A Máquina do Tempo - Capítulo XIII A Visão Ulterior

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[192]Eu já contei a vocês da doença e confusão que surgem com a viajem no tempo. E desta vez eu não estava sentado corretamente no selim, mas de lado e de uma maneira instável. Por um tempo indefinido eu agarrei-me à máquina enquanto ela balançava e vibrava, bastante desatento de como eu prosseguia e, quando eu trouxe a mim mesmo para considerar novamente os mostradores, eu fiquei maravilhado de descobrir onde eu chegara. Um mostrador registrava os dias; outro, milhares de dias; outro, milhões de dias, e outro, milhares de milhões. Agora, em vez de reverter as alavancas, eu puxei-as para cima de maneira a avançar com elas e, quando vim a examinar aqueles mostradores, eu descobri que o [193]ponteiro dos milhares estava girando tão rápido como o ponteiro dos segundos de um relógio, à futuridade.”

Muito cautelosamente, pois eu lembrava de minha antiga queda de cabeça para baixo, eu comecei a reverter o movimento. Mais e mais lentos ficavam os ponteiros circulantes, até que aquele dos milhares parecia imóvel e o diário não era mais uma névoa em sua escala. Ainda mais lento, até que a neblina cinzenta à minha volta tornou-se mais distinta, e contornos obscuros de uma pequena colina e um mar tornaram-se visíveis.

Mas, conforme meu movimento tornava-se mais lento, eu não descobri nenhuma mudança piscante de dia e noite. Um crepúsculo firme cismava sobre a terra. E a faixa de luz que indicara o sol tornou-se mais fraca e de fato, eu agora notava, desaparecera na invisibilidade no leste e, no oeste, estava crescentemente mais ampla e mais vermelha. O circular das estrelas tornando-se mais e mais lento dera lugar a rastejantes pontos de luz. [194]Finalmente, algum tempo antes de eu parar, o sol, vermelho e muito grande, parou imóvel sobre o horizonte, uma cúpula vasta brilhando com um calor aborrecido. O trabalho do arrasto da maré foi realizado. A terra veio a descansar com uma face para o sol assim como, em nosso tempo, a lua encara a terra.”

Eu parei muito gentilmente e sentei sobre a Máquina do Tempo, olhando à minha volta.”

O céu não era mais azul. Na direção nordeste, ele estava preto como tinta e, para fora da escuridão, brilhavam intensa e firmemente as pálidas estrelas brancas. Por cima da cabeça ficava um profundo vermelho indiano, sem estrelas, e, na direção sul, ele tornava-se mais brilhante para onde, cortado pelo horizonte, estendia-se a casca imóvel do imenso sol vermelho.”

As rochas à minha volta eram de uma desagradável cor avermelhada, e todos os traços de vida que eu inicialmente pude ver eram da vegetação intensamente verde, a qual cobria cada ponto protuberante em seu lado sudestino. Era o mesmo [195]verde rico que alguém vê no musgo da floresta ou no líquen nas cavernas, plantas que, como essas, crescem em crepúsculo perpétuo.

A Máquina estava sobre uma praia inclinada. O mar estendia-se longe na direção sudoeste para se erguer em um penetrante horizonte brilhante contra o céu pálido. Não havia nem ondas grandes nem pequenas, pois nem a brisa do mar estava agitando-se. Apenas uma vaga levemente oleosa subia e caía como uma respiração gentil, e mostrava que o mar eterno ainda estava movente e vivente. E, ao longo da margem onde água às vezes quebra, ficava uma espessa incrustação de sal – rosa, sob o céu lúgubre.”

Havia uma sensação de opressão em minha cabeça, e eu notei que estava respirando muito rápido. As sensações lembravam-me de minha única experiência em montanhismo e, a partir disso, eu julguei que o ar estava mais rarefeito do que agora está.

Muito longe, na encosta desolada, eu [196]ouvi um grito desagradável e vi uma coisa como uma imensa borboleta branca subir, inclinando-se e esvoaçante, ao céu e, em círculos, desaparecer sobre algumas colinas acolá.”

O som de sua voz era tão sombrio que eu tremi e sentei-me mais firmemente sobre a Máquina.

Olhando à minha volta eu vi que, bem perto de mim, o que eu entendera ser uma massa avermelhada de rocha, agora estava movendo-se lentamente em minha direção. Então eu vi que a coisa era realmente uma criatura monstruosa semelhante a um caranguejo. Vocês podem imaginar uma caranguejo tão grande quanto aquela mesa acolá, com suas numerosas pernas movendo-se lenta e incertamente, suas grandes garras balançando, suas longas antenas como chicotes de carreteiros, acenando e sentido, e seus olhos perseguidores brilhando para você em cada lado de sua fronte metálica? Suas costas eram enrugadas e ornamentadas com saliências desajeitadas, e uma incrustação esverdeada manchava aqui e ali. Eu podia ver os numerosos palpos de sua [197]complicada boca oscilando e sentindo enquanto ele aproximava-se.

Enquanto encarava essa aparição sombria arrastando-se em minha direção, eu senti cócegas em minhas bochechas como se uma mosca pousara ali.

Eu tentava removê-la com minha mão, mas, em um momento, ela retornava e, quase imediatamente, outra chegava próximo do meu ouvido. Eu lutava contra isso e agarrei alguma coisa filiforme. Ela foi tirada rapidamente de minha mão. Com uma terrível vertigem, eu virei-me e vi que tinha agarrado as antenas de outro caranguejo monstruoso que estava imediatamente atrás de mim. Seus olhos malignos estavam contorcendo-se em seus talos, sua boca estava completamente viva com apetite, e suas vastas garras desajeitadas, besuntadas com lodo verde, estavam descendo sobre mim.

Em um momento, minha mão estava sobre a alavanca da Máquina do Tempo, e eu colocara um mês entre mim mesmo e esses monstros. Mas eu descobri que ainda estava na mesma praia e via-os [198]distintamente assim que eu parei. Dúzias deles pareciam rastejar aqui e ali sob a luz sombria luz em meio a camadas cobertas de folhas de verde intenso.

Eu não posso transmitir a sensação de desolação abominável que pendia sobre o mundo. O céu oriental vermelho, a escuridão ao norte, o salgado Mar Morto, a praia pedregosa cheia de malignos monstros de lentos movimentos, as plantas uniformes, verdes de aparência venenosa, e cobertas de líquen, o ar fino que fere os pulmões de alguém; tudo contribuía para o efeito apavorante.

Eu continuei por mais cem anos, e havia o mesmo sol vermelho, o mesmo mar moribundo, o mesmo ar gélido, a mesma multidão de crustáceos terrenos arrastando-se para dentro e para fora em meio às ervas daninhas verdes e às rochas vermelhas.”

Assim eu viajei, parando sempre e novamente, em grandes marchas de mil anos ou mais, atraído pelo mistério do destino da terra, registrando com uma estranha fascinação como o sol estava [199]tornando-se maior e mais aborrecido no céu ocidental, e a vida da velha terra, decaindo. Finalmente, mais de trinta milhões de anos daqui, a imensa cúpula quente e vermelha do sol chegou a obscurecer quase uma sexta parte dos céus sombrios. Nessa altura foi que eu parei, pois a rastejante multidão de caranguejos desaparecera, e a praia vermelha, salvo por seus lívidos hepáticas e líquens verdes, novamente parecia sem vida.

Tão logo eu parei, um frio implacável assaltou-me. O ar sentia intensamente frio, e raros flocos brancos sempre e novamente desciam em redemoinho. Para a direção nordeste, o brilho da neve estendia-se sob a luz das estrelas no céu negro e eu podia ver uma crista ondulada de rosadas colinas brancas. Havia franjas de gelo ao longo da margem do mar, massas à deriva mais longe, mas a expansão principal daquele oceano salgado, todo sangrento só o eterno pôr do sol, ainda estava descongelado.”

Eu olhei ao meu redor para ver se [200]restavam quaisquer traços de animais. Uma certa apreensão indefinível ainda me mantinha no selim da Máquina. Eu não vi nada se movendo em terra, céu ou mar. O lodo verde sobre as rochas testemunhava sozinho que a vida não estava extinta. Um banco de areia raso aparecera no mar e água recedera da praia. Eu imaginei que vi algum objeto negro virando-se de um lado para o outro sobre esse banco, mas ele tornou-se sem movimento enquanto eu olhava para ele, e eu julguei que meu olho fora enganado e que o objeto era meramente uma rocha. As estrelas no céu estavam intensamente brilhantes e pareciam-me cintilar muito pouco.”

Subitamente eu notei que o contorno circular, na direção ocidental, do sol mudara, que uma concavidade, uma baía, aparecera na curva. Eu vi que ela crescia. Por um minuto, talvez, eu encarei horrorizado essa escuridão que estava arrastando-se sobre o dia, e então eu compreendi que um eclipse estava começando. Sem dúvida, agora que a lua [201]estava arrastando-se ainda mais próximo da terra, e a terra do sol, eclipses eram uma ocorrência frequente.

A escuridão acelerou-se, um vento gélido começou a soprar em rajadas refrescantes a partir do oriente, e então os flocos brancos estavam caindo do ar aumentado. A maré estava arrastando-se com uma ondulação e um sussurro. Além desses sons sem vida o mundo estava silencioso – silencioso! Seria difícil transmitir para vocês a quietude disso. Todos os sons do homem, o balido de ovelha, os gritos dos pássaros, o zumbido de insetos, o rebuliço que forma o pano de fundo de nossas vias, acabou. Enquanto a escuridão aumentava, os flocos em redemoinho tornavam-se mais abundantes, dançando diante de meus olhos; e o frio do ar, mais intenso. Finalmente, rapidamente, um após o outro, os picos brancos das colinas distantes desapareceram na escuridão. A briza cresceu em um vento gemente. Eu vi a escura sombra central do eclipse deslizando em direção a mim. Em [202]outro momento, apenas as estrelas pálidas eram visíveis. Tudo o mais era uma obscuridade sem raios. O céu ficou absolutamente negro.

Um temor dessa grande escuridão surgiu sobre mim. O frio que atingiu minha essência, e a dor que eu sentia, venceram-me. Eu tremi e uma náusea mortal capturou-me. Então, como um arco vermelho quente no céu, apareceu a borda do sol.

Eu sai da Máquina para me recuperar. Eu sentia-me tonto e incapaz de encarar a jornada de retorno. Enquanto eu erguia-me doente e confuso, eu vi novamente a coisa movente sobre o banco de areia – agora não havia engano de que era uma coisa movente – contra a água vermelha do mar. Era uma coisa redonda, do tamanho de uma bola de futebol, talvez, ou maior; ela parecia preta contra a tumultuosa água vermelho-sangue, e estava saltitando irregularmente de um lado para o outro. Então eu senti que estava desmaiando. Um pavor terrível de jazer indefeso naquele crepúsculo remoto sustentou-me enquanto eu subia no selim.

[203]“Assim eu cheguei em casa. Por um longo tempo, eu devo ter ficado insensível sobre a Máquina. A sucessão piscante dos dias e das noites foi retomada e o sol tornou-se dourado novamente, e o céu, azul. Eu respirava com uma maior liberdade. Os contornos flutuantes da terra recediam e fluíam. Os ponteiros giravam para trás sobre os mostradores. Finalmente, novamente eu vi as sombras escuras de casas, as evidências da humanidade decadente. Essas, também, mudadas e passadas, e outras surgidas. Logo, quando o mostrador dos milhões estava no zero, eu abrandei a velocidade e comecei a reconhecer nossa própria arquitetura bela e familiar. O ponteiro dos milhares retrocedeu ao ponto de início, a noite e o dia agitavam-se mais e mais lentamente. Então, as velhas paredes do laboratório surgiram à minha volta. Muito gentilmente eu diminuí o ritmo do mecanismo.”

Eu vi uma pequena coisa que parecia estranha para mim. Eu acho que contei a vocês [204]que, quanto eu parti, antes que minha velocidade viesse a ser muito alta, a Sra. Watchett caminhara através da sala, viajando, como me parecia, como um foguete. Enquanto retornava, eu passei novamente por aquele minuto quando ela atravessava o laboratório. Mas agora, cada movimento parecia-me a inversão exata de um movimento anterior dela. A porta na extremidade inferior abriu-se e ela deslizou quietamente laboratório acima, de volta à frente, e desapareceu atrás da porta pela qual ela anteriormente entrara.

Então eu parei a Máquina, e novamente vi à minha volta o velho laboratório familiar, minhas ferramentas, meus utensílios, exatamente como eu deixara-os. Eu desci da coisa muito trêmulo e sentei-me sobre meu banco. Por vários minutos eu tremi violentamente. Em seguida eu fiquei mais calmo. À minha volta estava novamente minha velha oficina, exatamente como ela estivera. Eu podia ter dormido lá e a coisa toda tinha sido um sonho.

E contudo, não exatamente. A coisa [205]começara a partir do canto sudeste do laboratório. Ela veio a descansar no noroeste, contra a parede, onde vocês encontra-la-ão. Isso dá-lhes a distância exata de meu pequeno relvado ao pedestal da esfinge branca.

Por um tempo meu cérebro tornou-se estagnado. Logo eu levantei-me e passei pela passagem aqui, mancando, porque meu calcanhar ainda estava dolorido, e sentindo-me extremamente sujo. Eu vi o Pall Mall Gazette na mesa perto à porta. Eu descobri que a data era de fato hoje, e olhando para o relógio, vi que a hora era quase oito. Eu ouvi suas vozes e o barulho de pratos. Eu hesitei – eu sentia-me tão doente e fraco. Então, eu senti o cheiro de boa carne saudável, e abri aporta. Vocês conhecem o resto. Eu banhei-me e jantei, e agora eu estou contando a vocês a história.

Eu sei,” ele disse após um tempo, “que tudo isso parecerá absolutamente [206]incrível para vocês, mas para mim a única coisa incrível é que eu estou aqui, nesta noite, nesta antiga sala familiar, olhando em seus rostos saudáveis, e contando a vocês todas aquelas estranhas aventuras.”

Ele olhou para o Médico.

Não; eu não posso esperar que vocês acreditem nisso. Tomem isso como uma mentira, ou uma profecia. Digam que eu sonhei-a na oficina. Considerem que eu estivesse especulando sobre os destinos de nossa raça, até que eu imaginei essa ficção. Tratem minha declaração da verdade dela como um mero golpe de arte para realçar seu interesse. E, tomando-a como uma história, o que vocês pensam dela?

Ele tomou seu cachimbo e começou, em sua antiga maneira costumeira, a tocar nas barras da grelha.”


Próximo capítulo


ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Time Machine; An Invention. New York: Henry Holt and Company, 1895. pp.192-206. Disponível em: <https://archive.org/details/timemachineinven00well/page/192/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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