[280]Quando Taë e eu achávamo-nos sozinhos na ampla estrada que se estendia entre a cidade e o abismo através da qual eu descera a esta região abaixo da luz das estrelas e do sol, eu disse suavemente, “Criança e amigo, há uma expressão no rosto de seu pai que me amedronta. Eu sinto como se, em sua terrível tranquilidade, eu olhasse para a morte.”
Taë não respondeu imediatamente. Ele parecia agitado, como se debatendo consigo mesmo por meio de quais palavras suavizar algum conhecimento indesejável. Finalmente ele disse, “Ninguém dos Vril-ya teme a morte: você teme?”
“O pavor da morte está implantado nos corações da raça à qual eu pertenço. Nós podemos conquistá-lo mediante a chamada do dever, da honra, do amor. Nós podemos morrer por uma verdade, por uma terra nativa, por [281]aqueles que são mais caros a nós do que nós mesmos. Mas, se a morte realmente me ameaça aqui e agora, onde estão tais oposições ao instinto natural que envolvem com espanto e terror a contemplação da separação da alma do corpo?”
Taë olhou surpreso, mas havia uma grande ternura na voz dele enquanto ele respondia, “Eu contarei a meu pai o que você disse. Eu lhe implorarei para poupar sua vida.”
“Então, ele já decretou destruí-la?”
“É culpa ou loucura de minha irmã,” disse Taë, com alguma petulância. “Apenas ela falou com ele nesta manhã, e, após ela ter falado, ele convocou-me, como um chefe entre as crianças que estão comissionadas de destruir tais vidas que ameaçam a comunidade, e ele disse-me, ‘Toma teu bastão de vril, e procura o estrangeiro que se tornou caro a ti. Seja o fim dele indolor e rápido.’”
“E,” eu vacilei, recuando da criança – “e é, então, como meu assassino que tu traiçoeiramente convidou-me para fora? Não, eu não posso acreditar. Eu não consigo considerar-te culpado de um tal crime.”
[282]“Não é crime matar aqueles que ameaçam o bem da comunidade; seria um crime matar o menor dos insetos que não podem machucar-nos.”
“Se você quer dizer que eu ameaço o bem da comunidade, porque sua irmã honra-me com o tipo de preferência que uma criança pode sentir por brinquedo estranho, não é necessário matar-me. Deixe-me retornar ao povo que eu deixei, e através do abismo pelo que eu desci. Com uma leve ajuda sua, eu poderia fazê-lo agora. Você, com o auxílio de suas asas, poderia fixar na saliência rochosa no interior do abismo a corda que encontrou e que, sem dúvida, preservou. Faça apenas isso; ajude-me apenas até o ponto no qual eu pousei, e eu desapareço de seu mundo para sempre, tão certamente como se eu estivesse em meio aos mortos!”
“O abismo através do qual você desceu! Olhe em volta; agora nós estamos exatamente no lugar onde ele escancarava-se. O que você vê? Somente rocha sólida. O abismo foi fechado, por ordens de Aph-Lin, tão logo a comunicação entre ele e você foi estabelecida em seu transe, e ele aprendeu a partir de seus próprios lábios a natureza do mundo de onde você veio. Você não se lembra [283]de quando Zee ordenou-me não o questionar quanto a você mesmo ou sua raça? Ao sair naquele dia, Aph-Lin abordou-me, e disse, ‘Nenhum caminho entre a casa do estrangeiro e a nossa deve ser deixado aberto, ou o sofrimento e o mal da casa dele podem descer à nossa. Leva contigo as crianças de teu bando, atinge os lados da caverna com vossos bastões de vril até que a queda de seus fragmentos encha cada fissura através da qual um brilhos de vossas lâmpadas possa forçar seu caminho.’”
Enquanto a criança falava, eu encarava pasmado as rochas sem saída diante de mim. Imensas e irregulares, as massas de granito, reveladas pela descoloração queimada na qual elas foram estilhaçadas, subiam da base ao topo; nenhuma fenda!
“Então, toda a esperança está perdida,” eu murmurei afundando em uma beira de estrada íngreme, “e nunca mais deverei ver o sol.” Eu cobri meu rosto com as mãos, e orei para Ele de quem a presença eu tão frenquentemente esquecera quando os céus tinham declarado Sua criação. Eu senti sua presença nas profundezas da terra inferior, e em meio ao mundo da cova. Eu olhei para cima, tomando conforto e coragem de minhas preces e, olhando com um [284]sorriso quieto para o rosto da criança, disse, “Agora, se tu deves matar-me, ataca.”
Taë sacudiu a cabeça gentilmente. “Não,” ele disse, “a solicitação de meu pai não foi feita tão formalmente quanto a deixar-me sem escolha. Eu falarei com ele, e posso prevalecer em te salvar. Estranho que tu devias ter esse medo da morte que nós pensamos apenas fosse o instinto das criaturas inferiores, a quem a convicção de outra vida não foi concedida. Conosco, nem um infante conhece um tal medo. Conte-me, meu caro Tish,” ele continuou, após uma pequena pausa, “acalmar-te-ia mais partir desta forma de vida para aquela que se estende do outro lado do momento chamado de ‘morte,’ se eu compartilhasse de tua jornada? Se sim, eu perguntarei a meu pai se é permitido para eu ir contigo. Eu sou um da geração destinada a emigrar, quando de idade para isso, para algumas regiões desconhecidas dentro deste mundo. Eu apenas tão cedo emigraria agora para regiões desconhecidas, em outro mundo. O Todo-Bom não está menos lá do que aqui. Onde ele não está?”
“Criança,” disse eu, vendo pelo semblante de Taë [285]que falava com seriedade, “é crime para tu matar-me; não seria menos crime para eu dizer, ‘Mate-se.’ O Todo-Bom escolhe Seu próprio tempo para nos dar vida, e Seu próprio tempo para a tomar. Retornemos. Se, ao conversar com teu pai, ele decidir-se por minha morte, dê-me o mais longo aviso em teu poder, de maneira que eu possa passar o intervalo em autopreparação.”
Nós caminhamos de volta a cidade, conversando aos trancos e barrancos. Nós não podíamos entender os raciocínios um do outro, e eu sentia boa criança, com sua voz suave e lindo rosto, muito como um condenado sente pelo executor que caminha ao lado dele para o lugar da sentença.
ORIGINAL:
BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. p.280-285. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/280/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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