A Máquina do Tempo - Capítulo XII A Armadilha de Esfinge Branca

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[185]Assim, aproximadamente às oito ou nove da manhã, eu cheguei ao mesmo assento de metal amarelo a partir do qual eu vira o mundo na tarde de minha chegada. Eu pensei em minhas conclusões apressadas naquela noite e não pude evitar de rir amargamente de minha confiança. Aqui estava a mesma bela cena, a mesma bela folhagem, os mesmos palácios esplêndidos e ruínas magníficas, o mesmo rio prateado correndo entre seus bancos férteis. Os robes alegres do belo povo movendo-se para cá e para lá entre as árvores. Alguns estavam banhando-se exatamente no mesmo lugar onde eu salvara Weena, e isso subitamente me deu uma aguda pontada de dor. E, como borrões sobre a paisagem, erguiam-se [186]as cúpulas sobre os caminhos do mundo inferior. Agora eu entendia o que toda a beleza do mundo de cima cobria. Muito agradável era o dia deles, tão agradável quanto o dia do gado no campo. Como o gado eles não conheciam inimigos, e não se abasteciam contra nenhuma necessidade. E o fim deles era o mesmo.

Eu lamentava-me ao pensar quão breve o sonho do intelecto humano tinha sido. Ele cometera suicídio. Ele colocara-se firmemente na direção do conforto e facilidade, uma sociedade balanceada com segurança e estabilidade como seus lemas, ela obtivera suas esperanças – para finalmente chegar a isto. Outrora, vida e propriedade devem ter alcançado segurança quase absoluta. Os ricos tinham ficado assegurados de sua riqueza e conforto, o trabalhador, de sua vida e trabalho. Sem dúvida naquele mundo perfeito não houve nenhum problema de desemprego, nenhuma questão social deixada não resolvida. E uma grande quietude seguira-se.”

É uma lei da natureza que nós negligenciamos, [187]que a versatilidade intelectual é a compensação por mudança, perigo e dificuldade. Um animal perfeitamente em harmonia com seu ambiente é um mecanismo perfeito. A natureza nunca apela à inteligência até que hábito e instinto sejam inúteis. Não há inteligência onde não haja mudança e nenhuma necessidade de mudança. Apenas partilham de inteligência aqueles animais que encontram uma grande variedade de necessidades e perigos.”

Assim, como eu vejo-o, o homem do mundo de cima movera-se lentamente na direção de sua beleza fraca, e o do mundo inferior, para mera indústria mecânica. Mas aquele estado perfeito carecera de uma coisa até da perfeição mecânica – estabilidade absoluta. Aparentemente, conforme o tempo prosseguia, a alimentação do mundo de cima, por mais que fosse efetuada, tornara-se desarticulada. A Mãe Necessidade, quem se afastara por alguns milhares de anos, novamente voltou, e ela começou por baixo. O mundo de baixo, estando em contato com maquinário que, [188]por mais que perfeito, ainda necessitava de algum pouco pensamento fora do hábito, provavelmente retivera, por necessidade, um pouco mais de iniciativa, ser menos de toda outra característica humana, do que o de cima. E, quanto outras carnes faltaram-lhes, eles voltaram-se para aquele velho hábito que, até então, fora proibido. Assim eu digo que vi em minha última visão do mundo de 810,701. Pode ser uma explicação tão ruim quanto uma inteligência mortal pode inventar. É como a coisa moldou-se para mim, e como eu dou-a a vocês.

Após as fadigas, agitações e terrores dos dias passados, e a despeito de meu pesar, este assento, a tranquila visão e quente luz do sol eram muito agradáveis. Eu estava muito cansado e sonolento, e logo minha teorização tornou-se cochilo. Apanhando-me nisso, eu tomei minha própria sugestão e, espalhando-me sobre a relva, tive um longo e refrescante sono.

Eu despertei pouco antes do pôr do sol. Eu agora me sentia seguro contra ser pego dormindo pelos Morlocks e, [189]alongando-me, desci a colina na direção da esfinge branca. Eu tinha meu pé de cabra em uma mão e a outra brincava com os fósforos em meu bolso.”

E agora surgiu uma coisa das mais inesperadas. Enquanto eu aproximava-me do pedestal da esfinge, eu descobri que os painéis de bronze estavam abertos. Eles deslizaram para dentro dos sulcos.

Diante disso, eu parei pouco diante deles, hesitando para entrar.”

No interior de um pequeno apartamento, e sobre um lugar elevado no canto dele, estava a Máquina do Tempo. Eu tinha as pequenas alavancas em meu bolso. Assim, aqui, após todas as minhas preparações elaboradas para o cerco da esfinge branca, foi uma rendição mansa. Eu joguei minha barra de ferro fora, quase triste por não a usar.”

Um súbito pensamento surgiu em minha cabeça enquanto eu curvava-me na direção do portal. Pois uma vez, pelo menos, eu compreendi as operações mentais dos Morlocks. Suprimindo uma forte inclinação para rir, [190]eu caminhei através da estrutura de bronze e até a Máquina do Tempo. Eu fiquei surpreso de descobrir que ela tinha sido cuidadosamente lubrificada e limpa. Eu suspeitara disso, uma vez que os Morlocks até parcialmente a desmontaram enquanto tentando, em suas maneiras obscuras, compreender o propósito dela.

Agora, enquanto eu permanecia de pé e examinava-a, encontrando um prazer no mero toque do aparelho, a coisa que eu esperava aconteceu. Os painéis de bronze subitamente deslizaram para cima e bateram na estrutura com um estrondo. Eu estava no escuro – encurralado. Assim os Morlocks pensavam. Diante disso, eu ri triunfantemente.

Eu já podia ouvir o riso murmurante deles enquanto eles vinham na minha direção. Muito calmamente, eu tentei riscar o fósforo. Eu apenas tinha de consertar uma das alavancas e então partir como uma fantasma. Mas eu negligenciara uma pequena coisa. Os fósforos eram daquele tipo abominável que apenas se acendiam com a caixa.”

[191]“Vocês bem podem imaginar como toda minha calma desapareceu. Os pequenos brutos estavam sobre mim. Um tocou-me. Eu desferi um golpe violento no escuro contra eles, com a alavanca, e comecei a subir no assento da Máquina. Então, surgiu uma mão sobre mim e em seguida outra.”

Então, eu simplesmente tive de lutar por minhas alavancas contra os persistentes dedos deles e, ao mesmo tempo, sentir pelos botões sobre os quais elas encaixavam-se. De fato, uma eles quase tiraram de mim. Enquanto ela escorregava da minha mão. Ei tive que dar cabeças no escuro – eu podia ouvir o crânio do Morlock badalar – para a recuperar. Foi uma coisa mais próxima do que a luta na floresta, eu penso, esta última contenda.

Mas, finalmente, a alavanca foi fixada e puxada. As mãos pegajosas deslizaram de mim. A escuridão logo caiu de meus olhos. Eu encontrei-me na mesma luz cinzenta e no tumulto que já descrevi.


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ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Time Machine; An Invention. New York: Henry Holt and Company, 1895. pp.185-191. Disponível em: <https://archive.org/details/timemachineinven00well/page/185/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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