[52]Em outro momento, nós estávamos de pé cara a cara, eu e essa coisa frágil do futuro. Ele veio diretamente a mim e riu em meus olhos. A ausência de qualquer sinal de medo de sua atitude atingiu-me imediatamente. Em seguida, ele virou-se para os outros dois que estavam seguindo-o e falou-lhes em um estranho e muito e doce e líquido idioma.
“Havia outros chegando, e logo um pequeno grupo de talvez oito ou dez dessas criaturas esquisitas estava ao redor de mim. Um deles falou comigo. Ocorreu em minha cabeça, estranhamente, que minha voz era muito áspera e profunda para eles. Assim eu balancei a cabeça e, apontando para meus [53]ouvidos, sacudi-a novamente. Ele veio um passo a frente, hesitou, e então tocou minha mão. Então eu senti outros pequenos tentáculos macios em minhas costas e ombros. Eles queriam ter certeza de que eu era real. Em absoluto, não havia nisso nada de alarmante. De fato, havia algo nessas belas pequenas pessoas que me inspirou confiança – uma suavidade graciosa, uma certa tranquilidade infantil. E, além disso, eles pareciam tão frágeis que eu podia imaginar-me arremessando a dúzia inteira deles de um lado para o outro como pinos de skittles. Mas eu fiz um movimento súbito para os advertir, quando eu vi as pequenas mãos rosadas deles tocando a Máquina do Tempo. Felizmente então, quando não era tarde demais, eu pensei em um perigo que eu até agora esquecera e, penetrando através das barras da máquina, desaparafusei as pequenas alavancas que a colocariam em movimento, e coloquei-as no meu bolso. Em seguida, eu virei-me novamente para ver o que poderia fazer quanto ao modo de comunicação.”
“E então, olhando mais de perto [54]para suas características, eu vi mais algumas peculiaridades em seu tipo de encanto de porcelana de Dresden. O cabelo deles, que era uniformemente encaracolado, chegava a uma extremidade aguda próxima ao pescoço e bochecha; não havia a mas fraca sugestão de cabelo na face, e os ouvidos deles eram singularmente minúsculos. As bocas eram pequenas, com lábios vermelhos brilhantes em vez de finos, e os pequenos queixos continuavam até uma ponta. Os olhos eram grandes e suaves; e – isso pode parecer egotismo de minha parte – eu até imaginei que havia ali uma certa falta do interesse que eu poderia esperar neles.”
“Como eles não fizeram nenhum esforço para se comunicar comigo, mas simplesmente permaneceram de pé ao meu redor, sorrindo e falando em suaves notas murmurantes uns para os outros, eu iniciei a conversação. Eu apontei para a Máquina do Tempo e para mim mesmo. Então, hesitando por um momento sobre como expressar o Tempo, eu apontei para o sol. Imediatamente uma figura estranhamente pequena em quadriculado púrpura e branco, seguiu meu gesto, e então me surpreendeu [55]ao imitar o som do trovão.”
“No momento eu cambaleei, embora o significado de seu gesto fosse simples o suficiente. A questão veio a minha mente abruptamente: ‘Essas criaturas eram tolas?’ Você dificilmente pode entender como isso apanhou-me. Veja você, eu sempre antecipara que as pessoas do ano oitocentos mil estariam incrivelmente à frente de nós em conhecimento, arte, tudo. Então um deles, subitamente, me fez uma pergunta que o revelou ser de um nível intelectual de nossas crianças de cinco anos de idade – de fato, perguntou-me se eu cheguei do sol em uma tempestade de trovões! Isso liberou o julgamento eu suspendera sobre as roupas deles, seus membros frágeis, leves, e características frágeis. Um fluxo de decepção correu através de minha mente. Por um momento eu senti que construíra a Máquina do Tempo em vão.”
“Eu acenei com a cabeça, apontei para o sol, [56]e dei-lhes uma interpretação vívida de um trovão enquanto os assustava. Eles todos afastaram-se um passo ou algo assim e curvaram-se. Em seguida, veio um sorrindo na minha direção, portando um colar de lindas flores, completamente novo, para mim, e colocou-o em torno do meu pescoço. A ideia foi recebida com melodioso aplauso; e logo todos eles estavam correndo para lá e para cá em busca de flores, e rindo lançando-as sobre mim até que eu estava quase sufocado com flores. Você, quem nunca viu a aparência, escassamente pode imaginar que flores delicadas e maravilhosas anos sem conta de cultura criaram. Em seguida, alguém sugeriu que o brinquedo deles deveria ser exibido no prédio mais próximo, e assim eu fui conduzido além da esfinge de mármore branco, a qual me parecera observar-me durante todo o tempo com um sorriso, para meu espanto, na direção de um vasto edifício cinzento de pedra talhada. Enquanto eu caminhava com eles, a memória de minhas confiantes antecipações de uma posteridade profundamente [57]séria e intelectual veio, com alegria irresistível, à mente.”
“O prédio tinha uma entrada ampla e era de dimensões completamente colossais. Naturalmente, eu estava mais ocupado com a crescente multidão de pequenas pessoas, e com os grandes portais abertos que se escancaravam diante de mim, sombrios e misteriosos. Minhas impressões gerais do mundo que eu via sobre as cabeças deles era de um desperdício emaranhado de lindos arbustos e flores, de um jardim longo, negligenciado, e, contudo, sem ervas daninhas. Eu vi um número de altos espigões de estranhas flores brancas, medindo talvez um pé, através da extensão das pétalas cerosas. Elas cresciam espalhadas, como se selvagens, em meio a arbustos variados, mas, como eu digo, eu não as examinei de perto desta vez. A Máquina do Tempo foi deixada abandonada sobre a relva em meio aos rododendros.”
“O arco da entrada era ricamente entalhado, mas naturalmente eu não observei a gravura muito rigorosamente, [58]embora imaginei que vi sugestões de velhas decorações fenícias enquanto passava através [delas], e ocorreu-me que elas estavam muito seriamente quebradas e gastas pelo clima. Várias pessoas mais brilhantemente vestidas encontraram-me à entrada, e assim eu entrei, e, vestido em roupas sujas do século XIX, parecendo suficientemente grotesco, engrinaldado com flores, e cercado por uma turbilhonante massa de robes brilhantes de cores suaves e brilhantes membros brancos, e um melodioso turbilhão de riso e fala risonha.”
“A grande entrada abria-se para um salão proporcionalmente grande suspenso com marrom. O teto estava na sombra, e as janelas, parcialmente envidraçadas com vidros coloridos, e parcialmente sem vidro, admitiam uma luz temperada. O piso era formado por imensos blocos de algum metal branco muito pesado, não placas ou lajes – blocos, e estava tão desgastado, como eu julguei, pela caminhada para lá e para cada de gerações passadas, como a estar profundamente sulcado ao longo [59]dos caminhos mais frequentados. Transversas no comprimento estavam inumeráveis mesas feitas de lajes de pedra polida, erguidas, talvez, um pé a partir do piso, e sobre elas ficavam porções de frutas. Algumas eu reconheci como um tipos de framboesas e laranjas hipertrofiadas, mas a maior parte delas era estranha.”
“Entre as mesas estavam espalhados um grande número de almofadas. Nelas meus condutores sentaram-se, sinalizando para que eu fizesse o mesmo. Com bastante ausência de cerimônia eles começaram a comer a frutas com as mãos, jogando casca e talos e assim por diante nas aberturas circulares nos lados das mesas. Eu não estava relutante para seguir o exemplo deles, pois eu sentia sede e fome. Enquanto eu comia, eu analisava o salão no meu descanso.”
“E talvez a coisa que mais me ocorreu foi sua aparência dilapidada. As janelas com vitrais, os quais exibiam somente um padrão geométrico, estavam quebradas em muitos pontos, e as cortinas que pendiam através da [60]extremidade inferior estavam grossas de poeira. E chamou-me a atenção que o canto da mesa de mármore próximo a mim estava quebrado. Não obstante, o efeito geral era extremamente rico e pitoresco. Havia talvez umas duas centenas de pessoas jantando no salão e a maioria delas sentadas tão perto de mim quanto elas podiam chegar, os pequenos olhos delas brilhando sobre as frutas que estavam comendo. Todos estavam vestido no mesmo macio, e contudo forte, material sedoso.”
“Frutas, a propósito, eram toda a dieta deles. Essas pessoas do futuro remoto eram vegetarianas estritas e, enquanto eu estive com elas, a despeito de alguns desejos de carne, eu também tive de ser frugívoro. De fato, depois eu descobri que os cavalos, gado, ovelha, cães, seguiram o ictiossauro à extinção. Mas as frutas eras muito deliciosas; uma em particular, que parecia estar na temporada durante todo o tempo em que eu estive lá, - uma coisa farinhenta em uma casca de três lados, - era especialmente [61]boa, e fiz dela minha principal. Primeiramente eu estive intrigado por todas aquelas frutas estranhas, e pelas estranhas flores que vi, mas depois comecei a perceber a importância delas.”
“Contudo, eu agora estou contando a vocês de meu jantar de frutas no futuro distante. Tão logo meu apetite esteve um pouco satisfeito, eu determinei-me a fazer a tentativa resoluta de aprender a língua desses novos homens. Claramente essa era a próxima coisa a fazer. As frutas pareciam uma coisa conveniente pela qual começar e, segurando uma delas, eu comecei uma série de sons e gestos interrogativos. Eu tive alguma dificuldade para transmitir meu significado. Inicialmente meus esforços encontram um olhar espantado de surpresa ou riso inextinguível, mas logo uma pequena criatura de belos cabelos pareceu entender minha intenção e repetiu um nome. Eles tinham de tagarelar e explicar seus assuntos extensamente uns para os outros, e minhas primeiras tentativas de fazer seus esquisitos pequenos sons [62]da linguagem causaram uma quantidade imensa de genuíno, se descortês, entretenimento. Contudo, eu senti-me como um mestre-escola entre crianças, e persisti, e logo tinha uma vintena de nomes substantivos pelo menos, sobe meu domínio; e então eu cheguei aos pronomes demonstrativos, e até o verbo ‘comer.’ Mas era um trabalho lento, e a pequena gente logo cansava-se e queria afastar-se de minhas interrogações, assim eu determinei, bastante por necessidade, deixá-los dar as lições deles em pequenas lições quando eles sentissem-se inclinados. E muitas pequenas doses eu considerei que elas eram antes que longas, pois eu nunca encontrei pessoas mais indolentes ou mais facilmente fatigadas.”
ORIGINAL:
WELLS, H.G. The Time Machine; An Invention. New York: Henry Holt and Company, 1895. pp.52-62. Disponível em: <https://archive.org/details/timemachineinven00well/page/52/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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