A Máquina do Tempo - Capítulo IX Quando a Noite Chegou

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[134]“Agora, de fato, eu parecia estar em uma situação pior do que antes. Até aqui, exceto durante minha angústia noturna diante da perda da Máquina do Tempo, eu tinha sentido uma esperança sustentadora de fuga derradeira, mas minha esperança ficou atordoada por essas novas descobertas. Até aqui, eu meramente me considerara impedido pela simplicidade infantil do pequeno povo e por algumas forças desconhecidas que eu apenas tinha de entender para superar. Mas havia um elemento completamente novo na qualidade repugnante dos Morlocks, alguma coisa inumana e maligna. Instintivamente eu detestei-os. Antes eu sentira como um homem que caíra dentro de um fosso poderia sentir; minha preocupação era o fosso e [135]como sair dele novamente. Mas agora eu sinto-me como uma fera em uma armadilha, de quem o inimigo logo chegaria.

O inimigo que eu temi pode surpreender vocês. Era a escuridão da lua nova. Weena colocara isso em minha cabeça, primeiramente, por meio de observações incompreensíveis sobre as Noites Escuras. Agora não era um problema tão difícil advinha o que a chegada das Noites Escuras poderia significar. A lua estava no minguante; a cada noite havia um intervalo mais longo de escuridão. E agora eu entendia, em algum grau pelo menos, a razão do medo do escuro da gente pequena do mundo de cima. Eu ponderava vagamente sobre que vilania imunda poderia ser que os Morlocks fizessem sob a escuridão da lua nova.”

Qualquer que seja a origem das condições existentes, eu sentia-me agora bastante seguro de como minha segunda hipótese estava inteiramente errada. Uma vez o povo do mundo superior poderia ter sido a aristocracia favorecida do mundo, e os Morlocks [136]seus servos mecânicos, mas esse estado de coisas há muito se passara desde então. As duas espécies que resultaram da evolução do homem deslizavam na direção de, ou já chegaram a, uma relação completamente nova. Os Eloi, como os reis carlovíngios, decaíram a uma mera futilidade bela. Eles ainda possuíam a terra de maneira mal tolerada, uma vez que os Morlocks, subterrâneos por inúmeras gerações, finalmente chegaram a considerar insuportável a luz do dia na superfície. E os Morlocks produziam o vestuário deles, eu inferi, e mantinham-nos em sua necessidade habitual, talvez através da sobrevivência de algum velho hábito de serviço. Eles faziam isso, como um cavalo de pé dá patadas com seu pé, ou como um homem aprecia matar animais por esporte – porque necessidades antigas e passadas imprimiram isso no organismo. Mas claramente a antiga ordem já estava em parte invertida. A Nêmesis dos delicados estava rastejando rapidamente. Eras atrás, há milhares de [137]gerações, o homem empurrou seu irmão homem para longe do conforto e da luz do sol da vida. E agora, aquele irmão estava retornando – mudado. Já os Eloi começaram a aprender uma antiga lição mais uma vez. Eles estavam tornando-se novamente íntimos do Medo.”

Então subitamente surgiu em minha cabeça a memória da carne que eu vira no mundo de baixo. Pareceu estranho como essa memória planou para dentro de minha mente, não agitada, por assim dizer, pela corrente de minhas meditações, mas chegando quase como uma questão de fora. Eu tentei lembrar a forma dela. Eu tinha uma vaga sensação de alguma coisa familiar, mas naquele momento eu não podia dizer o que era.”

Todavia, por mais que desamparado que o pequeno povo estivesse na presença do Medo misterioso, eu era diferentemente constituído. Eu saí desta nossa época, desse apogeu amadurecido da raça humana, quando o medo não paralisa e o mistério perdeu seus terrores. Pelo menos eu defenderia [138]a mim mesmo. Sem mais atraso, eu determinei-me a construir para mim armas e um refúgio onde eu podia dormir com alguma segurança. A partir daquele refúgio como uma base eu poderia novamente encarar o mundo estranho com alguma confiança, uma confiança que eu perdera, agora que eu compreendera a que criaturas misteriosas eu deitava noturnamente exposto. Eu senti que nunca mais poderia dormir novamente até que minha cama estivesse segura deles. Eu estremeci de horror ao pensar como eles já deviam ter examinado-me durante meu sono.

Eu perambulei, durante a tarde, ao longo do vale do Tamisa, mas nada encontrei que se recomendasse a minha mente como um lugar de repouso suficientemente inacessível. Todas as construções e árvores pareciam facilmente viáveis para semelhantes escaladores habilidosos como os Morlocks – a julgar pelos poços deles – precisam ser. Então os pináculos do Palácio de Porcelana Verde, e o clarão polido das paredes dele, retornaram a minha memória e à tarde, tomando Weena como [139]uma criança sobre meu ombro, eu subi as colinas na direção sudoeste.

Agora, a distância que eu calculara era de sete ou oito milhas, mas deve ter estado mais próxima de dezoito. Primeiro eu vira o Palácio em uma tarde úmida, quando as distâncias estão enganosamente diminuídas. Adicionalmente, o salto de um de meus sapatos estava frouxo, e prego estava atravessando o solado, eles eram velhos sapatos confortáveis que eu uso de um lado para outro dentro de casa, eu estava coxo. O pôr do sol já se passara há muito quanto eu alcancei a visão do Palácio, erguendo-se em silhueta negra contra o amarelo pálido do céu.

Weena ficara imensamente satisfeita quando eu primeiro a carreguei, mas, após um tempo, ela desejou que eu a baixasse e correu junto a mim, ocasionalmente jogando-se de cada lado para colher flores para enfiar nos meus bolsos. Meus bolsos sempre intrigaram Weena, mas finalmente ela concluíra que eles eram um tipo excêntrico de vasos para decoração floral. Pelo [140]menos ela utilizava-os para esse propósito.

E isso lembra-me! Enquanto eu mudava minha jaqueta eu encontrei -----

(O Viajante do Tempo parou, colocou a mão em seu bolso, e silenciosamente colocou duas flores murchas, não diferente de malvas brancas muito grandes, sobre a pequena mesa. Então ele retomou sua narrativa.)

Enquanto o silêncio da noite arrastava-se sobre o mundo e nós prosseguíamos através da crista da colina na direção de Wimbledon, Weena cansou-se e desejou retornar para a casa de pedra cinza. Mas eu mostrei os cumes distantes do Palácio de Porcelana Verde a ela, e inventei de fazer ela entender que nós estávamos procurando naquele lugar um refúgio do Medo dela.

Vocês conhecem aquela grande pausa que afeta as coisas antes do crepúsculo. Mesmo a briza para nas árvores. Para mim há sempre um ar de expectativa sobre essa quietude noturna. O céu estava claro, distante e vazio, [141]senão por umas poucas listas horizontais muito abaixo no pôr do sol.

Aquela noite a expectativa tomou a cor de meus medos. Na calma sombria meus sentidos pareciam sobrenaturalmente aguçados. Eu até imaginei que podia sentir o vazio do solo sob meus pés, de fato, quase podia enxergar através dele, os Morlocks em seu formigueiro indo para lá e para cá e esperando pela escuridão. Nesse estado excitado, eu imaginei que eles tomariam minha invasão de suas tocas como uma declaração de guerra. E por que eles tinham levado minha Máquina do Tempo?”

Assim nós prosseguímos na calma, e o crepúsculo aprofundou-se em noite. O azul-claro da distância desapareceu e uma estrela após a outra surgiu. O chão tornou-se sombrio e as árvores escureceram. Os medos e a fatiga de Weena cresceram sobre ela. Eu tomei-a em meus braços, falei com ela e acariciei-a. Em seguida, enquanto a escuridão aprofundava-se, ela colocou os braços em volta do [142]meu pescoço e, fechando os olhos, firmemente pressionou a face contra meu ombro.

Nós descemos uma longa encosta para um vale, e lá, no escuro, eu quase caí dentro de um pequeno rio. Por esse eu caminhei, e subi para o lado oposto do vale, passadas um número de casas adormecidas, e por uma estátua que me parecia, à luz indistinta, representar um fauno, ou alguma outra figura menos a cabeça. Aqui, também, haviam, acácias. Até agora, eu não vira nada dos Morlocks, mas ainda era cedo da noite, e as horas mais escuras antes que a lua antiga subisse ainda estavam por vir.

A partir da borda da próxima colina eu vi um espesso bosque espalhando-se vasto e negro diante de mim. Diante dele eu hesitei. Eu não podia ver fim para ele quer à direita quer à esquerda. Sentindo-me cansado, - meus pés, em particular, estavam muito doloridos – eu cuidadosamente desci Weena de meu ombro, enquanto eu hesitava, e sentei-me sobre a relva. Eu não mais podia ver o Palácio de Porcelana [143]Verde e fiquei em dúvida quanto à minha direção.

Eu olhei para a densidade do bosque, e pensei no que ele podia esconder. Sob aquele denso emaranhado de galhos alguém ficaria fora da vista das estrelas. Mesmo se não houvesse outro perigo espreitando ali, - um perigo sobre o qual eu não me importava de deixar minha imaginação livre, ainda haveria todas as raízes nas quais tropeçar, e os troncos de árvores contra os quais se chocar. Eu também estava muito cansado, após as agitações do dia e decidi que não o encararia, mas passaria a noite sobre a colina aberta.

Weena, eu fiquei feliz em descobrir, adormeceu rapidamente. Eu cuidadosamente a agasalhei em minha jaqueta e sentei-me ao lado dela para esperar pelo nascer da lua. A encosta na qual eu estava era quieta e deserta, mas, a partir da escuridão do bosque naquele lugar, de vez em quando, vinha um rebuliço de coisas vivas.

Acima de mim brilhavam as estrelas, pois a noite estava clara. Eu senti uma certa [144]sensação de conforto amigável em sua cintilação. Contudo, todas as velhas constelações desapareceram do céu, pois aquele lento movimento que é imperceptível em uma dúzia de vidas humanas, há muito as rearranjara em agrupamentos não familiares. Mas a Via Láctea, ela parecia para mim, ainda era a mesma flâmula esfarrapada de pó de estrela do passado distante. Na direção sul – como eu considerei-o – ficava uma brilhante estrela vermelha que era nova para mim. Ainda era mais esplêndida do que nossa própria Sírios verde. Em meio a todos esses pontos cintilantes de luz, um planeta brilhava gentil e firmemente como o rosto de um amigo antigo.

Olhar para aquelas estrelas subitamente diminui meus próprios problemas e todas as seriedades da vida terrestre. Eu pensei na incomensurável distância delas e na deriva lenta, inevitável, de seus movimentos para fora do passado desconhecido para o futuro desconhecido. Eu pensei no grande ciclo precessional que o polo da terra descreve nos [145]céus. Apenas quarenta vezes aquela silente revolução ocorrera durante todos os anos que eu atravessara. E durante aquelas poucas revoluções, toda a atividade, todas as tradições, as organizações cuidadosamente planejadas, as nações, línguas, literatura, aspirações, até mesmo a mera memória do ser humano que eu conhecia, fora removida da existência. Em vez delas, havia essas criaturas frágeis que esqueceram sua elevada ancestralidade, e os animais brancos dos quais eu corri de medo. Então eu pensei no grande temor que havia entre essas duas espécies, e, pela primeira vez, com um súbito arrepio, veio o conhecimento claro do que a carne que eu vira poderia ser. Todavia, era horrível demais! Eu olhei para a pequena Weena dormindo ao meu lado, a sua face branca e semelhante as estrelas sob as estrelas, e imediatamente repudiei o pensamento de minha mente.

Através daquela longa noite eu mantive a mente longe dos Morlocks tão bem quanto eu pude, e passei o tempo [146]tentando imaginar que eu podia encontrar traços das antigas constelações em meio à nova confusão. O céu manteve-se bastante claro, exceto por uma ou outra nuvem obscura. Sem dúvida eu cochilei às vezes. Então, enquanto minha vigília consumia-se, surgiu um esvaimento no céu oriental como o reflexo de algum fogo sem cor, e a antiga lua surgiu tênue e pálida e branca. E logo atrás, alcançando-a e transbordando-a, veio o alvorecer, primeiro pálido e em seguida tornando-se rosado e quente.

Nenhum Morlock abordara-nos. De fato, eu não vira nenhum sobre a colina aquela noite. E, na confiança do dia renovado, quase parecia para mim que meu medo tinha sido irracional. Eu coloquei-me de pé e descobri meu pé com o salto solto, inchado no tornozelo e doloroso sob o calcanhar. Eu sentei-me novamente, tirei meus sapatos e joguei-os fora.

Eu acordei Weena, e imediatamente nós descemos para dentro do bosque, agora verde e agradável, em vez de escuro [147]e ameaçador. E naquele lugar nós encontramos algumas frutas com as quais tomamos nosso café da manhã. Logo nós encontramos outros dos delicados, rindo e dançando sob a luz do sol, como se não houvesse tal coisa na natureza como a noite.

Então, uma vez mais eu pensei na carne que eu vira. Agora eu senti-me seguro do que era, e, a partir do fundo do meu coração, eu compadeci-me desse último riacho fraco da grande enchente da humanidade. Claramente, em algum lugar nas longas eras da decadência humana, a comida dos Morlocks estava no fim. Possivelmente, eles viveram à base de ratos e vermes semelhantes. Mesmo agora, o homem é bem menos descriminante e exclusivo em sua comida do que ele foi, muito menos do que qualquer macaco. O seu preconceito contra a carne humana não é instinto firmemente estabelecido. E assim, esses filhos inumanos dos homens -----

Eu tentei olhar para o assunto com um espírito científico. Afinal, esses escassamente deviam ser contados como seres humanos; menos humanos eles eram e mais [148]distantes do que nossos canibais ancestrais de três ou quatro mil anos atrás. E as mentes que teriam feito esse tormento de estado foram-se. Por que eu deveria incomodar-me? Os Eloi eram meros bezerros cevados, os quais os Morlocks semelhante a formigas preservavam e predavam, provavelmente vistos para a reprodução. E havia Weena dançando ao meu lado!

Então eu tentei preservar-me do horror que estava afetando-me ao considerá-lo como uma punição rigorosa do egoísmo humano; o homem tem estado contente em viver em conforto e prazer sobre os labores de seus companheiros homens; e tomando a Necessidade como seu lema e desculpa, e na plenitude do tempo a Necessidade alcançou-o profundamente. Eu até tentei um desprezo semelhante ao de Carlyle desses miseráveis aristocratas em declínio.

Mas essa atitude mental era impossível. Por mais que grande fosse sua degradação intelectual, os Eloi mantiveram muito da forma humana [149]para não reivindicarem minha simpatia e, forçosamente, fazerem-me um participante de sua degradação e Medo.

A essa altura eu tinha ideias muito vagas de que curso eu devia perseguir. Minha primeira ideia foi assegurar algum lugar seguro como refúgio para Weena e mim mesmo, e construir para certas armas de metal ou pedra como eu podia inventar. Essa necessidade era imediata. Em segundo lugar, eu esperava obter alguns recursos de fogo, de maneira que eu deveria ter a arma de uma tocha à mão, pois nada, eu sabia, seria mais eficiente contra aqueles Morlocks. Em seguida, eu desejava arranjar algum artifício para arrombar as portas de bronze sob a esfinge branca. Eu tinha em mente um aríete. Eu tinha a crença de que, se eu pudesse entrar por essas portas e levar uma chama de luz diante de mim, eu deveria descobrir minha Máquina do Tempo e escapar. Eu não podia imaginar que os Morlocks fossem poderosos o suficiente para removê-la para longe. Weena eu resolvera [150]trazer comigo para nosso próprio tempo.

Revolvendo semelhantes esquemas na mente, eu busquei nosso caminho em direção à construção que minha imaginação escolhera como nosso lugar de descanso.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Time Machine; An Invention. New York: Henry Holt and Company, 1895. pp.134-150. Disponível em: <https://archive.org/details/timemachineinven00well/page/134/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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