente estarmos juntos, casados em mente e em coração? Ouça: há pouco eu estive com meu pai. Ele consente com nossa união nesses termos. Eu tenho influência suficiente no Colégios dos Sábios para garantir que o pedido deles ao Tur não interfira como a escolha livre de uma Gy, dado que o casamento dela como alguém de outra raça seja apenas casamento de almas. Oh, você pensa que amor [256]verdadeiro necessita de união ignóbil? Não é que eu apenas anseie por estar a seu lado nesta vida, para ser parte e parcela de suas alegrias e sofrimentos aqui: eu aqui peço por um laço que nos unirá para sempre e para sempre no mundo dos imortais. Você rejeita-me?”
Enquanto ela falava, ela ajoelhou-se, e o inteiro temperamento da face dela mudou; nada de severidade deixada em sua grandeza; uma luz divina, como aquela de um imortal, brilhando de sua beleza humana. Mas ela intimidava-me como anjo em vez de me mover como mulher, e, após uma pausa embaraçada, eu gaguejei evasivas expressões de gratidão, e busquei, tão delicadamente quanto eu podia, indicar quão humilhante seria minha posição em meio à raça dela à luz de um esposo ao qual nunca seria permitido o nome de pai.
“Mas,” disse Zee, “esta comunidade não constitui o mundo inteiro. Não; nem todas as populações incluem-se na liga dos Vril-ya. Por tua causa eu renunciarei a meu país e meu povo. Nós voaremos juntos para alguma região onde tu deverás estar seguro. Eu sou forte o suficiente para te carregar em minhas asas através dos [257]desertos que intervierem. Eu sou habilidosa o suficiente para abrir, em meio a rochas, vales nos quais construir nossa casa. Solidão e uma cabana contigo serão para mim sociedade e o universo. Ou tu retornarias a teu próprio mundo, acima da superfície deste, exposto a temporadas incertas, e iluminado apenas pelos orbes mutáveis constituídos por tua descrição das características inconstantes dessas regiões selvagens? Se então, fala a palavra, e eu forçarei o caminho para teu retorno, de modo que eu seja tua companhia lá, embora, lá como aqui, apenas companheira da tua alma, e companheira de viajem para o mundo no qual não há separação ou morte.”
Eu não pude senão ser profundamente afetado pela ternura, de uma vez só tão pura e tão apaixonada, com as quais essas palavras foram proferidas, e em uma voz que teria tornado musicais os mais rudes na mais rude língua. E por um momento ocorreu-me que eu poderia aproveitar-me da agência de Zee para efetuar um retorno seguro veloz ao mundo da superfície. Mas um breve espaço de reflexão foi suficiente para me mostrar quão indigno e baixo um retorno a semelhante devoção [258]seria, para a atrair dessa maneira para longe de seu próprio povo e de uma casa na qual eu tenho sido tão tratado de modo tão hospitaleiro, uma criatura para quem nosso mundo seria tão aberrante, e por quem o estéril, se espiritual amor, eu não poderia reconciliar-me ao renunciar à afeição mais humana de companheiras menos exaltadas acima de meu eu errante. Com esse sentimento de dever para com a Gy combinou-se outro de dever para a raça inteira a qual eu pertenço. Poderia eu aventurar-me a introduzir no mundo da superfície um ser tão formidavelmente dotado – um ser que, com um movimento de seu bastão, poderia, em menos de uma hora, reduzir Nova York e seu glorioso Koom-posh a uma pitada de rapé? Roube-a de um cajado, com a ciência dela ela facilmente poderia construir outro; e com os relâmpagos mortais que armavam o delgado motor sua inteira estrutura estaria carregada. Se, dessa maneira perigosa para cidades e populações do inteiro mundo da superfície, poderia ela ser uma companhia segura para mim no caso da afeição dela devesse ser sujeitada a mudanças ou amargurada por ciúmes? Esses pensamentos, os quais requerem tantas palavras para expressar, passaram rapidamente através de meu cérebro e decidiram minha resposta.
[259]“Zee,” eu disse, no mais suave dos tons que eu pude comandar, e pressionando lábios respeitosos na mão em cujo o aperto a minha desaparecera – “Zee, eu não consigo encontrar palavras para dizer quão profundamente eu estou tocado, e quão altamente eu estou honrado, por um amor tão desinteressado e autossacrificante. Minha melhor retribuição para isso é franqueza perfeita. Cada nação tem seus costumes. Os costumes da sua não permitem que você case comigo; igualmente os costumes da minha são opostos a uma tal união entre aqueles de raças tão vastamente diferentes. Por outro lado, embora não deficiente em coragem entre meu próprio povo, ou em meio aos perigos como os quais eu estou familiarizado, eu não posso, sem o arrepio de horror, pensar em construir uma casa nupcial no coração de algum caos sombrio, com todos os elementos da natureza, fogo e água e gases mefíticos, em guerra uns contra os outros, e com a probabilidade de que, em algum momento, enquanto você estivesse ocupada fendendo rochas ou transmitindo vril a lâmpadas, eu devesse ser devorado por krek que suas operações perturbaram em seu esconderijo. Eu, um mero Tish, não mereço o amor de uma Gy tão brilhante, tão instruída, tão poderosa quanto você mesma. [260]Sim, eu não mereço esse amor, pois eu não posso retribuí-lo.”
Zee soltou minha mão, colocou-se de pé, e virou sua face para esconder suas emoções; em seguida ela deslizou sem fazer barulho através do cômodo e parou à soleira. Subitamente, impelida como que por um novo pensamento, ele retornou ao meu lado e disse, em um tom sussurrado, -
“Você contou que falaria com perfeita franqueza. Então, com perfeita franqueza responda-me esta questão. Se você não pode amar-me, você ama outra?”
“Certamente, eu não.”
“Você não ama a irmã de Taë?”
“Eu nunca a vi antes desta noite.”
“Isso não é resposta. O amor é mais rápido do que o vril. Você hesitou para me dizer. Não pense que são apenas ciúmes que me levam a adivertir-te. Se a filha do Tur devesse declarar amor a você – se, na ignorância dela, ela confidenciar ao pai dela qualquer preferência que pudesse justificar a crença dele de que ela te cortejará – ele não teria outra opção senão requisitar tua destruição imediata, como ele está especialmente encarregado do dever de consultar [261]o bem da comunidade, o qual não poderia permitir que uma filha dos Vril-ya casasse com um filho dos Tish-a, no sentido de casamento que não se confine à união das almas. Ai de mim! Então não haveria saída para ti. Ela não tem força de voo para te sustentar através do ar; ela não tem ciência com a qual construir uma casa em regiões selvagens. Acredite que aqui fala minha amizade, e que meu ciúme está silente.”
Com essas respostas Zee deixou-me. E lembrando-me dessas palavras, eu não pensei mais em conseguir o trono dos Vril-ya, ou nas reformas políticas, sociais e morais que deveria instituir na posição de Soberano Absoluto.
ORIGINAL:
BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. p.232-261. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/232/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1Literalmente “disse, Nesta casa seja solicitado.” Palavras sinônimas de lei, como implicando obrigação forçada, são evitadas por este povo singular. Mesmo se tivesse sido decretado pelo Tur que o seu Colégio de Sábios deveria dissecar-me, o decreto teria continuado suavemente assim – “Seja requerido que, pelo bem da comunidade, o carnívoro Tish seja solicitado de se submeter à dissecação.”
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