A Máquina do Tempo - Capítulo XI Na Escuridão da Floresta

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[168]Nós emergimos do Palácio de Porcelana Verde enquanto o sol ainda estava parcialmente acima do horizonte. Eu estava determinado a alcançar a esfinge branca cedo na manhã seguinte, e planejava, antes que o crepúsculo chegasse, atravessar os bosques que me pararam na jornada anterior. Meu plano era ir tão longe quanto possível naquela noite, e então, fazendo uma fogueira à nossa volta, dormir sob a proteção de seu brilho intenso. Portanto, enquanto nós prosseguíamos, eu reunia quaisquer pedaços de madeira ou grama seca que eu via, e logo tinha meus braços cheios de semelhante lixo. Assim carregado, nosso progresso foi mais lento do que eu antecipara e, além disso, Weena estava cansada. Eu também começava a sofrer de sonolência, [169]e já era completamente noite quando alcançamos o bosque.”

Agora, sobre a borda de uma colina coberta de arbustos, Weena teria parado, temendo a escuridão diante de nós. Mas uma sensação singular da calamidade iminente, que, de fato, deveria ter servido-me como um aviso, conduziu-me avante. Eu estivera sem sono pela duração de uma noite e dois dias e estava febril e irritável. Eu sentia o sono vir sobre mim, e com ele os Morlocks.”

Enquanto nós hesitávamos, eu vi entre os arbustos, subindo a encosta atrás de nós e sombrias contra o céu, três figuras agachadas. Havia arbustos e longa grama por toda nossa volta, e eu não me senti seguro contra sua aproximação traiçoeira. A floresta, eu calculava, era menos do que uma milha em largura. Se nós pudéssemos atravessá-la, a encosta do outro lado estava nua, e para mim parecia um lugar de descanso de modo geral mais seguro. Eu pensava que com meus fósforos e a cânfora eu podia [170]conseguir manter meu caminho iluminado através dos bosques. Todavia, era evidente que, seu eu fosse agitar fósforos com minhas mão, eu devia ter de abandonar minha lenha. Assim, bastante relutantemente, eu renunciei à ideia.

Então, surgiu em minha mente que maravilharia nossos amigos atrás ao acendê-la. Por fim, eu devia descobrir a loucura atroz desse procedimento, mas exatamente então isso surgiu em minha mente, como um movimento engenhoso para cobrir nossa retirada.”

Eu não sei se vocês alguma vez pensaram, que coisa rara, na ausência do homem e em um clima temperado, as chamas devem ser. O calor do sol raramente é suficientemente forte para queimar mesmo quando focalizado por gotas de orvalho, como às vezes é o caso em distritos mais tropicais. O relâmpago pode explodir e enegrecer, mas ele raramente dá origem a fogo generalizado. A vegetação em decomposição ocasionalmente pode fumegar com o calor de sua fermentação, mas, novamente, isso raramente resulta em chamas. Agora, [171]nesta era decadente, a arte de fazer fogo fora inteiramente esquecida na terra. As línguas vermelhas que estavam lambendo meu montão de madeira acima eram uma coisa completamente nova e estranha da Weena.

Ela queria correr para ele e brincar com ele. Eu acredito que ela teria jogado-se nele se eu não a tivesse contido. Mas eu agarrei-a e, a despeito dos esforços dela, ela mergulhou audaciosamente diante de mim no bosque. Por um curto caminho, o clarão de meu fogo iluminava o caminho. Olhando de volta logo eu pude ver, através dos caules de árvores amontoadas, que, a partir de meu monte de pedaços de madeira, a chama espalhou-se para alguns arbustos adjacentes, e uma linha curva de fogo estava arrastando-se grama acima na colina. Eu ri daquilo.”

Então eu virei na direção das árvores sombrias diante de nós. Estava muito escuro e Weena agarrou-se a mim convulsivamente, mas ali estava quieto, enquanto meus olhos acostumavam-se à escuridão, com luz suficiente para eu evitar tropeçar [172]contra os troncos. Por cima, estava simplesmente escuro, exceto quando aqui e ali um intervalo de distante céu azul brilhava para baixo sobre mim. Eu não acendi nenhum de meus fósforos porque não tinha mão livre. Sobre meu braço esquerdo, eu carregava minha pequenina; em minha mão direita, eu tinha a barra de ferro que arrancara da máquina.”

Por alguma parte do caminho eu não ouvi nada, apenas os galhos estalantes sob meus pés, o fraco sussurro da brisa acima, e minha respiração e o latejo dos vasos sanguíneos em meus ouvidos. Então, eu parecia ouvir uma tagarelice à minha volta.”

Eu perseverei seriamente. A tagarelice tornou-se mais distinta e então eu ouvi os mesmos sons e vozes estanhas que ouvira antes no mundo de baixo. Evidentemente, havia vários Morlocks, e eles estavam cercando de mim.”

Em outro minuto, eu senti um puxão em meu casaco, em seguida, alguma coisa em meu braço. Weena tremeu violentamente e tornou-se muito quieta.

[173]“Era hora para um fósforo. Mas, para o pegar, eu devia descê-la. Assim eu fiz, e imediatamente, enquanto eu apalpava dentro de meu bolso, uma luta começou na escuridão em volta de meus joelhos, perfeitamente silenciosa da parte dela e com os mesmos peculiares sons de arrulho da parte dos Morlocks. Macias pequenas mãos, também estavam arrastando-se sobre meu casado e costas, tocando até meu pescoço.”

O fósforo riscou e crepitou. Eu segurei-o flamejante e imediatamente as costas brancas dos Morlocks tornaram-se visíveis enquanto eles fugiam entre as árvores. Apressadamente, eu peguei uma porção de cânfora de meu bolso e preparei para a ascender tão logo o fósforo minguasse.”

Então eu olhei para Weena. Ela estava deitada, agarrando meus pés e bastante imóvel, com o rosto virado para o chão. Com um súbito sobressalto, eu inclinei-me para ela. Ela escassamente parecia respirar. Eu acendi o bloco de cânfora e joguei-o no chão, e, enquanto ele chiava, chamejava e afastava os Morlocks e as sombras, [174]eu ajoelhava-me e erguia Weena. O bosque atrás parecia cheio de rebuliço e murmúrio de uma grande companhia de criaturas.”

Aparentemente ela desmaiara. Eu coloquei-a cuidadosamente sobre meu ombro e levantei-me para prosseguir, e então surgiu uma compreensão horrível.

Enquanto manobrando com meus fósforos e Weena, eu virara-me para trás aproximadamente várias vezes, e agora eu não tinha a menor ideia de que direção o caminho estendia-se. Por tudo o que eu sabia, eu podia estar encarando de volta na direção do Palácio de Porcelana Verde.

Eu descobri-me em transpiração gélida. Eu tinha de pensar rapidamente no que fazer. Eu determinei a fazer uma fogueira e acampar onde nós estávamos. Eu abaixei a imóvel Weena sobre um tronco coberto de relva. Muito apresadamente, enquanto meu primeiro pedaço de cânfora consumia-se, eu comecei a coletar pedaços de madeira e folhas.

Aqui e ali, a partir das trevas à minha volta, os olhos dos Morlocks brilhavam como carbúnculos.”

[175]“Logo a cânfora chamejou e extinguiu-se. Eu ascendi um fósforo, e, enquanto fazia-o, vi duas formas brancas que estiveram aproximando-se de Weena jogarem-se apressadamente para trás. Um estava tão cego pela luz que ele veio diretamente para mim, e eu senti os ossos dele rangerem sob o golpe do meu punho. Ele deu um grito de desalento, cambaleou por uma curta distância, e caiu.”

Eu acendi outro pedaço de cânfora e prossegui reunindo minha fogueira. Logo eu notei quão seca estava um pouco da folhagem acima de mim, pois desde que eu chegara na Máquina do Tempo, à questão de uma semana, nenhuma chuva caíra. Assim, em vez de procurar entre as árvores por galhos caídos, eu comecei a pular e puxar galhos para baixo. Muito em breve, eu tinha uma asfixiante fogueira esfumaçada de madeira verde e paus secos, e podia poupar meus outros bocados de cânfora.

Em seguida, eu voltei-me para onde Weena deitava-se ao lado de minha clava de ferro. Eu tentei o que pude para a reviver, mas ela deitava-se como [176]alguém morta. Eu não pude nem mesmo reparar se ela respirava ou não.

Agora a fumaça do fogo agitava-se para cima na minha direção, e deve ter deixado-me subitamente pesado. Além disso, o vapor de cânfora estava no ar. Meu fogo não precisaria de reabastecimento por uma hora ou algo assim. Eu sentia-me muito cansado após meu esforço e sentei-me. O bosque também estava cheio de um murmúrio sonolento que eu não entendia.

Eu parecia meramente me distrair e abrir meus olhos. Então tudo ficou escuro à minha volta, e os Morlocks tinham suas mãos sobre mim. Afastando seus dedos pegajosos, eu apressadamente busquei em meu bolso a caixa de fósforo, e – ela desaparecera! Então eles agarraram-me e cercaram-me novamente.

Em um momento, eu sabia o que acontecera. Eu adormecera, e meu fogo extinguira-se, e a amargura da morte veio sobre minha alma. A floresta parecia cheia do cheiro de [177]madeira queimada. Eu fui pego pelo pescoço, pelo cabelo, pelos braços e derrubado. Foi indescritivelmente horrível sentir, nas trevas, todas aquelas criaturas macias amontoadas sobre mim. Eu senti como se estivesse em uma monstruosa teia de aranha. Eu estava dominado. Para baixo eu fui.”

Eu senti alguns dentes pequenos mordendo meu pescoço. Abruptamente, eu rolei e, enquanto o fazia, minha mão deparou-se com minha alavanca de ferro. De alguma maneira isso deu-me força para outro esforço. Eu lutei para erguer-me, livrando-me desses ratos humanos e então, segurando a barra perto, eu empurrei-a onde julgava que os rostos deles podiam estar. Eu podia sentir a suculenta entrega de carne e osso sob meus golpes e, por um momento, eu estava livre.

A estranha exultação que tão frequentemente parece acompanhar a luta veio sobre mim. Eu sabia que tanto eu quanto Weena estávamos perdidos, mas eu determinei-me a fazer os Morlocks pagarem por sua refeição. Eu fiquei de pé com minhas costas para [178]uma árvore, balançando a barra de ferro diante de mim. O bosque inteiro ficou cheio do rebuliço e gritos deles.

Um minuto passou-se. As vozes deles pareciam erguer-se para um tom mais alto de excitação, e os movimentos deles tornaram-se mais rápidos. Contudo, nenhum veio ao meu alcance. Eu permaneci de pé, flagrante na escuridão. Então, subitamente, surgiu esperança.

E se os Morlocks não tivessem coragem?”

E próximo dos calcanhares daqueles surgiu uma coisa estranha. A escuridão parecia tornar-se luminosa. Muito vagamente eu comecei a ver os Morlocks à minha volta, - três, batidos aos meus pés, - e então eu percebi, com surpresa incrédula, que os outros estavam correndo, em uma corrente incessante, como me parecia, por trás de mim e para longe, através da floresta a minha frente. E as costas deles não mais pareciam brancas, mas avermelhadas.

Então, enquanto colocava-me de pé boquiaberto, eu vi, através um intervalo de luz das estrelas entre [179]os galhos; uma pequena centelha vermelha foi-se à deriva e desapareceu. E diante daquilo eu entendi o cheiro de madeira queimada, o murmúrio sonolento que agora estava crescendo em um rugido tempestuoso, o brilho vermelho, e a fuga dos Morlocks.”

Saindo de trás de minha árvore e olhando para trás, eu vi através dos pilares traseiros das árvores mais próximas as chamas da floresta em chamas. Sem dúvida, era minha primeira fogueira vindo atrás de mim. Com isso, eu apressadamente olhei em volta por Weena, mas ela desaparecera. O chiado e a crepitação atrás de mim, o baque explosivo conforme cada árvore fresca explodia em chamas, deixavam pouco tempo para reflexão. Com minha barra de ferro ainda em mão, eu segui no caminho dos Morlocks.

Foi uma corrida acirrada. Uma vez que as chamas arrastavam-se para frente tão rapidamente à minha direita enquanto eu corria, eu fui flanqueado e tive de arrancar para a esquerda. Mas, finalmente, eu emergi em um pequeno espaço aberto, e, enquanto eu assim o fazia, um Morlock [180]veio tropeçando em minha direção e passou-me, indo diretamente para o fogo.

E agora eu devia ver a mais estranha e horrível cena, eu acho, de todas que eu contemplei naquela era futura.”

Este espaço todo estava tão brilhante quanto o dia com o reflexo do fogo. No centro ficava um pequeno monte de terra ou túmulo encimado por um espinheiro queimado. Além dessa colina ficava outro braço da floresta queimada a partir do qual línguas amarelas ainda estavam contorcendo-se e rodeando completamente o espaço com uma cerca de fogo. Sobre a encosta estavam talvez trinta ou quarenta Morlocks, ofuscados pela luz e calor do fogo, o qual agora estava muito brilhante e intenso, errando para lá e para cá um contra o outro em sua desorientação. Inicialmente, eu não compreendi a cegueira deles, e atingi-lhes furiosamente com minha barra em um frenesi de medo enquanto eles aproximavam-se de mim, matando um e [181]aleijando vários outros. Mas, quando eu observara os gestos de um deles tateando sob o espinheiro contra o céu vermelho, e ouvi os gemidos aos quais todos eles deram expressão, eu fiquei certo do absoluto desamparo deles e detive-me de os atingir novamente. Todavia, de vez em quando, um viria diretamente na minha direção soltando um horror trêmulo, de maneira que me fazia rápido para o evitar. Em uma vez, as chamas enfraqueceram-se um pouco, e eu temi que essas criaturas malignas logo seriam capazes de me ver, e eu até estava pensando no começo da luta para matar alguns deles antes que isso devesse acontecer, mas o fogo explodiu nova e brilhantemente e eu detive minha mão. Eu andei em volta da colina em meio a eles e evitando-os, procurando por algum traço de Weena, mas eu não encontrei nada.”

Finalmente, eu sentei sobre o cume do monte de terra e observei essa estanha companhia incrível dos cegos, tateando de um lado para outro e fazendo [182]barulhos estranhos um para o outro, enquanto o clarão do fogo atinge-lhes. O serpenteante fluxo repentino de fumaça fluía através do céu, e, através dos raros farrapos daquela cobertura vermelha, distantes como se elas pertencessem a outro universo, brilhavam as pequenas estrelas. Dois ou três Morlocks vieram tropeçando até mim e eu afastei-os, tremendo eu mesmo enquanto eu fazia-o, com golpes de meus punhos. Pela maior parte da noite eu estive persuadido de que isso foi um pesadelo. Eu mordi-me e gritei em um desejo apaixonado para acordar. Eu bati no chão com minhas mãos, levantei-me, sentei-me novamente, vaguei aqui e ali, e novamente me sentei no cume da colina. Então, eu imediatamente comecei a esfregar meus olhos e recorrer a Deus para me deixar despertar. Três vezes eu vi Morlocks baixarem suas cabeças em um tipo de agonia e arremessarem-se às chamas. Mas finalmente, acima do retrocedente vermelho do fogo, acima das massas fluentes de fumaça negra, [183]do esbranquecimento e escurecimento dos tocos de árvores e da diminuição dessas criaturas sombrias, surgiu a luz branca do dia.”

Novamente eu procurei, através do espaço aberto, por alguns traços de Weena, mas não pude encontrar nenhum. Eu meio que temia descobrir seus restos mutilados, mas claramente eles deixaram seu pobre corpinho na floresta. Eu não posso descrever como me aliviou pensar que ele escapara da sorte terrível à qual parecia destinada. Enquanto pensava nisso, eu quase me movi a começar um massacre das abominações indefesas à minha volta, mas eu contive-me. Esse outeiro, como eu disse, era um tipo de ilha na floresta. A partir de seu cume, eu agora podia decifrar, através de uma névoa de fumaça, o Palácio de Porcelana Verde, e, a partir dele, eu podia conseguir minhas orientações para a esfinge branca. E assim, abandonando as remanescentes dessas almas condenadas indo para cá e para lá e gemendo, enquanto o dia tornava-se mais claro, [184]eu amarrei um pouco de grama em volta de meus pés e manquei através das cinzas fumegantes e entre os troncos negros que ainda pulsavam internamente como fogo, na direção do lugar da Máquina do Tempo.

Eu caminhava lentamente, pois estava exausto assim como manco e senti a mais intensa miséria por contra da horrível morte de Weena, a qual então parecia uma calamidade esmagadora. Contudo, agora mesmo, enquanto eu conto isso a vocês nessa antiga sala familiar, isso parece mais a tristeza de um sonho do que uma perda real. Mas isso deixou-me absolutamente solitário novamente naquela manhã – terrivelmente solitário. Eu comecei a pensar nesta minha casa, nesta lareira, em alguns de vocês, e, com semelhantes pensamentos, surgiu um anseio que era dor.

Enquanto andava sobre as cinzas fumegantes sob o brilhante céu da manhã, eu fiz uma descoberta. No meu bolso da calça ainda havia alguns fósforos soltos. A caixa deve ter vazado antes que fosse perdida!


Próximo capítulo


ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Time Machine; An Invention. New York: Henry Holt and Company, 1895. pp.168-184. Disponível em: <https://archive.org/details/timemachineinven00well/page/168/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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