A Máquina do Tempo - Capítulo X O Palácio de Porcelana Verde

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[151]Esse Palácio de Porcelana Verde, quando nos aproximamos dele por volta do meio-dia, estava, eu constatei, deserto e caindo em ruínas. Apenas vestígios de vidro em pedaços permaneciam em suas janelas, e grandes camadas de revestimento verde caíram em locais a partir da estrutura metálica corroída. Ele assenta-se muito alto sobre uma descida coberta de relva, e, olhando para o nordeste antes de entrar nele, eu fui surpreendido ao ver um grande estuário, ou um braço do mar, onde eu julgava que uma vez Wandsworth e Battersea devem ter estado. Então eu pensei – embora eu nunca verificasse o pensamento – no que podia ter acontecido, ou podia acontecer, com as coisas vivas no mar.

[152]O material do Palácio provou-se ao exame ser, de fato, porcelana e, acima da face dele, eu vi uma inscrição em alguns caracteres desconhecidos. Eu pensei, bastante tolamente, que Weena poderia ajudar-me a interpretar isso, mas eu apenas aprendi que a simples ideia da escrita nunca entrara na cabeça dela. Ela sempre me pareceu, eu imagino, mais humana do que ela era, talvez porque a afeição dela fosse tão humana.

Dentro das grandes válvulas da porta – as quais estavam abertas e quebradas – nós encontramos, em vez do salão costumeiro, uma longa galeria iluminada por janelas laterais. Exatamente à primeira olhadela eu fui lembrado de um museu. O chão de ladrilhos estava espesso com poeira, e um notável variedade de objetos diversos estavam envoltos na mesma cobertura cinzenta. Claramente o lugar estivera abandonado por um tempo muito considerável.

Então eu percebi, colocando-se de pé estranho e gigante no centro do salão, [153]o que claramente era a parte inferior do esqueleto de algum imenso animal. Enquanto aproximava-me dele, eu reconheci pelos pés oblíquos que era alguma criatura extinta segundo a forma do megatério. O crânio e os ossos superiores estendiam-se ao lado dele na espessa poeira, e, em um lugar onde água da chuva gotejara através de algum vazamento no teto, o esqueleto decaíra. Mais adiante na galeria ficava o imenso barril do esqueleto de um brontossauro. Minha hipótese de museu estava confirmada. Indo na direção lateral da galeria, eu encontrei o que pareciam ser prateleiras inclinadas, e, limpando a espessa poeira, eu encontrei as velhas caixas de vidro familiares de nosso próprio tempo. Mas essas têm de ter estado hermeticamente fechadas, a julgar pela boa preservação de alguns de seus conteúdos.

Claramente nós estávamos de pé em meio às ruínas de algum South Kensington de alguns dias posteriores. Aqui aparentemente ficava a Seção Paleontológica, e uma diversidade muito esplêndida de fosseis ela deve ter sido; [154]embora o processo inevitável de decadência, o qual fora afastado por um tempo, e perdera, através da extinção de bactérias e fungos, noventa e nove centésimos de sua força, estava mesmo assim, com extrema certeza, se com extrema lentidão, novamente em trabalho sobre todos os seus tesouros. Aqui e ali eu encontrava traços do pequeno povo na forma de raros fosseis quebrados aos pedaços ou enfiados em cordas sobre canas. E as caixas, em algumas instâncias, foram fisicamente removidas – pelos Morlocks, como eu considerei.

O palácio estava muito silencioso. A poeira espessa amortecia nossos passos. Weena, quem estivera rolando um ouriço-do-mar para baixo no vidro inclinado de uma caixa, logo veio, enquanto eu olhava fixamente à minha volta, e muito rapidamente pegou minha mão e permaneceu ao meu lado.

Primeiramente, eu fiquei tão surpreendido por esse monumento antigo de uma era intelectual, que nem considerei as possibilidades que ele apresentava-me. [155]Mesmo a minha preocupação sobre a Máquina do Tempo e os Morlocks regrediu um pouco de minha mente. A curiosidade concernente ao destino humano que me conduzira a minha viajem no tempo foi removida. Agora, julgando a partir do tamanho do lugar, este Palácio de Porcelana Verde tinha muito mais nele do que uma galeria de paleontologia; possivelmente galerias históricas, poderia haver até uma biblioteca. Para mim, pelo menos em minhas circunstâncias presentes, essas seriam vastamente mais interessantes do que esse espetáculo de geologia dos velhos tempos em decadência.

Explorando, eu encontrei outra pequena galeria estendendo-se transversalmente à primeira. Ela parecia ser dedicada a minerais, e a visão de um bloco de enxofre levou minha mente a pensar em pólvora. Mas eu não pude encontrar salitre; de fato, nem nitratos de nenhum tipo. Sem dúvida eles deliquesceram há eras. Todavia, o enxofre pendia em minha mente e estabeleceu uma linha de pensamento. Quanto ao resto dos [156]conteúdos do palácio, embora no todo eles fossem os melhores preservados de todos os que eu vi – eu tive pouco interesse. Eu não sou especialista em mineralogia, e logo eu desci em um corredor muito arruinado correndo paralelo ao primeiro salão que eu entrara.

Aparentemente essa seção fora dedicada a História Natural, mas aqui tudo há muito se desvanecera de reconhecimento. Uns poucos vestígios enrugados do que uma vez foram animais recheados, múmias secas que uma vez sustentaram espíritos, uma poeira marrom de plantas mortas, isso era tudo. Eu estava triste por isso, porque eu deveria ter ficado feliz em traçar as pacientes retificações pelos quais a conquista da natureza animada fora obtida.

A partir disso, nós chegamos a uma galeria de proporções simplesmente colossais, mas singularmente mal iluminada, e com seu piso correndo para baixo a um leve ângulo a partir da extremidade que eu entrei. Em intervalos, pendiam globos brancos a partir do [157]teto naquele lugar, - muitos deles rachados e esmagados, - o que sugeria que originalmente o lugar fora artificialmente iluminado. Aqui eu estava mais em meu elemento, pois encontrei, erguendo-se em cada lado, as grandes massas de grandes máquinas, todas grandemente corroídas, e muitas arruinadas, mas algumas ainda razoavelmente completas em todas as suas partes. Vocês sabem que eu tenho uma certa fraqueza por mecanismos, e eu fiquei inclinado a demorar-me no meio desses, quão mais uma vez que pela maior partes eles tinham o mais interessantes dos quebra-cabeças, e eu podia fazer apenas as mais vagas conjecturas para que eles eram. Eu imaginava que, se pudesse resolver esse quebra-cabeças, eu poderia encontrar-me de posse de poderes que podiam ser de uso contra os Morlocks.

Subitamente Weena chegou bem perto de mim, tão subitamente que ela assustou-me.

Não fosse por ela eu não acho que eu devia ter notado de maneira alguma que o chão da galeria inclinava-se1. [158]A extremidade pela qual eu entrara ficava bastante acima do solo, e era iluminada por raras janelas semelhantes a fendas. Enquanto alguém descia a extensão do lugar, o solo subia contra essas janelas, até que finalmente houvesse uma fenda como a ‘área’ de uma casa em Londres, diante de cada uma, e apenas uma estreita linha de luz do dia no topo. Eu prossegui lentamente, intrigado sobre as máquinas, e ficara atento demais a elas para notar a diminuição gradual da luz, até que a crescente apreensão de Weena atraiu minha atenção.

Então eu vi que a galeria finalmente descia para dentro de uma escuridão espessa. Eu hesitei em prosseguir e então, enquanto olhava à minha volta, vi que a poeira era aqui menos abundante e sua superfície menos uniforme. Mais longe, na direção da sombra, ela parecia estar quebrada por um número de pequenas pegadas estreitas. Diante disso, minha sensação da [159]imediata presença dos Morlocks reviveu-se. Eu senti que estava desperdiçando meu tempo em meu exame acadêmico desse maquinário. Eu trouxe à lembrança que já era muito avançado na tarde, e que eu ainda não tinha nenhuma arma, nenhum refugio e nenhum meio de fazer fogo. E então, debaixo na escuridão afastado da galeria, eu ouvi um tagarelar particular e aqueles mesmos barulhos estranhos que eu ouvira debaixo do poço.

Eu tomei a mão de Weena. Em seguida, atingido por uma ideia súbita, eu deixei-a, e voltei-me para uma máquina a partir da qual se projetava uma alavanca não diferente daquelas em uma caixa de sinalização. Escalando sobre a plataforma da máquina e agarrando essa alavanca em minhas mãos, eu coloquei todo meu peso sobre ela lateralmente. Weena, abandonada no corredor central, subitamente começou a choramingar. Eu julgara a força da alavanca muito corretamente, pois ela rompeu-se após um esforço de minuto, e eu reuni-me com Weena com uma clava em minha mão, mais do que suficiente, [160]eu julgava, para qualquer crânio de Morlock que eu poderia encontrar.

E eu ansiava muito por matar um Morlock ou algo assim. Muito inumano, vocês podem pensar, desejar ir matando os descendentes de alguém, mas de alguma maneira era impossível sentir alguma humanidade nas coisas. Apenas minha aversão de deixar Weena, e uma convicção de que, se eu começasse a saciar minha sede por assassinato, minha Máquina do Tempo podia sofrer, contiveram-me de descer direto na galeria e matar os brutos que eu ouvia ali.

Clava em uma mão e Weena na outra, nós saímos daquela galeria para uma outra ainda maior, a qual, à primeira vista, lembrava-me de uma capela militar suspensa com bandeiras esfarrapadas. Os trapos marrons e carbonizados que pendiam dos lados dela, eu logo reconheci como vestígios decadentes de livros. Há muito eles caíram em pedaços e toda semelhança de impressão deixara-os. Mas, aqui e ali, ficavam mesas empenadas e [161]rachadas, e fechos metálicos que contavam o conto suficientemente bem.

Fosse eu um homem literário eu podia ter moralizado sobre a futilidade de toda ambição, mas como estava, o pensamento que me atingiu com força mais aguda foi o de enorme desperdício de trabalho em vez do de esperança, o qual essa sombria galeria de papel podre testemunhava. À época, eu confessarei, embora isso agora pareça um prazer insignificante, que eu pensei principalmente nas Philosophical Transactions e em meus próprios dezessete artigos sobre óptica física.

Então, subindo uma larga escadaria, nós chegamos ao que uma vez pode ter sido uma galeria de química técnica. E aqui eu não tive nem uma pequena esperança de descobrir alguma coisa para me ajudar. Exceto em uma extremidade onde o teto colapsara, essa galeria estava bem preservada. Eu caminhei avidamente para cada caixa intacta. E finalmente, em uma das caixas realmente hermeticamente fechadas, eu encontrei uma caixa de fósforos. Muito avidamente eu [162]testei-os. Eles estavam perfeitamente bem. Eles não estavam nem mesmo úmidos.

Àquela descoberta eu subitamente me voltei para Weena.Dançe!Eu gritei para ela em sua própria língua. Pois agora, de fato, eu tinha uma arma contra as criaturas horríveis que nós temíamos. E assim, no museu abandonado, sobre a espessa cobertura macia de poeira, para o imenso prazer de Weena, eu solenemente levei a cabo um tipo de dança composta, assobiando ‘The Land of the Leal’ tão alegremente quanto eu podia. Em parte era um cancã modesto, em parte um sapateado, em parte uma dança de saia, - até onde meu casaco de cauda permitia, - e em parte original. Pois naturalmente eu sou inventivo, como vocês sabem.

Agora, eu ainda penso que para essa caixa de fósforo ter escapado o desgaste do tempo por anos imemoriais foi uma coisa estranha e, para mim, mais afortunada. Todavia, estranho o suficiente eu encontrei aqui uma substância muito mais improvável, e que era a cânfora. Eu encontrei em uma jarra selada que, por acaso, eu supus [163]ter estado realmente hermeticamente selada. Primeiramente eu imaginei que a coisa fosse cera de parafina, e esmaguei a jarra de acordo. Mas o odor da cânfora era inconfundível. Atingiu-me como singularmente estranho que, em meio à decadência universal, essa substância volátil teve a chance de sobreviver, talvez através de muitos milhares de anos. Isso lembrou-me de uma pintura sépia que eu vira feita a partir da tinta de um fóssil Belemnita que deve ter perecido e tornou-se fossilizado há milhares de anos. Eu estava prestes a jogar essa cânfora de lado, e então, lembrando que ela era inflável e queimada com uma boa chama brilhante, eu coloquei-a em meu bolso.

Contudo, eu não encontrei explosivos ou quaisquer meios de romper as portas de bronze. Como até agora minha barra de ferro foi a coisa mais esperançosa com a qual eu topara. Mesmo assim, eu deixei aquela galeria grandemente exaltado por minhas descobertas.

[164]Eu não posso contar a vocês toda a história de minha exploração através daquela longa tarde. Isso requereria um grande esforço de memória para me recordar de qualquer maneira na ordem apropriada. Eu lembro-me de uma longa galeria contendo as prateleiras enferrujadas de armas de todas as eras, e que eu hesitei entre meu pé de cabra e uma machadinha ou uma espada. Eu não podia levar ambos, contudo, e minha barra de ferro, afinal, prometia mais contra os portões de bronze. Havia armas de fogo enferrujadas, pistolas e rifles naquele lugar; a maioria deles massas de ferrugem, mas muitos de alumínio, e ainda bastante boas. Mas quaisquer cartuchos ou pólvora que pudesse haver apodrecera em pó. Um canto que eu vi estava carbonizado e estilhaçado; talvez, eu pensei, por uma explosão entre os espécimes daquele lugar. Em outro lugar, havia uma grande variedade de ídolos, polinésios, mexicanos, gregos, fenícios, de cada país da terra, eu devia pensa. E aqui, entregando-me a um impulso irresistível, eu escrevi meu nome sobre o nariz de um [165]monstro esteatite da América do Sul que particularmente capturou minha imaginação.

Conforme a tarde avançava, meu interesse diminuía. Eu atravessei galeria após galeria, empoeiradas, silenciosas, frequentemente em ruínas, as exibições às vezes meros montes e ferrugem, algumas vezes mais frescas. Em um lugar, eu subitamente me encontrei perto de um modelo de uma mina de lata e, em seguida, pelo mais simples acidente, descobri em uma caixa hermeticamente fechada dois cartuchos de dinamite; eu gritei ‘Eureca!’ e esmaguei a caixa alegremente. Então surgiu uma dúvida. Eu hesitei e então, selecionando uma pequena galeria lateral, eu fiz meu teste. Eu nunca senti uma decepção tão amarga como então senti, esperando cinco, dez, quinze minutos pela explosão que nunca vinha. É claro, as coisas eram falsas, como eu poderia ter adivinhado pela presença delas ali. Eu realmente acredito que se elas não fossem assim, eu deveria ter saído apressado dali e, em seguida, explodido esfinge, portas de bronze, e, como se provou, minhas chances de encontrar [166]a Máquina do Tempo todas juntas à não existência.

Foi depois disso, eu penso, que nós chegamos a um pequeno pátio aberto no interior do palácio, coberto de relva e com três árvores frutíferas. Foi naquele lugar que nós descansamos e refrescamo-nos.

Aproximando-se o pôr do sol, eu comecei a considerar nossa posição. A noite agora estava arrastando-se sobre nós e meu esconderijo inaccessível ainda devia ser encontrado. Mas isso preocupava-me muito pouco agora. Eu tinha em minha posse a melhor de todas as defesas contras os Morlocks. Eu tinha fósforos novamente. Eu também tinha cânfora em meu bolso, se uma chama fosse requerida. Pareceu-me que a melhor coisa que nós poderíamos fazer seria passar a noite novamente no aberto, protegidos por um fogo.

Na manhã ali havia a Máquina do Tempo para obter. Para isso, todavia, eu tinha apenas minha clava de ferro. Mas agora, com meu crescente conhecimento, eu sentia-me muito diferentemente com respeito às portas de bronze do que eu sentira [167]até agora. Até agora eu evitara forçá-las, principalmente por causa do mistério do outro lado. Elas nunca impressionaram-me como sendo muito fortes, e eu esperava descobrir minha barra de ferro não inteiramente inadequada para o trabalho.


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ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Time Machine; An Invention. New York: Henry Holt and Company, 1895. pp.151-167. Disponível em: <https://archive.org/details/timemachineinven00well/page/151/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1 É claro, pode ser que o piso não se incline, mas que o museu fosse construído sobre o lado da colina. - Editor.

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